
Minha intenção era postar o texto abaixo como um aperitivo para o lançamento do novo disco do Wilco, a se realizar no dia 30 de junho próximo. A morte de Jay Bennett, no entanto, me obriga a dedicar essas linhas ao multiinstrumentista que ajudou a criar dois dos melhores trabalhos da banda: Being There e Summerteeth. Além deles, Bennett participou das colaborações do grupo com Billy Bragg e da concepção inicial do trabalho seguinte do Wilco, Yankee Hotel Foxtrot, largando a banda com o disco ainda inacabado. Ele teve uma simpática carreira solo, com quatro discos lançados entre 2002 e 2006, sendo que o último, The Magnificent Defeat, é uma beleza.
Bennett processou o líder da banda, Jeff Tweedy, no início desse mês de maio, reivindicando direitos autorais supostamente não recebidos durante o tempo em que permaneceu no Wilco. Ele tinha 45 anos e morreu dormindo, de causa ainda não definida.

Sendo assim, o texto que você lerá abaixo é uma caprichada biografia da banda, completa até o lançamento do trabalho anterior, Sky Blue Sky (2007) e conta tudo sobre os altos e baixos do Wilco, enquanto o novo disco não chega. Um belo disco, diga-se de passagem, e que será esmiuçado aqui no momento certo.
Domingo, 15 de Abril de 2007 (11:37:19)
A existência de uma banda como Wilco dá ensejo a uma série de caraminholas nas mentes dos que insistem em enxergar algum significado na música pop enquanto manifestação artística séria. Mais que uma bela formação de rock, a banda de Jeff Tweedy ousa traduzir os pensamentos e angústias de um ser pouco visto na cultura de massa: o americano médio.
Em vários momentos de 2005 eu coloquei minha cópia de Summerteeth, o terceiro disco da carreira do Wilco, e cravei a faixa 12, "When You Wake Up Feeling Old". Não era uma época muito radiante na minha vida e essa canção disputava a hegemonia da vitrolinha com outra composição desse mesmo disco, "How To Fight Loneliness". Pelos títulos, "Quando você acorda se sentindo mais velho" e "Como combater a solidão", já dá pra ter uma idéia do estado de espírito que dava as cartas por aqui. Mas, não tema. Não tornarei essa matéria algo estritamente pessoal e, por hora, ao mencionar as mesmas músicas, apenas informo que as coloquei como trilha sonora enquanto batuco as palavras que farão uma tardia justiça ao Wilco.

Não há na imprensa nacional uma matéria que mapeie a importância da banda de Jeff Tweedy para o rock atual e isso é um erro imperdoável, não só pelo esquecimento ou negligência, mas principalmente pelo gasto excessivo de tempo e palavras vazias com um sem número de bandas insossas e de vida curta, que não alimentam a alma. Ouvir um disco do Wilco dá sustança à sua alma, mesmo que a banda não lhe seja querida.
O Wilco lança em 15 de maio próximo o seu novo disco, Sky Blue Sky. Quem já teve oportunidade de ouvi-lo na internet não conseguiu ficar imune ao charme do novo trabalho. Seja para o bem ou para o mal. Sky Blue Sky é um disco plácido, tranqüilo, contraditório de toda a seara experimental que a banda trilhou desde 2001, quando iniciou o processo criativo de Yankee Hotel Foxtrot. O clima que caracteriza as novas canções é de paz e reconciliação com o "campo" e uma visita a ele. Soa como se a banda voltasse pra casa, após tanto tempo, num rito de passagem claro, de reencontro consigo mesma.

O engraçado é que o Wilco se tornou muito plural e de muitos lugares, a tal ponto que pode soar estranho ao ouvido de muita gente ouvir Tweedy cantando versos como "Maybe the sun will shine today, the clouds will blow away" ao longo do disco. Talvez os quase treze anos de carreira tenham impulsionado a banda de volta a um passado que não existe mais, tamanha a transformação que eles mesmos empreenderam. De qualquer forma, deixando a cri-crítica de lado, dá para se esbaldar na beleza de "Hate It Here", "Walken" ou "Shake It Off", capazes de lembrar gente boa que as pessoas simplesmente desconhecem, como Harry Nilsson, Wings (sim, a segunda banda de Paul McCartney), ou mesmo Grateful Dead.
Pode ser difícil para muitos fãs aceitar um som tão pacífico e sereno, no lugar das guitarras e teclados dos trabalhos anteriores, mas, ouvindo Sky Blue Sky, dá pra ter certeza que o Wilco já experimentou o que precisava. Talvez o resultado das experiências e da inquietude artística – uma analogia com a vida está valendo - seja, exatamente, a paz. O sexto disco do Wilco é um disco de paz.
Em qualquer um dos seis álbuns lançados (mais as duas colaborações com o trovador inglês Billy Bragg - Mermaid Avenue 1 e 2 - e o disco ao vivo, Kicking Television) há música pop relevante e plural, capaz de juntar muitos estilos em uma só canção. Barulho, silêncio, caos, cosmos, tudo ao mesmo tempo, de uma só vez. Nem sempre foi assim, entretanto. Houve um tempo em que o Wilco era uma banda razoavelmente previsível.

