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Paralamas do Crítico Musical

30.06.09 | por Cel | Categorias: Música

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O crítico musical é uma criatura assaz irritante, devo admitir. Em muitas circunstâncias, sua capacidade de criticar e emitir opiniões é um mistério para os fãs de música. As pessoas ficam pensando: quem é esse sujeito para falar mal do meu artista favorito? E elas não estão completamente equivocadas em questionar a legitimidade do crítico musical. E talvez daquele que emite opiniões sobre cinema, artes, futebol, enfim, quase tudo.

Estão certas essas pessoas quando dizem que o conhecimento do crítico é fundamentado em opíniões estritamente pessoais e que estas nunca ficam totalmente pra trás na carreira do escriba. Sim, quando a gente começa a emitir opiniões para um público leitor, o fazemos baseados totalmente naquilo que achamos valioso e que gostamos. Daí, convém se informar, exercitar a isenção, compreender diferenças e ter cuidado com o que escreve. Também é indicado, claro, conhecer música, ouvir música, ler sobre música, o objeto da crítica. O que mais vemos é crítico musical que não entende nada de música, falando besteiras e fundamentando suas opiniões em informações incompletas e/ou erradas.

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Talvez dentre todas as atribuições do crítico, a isenção seja a mais importante. Não podemos simplesmente detonar um artista porque não gostamos dele e, pior, não podemos sempre elogiar algo que uma banda ou cantor ou cantora faz porque, simplesmente, gostamos dela desde sempre. Quando não conseguimos ser isentos, a crítica sai viciada, tendenciosa, rasa.

Estive no Canecão, na noite de 27 de junho para ver o segundo show carioca dos Paralamas do Sucesso, lançando seu novo disco, Brasil Afora. Fiquei tão emocionado com a apresentação que não me considero isento para criticá-la e resolvi esmiuçar isso aqui, para quem quiser ou se interessar em ver como funciona esse processo misterioso.

Antes de mais nada, convém explicar algumas coisas. Músicas dos Paralamas do Sucesso fazem parte da minha vida desde muito, muito tempo. Eu tinha 13 anos quando ouvi "Vital E Sua Moto" nas ondas do rádio carioca do início da década de 1980. Também me lembro de ver a banda dublando essa música no programa do Chacrinha. Depois vieram os clipes de "Óculos" (música com a qual me sacaneavam no Colégio, devido aos meus perenes quatro olhos) e "Meu Erro", o Rock In Rio (que vi pela televisão) e o primeiro show que vi na vida: Paralamas do Sucesso no Canecão. Era 1986.

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Quem lê esse blog ou me conhece já deve saber que eu sou um animal sentimental e nostálgico e que tenho uma série de caixinhas guardadas na minha memória com eventos e momentos importantes que me trouxeram até aqui. Os Paralamas estão numa dessas caixas, devidamente protegidos do cotidiano, imortalizados em lembranças que permanecem vivas por onde quer que eu vá. Portanto, vê-los em 2009, 23 anos depois de vê-los pela primeira vez ao vivo é um exercício e tanto para a minha canceriana maneira de ver a vida.

Antes de mais nada, ver Herbert Vianna numa cadeira de rodas é um tiro nessas caixinhas de memória. É uma invasão do imponderável na minha vã organização de coisas. É deixar o hoje entrar no ontem, justamente na porta em que eu monto guarda para isso nunca acontecer. Já havia visto Herbert ao vivo depois de seu acidente quase fatal, no show do Police, no fim do ano passado. Foi, como os americanos dizem, "bittersweet", agridoce, confuso, muito pelo total espírito esportivo dele em trocar a letra de "Óculos" de "atrás dessa lente também bate um coração" para "em cima dessas rodas também bate um coração". Minha esposa chorou, eu também, também pela idéia de vê-los ali, tocando com a banda que os inspirou, com a qual foram comparados e ironizados, taxados de "clones do Police". Estavam ali, orgulhosos, no maior estádio de futebol do nosso mundo, donos de uma sonoridade muito mais diversa e rica do que a banda inglesa. Lembro que eu estava nas primeiras filas da pista do Canecão em 1986 e cheguei a tocar no joelho do Herbert quando ele se aproximou da beira do palco, dançando e solando para as massas. Em 2009, nada disso.

