Na sexta-feira passada, dia 22 de maio, Arthur Dapieve publicou mais uma de suas colunas no Segundo Caderno do jornal O Globo. Leio o que este sujeito escreve há quase 20 anos e o tenho em grande conta como profissional e mente pensante dentro do espectro cada vez menos esclarecido do jornalismo cultural.

Dapieve falava sobre o lançamento do novo disco do argentino Fito Paez, No Se Si Es Baires O Madrid (Não Sei Se É Buenos Aires Ou Madri), gravado ao vivo na Espanha, cheio de convidados daquele país. Entre observações sobre uma ou outra música e sobre como novos arranjos haviam dado fôlego para o trabalho do argentino, Arthur não escapou de mencionar uma de suas músicas favoritas: "Un Vestido y Un Amor". Digo que é uma das favoritas do jornalista porque ele já a mencionou antes, lá pelo fim da década de 1990, numa crônica em que tece comentários sobre determinadas canções de amor. Ali (como na sexta-feira próxima passada) Dapieve menciona o singelo verso do argentino, "eu não procurava nada e te vi", como a epítome do ato de se apaixonar, ou seja, a verdadeira paixão - aquela com credenciais para durar talvez a vida toda - vem inesperadamente, sem que a busquemos. A gente simplesmente é arrebatado e pronto. Voltaremos a isso mais abaixo.

Em 2006 eu escrevi meu primeiro (e até agora único) livro, Vestido de Flor. Foi a realização de um sonho pessoal muito antigo e abortado inúmeras vezes, pelo simples fato de que é muito difícil escrever um livro e, mais ainda, publicá-lo. Durante um bom tempo eu pensei que havia escrito o Vestido de Flor para exorcizar a experiência que ele narra, algo como uma catarse, um esguicho mental, algo que me aliviasse. Estava eu errado e resolvi contar o motivo.
Fito Paez e Dapieve estão diretamente ligados à realização do Vestido, de diferentes formas. A música de Fito, que ouvi primeiro na voz de Caetano Veloso, no disco Fina Estampa, foi recorrente na escrita do livro, seja pelo título ou pela circunstância que ela trata. A presença de Dapieve ainda é mais intensa, principalmente pela camaradagem dele em assinar uma singela contracapa para o livro, na qual o compara com filmes como Antes Do Amanhecer ou Antes Do Por Do Sol. Bondade dele, mas, deixando a humildade de lado, talvez haja grandes semelhanças mesmo...
A grande personagem desse livro, no entanto, não é mencionada na história, não era conhecida por mim quando eu o escrevi, não me inspirou a fazê-lo ou nada disso. Ou tudo, por uma via transversa inconsciente, vá saber. O que quero dizer é que o Vestido de Flor me fez conhecer minha esposa e vivenciar a experiência que Fito Paez descreve em sua música e Dapieve celebra em sua crônica.
Quando lancei o livro, em 19 de março de 2007, recebi alguns amigos queridos na Livraria da Travessa de Ipanema. O relógio já se aproximava das 22:00h quando recebo a ligação no celular de uma pessoa que se atrasara, perguntando se ainda podia aparecer para pegar seu exemplar. Concordei. Afinal de contas, Maria Estrella foi uma pessoa com quem havia conversado muitas vezes desde que o livro ficara pronto. Ela lançara alguns meses antes um belo livro sobre a Rádio Fluminense FM, também celebrado por Arthur Dapieve em sua coluna e que fora recebido pelo Portal Rock Press para ser resenhado.
Maria fora gentilíssima quando entrei em contato com ela para obter informações sobre preços de gráficas, folhetos, enfim, me deu várias direções a seguir e fez questão de enfatizar que iria ao lançamento do Vestido de Flor. Fosse quando fosse. Achei gentil da parte dela, principalmente porque eu ainda não tinha certeza de onde ou mesmo se faria isso. Portanto, era encantador saber que ela seria a última pessoa a quem eu daria um exemplar autografado do meu querido filho literário naquela noite.

Quando Maria entrou na Livraria da Travessa praticamente vazia, senti exatamente o que Fito Paez queria dizer em sua canção. Eu não procurava nada e a vi. Me apaixonei imediatamente e procurei disfarçar com uma atitude simpática, solícita, secretamente resignada diante da aparente improbabilidade em me relacionar com ela mais tarde. Na época, tanto ela quanto eu tentávamos fazer funcionar relacionamentos em nossas vidas, sem muito sucesso, diga-se de passagem. Assinei o livro para Maria e a vi ir embora, sem saber que o futuro e o destino haviam vindo com ela pela livraria e me fizeram uma visita. Dez dias depois, após telefonemas, e-mails e contatos, começamos a namorar e posso afirmar que nos casamos em alguns dias. A cerimônia oficial só viria meses depois, mas era apenas para que os outros soubessem do que já tínhamos ciência.
Eu já contei essa história para os amigos mais chegados mas, sabe-se lá, senti vontade de escrevê-la e torná-la acessível a todos aqueles que pensam ser impossível se apaixonar e ver esse amor durar. No nosso caso, para sempre, desde sempre, todo dia. Quando menos esperarem vocês verão. Garanto-lhes que vale a pena o tempo empreendido.

PS: para mais alguns detalhes sobre o Vestido de Flor, visitem o www.myspace.com/vestidodeflor . Acho que ainda está tudo lá. Se quiserem adquirir um dos poucos exemplares restantes, deixem um comentário com seu e-mail.

Minha intenção era postar o texto abaixo como um aperitivo para o lançamento do novo disco do Wilco, a se realizar no dia 30 de junho próximo. A morte de Jay Bennett, no entanto, me obriga a dedicar essas linhas ao multiinstrumentista que ajudou a criar dois dos melhores trabalhos da banda: Being There e Summerteeth. Além deles, Bennett participou das colaborações do grupo com Billy Bragg e da concepção inicial do trabalho seguinte do Wilco, Yankee Hotel Foxtrot, largando a banda com o disco ainda inacabado. Ele teve uma simpática carreira solo, com quatro discos lançados entre 2002 e 2006, sendo que o último, The Magnificent Defeat, é uma beleza.
Bennett processou o líder da banda, Jeff Tweedy, no início desse mês de maio, reivindicando direitos autorais supostamente não recebidos durante o tempo em que permaneceu no Wilco. Ele tinha 45 anos e morreu dormindo, de causa ainda não definida.

