
Diz a lenda que Thurston Moore caminhava pela calçada de alguma avenida em Manhattan quando passou em frente a uma loja de discos. Das caixas de som colocadas do lado de fora saíam os acordes de Neil Young e sua "Hey Hey My My". O jovem e futuro guitarrista do Sonic Youth adentrou a loja e levou o seu exemplar de Rust Never Sleeps, disco de Young, de 1979, que trazia esta homenagem ao punk, na figura dos Sex Pistols, além de simbolizar o retorno do velho canadense ao rockão mais barulhento, depois das conversas country agridoces do disco anterior, Comes A Time, de 1978.
Moore pegou seu disco e correu pra casa. Ouviu a canção repetidas vezes, decorou os poucos acordes, tirou a música em sua guitarra, cantou para a namorada (uma certa Kim Gordon), mostrou pro amigo Lee Ranaldo e para o compositor de pós-punk nova-iorquino, Glenn Branca. Ranaldo, Moore e Kim resolveram formar o Sonic Youth em 1981, subvertendo os conceitos do próprio pós-punk, do próprio punk, do próprio rock através, inicial e basicamente, do barulho. Barulho para as massas. Mas um barulho no bom sentido, ensurdecedor e mau como deve ser. Nada de computadores ou de amenizadores de qualquer espécie. Apenas o bom e velho ruído.

Alguns discos e alguns anos depois, o Sonic Youth lançou um álbum duplo, chamado Daydream Nation, no outono setentrional de 1988. Isso equivale à nossa primavera. A primeira música do lado A do primeiro disco (estranho situar geograficamente a música no disco, mas, enfim, eram outros tempos) chamava-se "Teen Age Riot". Nesta canção, de mais de seis minutos de duração e na qual a barulheira celestial de Ranaldo e Moore é inserida num contexto mais formal de canção, sem, no entanto perder o teor abrasivo, está a história das vidas adolescentes que viriam depois. Ou melhor, que se veriam num espelho de música e viriam depois.
Já operantes na época, Black Flag, Replacements, Hüsker Dü e Pixies não foram capazes de fazer nada parecido e eram as únicas e secretas esperanças da América para o rock. O "ruído adolescente no estádio", o mito do show de rock perfeito, a redenção num air guitar de oito braços, tudo estava a ponto de nascer e veio no ventre de "Teen Age Riot".
É possível imaginar centenas de pessoas ouvindo isso pelo rádio, nos campi das universidades da América e não entendendo como era tão simples já estar em 1991 ou 1992, ainda em pleno 1988. Dá pra ver as pessoas pensando em comprar uma guitarra, em aprender a não tocá-la, a largar as coisas opressoras pra trás simplesmente passando na frente delas. Dá pra ver as estradas empoeiradas, os carros indo e vindo numa auto-estrada, talvez a mesma que o AC/DC trilhou em Back In Black, da qual os jovens tocadores de guitarras e fazedores de riffs retornam transformados.
O Sonic Youth sujou o som de seu inspirador primevo, Neil Young, quando este concebeu seus discos Freedom (1988) e Ragged Glory (1990), chegando a adotar a juventude sônica para abrir seus shows. O Sonic Youth antecipou o grunge sem querer, mesmo sem que qualquer música que eles tenham composto em todos os tempos pareça com o som do Nirvana ou do Pearl Jam. O Sonic Youth casou com as pop songs em discos como Goo e Dirty, dando origem a pequenas canções mutantes que nunca foram igualadas.

A idéia de falar de Thurston Moore e sua caminhada pela calçada de Manhattan apenas para que ele pudesse compor sua canção de ruídos adolescentes vem da preocupação e da ingenuidade adolescente que me assalta ao ver que talvez estejamos perdendo um terreno que foi conquistado a muito custo. Entre falsos e testemunhos fajutos, o rock foi domado e pode ser quase qualquer coisa hoje em dia. Banalizaram o ruído adolescente. Banalizaram o novo. Tornaram novidadeiro o banal.
Precisamos de alguém que saia de casa e ouça Neil Young na calçada, cena, claro, devidamente atualizada para os anos 00. Não podemos ser vencidos pelo "homem", como, sabiamente, ensinou Jack Black na sua Escola do Rock. Que os ruídos adolescentes que contaminam mentes voltem, logo. Precisamos deles mais do que nunca.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.