Em Belleville, Illinois, perto de Chicago, lá pelos idos de 1987, provavelmente não havia nada para fazer, exceto rock'n'roll. É aquela situação típica de cidade do interior americano: o sujeito faz o high school, se forma e migra para uma metrópole, em busca de uma vida melhor e se sujeita ao envernizamento que a vida adulta e responsável impinge a quase todo mundo. Quid pro quo. Mas, no caso de Jeff Tweedy e Jay Farrar, essa regra não se aplicou e os dois colegas de escola, nascidos no mesmo Belleville Hospital, vinte anos antes, decidiram reativar seu antigo projeto punk, os Primitives.
A idéia era tornar o som um pouco melhor e mais interessante, mas os rapazes não tinham uma idéia exata do que fazer. Eles e o baterista Mike Heidorn ainda digeriam a notícia do alistamento de Wade Farrar, irmão mais velho de Jay, que largara a banda pouco tempo antes. Quase instintivamente, o trio Tweedy, Farrar e Heidorn iniciou uma audaciosa e pioneira jornada rumo à música country de raiz, daquelas que os pais gostavam de ouvir e que davam o tal sentimento de "homeland".

Com o acento country veio o novo nome: Uncle Tupelo, e uma inesperada rotina de shows pelo Meio-Oeste ao longo dos dois anos seguintes, algo que levou os sujeitos a largar o colégio, principalmente porque o pequeno selo Rockville fizera uma proposta num dos buracos pestilentos em que apresentaram a tal mistura de punk (via Hüsker Dü, Black Flag e Replacements) com country. Misturando hinos gospel, composições próprias e covers inusitadas, o Uncle Tupelo gravou seu primeiro disco, No Depression, em 1990, e iniciou um movimento musical do qual pouco se ouviu falar na época: o alternative country.
Enquanto o mundo voltava lentes e microfones para Seattle e seu som pesadão, os jovens do coração da América faziam uma interessante revisitação de raízes que nem imaginavam possuir e mesclavam tais genes musicais ancestrais com o que tinham por mais querido e familiar: o punk e sua mensagem primal de "não ao tédio".
O alarde foi tão grande que Uncle Tupelo tornou-se a ponta de lança do movimento e suas letras sobre a vida nas cidades pequenas, enfatizando o regozijo de se viver em paz, com honestidade e amor ao solo que dá sustento e permite encher a cara nas noites, eram tão precisas no retrato do tal americano médio que parecia impossível resistir.
Enquanto Farrar parecia mais afeito ao resgate do country rock mais rasgado, principalmente de Neil Young e Flying Burrito Brothers, Tweedy era seu contraponto punk, enguitarrando e usando vocais rascantes para dar o tom exato da cruza entre metrópole e campo, passado e presente. Em 1991 eles dariam continuidade ao sucesso com Still Feel Gone e contariam com a produção de Peter Buck (do REM) em seu terceiro disco, o acústico March, 16-20 1992. O sucesso foi suficiente para o selo Sire, distribuído pela Warner, acenar com uma proposta.

Nesta época, o Uncle Tupelo já contava com três novos integrantes: Ken Coomer, que havia substituído o baterista Heidorn, mais Max Johnston e John Stirratt, multi-tocadores de quase todos os instrumentos de cordas possíveis e imagináveis. O primeiro e único disco lançado pela Sire, Anodyne, é considerado também o melhor trabalho do Uncle Tupelo, mas a banda encerraria suas atividades em 1994, após uma briga definitiva entre seus dois cérebros pensantes, Tweedy e Farrar. Este último se reuniria ao primeiro baterista do Uncle Tupelo, Mike Heidorn e formaria o Son Volt. Tweedy, Stirratt, Coomer e Johnston seriam conhecidos a partir de 1995 como Wilco.
O primeiro disco que Tweedy e cia lançaram, A.M., poderia ser considerado como uma continuação natural da cartilha do Uncle Tupelo, o que não o desmerece e nem surpreende. Assim como o primeiro disco da banda que Jay Farrar criou, o Son Volt, Trace, também leva o country rock noventista alicerçado nas bases do Uncle Tupelo adiante.