Sendo assim, o texto que você lerá abaixo é uma caprichada biografia da banda, completa até o lançamento do trabalho anterior, Sky Blue Sky (2007) e conta tudo sobre os altos e baixos do Wilco, enquanto o novo disco não chega. Um belo disco, diga-se de passagem, e que será esmiuçado aqui no momento certo.
Domingo, 15 de Abril de 2007 (11:37:19)
A existência de uma banda como Wilco dá ensejo a uma série de caraminholas nas mentes dos que insistem em enxergar algum significado na música pop enquanto manifestação artística séria. Mais que uma bela formação de rock, a banda de Jeff Tweedy ousa traduzir os pensamentos e angústias de um ser pouco visto na cultura de massa: o americano médio.
Em vários momentos de 2005 eu coloquei minha cópia de Summerteeth, o terceiro disco da carreira do Wilco, e cravei a faixa 12, "When You Wake Up Feeling Old". Não era uma época muito radiante na minha vida e essa canção disputava a hegemonia da vitrolinha com outra composição desse mesmo disco, "How To Fight Loneliness". Pelos títulos, "Quando você acorda se sentindo mais velho" e "Como combater a solidão", já dá pra ter uma idéia do estado de espírito que dava as cartas por aqui. Mas, não tema. Não tornarei essa matéria algo estritamente pessoal e, por hora, ao mencionar as mesmas músicas, apenas informo que as coloquei como trilha sonora enquanto batuco as palavras que farão uma tardia justiça ao Wilco.

Não há na imprensa nacional uma matéria que mapeie a importância da banda de Jeff Tweedy para o rock atual e isso é um erro imperdoável, não só pelo esquecimento ou negligência, mas principalmente pelo gasto excessivo de tempo e palavras vazias com um sem número de bandas insossas e de vida curta, que não alimentam a alma. Ouvir um disco do Wilco dá sustança à sua alma, mesmo que a banda não lhe seja querida.
O Wilco lança em 15 de maio próximo o seu novo disco, Sky Blue Sky. Quem já teve oportunidade de ouvi-lo na internet não conseguiu ficar imune ao charme do novo trabalho. Seja para o bem ou para o mal. Sky Blue Sky é um disco plácido, tranqüilo, contraditório de toda a seara experimental que a banda trilhou desde 2001, quando iniciou o processo criativo de Yankee Hotel Foxtrot. O clima que caracteriza as novas canções é de paz e reconciliação com o "campo" e uma visita a ele. Soa como se a banda voltasse pra casa, após tanto tempo, num rito de passagem claro, de reencontro consigo mesma.

O engraçado é que o Wilco se tornou muito plural e de muitos lugares, a tal ponto que pode soar estranho ao ouvido de muita gente ouvir Tweedy cantando versos como "Maybe the sun will shine today, the clouds will blow away" ao longo do disco. Talvez os quase treze anos de carreira tenham impulsionado a banda de volta a um passado que não existe mais, tamanha a transformação que eles mesmos empreenderam. De qualquer forma, deixando a cri-crítica de lado, dá para se esbaldar na beleza de "Hate It Here", "Walken" ou "Shake It Off", capazes de lembrar gente boa que as pessoas simplesmente desconhecem, como Harry Nilsson, Wings (sim, a segunda banda de Paul McCartney), ou mesmo Grateful Dead.
Pode ser difícil para muitos fãs aceitar um som tão pacífico e sereno, no lugar das guitarras e teclados dos trabalhos anteriores, mas, ouvindo Sky Blue Sky, dá pra ter certeza que o Wilco já experimentou o que precisava. Talvez o resultado das experiências e da inquietude artística – uma analogia com a vida está valendo - seja, exatamente, a paz. O sexto disco do Wilco é um disco de paz.
Em qualquer um dos seis álbuns lançados (mais as duas colaborações com o trovador inglês Billy Bragg - Mermaid Avenue 1 e 2 - e o disco ao vivo, Kicking Television) há música pop relevante e plural, capaz de juntar muitos estilos em uma só canção. Barulho, silêncio, caos, cosmos, tudo ao mesmo tempo, de uma só vez. Nem sempre foi assim, entretanto. Houve um tempo em que o Wilco era uma banda razoavelmente previsível.

Em Belleville, Illinois, perto de Chicago, lá pelos idos de 1987, provavelmente não havia nada para fazer, exceto rock'n'roll. É aquela situação típica de cidade do interior americano: o sujeito faz o high school, se forma e migra para uma metrópole, em busca de uma vida melhor e se sujeita ao envernizamento que a vida adulta e responsável impinge a quase todo mundo. Quid pro quo. Mas, no caso de Jeff Tweedy e Jay Farrar, essa regra não se aplicou e os dois colegas de escola, nascidos no mesmo Belleville Hospital, vinte anos antes, decidiram reativar seu antigo projeto punk, os Primitives.
A idéia era tornar o som um pouco melhor e mais interessante, mas os rapazes não tinham uma idéia exata do que fazer. Eles e o baterista Mike Heidorn ainda digeriam a notícia do alistamento de Wade Farrar, irmão mais velho de Jay, que largara a banda pouco tempo antes. Quase instintivamente, o trio Tweedy, Farrar e Heidorn iniciou uma audaciosa e pioneira jornada rumo à música country de raiz, daquelas que os pais gostavam de ouvir e que davam o tal sentimento de "homeland".

Com o acento country veio o novo nome: Uncle Tupelo, e uma inesperada rotina de shows pelo Meio-Oeste ao longo dos dois anos seguintes, algo que levou os sujeitos a largar o colégio, principalmente porque o pequeno selo Rockville fizera uma proposta num dos buracos pestilentos em que apresentaram a tal mistura de punk (via Hüsker Dü, Black Flag e Replacements) com country. Misturando hinos gospel, composições próprias e covers inusitadas, o Uncle Tupelo gravou seu primeiro disco, No Depression, em 1990, e iniciou um movimento musical do qual pouco se ouviu falar na época: o alternative country.
Enquanto o mundo voltava lentes e microfones para Seattle e seu som pesadão, os jovens do coração da América faziam uma interessante revisitação de raízes que nem imaginavam possuir e mesclavam tais genes musicais ancestrais com o que tinham por mais querido e familiar: o punk e sua mensagem primal de "não ao tédio".
O alarde foi tão grande que Uncle Tupelo tornou-se a ponta de lança do movimento e suas letras sobre a vida nas cidades pequenas, enfatizando o regozijo de se viver em paz, com honestidade e amor ao solo que dá sustento e permite encher a cara nas noites, eram tão precisas no retrato do tal americano médio que parecia impossível resistir.
Enquanto Farrar parecia mais afeito ao resgate do country rock mais rasgado, principalmente de Neil Young e Flying Burrito Brothers, Tweedy era seu contraponto punk, enguitarrando e usando vocais rascantes para dar o tom exato da cruza entre metrópole e campo, passado e presente. Em 1991 eles dariam continuidade ao sucesso com Still Feel Gone e contariam com a produção de Peter Buck (do REM) em seu terceiro disco, o acústico March, 16-20 1992. O sucesso foi suficiente para o selo Sire, distribuído pela Warner, acenar com uma proposta.