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Mesmo que o show desse espaço para umas quatro músicas do novo trabalho - todas fraquinhas, bobinhas, sem sal - a idéia clara era fazer um greatest hits turbinado. Algumas canções pouco tocadas como "Pólvora" ou "Rio Severino" estiveram presentes, ao lado de clássicos inconstestáveis do porte de "A Novidade", "Lourinha Bombril", "Perplexo", "Ela Disse Adeus", "Alagados" e, claro, "Meu Erro", "Romance Ideal" e "Vital e Sua Moto", essa última tocada no bis, como de hábito. Confesso que essas três últimas me fizeram chorar baixinho, só para mim, no escuro da casa noturna tão familiar a mim nessa vida de shows, músicas e críticas. Me lembrei de tudo que aconteceu desde que essas músicas foram compostas, em 1983 e 1984, e como a vida mudou de lá pra cá. Entretanto, lá estava eu, diante delas, deles, como uma variável que não muda, em meio a tanto caos e teorias de ordem.

Escrever sobre música pop desde 1995 me fez perceber que a década de 1980 foi um período pobre em termos de criatividade. Ela perde para as décadas de 1970, 1960 e até para a de 1990, mas sempre será o meu berço musical. É como se os Paralamas fossem meus tios, irmãos, colegas de colégio, estão um pouco acima e mais à direita do meu peito.

Diante de tanta emoção e bandeira, o crítico de música se recolheu à sua insignificância e o fã de música, querendo trilhas sonoras para sua vida tomou conta, como se, no dia seguinte, tivesse que acordar às seis da manhã, tomar um copo de Nescau e embarcar no velho Integração Metrô-Ônibus L-22, para enfrentar o primeiro tempo de aula no Santo Agostinho.

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Depois desse texto, o crítico, cínico, gelado e que não bate palmas em shows (tremenda babaquice, mas uma unanimidade tácita entre essa classe) assume de volta o seu lugar.

RIP Michael Jackson

26.06.09 | por Cel | Categorias: Música

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A primeira lembrança que tenho de Michael Jackson é típica de quem foi criado pela televisão dos anos 70. Ele e os irmãos, coloridos, animados numa tela Philco de 20 polegadas, sem controle remoto, vivendo aventuras mil. Um pouco mais tarde percebi que aqueles sujeitos eram pessoas reais, um grupo chamado Jackson 5 e que cantavam de verdade aquelas canções legais do desenho animado que fazia a minha felicidade.

Michael Jackson, o cantor principal, era um pirralho de uns dez anos de idade, liderando irmãos do mesmo tamanho e muito maiores que ele, numa mistura sonora irresistível de soul, funk e pop. O som do J5 era uma das últimas coqueluches musicais que a Motown - gravadora que deu ao mundo Stevie Wonder, Marvin Gaye, Supremes, Temptations, entre tantos outros - entregava ao mundo. Aquele grupo de adolescentes negros, todos de Gary, Indiana, cantando e dançando na televisão músicas absolutamente irresistíveis como "I Want You Back", "ABC", "I Wanna Be Where You Are", "Never Can Say Goodbye" e tantas outras.

Enquanto eu crescia, as notícias sobre aquele pequeno cantor negro iam e vinham. O grupo mudara de nome para The Jacksons, o meio da década de 1970 trazia outras ondas sonoras, inserindo quase todo mundo na disco music, processo que também afetou os Jacksons. Seus discos Triumph e Destiny são belos exemplos do que eles poderiam fazer nesse terreno negro, quase totalmente habitados por brancos que faziam música negra. Mas Michael Jackson ainda permanecia distante disso. Gravando um punhado de discos solo para a Motown entre 1972 e 1975, ele abria espaço para uma persona distinta entre os irmãos. Ainda que o carisma do moleque naturalmente o afastasse de qualquer comparação, seus primeiros quatro trabalhos solo apontam o caminho para a capacidade que Jackson tinha de se reinventar e permanecer ativo. Quem tem seus trinta anos vai se lembrar de músicas como "Ben", "Got To Be There", "Music And Me" e "I'll Be There". São baladas, nenhuma escrita por Michael, mas gravações colossais dentro da pop music setentista.