Algo, entretanto, saltava aos ouvidos em A.M.. O Wilco seguia as fórmulas de atualização do country rock, perpetradas pela banda original, mas não se preocupava em inovar em nada, pelo menos por enquanto. Canções que emergiam do disco, como "Casino Queen", "Box Full Of Letters" ou a emblemática "Blue Eyed Soul", apesar de lindas, não avançavam nada em nenhuma nova direção.
Nova direção, aliás, que não tardaria a chegar, a bordo do segundo disco do Wilco, lançado pouco mais de um ano depois. Being There trazia influências que permaneceriam no pedigree da banda para sempre. Ecos de Beatles, Big Star, Neil Young, REM, psicodelia, até mesmo um pouco de soul, tudo estava condensado e magicamente urdido nas dezenove faixas do disco (duplo). Tudo o que A.M. não mostrou, Being There escancarou, arremessando o Wilco aos céus já em seu segundo trabalho.
"Misunderstood", a primeira faixa, já dá a impressão de que outra banda gravou tudo aquilo usando o mesmo nome, tamanho o susto que o arranjo de guitarras e cordas, entremeando silêncio e barulho, causa no ouvinte mais distraído. Psicodelia country? Difícil dizer, mas, impossível negar a presença do campo, mesmo num disco tão diferente.
A idéia de "campo", parece ser a mesma que bandas como Flying Burrito Brothers, Buffalo Springfield, The Band ou artistas como Neil Young usaram como cores principais em suas paletas musicais. Uma espécie de lugar idílico, ideal, inexistente na realidade, mas tornado real nas melodias, que apontam para lá, convidando o inconsciente coletivo a pegar emprestadas memórias alheias.
A linha melódica de "Far, Far Away", a surpreendente guitarrinha power pop de "Monday" e "Outtasite (Outta Mind)" ou a melancolia de manhã em "Red-Eyed Blue", tudo em Being There funciona mais do que poderia se supor e a impressão é de que um grupo de pessoas entrou no estúdio, empunhou seus instrumentos e deixou suas mentes vagarem e, por um milagre, todas elas foram na mesma direção.

Pouco tempo depois, Jeff Tweedy seria convidado por Nora Guthrie, filha do trovador folk Woody Guthrie, para uma missão sedutora e quase impossível: musicar várias letras, escritas entre 1939 e 1967, que permaneciam sem melodia e criando poeira nos arquivos do velho Woody. Para a mesma tarefa veio o soberbo Billy Bragg, herdeiro britânico da tradição socialista de Guthrie, e a colaboração dos dois resultou num disco excepcionalmente belo, chamado Mermaid Avenue.
Talvez sem querer, Wilco e Bragg não chegaram a se misturar ao longo do disco, musicalmente falando, e isso ofereceu uma interessante visão sobre o trabalho de Woody Guthrie. Enquanto Bragg procurou recriar as tradições folk de antanho, o Wilco não se preocupou em soar como uma banda dos anos 50 e ousou transportar muito do clima de protesto e lirismo para os anos 90, sem arranhar as intenções.
O melhor exemplo dessa interessante disparidade aparece nas duas primeiras faixas do disco, "Walt Whitman's Niece" e "Califórnia Stars". Na primeira, Billy Bragg só se deixa revelar pelo sotaque carregadíssimo, mostrando que aquela gravação não surgira no meio dos anos 40, por exemplo. A segunda música já traz o Wilco em sua busca pela simbiose perfeita entre modernidade e tradição, campo e cidade, arrojo e tradição. Igualmente perfeita, sem, no entanto, dar a impressão de ser algo antigo, a tradução da letra de Woody Guthrie para os anos 90 não a descaracteriza, mas a insere numa linha de descendência da qual o próprio Jeff Tweedy participa. Outro exemplo da meticulosa recriação da banda está na belíssima "At My Window Sad And Lonely".
Uma seqüência do projeto, Mermaid Avenue vol.2, viria em 2000 e seguiria a mesma trilha, mostrando um Billy Bragg fiel às tradições e um Wilco ousado e moderno à sua maneira. Daí viria mais uma canção que seria incorporada ao rol de favoritas da banda - "Airline To Heaven".
Apesar da participação do Wilco no projeto Mermaid Avenue, os dois discos resultantes da colaboração com Billy Bragg inserem-se na discografia do trovador inglês, levando a história da banda de volta ao ano de 1999. Quando foram recrutados para o projeto, Tweedy e seus amigos, exceto por Max Johnston, que deixara a banda e fora substituído por Bob Egan, estavam preparando o sucessor de Being There. Seria impossível prever o que eles fariam, uma vez que todas as possibilidades estavam escancaradas, diante da ampliação do espectro sonoro da banda e do prestígio angariado com a participação no primeiro disco Mermaid Avenue.