Nesta época, o Uncle Tupelo já contava com três novos integrantes: Ken Coomer, que havia substituído o baterista Heidorn, mais Max Johnston e John Stirratt, multi-tocadores de quase todos os instrumentos de cordas possíveis e imagináveis. O primeiro e único disco lançado pela Sire, Anodyne, é considerado também o melhor trabalho do Uncle Tupelo, mas a banda encerraria suas atividades em 1994, após uma briga definitiva entre seus dois cérebros pensantes, Tweedy e Farrar. Este último se reuniria ao primeiro baterista do Uncle Tupelo, Mike Heidorn e formaria o Son Volt. Tweedy, Stirratt, Coomer e Johnston seriam conhecidos a partir de 1995 como Wilco.
O primeiro disco que Tweedy e cia lançaram, A.M., poderia ser considerado como uma continuação natural da cartilha do Uncle Tupelo, o que não o desmerece e nem surpreende. Assim como o primeiro disco da banda que Jay Farrar criou, o Son Volt, Trace, também leva o country rock noventista alicerçado nas bases do Uncle Tupelo adiante.

Algo, entretanto, saltava aos ouvidos em A.M.. O Wilco seguia as fórmulas de atualização do country rock, perpetradas pela banda original, mas não se preocupava em inovar em nada, pelo menos por enquanto. Canções que emergiam do disco, como "Casino Queen", "Box Full Of Letters" ou a emblemática "Blue Eyed Soul", apesar de lindas, não avançavam nada em nenhuma nova direção.
Nova direção, aliás, que não tardaria a chegar, a bordo do segundo disco do Wilco, lançado pouco mais de um ano depois. Being There trazia influências que permaneceriam no pedigree da banda para sempre. Ecos de Beatles, Big Star, Neil Young, REM, psicodelia, até mesmo um pouco de soul, tudo estava condensado e magicamente urdido nas dezenove faixas do disco (duplo). Tudo o que A.M. não mostrou, Being There escancarou, arremessando o Wilco aos céus já em seu segundo trabalho.
"Misunderstood", a primeira faixa, já dá a impressão de que outra banda gravou tudo aquilo usando o mesmo nome, tamanho o susto que o arranjo de guitarras e cordas, entremeando silêncio e barulho, causa no ouvinte mais distraído. Psicodelia country? Difícil dizer, mas, impossível negar a presença do campo, mesmo num disco tão diferente.
A idéia de "campo", parece ser a mesma que bandas como Flying Burrito Brothers, Buffalo Springfield, The Band ou artistas como Neil Young usaram como cores principais em suas paletas musicais. Uma espécie de lugar idílico, ideal, inexistente na realidade, mas tornado real nas melodias, que apontam para lá, convidando o inconsciente coletivo a pegar emprestadas memórias alheias.
A linha melódica de "Far, Far Away", a surpreendente guitarrinha power pop de "Monday" e "Outtasite (Outta Mind)" ou a melancolia de manhã em "Red-Eyed Blue", tudo em Being There funciona mais do que poderia se supor e a impressão é de que um grupo de pessoas entrou no estúdio, empunhou seus instrumentos e deixou suas mentes vagarem e, por um milagre, todas elas foram na mesma direção.

Pouco tempo depois, Jeff Tweedy seria convidado por Nora Guthrie, filha do trovador folk Woody Guthrie, para uma missão sedutora e quase impossível: musicar várias letras, escritas entre 1939 e 1967, que permaneciam sem melodia e criando poeira nos arquivos do velho Woody. Para a mesma tarefa veio o soberbo Billy Bragg, herdeiro britânico da tradição socialista de Guthrie, e a colaboração dos dois resultou num disco excepcionalmente belo, chamado Mermaid Avenue.
Talvez sem querer, Wilco e Bragg não chegaram a se misturar ao longo do disco, musicalmente falando, e isso ofereceu uma interessante visão sobre o trabalho de Woody Guthrie. Enquanto Bragg procurou recriar as tradições folk de antanho, o Wilco não se preocupou em soar como uma banda dos anos 50 e ousou transportar muito do clima de protesto e lirismo para os anos 90, sem arranhar as intenções.
O melhor exemplo dessa interessante disparidade aparece nas duas primeiras faixas do disco, "Walt Whitman's Niece" e "Califórnia Stars". Na primeira, Billy Bragg só se deixa revelar pelo sotaque carregadíssimo, mostrando que aquela gravação não surgira no meio dos anos 40, por exemplo. A segunda música já traz o Wilco em sua busca pela simbiose perfeita entre modernidade e tradição, campo e cidade, arrojo e tradição. Igualmente perfeita, sem, no entanto, dar a impressão de ser algo antigo, a tradução da letra de Woody Guthrie para os anos 90 não a descaracteriza, mas a insere numa linha de descendência da qual o próprio Jeff Tweedy participa. Outro exemplo da meticulosa recriação da banda está na belíssima "At My Window Sad And Lonely".
Uma seqüência do projeto, Mermaid Avenue vol.2, viria em 2000 e seguiria a mesma trilha, mostrando um Billy Bragg fiel às tradições e um Wilco ousado e moderno à sua maneira. Daí viria mais uma canção que seria incorporada ao rol de favoritas da banda - "Airline To Heaven".
Apesar da participação do Wilco no projeto Mermaid Avenue, os dois discos resultantes da colaboração com Billy Bragg inserem-se na discografia do trovador inglês, levando a história da banda de volta ao ano de 1999. Quando foram recrutados para o projeto, Tweedy e seus amigos, exceto por Max Johnston, que deixara a banda e fora substituído por Bob Egan, estavam preparando o sucessor de Being There. Seria impossível prever o que eles fariam, uma vez que todas as possibilidades estavam escancaradas, diante da ampliação do espectro sonoro da banda e do prestígio angariado com a participação no primeiro disco Mermaid Avenue.