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O caminho para o megaestrelato viria com o lançamento de Off The Wall, em 1979, produzido pelo mestre Quincy Jones. Esse disco pavimentaria a estrada que levaria o jovem cantor para Thriller, quatro anos depois. Em Off The Wall, Jackson aparece belo, triunfante, cantando como nunca, emprestando voz e ginga para canções como "Rock With You" ou "Don't Stop Til Get Enough", verdadeiros monstros sagrados dos assoalhos mundiais. A produção de Quincy Jones atualizou ao mesmo tempo a disco music, o funk e o r&b, criando uma liga sonora que influenciaria todos os artistas negros que viriam depois. Michael, dançando como um extraterreste nos clipes (um terreno que ele dominaria como ninguém) era a imagem do sucesso irreversível. Longe do petiz de dez anos de antanho, ele ainda era um jovem resplandescente nas televisões do mundo.

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Em Thriller, Jackson chegou onde nenhum homem jamais esteve. Vendeu mais de 100 milhões de cópias, lançou - e foi lançado - pela MTV, colocou em prática a estratégia do clipe como veículo de divulgação e massificação da música junto ao público, ofereceu danças novas, figurinos novos e afirmou-se como um abençoado compositor de canções irresistíveis. No ano de lançamento do disco - 1983 - Jackson aparecia num outro álbum de outro mega-popstar. Paul McCartney dava espaço para ele em seu Pipes Of Peace, mais precisamente em dois duetos: "The Man" e "Say, Say, Say", sendo que essa última inundou as paradas de clipes ao redor do mundo, ao mostrar Michael ao lado do casal McCartney. Paul participaria de uma faixa em Thriller, a simpaticíssima "The Girl Is Mine". O disco trazia uma fotografia bem nítida da América negra do início dos anos 1980, mas ignorava a nascente cena hip-hop, talvez repetindo a estratégia Motown de limar os excessos de "negritude" de seus astros. Isso não seria nada demais, se Michael já não mostrasse uma grande mudança em seu visual. Seu rosto já não era o do jovem dançarino de Off The Wall, mas de um sujeito de feições finas e delicadas. A música, no entanto, distraiu as pessoas. Hits como "Thriller", "Beat It", "Billie Jean" e "Human Nature" podem se inserir na grande galeria do pop perfeito. A produção, novamente a cargo de Quincy Jones, lapidava a sonoridade para a fronteira entre a pop music branca e o r&b negro, numa mistura ainda mais eficiente que a de Off The Wall.

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Entre 1984 e 1985, Jackson participaria do projeto humanitário USA For Africa, na concepção do disco beneficente para as vítimas da fome na Etiópia. Surgia a maior reunião de artistas de todos os tempos, maior até que o britânico Band-Aid, criado meses antes, com a mesma função. O disco e a canção "We Are The World" foram para o topo das paradas mundiais com rapidez assustadora. A música, de autoria de Michael e Lionel Richie, fez um sucesso tão avassalador que eclipsou o resto do álbum e a imagem de todos os artistas do projeto nas gravações do disco é uma das mais marcantes da história da música pop. Presenças de monstros como Ray Charles e Bob Dylan, ao lado de Bruce Springsteen, Stevie Wonder, Diana Ross, entre outros, davam a seriedade que o projeto necessitava. Michael, todo de preto, com uma luva prateada na mão direita, era a imagem do USA For Africa.

