
É um erro comum e irritante as pessoas falarem de Britpop e mencionarem apenas Oasis e Blur. Uma terceira banda, tão ou mais importante que essas duas, estava na ativa muito antes de Damon Albarn e Noel Gallagher pensarem seriamente no showbiz. Era o Pulp.
E, como remanescente de outros tempos - a fundação da banda data de 1978 - o Pulp era diferente. Enquanto as duas formações acima brigavam na imprensa e tentavam reeditar a rivalidade Beatles/Stones, Jarvis Cocker liderava a mais irônica e emblemática banda daqueles tempos. Exagero? Não, não mesmo.
Oriundo de Sheffield, um cafundó operário no centro da Inglaterra, Cocker cresceu como um gato entre os pombos. Entediado, emputecido pelo destino encerrá-lo naquela terra esquecida por Deus, ele - a exemplo da maioria dos jovens - montou uma banda aos 15 anos de idade. Após idas e vindas de integrantes e sonoridades, o Pulp chegava a 1994 com um disco irretocável em mãos: His'n'Hers. A praia de Cocker era criticar e avacalhar com a hipocrisia da sociedade inglesa, confrontar princípios que ninguém seguia com a realidade enquanto imprimia ao Pulp uma sonoridade ao mesmo tempo pós-punk e glam, podendo parecer Joy Division e David Bowie e fazer sentido ainda assim. Havia, porém, o diferencial maior: Jarvis era um tarado de primeira categoria, obcecado por sexo e tudo que dizia respeito a isso.

Eles estouraram nas paradas britânicas justamente com "Babies", um conto de voyeurismo e desejo sexual reprimido, em tom novelesco, com vocal de Cocker pontuando tudo como se risse por dentro. A ironia continuou no disco seguinte, Different Class (1996), que consolidou o sucesso da banda e que detém o título informal de "disco mais importante do britpop", passando a perna em Parklife (Blur) e Definitely Maybe e What's The Story Morning Glory (Oasis). Dois anos depois o Pulp voltaria suas atenções para as emoções mais sombrias do ser humano na faixa dos trinta e tantos anos de idade. Era This Is Harcore (1998), falando sobre envelhecer, compreender e - talvez - perdoar o próximo.
We Love Life foi o último disco que o Pulp lançou, em 2002. A presença do grande ídolo de Jarvis Cocker, Scott Walker, no estúdio dá uma idéia do pop orquestral e sessentista que saiu desse disco. Na verdade, Walker apenas inspirou a produção do próprio Cocker, a esta altura com 39 anos de idade.
Após algum tempo em silêncio, Jarvis Cocker voltaria a trabalhar em um disco, dessa vez em carreira solo, com o título de Jarvis. Apesar de brilhante, o trabalho carecia do contexto que os discos do Pulp possuiam. Algo como legitimar o que deve ser dito, o que não batia com a imagem subitamente recatada de Jarvis, ainda que, a maçaroca sonora seja eminentemente sexual, conduzida com maestria por ele e mais colegas de longa data, como o guitarrista Richard Hawley e o saxofonista Steve Mackey.
Não é supresa constatar que Further Complications, o segundo disco de Jarvis, seja, enfim, totalmente coerente. Para imprimir o punch necessário às canções, foi recrutado Steve Albini, o homem que assinou a produção de In Utero, último disco do Nirvana.
A presença de Albini, no entanto, não é sinônimo de peso puro e simples. Ela confere clima e relevância às molduras sonoras que conduzem as letras depravadas de Cocker, principalmente em "Angela", "Deep Fried In Kelvin", "You're In My Eyes" ou na explícita "Fuckingsong", dando uma impressão de T.Rex contemporâneo ou pitadas de Bowie, fase Spiders From Mars.
Se Jarvis Cocker antes via com certa fragilidade seus objetos de adoração - sejam eles mulheres, one night stands - ou o desfile de ironias puro e simples, em Further Complications ele se aproxima disso tudo, como um homem de meia-idade (aos 46 anos), capaz de interagir e, porque não, transar com tudo isso.
ouça.

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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.