O terceiro disco do Wilco seria um marco sutil dos anos 90. Um trabalho que rivaliza com o badalado OK Computer, do Radiohead, sem precisar criar novas formas de música pop - como o terceiro disco da banda inglesa supõe ter feito. Se Thom Yorke e seus cabeças de rádio tivessem o talento de Tweedy, fariam um disco como Summerteeth.
A revolução que ele traz é discreta, sutil, de lenta percepção. Ao contrário das revoluções convencionais, a de Summerteeth te leva nos braços, e, ao fim do processo de assimilação da massiva quantidade de informação e intenções que o disco propõe, o ouvinte está automaticamente alçado a um novo nível. Simples assim.
Sem alarde, sem marketing, sem hype, o terceiro disco do Wilco nem chegou a vender grandes quantidades ou aparecer tanto quanto o trabalho do Radiohead. A perspectiva apresentada por Tweedy é de um abraço afetuoso ao pop dourado, de uma maneira que somente uma banda como o Wilco poderia fazer.
Se as influências beatle de Being There já eram notáveis, aqui elas estão por toda parte, dialogando com os DNA's de Dylan, Band, Big Star, Neil Young e, novidade, teclados progressivos inéditos, mas que poderiam ser new wave ou qualquer outra coisa indescritível. Arranjos de violinos e cellos aparecem no lugar das cordas country e levam o disco definitivamente para a cidade. Sim, Summerteeth não traz nenhum eco do tal "campo" e nem chegamos a sentir falta disso.
A abertura com "I Can't Stand It" aponta para um rock clássico, estiloso, conduzido por pianos, guitarras, saído de algum túnel do tempo setentista. A seqüência, com a poesia afiada de "She's A Jar" mostra do que Tweedy pode ser capaz de falar sobre o amor e seu lado negro, numa balada dilacerada por cordas milimetricamente dispostas a acariciar o inconsciente.

O grande avanço está na maestria pop rock que é "A Shot In The Arm", conduzida por piano e um sintetizador aparentemente alienígena no contexto do grupo, cortesia de Leroy Bach e Jay Bennett. A canção leva o Wilco para passear na ensolarada alameda do pop, naturalmente, como se a banda sempre andasse por aquelas vizinhanças, sem melindres ou maiores dramas.
Outras canções merecem destaque ao longo do disco, seja "We're Just Friends", que poderia, sem exagero, pertencer ao White Album, dos Beatles. Ou na seqüência detonadora que traz "Pieholden Suíte", "How To Fight Loneliness" e "Via Chicago", homenageando a "Windy City" na qual a banda escolheu sedimentar-se. A beleza baladeira dessas músicas se mostra de formas distintas: se em "How To Fight Loneliness" ela aparece na forma de violão e órgão (que foi incluída na trilha sonora do filme Garota Interrompida) e em "Via Chicago", sob a égide de melodia que vai sendo lentamente conduzida para um abismo de guitarras; em "Pieholden Suíte" é seguido um roteiro sessentista de levadinhas psicodélicas que trazem, juntas, Brian Wilson, Beatles, Byrds e Band, numa só música.
Ainda mais admirável é o que se ouve em "When You Wake Up Feeling Old", um aceno saudoso a uma juventude que não se enxerga, apesar de presente, emoldurado por um instrumental rico, quase luxuriante, de violinos, guitarras e tudo mais. O fecho, com a faixa-título não poderia ser mais adequado, levando todos para um passeio sob o sol beatle, na canção mais animada do disco.
Nenhuma banda produz um álbum como esse e permanece incólume. O que o Wilco propôs no terceiro disco foi elevar a um nível inimaginável para a música pop americana da época - num caminho oposto a um outro inovador, Beck, por exemplo, que quase se embaralhava nas misturebas de gêneros e ritmos em bloco. O Wilco foi mais feliz e mais sutil.

A entrada no século XXI serviu de fio condutor para a maior metamorfose que o Wilco já viveu em sua carreira. O quarto disco, já com a bateria de Glenn Kotché, começou a ser gravado pela banda, com um conceito que mostra o sentimento de solidão e isolamento que a década 00 trouxe para todos nós. Assim como uma rádio de ondas curtas, no meio do nada, o Wilco emitiria suas canções, sob o nome de Yankee Hotel Foxtrot, Y.H.F, letras típicas da comunicação de rádio amador, talvez algo tão anacrônico como o telex.
As músicas não traziam mais o instrumental colorido de Summerteeth e as canções não eram exatamente comerciais. Simples: como mencionado acima, nenhuma banda sai incólume de um disco em que praticamente atinge todos os seus objetivos musicais. O resultado é o novo nível, muitas vezes não comportado pela mentalidade monetária das gravadoras, que, geralmente, se intrometem nas obras e tentam conduzi-las para um lado mais palatável.
Jeff Tweedy não queria mais ser palatável, estava em busca de sua visão do Milênio, da experimentação, da ampliação de sua fórmula sonora. Yankee Hotel Foxtrot, curiosamente, retoma a tal visão de "campo", deixada de lado no disco anterior, mas o faz de um jeito inédito. Campo encontra o futuro, que já chegou. O que fazer quando as lacunas e silêncios das multidões das cidades chega até a camaradagem e às noites de bebedeira da cidadezinha? Como falar com os caminhoneiros na noite? Como escutar-se no meio de tanto silêncio disfarçado de som? YHF é sobre tudo isso, agravado pelo impacto de dois aviões em pleno World Trade Center. Não seria possível esperar um disco normal.

A Reprise/Warner começou a encher o saco do Wilco a tal ponto, acenando com diminuições na distribuição do disco que Tweedy comprou as fitas masterizadas por 50 mil dólares, rescindiu seu contrato com a gravadora e disponibilizou o álbum na internet, na primeira das muitas demonstrações de afinidade da banda com os fãs. O processo criativo do disco levou Jay Bennett, sócio-fundador do Wilco, descontente com os rumos pouco ortodoxos que a banda seguia. A produção de Jim O'Rourke, um bamba dos estúdios e excelente guitarrista - mais tarde, membro integrante do Sonic Youth - ajudou o Wilco a modificar tudo.
Mas, sob um ponto de vista mais objetivo, YHF não é tão diferente dos outros trabalhos da banda. Canções como "War On War" e "I Am The Man Who Loves You", por exemplo, poderiam estar em Being There. "Kamera" e "Heavy Metal Drummer" são belos espécimes pop, enquanto "Jesus Etc" traz uma pegada blue eyed soul irresistível. O grande momento de mudança do disco é representado por duas canções em especial: "I Am Trying To Break Your Heart" e "Ashes Of American Flags". Ambas são mais pungentes e impressionantes que quase toda a produção rock do ano de 2001. O clima de solidão e complacência é tamanho que é impossível não se contaminar pela tristeza sugerida.
Nesse momento da carreira, o Wilco, reduzido a Tweedy, Stirratt, Glen Kotché e Leroy Bach, iniciou uma turnê para promover o disco, alçado ao status de lenda urbana, tamanho o bafafá com a gravadora e o episódio da compra das fitas master. O rebuliço das faixas disponíveis na internet também ajudou a promover YHF e, quando o selo Nonesuch Records se interessou em bancar a distribuição, qual não foi a surpresa de todos, vendo que o Nonesuch pertencia justamente à Warner, que acabou sem opções a não ser lançar o disco.
E o sucesso que YHF atingiu, traduzido na vendagem de mais de 400 mil cópias, mostrou o quanto uma obra não-comercial pode atingir. O processo de gestação do disco e a epopéia de seu lançamento foram documentados devidamente no filme I Am Trying To Break Your Heart, lançado em 2003, depois do lançamento oficial de YHF, que se dera em 2002. O documentário, dirigido por Sam Jones, traz à baila as tensões entre banda, gravadora e, principalmente entre Tweedy e Bennett, explicitando os motivos da saída deste último em meio às gravações.