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Jackson correu o mundo, invadiu as casas, os quartos, as mentes de todo mundo que era jovem entre 1979 e 1987. Neste ano ele soltaria Bad, seu novo trabalho com canções inéditas. No clipe, dirigido por Martin Scorsese, Jackson aparece liderando uma gangue de b-boys, ou algo assim. Mas, novamente, a imagem dele depõe contra tudo o que ele canta e insinua. A pele quase branca, as feições ainda mais finas, tudo isso era muito distante de qualquer jovem - branco ou negro - clamando pra si aquele tipo de maldade, fundida com malandragem de rua, típica dos guetos. Aliás, Jackson novamente se afastava da música negra tradicional, num trabalho cada vez mais próximo do pop branco emulador de música negra, algo que ele, anos antes, ajudou a criar. As canções de Bad eram as piores que Michael compusera até então. Mesmo os hits do disco, "The Way You Make Me Feel", "I Just Can't Stop Lovin' You" ou a faixa-título, ficaram pouco tempo nas paradas de sucesso mundiais. Ao lado deles, a melhor música do disco, "Man In The Mirror", embalada por um belíssimo clipe, formado por imagens que pediam paz e reflexão em níveis pessoal e coletivo, sobre o mundo e as pessoas. A letra trazia uma interessante proposta, principalmente para uma pessoa como Michael Jackson, ao dizer que a mudança deveria ser iniciada pelo homem que se vê no espelho.

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A partir de Bad, Michael iniciaria uma gradativa decadência. Os motivos são muitos e vão desde uma personalidade estranha, confusa, cheia de medos e temores desde a infância, passando por manias adquiridas por conta das cirurgias plásticas, chegando ao clássico dilema do homem diante da mega-fortuna advinda de uma mega-exposição na mídia. Poucos suportariam tal pressão e com MJ a coisa não foi diferente. O lançamento de Dangerous, em 1991, mostra bem essa condição afetando a obra do artista. Se o disco trazia toda a tecnologia e colaborações musicais que o dinheiro podia comprar, os clipes mostravam cenários coloridos e técnicas inovadoras, como os rostos mutantes de "Black Or White" (uma crítica de MJ à perseguição da mídia fofoqueira sobre as mudanças da cor de sua pele) ou nas participações de Eddie Murphy (em "Remember The Time", na qual Jackson dá um beijo constrangedor na modelo Iman) e Macauley Culkin (em "Black Or White", reeditando um pouco de seu personagem no blockbuster "Esqueceram de Mim"). As músicas, no entanto, seguiam ladeira abaixo em termos de criatividade e se mostravam milhas distantes do êxito alcançado em Thriller. Michael aparecia ainda mais branco, mais delicado, menos representante do passado de glórias do funk setentista ou do pop radiofônico oitentista. Ele caminhava para uma categoria só dele, onde os parâmetros eram ditados por ele.

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Lançamentos de discos seriam mais raros a partir de Dangerous. A coletânea dupla History, de 1995, era a declaração de que Michael se via como uma espécie de semideus pop. Uma criatura capaz de fundir mundos, mandar e desmandar no cenário musical, quase um híbrido branco-negro de ser humano superior. Se o primeiro disco era composto por seus grandes sucessos, o segundo trazia material inédito, que chegou até as paradas de sucesso. Canções como "You Are Not Alone" (em cujo clipe ele aparecia em trajes sumários com a então esposa Lisa Marie Presley) ou "They Don't Care About Us" (com clipe gravado no Brasil, especificamente em Salvador e no Rio de Janeiro), ou ainda "Heal The World", mais um hino de preocupação com o futuro do mundo, pedindo paz para as nações embalado pelo discurso pacifista usual. O sucesso da coletânea foi relativo.

Michael só apareceria novamente para divulgar um trabalho inédito em 2002, com Invincible, certamente seu disco mais fraco. Puxado pela dançante "You Rock My World", o disco naufragou nas paradas e mostrava-se totalmente fora de contexto. Se Michael aparecia na capa, quase sem nariz, branco como um fantasma, sob o título "Invencível", qualquer um percebia que o cantor havia perdido o bonde da história há um bom tempo. O álbum trazia produtores de renome no terreno da black music contemporânea, como Babyface, R Kelly e Teddy Riley, mas soava anacrônico em relação a tudo que se fazia no estilo. O outro hit do disco foi "Cry", mais uma canção no formato "hino pela paz mundial".