O terceiro disco do Wilco seria um marco sutil dos anos 90. Um trabalho que rivaliza com o badalado OK Computer, do Radiohead, sem precisar criar novas formas de música pop - como o terceiro disco da banda inglesa supõe ter feito. Se Thom Yorke e seus cabeças de rádio tivessem o talento de Tweedy, fariam um disco como Summerteeth.
A revolução que ele traz é discreta, sutil, de lenta percepção. Ao contrário das revoluções convencionais, a de Summerteeth te leva nos braços, e, ao fim do processo de assimilação da massiva quantidade de informação e intenções que o disco propõe, o ouvinte está automaticamente alçado a um novo nível. Simples assim.
Sem alarde, sem marketing, sem hype, o terceiro disco do Wilco nem chegou a vender grandes quantidades ou aparecer tanto quanto o trabalho do Radiohead. A perspectiva apresentada por Tweedy é de um abraço afetuoso ao pop dourado, de uma maneira que somente uma banda como o Wilco poderia fazer.
Se as influências beatle de Being There já eram notáveis, aqui elas estão por toda parte, dialogando com os DNA's de Dylan, Band, Big Star, Neil Young e, novidade, teclados progressivos inéditos, mas que poderiam ser new wave ou qualquer outra coisa indescritível. Arranjos de violinos e cellos aparecem no lugar das cordas country e levam o disco definitivamente para a cidade. Sim, Summerteeth não traz nenhum eco do tal "campo" e nem chegamos a sentir falta disso.
A abertura com "I Can't Stand It" aponta para um rock clássico, estiloso, conduzido por pianos, guitarras, saído de algum túnel do tempo setentista. A seqüência, com a poesia afiada de "She's A Jar" mostra do que Tweedy pode ser capaz de falar sobre o amor e seu lado negro, numa balada dilacerada por cordas milimetricamente dispostas a acariciar o inconsciente.

O grande avanço está na maestria pop rock que é "A Shot In The Arm", conduzida por piano e um sintetizador aparentemente alienígena no contexto do grupo, cortesia de Leroy Bach e Jay Bennett. A canção leva o Wilco para passear na ensolarada alameda do pop, naturalmente, como se a banda sempre andasse por aquelas vizinhanças, sem melindres ou maiores dramas.
Outras canções merecem destaque ao longo do disco, seja "We're Just Friends", que poderia, sem exagero, pertencer ao White Album, dos Beatles. Ou na seqüência detonadora que traz "Pieholden Suíte", "How To Fight Loneliness" e "Via Chicago", homenageando a "Windy City" na qual a banda escolheu sedimentar-se. A beleza baladeira dessas músicas se mostra de formas distintas: se em "How To Fight Loneliness" ela aparece na forma de violão e órgão (que foi incluída na trilha sonora do filme Garota Interrompida) e em "Via Chicago", sob a égide de melodia que vai sendo lentamente conduzida para um abismo de guitarras; em "Pieholden Suíte" é seguido um roteiro sessentista de levadinhas psicodélicas que trazem, juntas, Brian Wilson, Beatles, Byrds e Band, numa só música.
Ainda mais admirável é o que se ouve em "When You Wake Up Feeling Old", um aceno saudoso a uma juventude que não se enxerga, apesar de presente, emoldurado por um instrumental rico, quase luxuriante, de violinos, guitarras e tudo mais. O fecho, com a faixa-título não poderia ser mais adequado, levando todos para um passeio sob o sol beatle, na canção mais animada do disco.
Nenhuma banda produz um álbum como esse e permanece incólume. O que o Wilco propôs no terceiro disco foi elevar a um nível inimaginável para a música pop americana da época - num caminho oposto a um outro inovador, Beck, por exemplo, que quase se embaralhava nas misturebas de gêneros e ritmos em bloco. O Wilco foi mais feliz e mais sutil.