A partir do lançamento de Yankee Hotel Foxtrot, o Wilco ingressou no hall das bandas "sérias" dos anos 00, ainda que sua gênese date de meados da década anterior e seus shows adquiriram nova relevância, misto de celebração e uma espécie de culto à persona de Jeff Tweedy, um dos sujeitos mais tímidos e introspectivos de que se tem notícia no rock. Tanto que muita gente estranhou o sumiço dele no início de 2004, algo que seria elucidado no lançamento do próximo disco, A Ghost Is Born.
Uma semana antes do álbum chegar às prateleiras, a semi-biografia do grupo, Learning How To Die, escrita pelo repórter Greg Kot, do Chicago Tribune, esmiúça a trajetória da banda desde as origens, passando pelas múltiplas transformações, chegando ao fenômeno Yankee Hotel Foxtrot, mostrando como o amadurecimento artístico não conseguiu levar a espontaneidade e o prazer de compor da banda. Em outubro do mesmo ano sairia The Wilco Book, uma espécie de diário da banda em forma de fotos e anotações, com um disco de sobras de estúdio das sessões de A Ghost Is Born encartado.

A Ghost Is Born mostrou-se, grosso modo, uma seqüência natural de YHF, algo raro em termos de Wilco, uma vez que a banda sempre procurou ampliar o que o trabalho anterior mostrava. Seria um fardo muito pesado para o álbum novo a superação do impacto causado por Yankee Hotel Foxtrot, mas, uma audição mais cuidadosa de A Ghost Is Born mostra que é um disco mais focado e mais coeso que seu antecessor, porém, menos brilhante.
E é simples notar o motivo: se o Wilco não procurou mexer na fórmula mágica das composições, o resultado foi uma melhoria nela e uma maior capacidade de explorar o formato proposto pelo disco anterior, principalmente pelas duas canções mais emblemáticas - "I Am Trying To Break Your Heart" e "Ashes Of American Flags".
O que se ouve é uma sucessão de melodias rascunhadas, interrompidas, concluídas, abertas, esvoaçadas por guitarras cortantes, próximas ao noise e flertando firme com o krautrock, cortesia da produção e participação efetiva de Jim O'Rourke. A Ghost Is Born - cujo título é uma alusão de Tweedy ao seu problema de consumo de analgésicos no combate à síndrome do pânico - é mais caloroso e vivo que o antecessor. Parece um disco difícil, menos interessante, mas capaz de revelar grandes surpresas.
O primeiro desafio seria suprir a falta de Jay Bennett. A presença efetiva de Leroy Bach e do novato Mikael Jorgensen, tocando todos os instrumentos com cordas e teclas e a própria produção de O'Rourke preencheram a lacuna lindamente. Isso também contribuiu para a aproximação do som a um estilo que poderia ser um primo do progressivo, algo que não é totalmente suficiente. A proximidade do Wilco nesse momento era com o Sonic Youth.

Assim como a banda de Nova York, Tweedy e cia deixavam as inocentes melodias passarem pelas mãos lascivas das guitarras. O resultado é assombroso em "At Least That's What You Said", "Handshake Drugs", "Less Than You Think", "Spiders" e também relembra a veia pop perfeita desenvolvida pela banda ao longo dos tempos, com a graça de "Hummingbird" e "The Late Greats".
Já na estrada para a turnê de A Ghost Is Born, o Wilco ainda teria a saída de Leroy Bach e a entrada de Pat Sansone e Nels Cline, fechando a formação mais adequada à proposta de evocar múltiplas sonoridades no palco. Se o roteiro das canções trazia gemas do início da carreira, como "Misunderstood" ou as adaptações do projeto Mermaid Avenue - "Airline To Heaven" e "One By One", o foco das atenções era para a transposição das canções de Yankee Hotel Foxtrot e A Ghost Is Born para o palco.
O show que veio ao Brasil em outubro de 2005, na edição daquele ano do TIM Festival, é o mesmo que está documentado no disco ao vivo Kicking Television - Live In Chicago, lançado pela banda em maio. As versões cresceram assustadoramente com a participação do público e músicas como "A Shot In The Arm" e "Hummingbird", pop até a medula, tornaram-se pequenos hinos, com corais de milhares de vozes.
Discografia:
- A.M - 1995
- Being There - 1996
- Mermaid Avenue (com Billy Bragg) - 1998
- Summerteeth - 1999
- Mermaid Avenue vol.2 (com Billy Bragg) - 2000
- Yankee Hotel Foxtrot - 2001/2002
- A Ghost Is Born - 2004
- Kicking Television - Live In Chicago - 2005
- Sky Blue Sky - 2007

Esta é a capa do novo disco do Wilco. Simpática, não?

É um erro comum e irritante as pessoas falarem de Britpop e mencionarem apenas Oasis e Blur. Uma terceira banda, tão ou mais importante que essas duas, estava na ativa muito antes de Damon Albarn e Noel Gallagher pensarem seriamente no showbiz. Era o Pulp.
E, como remanescente de outros tempos - a fundação da banda data de 1978 - o Pulp era diferente. Enquanto as duas formações acima brigavam na imprensa e tentavam reeditar a rivalidade Beatles/Stones, Jarvis Cocker liderava a mais irônica e emblemática banda daqueles tempos. Exagero? Não, não mesmo.
Oriundo de Sheffield, um cafundó operário no centro da Inglaterra, Cocker cresceu como um gato entre os pombos. Entediado, emputecido pelo destino encerrá-lo naquela terra esquecida por Deus, ele - a exemplo da maioria dos jovens - montou uma banda aos 15 anos de idade. Após idas e vindas de integrantes e sonoridades, o Pulp chegava a 1994 com um disco irretocável em mãos: His'n'Hers. A praia de Cocker era criticar e avacalhar com a hipocrisia da sociedade inglesa, confrontar princípios que ninguém seguia com a realidade enquanto imprimia ao Pulp uma sonoridade ao mesmo tempo pós-punk e glam, podendo parecer Joy Division e David Bowie e fazer sentido ainda assim. Havia, porém, o diferencial maior: Jarvis era um tarado de primeira categoria, obcecado por sexo e tudo que dizia respeito a isso.