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A morte de Michael é uma tragédia sob muitos aspectos. O homem acusado de pedofilia, de gostos extravagantes, de acordos judiciais velados, de lucros altíssimos e prejuízos idem, morre como parte dessa criatura estranha e - sim - repulsiva que atendia pelo nome de Michael Jackson. A memória afetiva de diferentes gerações, porém, sempre oferecerá imagens e lembranças felizes do menino colorido dos anos 70 ou do jovem aerodinâmico dos 80. Talvez mesmo, do extra-terrestre megalômano de 1995. O que importa para a música pop é o desaparecimento de seu último megastar. O de maior grandeza recente, forjado e posto em prática diante dos nossos olhos, com todo o aparato midiático disponível. Se Jackson aceitou esses termos para sua carreira, pagou caro em vida e na morte, não anunciada, inesperada, após um ataque cardíaco. A verdade é que ele não pertencia mais ao plano dos fãs, distanciado por uma vida totalmente fora de qualquer padrão que o dinheiro e a fama possam trazer ou proporcionar.

Muitos admiradores mais antigos de Michael não se emocionam com sua morte - entre eles, esse que vos escreve - talvez até se sintam aliviados para poder selecionar apenas os bons momentos proporcionados por ele de 1970 para cá. Cada um faz sua escolha sobre isso, mas a perda de uma figura como ele o levará para o mesmo patamar habitado por Elvis Presley, John Lennon, Janis Joplin e Jimi Hendrix, tranformando-o num mito. Isso é inevitável e talvez seja o que Michael, diante de seu ego, sempre tenha desejado para si.

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Teen Age Riots

17.06.09 | por Cel | Categorias: Música

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Diz a lenda que Thurston Moore caminhava pela calçada de alguma avenida em Manhattan quando passou em frente a uma loja de discos. Das caixas de som colocadas do lado de fora saíam os acordes de Neil Young e sua "Hey Hey My My". O jovem e futuro guitarrista do Sonic Youth adentrou a loja e levou o seu exemplar de Rust Never Sleeps, disco de Young, de 1979, que trazia esta homenagem ao punk, na figura dos Sex Pistols, além de simbolizar o retorno do velho canadense ao rockão mais barulhento, depois das conversas country agridoces do disco anterior, Comes A Time, de 1978.

Moore pegou seu disco e correu pra casa. Ouviu a canção repetidas vezes, decorou os poucos acordes, tirou a música em sua guitarra, cantou para a namorada (uma certa Kim Gordon), mostrou pro amigo Lee Ranaldo e para o compositor de pós-punk nova-iorquino, Glenn Branca. Ranaldo, Moore e Kim resolveram formar o Sonic Youth em 1981, subvertendo os conceitos do próprio pós-punk, do próprio punk, do próprio rock através, inicial e basicamente, do barulho. Barulho para as massas. Mas um barulho no bom sentido, ensurdecedor e mau como deve ser. Nada de computadores ou de amenizadores de qualquer espécie. Apenas o bom e velho ruído.

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Alguns discos e alguns anos depois, o Sonic Youth lançou um álbum duplo, chamado Daydream Nation, no outono setentrional de 1988. Isso equivale à nossa primavera. A primeira música do lado A do primeiro disco (estranho situar geograficamente a música no disco, mas, enfim, eram outros tempos) chamava-se "Teen Age Riot". Nesta canção, de mais de seis minutos de duração e na qual a barulheira celestial de Ranaldo e Moore é inserida num contexto mais formal de canção, sem, no entanto perder o teor abrasivo, está a história das vidas adolescentes que viriam depois. Ou melhor, que se veriam num espelho de música e viriam depois.