A entrada no século XXI serviu de fio condutor para a maior metamorfose que o Wilco já viveu em sua carreira. O quarto disco, já com a bateria de Glenn Kotché, começou a ser gravado pela banda, com um conceito que mostra o sentimento de solidão e isolamento que a década 00 trouxe para todos nós. Assim como uma rádio de ondas curtas, no meio do nada, o Wilco emitiria suas canções, sob o nome de Yankee Hotel Foxtrot, Y.H.F, letras típicas da comunicação de rádio amador, talvez algo tão anacrônico como o telex.
As músicas não traziam mais o instrumental colorido de Summerteeth e as canções não eram exatamente comerciais. Simples: como mencionado acima, nenhuma banda sai incólume de um disco em que praticamente atinge todos os seus objetivos musicais. O resultado é o novo nível, muitas vezes não comportado pela mentalidade monetária das gravadoras, que, geralmente, se intrometem nas obras e tentam conduzi-las para um lado mais palatável.
Jeff Tweedy não queria mais ser palatável, estava em busca de sua visão do Milênio, da experimentação, da ampliação de sua fórmula sonora. Yankee Hotel Foxtrot, curiosamente, retoma a tal visão de "campo", deixada de lado no disco anterior, mas o faz de um jeito inédito. Campo encontra o futuro, que já chegou. O que fazer quando as lacunas e silêncios das multidões das cidades chega até a camaradagem e às noites de bebedeira da cidadezinha? Como falar com os caminhoneiros na noite? Como escutar-se no meio de tanto silêncio disfarçado de som? YHF é sobre tudo isso, agravado pelo impacto de dois aviões em pleno World Trade Center. Não seria possível esperar um disco normal.

A Reprise/Warner começou a encher o saco do Wilco a tal ponto, acenando com diminuições na distribuição do disco que Tweedy comprou as fitas masterizadas por 50 mil dólares, rescindiu seu contrato com a gravadora e disponibilizou o álbum na internet, na primeira das muitas demonstrações de afinidade da banda com os fãs. O processo criativo do disco levou Jay Bennett, sócio-fundador do Wilco, descontente com os rumos pouco ortodoxos que a banda seguia. A produção de Jim O'Rourke, um bamba dos estúdios e excelente guitarrista - mais tarde, membro integrante do Sonic Youth - ajudou o Wilco a modificar tudo.
Mas, sob um ponto de vista mais objetivo, YHF não é tão diferente dos outros trabalhos da banda. Canções como "War On War" e "I Am The Man Who Loves You", por exemplo, poderiam estar em Being There. "Kamera" e "Heavy Metal Drummer" são belos espécimes pop, enquanto "Jesus Etc" traz uma pegada blue eyed soul irresistível. O grande momento de mudança do disco é representado por duas canções em especial: "I Am Trying To Break Your Heart" e "Ashes Of American Flags". Ambas são mais pungentes e impressionantes que quase toda a produção rock do ano de 2001. O clima de solidão e complacência é tamanho que é impossível não se contaminar pela tristeza sugerida.
Nesse momento da carreira, o Wilco, reduzido a Tweedy, Stirratt, Glen Kotché e Leroy Bach, iniciou uma turnê para promover o disco, alçado ao status de lenda urbana, tamanho o bafafá com a gravadora e o episódio da compra das fitas master. O rebuliço das faixas disponíveis na internet também ajudou a promover YHF e, quando o selo Nonesuch Records se interessou em bancar a distribuição, qual não foi a surpresa de todos, vendo que o Nonesuch pertencia justamente à Warner, que acabou sem opções a não ser lançar o disco.
E o sucesso que YHF atingiu, traduzido na vendagem de mais de 400 mil cópias, mostrou o quanto uma obra não-comercial pode atingir. O processo de gestação do disco e a epopéia de seu lançamento foram documentados devidamente no filme I Am Trying To Break Your Heart, lançado em 2003, depois do lançamento oficial de YHF, que se dera em 2002. O documentário, dirigido por Sam Jones, traz à baila as tensões entre banda, gravadora e, principalmente entre Tweedy e Bennett, explicitando os motivos da saída deste último em meio às gravações.