Eles estouraram nas paradas britânicas justamente com "Babies", um conto de voyeurismo e desejo sexual reprimido, em tom novelesco, com vocal de Cocker pontuando tudo como se risse por dentro. A ironia continuou no disco seguinte, Different Class (1996), que consolidou o sucesso da banda e que detém o título informal de "disco mais importante do britpop", passando a perna em Parklife (Blur) e Definitely Maybe e What's The Story Morning Glory (Oasis). Dois anos depois o Pulp voltaria suas atenções para as emoções mais sombrias do ser humano na faixa dos trinta e tantos anos de idade. Era This Is Harcore (1998), falando sobre envelhecer, compreender e - talvez - perdoar o próximo.
We Love Life foi o último disco que o Pulp lançou, em 2002. A presença do grande ídolo de Jarvis Cocker, Scott Walker, no estúdio dá uma idéia do pop orquestral e sessentista que saiu desse disco. Na verdade, Walker apenas inspirou a produção do próprio Cocker, a esta altura com 39 anos de idade.
Após algum tempo em silêncio, Jarvis Cocker voltaria a trabalhar em um disco, dessa vez em carreira solo, com o título de Jarvis. Apesar de brilhante, o trabalho carecia do contexto que os discos do Pulp possuiam. Algo como legitimar o que deve ser dito, o que não batia com a imagem subitamente recatada de Jarvis, ainda que, a maçaroca sonora seja eminentemente sexual, conduzida com maestria por ele e mais colegas de longa data, como o guitarrista Richard Hawley e o saxofonista Steve Mackey.
Não é supresa constatar que Further Complications, o segundo disco de Jarvis, seja, enfim, totalmente coerente. Para imprimir o punch necessário às canções, foi recrutado Steve Albini, o homem que assinou a produção de In Utero, último disco do Nirvana.
A presença de Albini, no entanto, não é sinônimo de peso puro e simples. Ela confere clima e relevância às molduras sonoras que conduzem as letras depravadas de Cocker, principalmente em "Angela", "Deep Fried In Kelvin", "You're In My Eyes" ou na explícita "Fuckingsong", dando uma impressão de T.Rex contemporâneo ou pitadas de Bowie, fase Spiders From Mars.
Se Jarvis Cocker antes via com certa fragilidade seus objetos de adoração - sejam eles mulheres, one night stands - ou o desfile de ironias puro e simples, em Further Complications ele se aproxima disso tudo, como um homem de meia-idade (aos 46 anos), capaz de interagir e, porque não, transar com tudo isso.
ouça.

Essa banda de Minneapolis é um pequeno e parcialmente oculto tesouro do rock americano. Eles surgiram em 1986 mas só chamaram a atenção da mídia na virada da década de 1990, quando começavam a divulgar seu segundo disco, Blue Earth. Reza a lenda que George Drakoulias, dono do selo American Records, contratou a banda após uma conversa no telefone com alguém na qual ele podia ouvir as músicas de Blue Earth ao fundo.

Após assinar contrato com a American Records, a banda iniciou uma sequência de pequenos clássicos do que se chamou de alt country. Hollywood Town Hall (1992), Tomorrow The Green Grass (meu preferido, de 1995) e Sound Of Lies (1997) consolidaram a banda no cenário americano e inglês e fizeram justiça ao talento de seus líderes, Mark Olson e Gary Louris que, deixaria a banda antes das gravações de Sound Of Lies. Olson ainda levou o Jayhawks à frente com dignidade e concebeu discos maravilhosos, ainda que inferiores a esta trinca: Smile (2000) e Rainy Day Music (2003). A banda encerrou suas atividades, mas Olson e Louris mantiveram-se ativos até reecontrarem-se neste ano, para o lançamento de Ready For The Flood, disco que eles gravaram juntos. Mas o melhor disso tudo é que a discografia do Jayhawks será relançada com a chancela da Sony/Legacy.
Isso significa faixas-bônus, remasterização, notas, textos, fotos e, claro, uma fortuna gasta em cinco discos importados. Seis, se contarmos com a coletânea da qual falo logo abaixo. Sim, porque este que vos escreve é um consumidor de discos à moda antiga, mesmo que o tempo e a maturidade tenham aconselhado a comprar apenas os discos essenciais. Jayhawks é uma banda essencial e mais desconhecida por aqui do que merecia. Nunca foram grandes, nunca abusaram do marketing, mas seu talento e capacidade de misturar levadas country com harmonias beatle e vocais celestiais fez sua fama para os iniciados.
Como aperitivo para os relançamentos dos cinco discos (apenas o primeiro e Blue Earth não serão relançados), a Sony solta em 7 de julho - lá fora, claro - a coletânea Songs From The North Country. Ela vem em dois formatos: disco simples com 20 sucessos da carreira da banda e disco duplo + DVD, com um álbum bônus de gravações caseiras, ao vivo e inéditas e uma compilação desses momentos em vídeo. Uma palavra pra definir isso? Imperdível. Outra? Inestimável.
Se você ainda não conhece o Jayhawks, faça o favor de procurar a sua fonte mais próxima - download, CD's importados, bolso dos pais, discoteca do amigo - mas ouça.

Logo após fazer a lista dos 45 piores discos do pop rock nacional entre 1998 e 2008, percebi que havia uma outra relação de álbuns a ser feita. De fato, pouco tempo depois da lista dos piores ser publicada, recebi pedidos de leitores que queriam que eu dissesse quais seriam os melhores discos do mesmo período. Me pediram nacionais e internacionais e me detive a selecionar trabalhos feitos por artistas brasileiros. Não que listas de bandas e cantores/as gringos/as não estejam nos planos, mas, por ora, vamos falar bem das pessoas e seus discos, certo?
O conceito usado para essa nova lista não mudou. Os discos são colocados em ordem cronológica, com uma das três classificações - muito bom, excelente e clássico - para distinguir os trabalhos e eu me preocupei em ser o mais plural possível, evitando deixar a balança pender para o lado independente ou para o lado mainstream da produção musical brasileira dos últimos dez anos. Me senti tentado a incluir artistas como André Mehmari, Guinga, Chico Pinheiro e Hamilton de Holanda, mas deixei-os de fora por achar que seus trabalhos - todos belíssimos - são menos pop que o necessário para figurar numa lista como essa.
A verdade é que, pela quantidade de artistas novos, independentes e pouco conhecidos que estão nessa lista, a chance de mostrar possibilidades para o leitor aumenta. Essa é a parte mais legal de se escrever sobre música. Por outro lado, a presença de artistas eminentemente pop na relação atesta que os ouvidos devem estar voltados para todas as direções. Há nomes muito conhecidos, outros nem tanto. Sendo assim, leia, releia, fale mal, concorde, discorde, comente. As críticas construtivas sempre são bem aceitas.
Los Hermanos, mundo livre s/a, Marisa Monte, Nação Zumbi e Adriana Calcanhotto aparecem, cada um, com dois trabalhos.
Felizmente - para todos nós que gostamos de música - essa nova lista tem dez discos a mais que a anterior.