Já operantes na época, Black Flag, Replacements, Hüsker Dü e Pixies não foram capazes de fazer nada parecido e eram as únicas e secretas esperanças da América para o rock. O "ruído adolescente no estádio", o mito do show de rock perfeito, a redenção num air guitar de oito braços, tudo estava a ponto de nascer e veio no ventre de "Teen Age Riot".

É possível imaginar centenas de pessoas ouvindo isso pelo rádio, nos campi das universidades da América e não entendendo como era tão simples já estar em 1991 ou 1992, ainda em pleno 1988. Dá pra ver as pessoas pensando em comprar uma guitarra, em aprender a não tocá-la, a largar as coisas opressoras pra trás simplesmente passando na frente delas. Dá pra ver as estradas empoeiradas, os carros indo e vindo numa auto-estrada, talvez a mesma que o AC/DC trilhou em Back In Black, da qual os jovens tocadores de guitarras e fazedores de riffs retornam transformados.

O Sonic Youth sujou o som de seu inspirador primevo, Neil Young, quando este concebeu seus discos Freedom (1988) e Ragged Glory (1990), chegando a adotar a juventude sônica para abrir seus shows. O Sonic Youth antecipou o grunge sem querer, mesmo sem que qualquer música que eles tenham composto em todos os tempos pareça com o som do Nirvana ou do Pearl Jam. O Sonic Youth casou com as pop songs em discos como Goo e Dirty, dando origem a pequenas canções mutantes que nunca foram igualadas.

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A idéia de falar de Thurston Moore e sua caminhada pela calçada de Manhattan apenas para que ele pudesse compor sua canção de ruídos adolescentes vem da preocupação e da ingenuidade adolescente que me assalta ao ver que talvez estejamos perdendo um terreno que foi conquistado a muito custo. Entre falsos e testemunhos fajutos, o rock foi domado e pode ser quase qualquer coisa hoje em dia. Banalizaram o ruído adolescente. Banalizaram o novo. Tornaram novidadeiro o banal.

Precisamos de alguém que saia de casa e ouça Neil Young na calçada, cena, claro, devidamente atualizada para os anos 00. Não podemos ser vencidos pelo "homem", como, sabiamente, ensinou Jack Black na sua Escola do Rock. Que os ruídos adolescentes que contaminam mentes voltem, logo. Precisamos deles mais do que nunca.

O Dia em que Mataram Apollo Creed

09.06.09 | por Cel | Categorias: Cinema, Egotrip

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Vou dividir algo muito sério com vocês, leitores. E pessoal também. Em 1985, eu chorei quando vi Apollo Creed ser morto a socos por Ivan Drago, durante a primeira luta de Rocky IV. De verdade. Não adianta fazer cara feia de Carriers Du Cinema ou atitude blasé de indiezinho que não conhece o poder da guitarrinha dedilhada de "Eye Of The Tiger". A morte de Creed é uma tragédia para o esporte e para qualquer pessoa ingênua de 15 anos, dos anos 80. Eu era assim.

Digo isso porque revi Rocky IV numa noite de Reveillon em 2006 e me lembrei. Ao contrário do que muita gente pensa, essa noite não é necessariamente e inapelavelmente feliz para todo mundo. Eu estava no grupo anônimo dos não muito felizes e via, com certa satisfação, um velho filme da minha adolescência. Há metáforas poderosas na série Rocky. Pude notar isso, vinte anos depois de chorar (pouco, é verdade) pela morte de Apollo.

É uma tragédia, pois a luta era uma exibição entre um boxeador soviético (sim, existia ainda a velha URSS) e um ex-campeão de boxe americano. Um eslavo comunista e um negro americano. Duas indesejáveis personas do mundo oitentista, juntas na mesma arena, sob a batuta de Ronald Reagan, então presidente dos USA, do tipo W.Bush, ainda que um pouco menos burro.