A partir do lançamento de Yankee Hotel Foxtrot, o Wilco ingressou no hall das bandas "sérias" dos anos 00, ainda que sua gênese date de meados da década anterior e seus shows adquiriram nova relevância, misto de celebração e uma espécie de culto à persona de Jeff Tweedy, um dos sujeitos mais tímidos e introspectivos de que se tem notícia no rock. Tanto que muita gente estranhou o sumiço dele no início de 2004, algo que seria elucidado no lançamento do próximo disco, A Ghost Is Born.
Uma semana antes do álbum chegar às prateleiras, a semi-biografia do grupo, Learning How To Die, escrita pelo repórter Greg Kot, do Chicago Tribune, esmiúça a trajetória da banda desde as origens, passando pelas múltiplas transformações, chegando ao fenômeno Yankee Hotel Foxtrot, mostrando como o amadurecimento artístico não conseguiu levar a espontaneidade e o prazer de compor da banda. Em outubro do mesmo ano sairia The Wilco Book, uma espécie de diário da banda em forma de fotos e anotações, com um disco de sobras de estúdio das sessões de A Ghost Is Born encartado.

A Ghost Is Born mostrou-se, grosso modo, uma seqüência natural de YHF, algo raro em termos de Wilco, uma vez que a banda sempre procurou ampliar o que o trabalho anterior mostrava. Seria um fardo muito pesado para o álbum novo a superação do impacto causado por Yankee Hotel Foxtrot, mas, uma audição mais cuidadosa de A Ghost Is Born mostra que é um disco mais focado e mais coeso que seu antecessor, porém, menos brilhante.
E é simples notar o motivo: se o Wilco não procurou mexer na fórmula mágica das composições, o resultado foi uma melhoria nela e uma maior capacidade de explorar o formato proposto pelo disco anterior, principalmente pelas duas canções mais emblemáticas - "I Am Trying To Break Your Heart" e "Ashes Of American Flags".
O que se ouve é uma sucessão de melodias rascunhadas, interrompidas, concluídas, abertas, esvoaçadas por guitarras cortantes, próximas ao noise e flertando firme com o krautrock, cortesia da produção e participação efetiva de Jim O'Rourke. A Ghost Is Born - cujo título é uma alusão de Tweedy ao seu problema de consumo de analgésicos no combate à síndrome do pânico - é mais caloroso e vivo que o antecessor. Parece um disco difícil, menos interessante, mas capaz de revelar grandes surpresas.
O primeiro desafio seria suprir a falta de Jay Bennett. A presença efetiva de Leroy Bach e do novato Mikael Jorgensen, tocando todos os instrumentos com cordas e teclas e a própria produção de O'Rourke preencheram a lacuna lindamente. Isso também contribuiu para a aproximação do som a um estilo que poderia ser um primo do progressivo, algo que não é totalmente suficiente. A proximidade do Wilco nesse momento era com o Sonic Youth.

Assim como a banda de Nova York, Tweedy e cia deixavam as inocentes melodias passarem pelas mãos lascivas das guitarras. O resultado é assombroso em "At Least That's What You Said", "Handshake Drugs", "Less Than You Think", "Spiders" e também relembra a veia pop perfeita desenvolvida pela banda ao longo dos tempos, com a graça de "Hummingbird" e "The Late Greats".
Já na estrada para a turnê de A Ghost Is Born, o Wilco ainda teria a saída de Leroy Bach e a entrada de Pat Sansone e Nels Cline, fechando a formação mais adequada à proposta de evocar múltiplas sonoridades no palco. Se o roteiro das canções trazia gemas do início da carreira, como "Misunderstood" ou as adaptações do projeto Mermaid Avenue - "Airline To Heaven" e "One By One", o foco das atenções era para a transposição das canções de Yankee Hotel Foxtrot e A Ghost Is Born para o palco.
O show que veio ao Brasil em outubro de 2005, na edição daquele ano do TIM Festival, é o mesmo que está documentado no disco ao vivo Kicking Television - Live In Chicago, lançado pela banda em maio. As versões cresceram assustadoramente com a participação do público e músicas como "A Shot In The Arm" e "Hummingbird", pop até a medula, tornaram-se pequenos hinos, com corais de milhares de vozes.
Discografia:
- A.M - 1995
- Being There - 1996
- Mermaid Avenue (com Billy Bragg) - 1998
- Summerteeth - 1999
- Mermaid Avenue vol.2 (com Billy Bragg) - 2000
- Yankee Hotel Foxtrot - 2001/2002
- A Ghost Is Born - 2004
- Kicking Television - Live In Chicago - 2005
- Sky Blue Sky - 2007

Esta é a capa do novo disco do Wilco. Simpática, não?
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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