Adriana Calcanhoto - Marítimo (1998)
(Excelente)
O quarto disco da cantora e compositora gaúcha permanece como seu melhor e mais preciso registro. Com capacidade de sobra para ousar e conseguindo sua identidade musical própria, Adriana alcança um nível altíssimo em Marítimo. Mesmo que o disco não tenha intenção, a idéia de algo fluido é latente por todas as canções, principalmente na busca de uma ponte com o outro lado do Atlântico - mais precisamente com Portugal. Tudo isso é totalmente subentendido, discreto, classudo e aparece de forma brilhante em canções próprias ("Vambora", "Canção Por Acaso), parcerias ("Pista de Dança" - com Waly Salomão, "Asas" - com Antônio Cícero) e versões luminosas como "Por Isso Corro Demais" (Roberto e Erasmo), "Quem Vem Pra Beira do Mar" (Dorival Caymmi, com participação do próprio) e "Mais Feliz", de Bebel Gilberto, Dé e Cazuza. Uma beleza, produzida por Liminha.

mundo livre s/a - Carnaval na Obra (1998)
(Excelente)
Jorge Ben, hip-hop, noise, beats eletrônicos, letras politizadas e até uma influência inesperada de Radiohead, tudo isso coexiste harmonicamente em Carnaval na Obra, o terceiro disco do mundo livre s/a. Aqui Fred Zeroquatro e sua trupe resolvem ampliar o espectro musical da banda, co-fundadora do chamado Mangue Beat, ao lado de Chico Science no início dos anos 90. Os vocais entediados dão o contraste necessário à fúria com que percussões, guitarras, cavaquinho e toda a massa de efeitos são colocados em cada canção. Em "Alice Willians" há um aceno simpático aos ritmos do norte do país, especialmente o carimbó, em meio a um ataque de bateria como há muito não se ouvia. A sensualidade escrachada de "Bolo de Ameixa" é o lado-B do lirismo techno-bossa de "Maroca", enquanto "Édipo, o Homem Que Virou Veículo" é puro suingue jorgebeninano. A beleza noise apocalíptica de "Compromisso de Morte" é o final act desse disco assustador. Ouvindo trabalhos como esse, não dá pra não lamentar a ausência absoluta de criatividade na música feita hoje, onze anos depois.

Lobão - A Vida é Doce (1999)
(Excelente)
Nem a maior antipatia pela figura de Lobão é capaz de impedir o reconhecimento da quantidade de acertos presentes em A Vida É Doce. Neste trabalho, ele conseguiu, finalmente, dialogar com a modernidade, inserir blips e blops eletrônicos, flertar com o trip hop e, ainda por cima, vender tudo isso com autonomia nas bancas de jornais. Era o auge da "fase independente" do cantor e a beleza desse disco atestava que ele tinha, de fato, algo a dizer e que merecia o respeito exigido após supostas sabotagens sofridas por ele em sua luta por independência criativa ao longo dos anos. Deixando isso de lado, a Vida É Doce traz a melhor balada já composta por Lobão, "Vou Te Levar", com arranjos de cordas - compostos pelo próprio Lobo - e letra bela. Há também a inteligência de "Ipanema No Ar", na qual ele ressalta as belezas de um Rio de Janeiro cinzento e chuvoso. Essas duas canções, além da faixa-título, já credenciam o disco para essa lista.

Ira! - Isso é Amor - (1999)
(muito bom)
O Ira! sempre foi acusado de imaturidade por críticos, mas detém um público fiel ao longo dos tempos. Após uma sucessão de trabalhos de qualidade inferior na década de 90, a banda via um novo começo na então recém-criada Abril Discos. Veio então Isso É Amor, um compêndio de versões, enquanto o Ira! não compunha material inédito. O que poderia ser uma atitude picareta por parte de Nasi, Scandurra e cia, resultou num honestíssimo disco de homenagens a todo tipo de artistas, muitos deles inesperados. Há versões para contemporãneos da banda, como "Teorema" (Legião Urbana), "Chorando no Campo" (Lobão) e "Telefone" (Gang 90), homenagem à MPB dos anos 60/70, "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo" (Milton Nascimento e Lô Borges), "Sentado À Beira do Caminho" (Roberto e Erasmo Carlos), "Jorge Maravilha" (Julinho da Adelaide, pseudônimo usado por Chico Buarque ao longo dos anos negros da ditadura), além de interessantes resgates de "Flash-Back" (do two-hit wonder niteroiense, Dalto) e "Minha Gente Amiga", de Ronnie Von. Um painel belo de uma banda procurando se reinventar com humildade.

Skank - Maquinarama (2000)
(Muito bom)
A banda mineira chegava a este quinto disco sem saber o que fazer da vida. Os reggaes misturados com batidas da Jovem Guarda já aparentavam esgotamento de formato e seu tom excessivamente pulante e alegre quase condenavam o Skank a ser uma banda apenas dançante, o que "não pega bem" quando um artista quer ser levado a sério. Bobagem. Da indefinição estética, surgiu esse belo disco de transição. Se Samuel Rosa e sua turma tivessem optado pelo pop britânico decalcado de "Ali" e "Três Lados" ou pela belíssima e arejada neo-bossa "Balada do Amor Inabalável" (uma inusitada parceria com Fausto Fawcett) ou ainda pelo flerte latino de "Canção Noturna", tudo seria melhor. Maquinarama é um disco cheio de possibilidades e apontaria para um belo futuro, abortado pela banda quando resolveu forçar a barra e ser o Fab Four mineiro em Cosmotron. Em Maquinarama não há nada estudado e esse é seu maior trunfo.