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Do lado de fora está Rocky Balboa, ítalo-americano, outra minoria indesejável, para o sistema WASP da América do Norte. No palco, antes da luta, está James Brown, sim, o Godfather Of Soul, o Haaaaaaaaardest Man In Showbusiness, fazendo uma apresentação de "Living In America", com sua banda completa. E, pouco depois, Apollo jaz no ringue, logo no segundo assalto, porque Rocky atende a seu pedido de não interromper a luta, custasse o que custasse.

Rocky, o primeiro de uma série de cinco longas, foi feito em 1977 e ganhou o Oscar de melhor filme e melhor roteiro (escrito pelo próprio Sylvester Stallone). Nele, como uma música de Bruce Springsteen, é contada a história de um americano zé mané, burro, de bom coração, que trabalha como cobrador de um agiota e que luta como amador nas horas vagas. Por uma reviravolta do destino, Rocky Balboa tem a chance de enfrentar o campeão mundial, Apollo Doutrinador. Apollo é o modelo do empreendedor bem sucedido. Cuida de sua carreira, usa terno, tem sua negritude esbranquiçada como uma aula de etiqueta da Motown dos anos 60. Mas é o campeão. A luta é dura, os dois caem. Há uma revanche, na seqüência, que Stallone ganha.

A metáfora que há em Rocky é para com a própria América. No primeiro filme, vemos que ela é boa gente, ainda que burra. No segundo, temos sua persistência colocada à prova, diante das tentações materiais da fama e fortuna pelas quais Rocky passa e se submete. Temos a evolução do estado em Rocky III, a preparação para o fim do comunismo em Rocky IV, com a derrota de Ivan Drago em Moscou, pelas mãos de Rocky, com direito a discurso pacifista no final e aplausos de um sósia de Mikhail Gorbatchev num palanque. Rocky V, de 1990, pós-muro de Berlim, é a volta dos USA ao seu próprio umbigo, resolvendo problemas internos, personificados pela decadência de Rocky, as dificuldades de adaptação de seu filho adolescente e a traição de seu pupilo, sucumbindo ao dinheiro fácil de um empresário picareta, que lembra muito o velho Don King, que empresariava dez entre dez lutadores de boxe na aurora dos anos 90, quando Tyson caminhava pela Terra.

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E temos Rocky Balboa, o filme, de 2006, o fecho da série, o segundo melhor longa, perdendo apenas para o primeiro episódio. Aqui Rocky está aposentado, sessentão, perdeu a mulher para o câncer e seu filho único tem vergonha dele. No comando de um restaurante, o Adrian’s, Rocky entretêm os clientes com histórias do seu tempo de ringue, num ambiente cheio de fotos e posters dos tempos idos. É a crítica à internet, ao mundo virtual, pois, através de uma simulação de computador, Rocky é colocado no ringue com o atual campeão, Mason Dixon, um esportista movido a grana e que é acusado de lutar burocraticamente. Colocados os dados de ambos no computador, a simulação aponta vitória de Rocky por nocaute no segundo assalto. A chance para uma inusitada volta aos ringues para a despedida oficial tem lugar.

Ainda que possa parecer absurdo, o roteiro de Rocky Balboa – escrito pelo próprio Stallone – é digno de um filme de Clint Eastwood. Não há qualquer esforço em esconder a velhice e as limitações de Rocky, que mostra-se totalmente fora de moda em todos os momentos. Detalhe sentimental pessoal quando ele ouve “Ooo Baby Baby”, de Smokey Robinson, e entabula uma reflexão bronca sobre a velhice das pessoas, das coisas e do mundo. Não se engane, Rocky Balboa é um filmaço.

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Todo esse texto pode ser um monte de bobeira de gente trintona meio desocupada ou até pode fazer um certo sentido. Não me importo muito com os Estados Unidos, talvez somente com sua música, mas ver aquela queda de Apollo no ringue de Las Vegas em 1985 é tão sinistro e sintomático como ver a queda do World Trade Center da nossa adolescência. Não pelo impacto ou pela tristeza. Mas pela certeza de que o impossível está acontecendo e, droga, nada podemos fazer.



Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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