Rappin Hood - Sujeito Homem (2000)
(Muito bom)
Fazer rap no Brasil sempre foi difícil. Pioneiros dos anos 80 como Thaide e DJ Hum nunca conseguiram escapar das amarras do underground do estilo bem como se limitavam a repetir suas fórmulas mais tradicionais. Rappin Hood foi o sopro de renovação necessário para ampliar os horizontes. Com letras contando a vida dura da periferia paulistana, ele escapa da lenga-lenga dos Racionais MC's a partir do momento que amacia seu discurso em benefício de estabelecer diálogos com outros que não seus companheiros de classe, comunidade ou cruz. Com samplers certeiros de samba, soul nacional e uma verve invejável, Rappin Hood estourou com "Eu Sou Negrão", que contou com participação de Leci Brandão em uma letra de homenagens a grandes nomes da música nacional. Em "É Tudo No Meu Nome" ele chega a encarnar a figura clássica do rapper, mas há sempre a preocupação com a música, a melodia e não apenas com o binômio "rimar e programar batidas monótonas". A maior qualidade deste disco é a sinceridade, mercadoria raríssima num mundo em que as pessoas pensam que Marcelo D2 e Gabriel Pensador são baluartes do estilo.
Nação Zumbi - Rádio S.a.m.b.a (2000)
(Muito bom)
O primeiro disco gravado pela Nação Zumbi sem Chico Science é um belo exemplo de banda se reinventando. A julgar pelo disco anterior, Afrociberdelia, não dá pra saber se Chico teria se voltado para o mesmo experimentalismo que a Nação decidiu empreender nesse disco. Há muito dub, muita citação de hip-hop, muito assombro vocal em Jorge du Peixe, ainda sem achar seu próprio estilo, contribuindo para uma interessante sensação da presença de Chico Science. E há a guitarra de Lúcio Maia, seguramente um dos bambas nacionais do instrumento nas duas últimas décadas. As percussões são arrasadoras, mixadas dentro do estômago do ouvinte e as boas canções também contribuem para a boa degustação do disco. "Caranguejo Na Praia das Virtudes", "Azougue" e, sobretudo, "O Carimbó", são petardos inapeláveis.

Max de Castro - Samba Raro (2000)
(Excelente)
Max de Castro é integrante da chamada "Geração Trama", aquele grupo de artistas que despontaram no início da década, sob o selo da nova gravadora, comandada por João Marcelo Bôscoli. Filho de Wilson Simonal, Max (irmão de Simoninha) empreendeu uma ousada viagem pela música negra setentista produzida no Brasil, de uma forma até então inédita. Com a mente sintonizada no presente e no futuro, Max conseguiu imprimir uma sonoridade própria, cheia de referências legais. Há espaço para beats moderníssimos (geralmente de drum'n'bass) e citações explícitas a nomes como Baden Powell, Cassiano, Tim Maia, Jorge Ben e até Chico Buarque, cujo lado B "Sonho de um Carnaval" é mencionado na letra de "Pra Você Lembrar", a melhor canção de Samba Raro. Esse disco de Max de Castro, cheio de estilo, todo produzido e tocado por ele, é uma beleza que envelheceu dignamente nesses nove anos.

mundo livre s/a - Por Pouco (2000)
(Muito bom)
O quarto trabalho da trupe de Mr. Fred Zeroquatro já aparecia totalmente diferente de seus (bons) discos anteriores. A adoção de uma "banda de mentira" para representar o mundo livre s/a já foi uma severa crítica à pasteurização do sambalanço junto à classe média de Rio e São Paulo. No conteúdo, no entanto, o combo recifense nunca soou tão profissional, afinado e influenciado por Jorge Ben. Canções como "Melô das Musas" ou a faixa-título são crias diretas da reverência ao velho mestre. Há espaço de sobra para outras boas influências, como ska pesado que conduz "Treme-Treme" ou o samba mais clássico em "Super Homem Plus" e "O Mistério do Samba". A verve política das letras de Fred também está presente, principalmente em "Lourinha Americana" e "Batedores (Resistindo ao Arrastão Global)". Mas o grande hit do disco é a sinuosa e jazzy "Meu Esquema", uma canção de amor como só o mundo livre poderia e saberia fazer.

Frank Jorge - Carteira Nacional de Apaixonado (2000)
(Muito bom)
O Sr. Jorge Otávio Pinto Pouey de Oliveira, conhecido como Frank Jorge, é uma figuraça. Ex-participante de duas bandas importantes do rock gaúcho, Cascavelletes e a excelente Graforréia Xilarmônica, e professor universitário, Frank iniciaria uma simpaticíssima carreira solo a partir deste impagável Carteira Nacional de Apaixonado. Não há qualquer tipo de pudor em assumir o flerte firme com as canções e moods da Jovem Guarda e das pop songs douradas do início dos anos 60. A influência de Roberto Carlos, Wanderley Cardoso e outros luminares do estilo é latente. Frank consegue criar uma atmosfera convincente, doce e ingênua, além de conceber boas músicas como "Cabelos Cor de Jambo", "Tá na Boa", "Homem de Neanderthal" e a melhor, "Serei Mais Feliz (Vou Largar A Jovem Guarda)".

Astromato - Melodias de uma Estrela Falsa (2000)
(Clássico)
O disco dessa finada banda de Campinas/SP, deveria ser incluído num imaginário programa assistencial de fornecimento de boa música para a população. Formado por Fabrício, Pedro e Armando, a banda surgiu no fim do milênio fazendo guitar rock com letras em bom português. O disco, lançado pelo selo midsummer madness, após duas demos famosas no circuito underground da época, trazia pepitas de ouro pop como "Cadeialimentar", "No Macio, No Gostoso" e a soberba "Canção do Adolescente", esta certamente um dos grandes hits nacionais dos anos 00. A grande diferença do Astromato para as outras bandas que exploravam microfonias e distorções em meio à doçura pop, foi misturar as referências mais manjadas desse som - Jesus And Mary Chain e My Bloody Valentine - com o tino pop de Teenage Fanclub e mesmo Legião Urbana. Um clássico da década, cheio de garra e ingenuidade.

Simoninha - Volume 2 (2000)
(Excelente)
Mais um integrante dos chamados "artistas reunidos" a lançar disco solo no início das atividades da gravadora Trama. Simoninha, assim como Max de Castro, Jair Oliveira, Daniel Carlomagno e Pedro Mariano, despontaram para a mídia ao misturar influências de música negra brasileira dos anos 70 com batidas eletrônicas modernas. Simoninha - assim como seu irmão, Max de Castro - procurava investigar a produção do chamado "soul brasileiro" e atualizá-la, mas de uma forma mais preocupada em reviver os grandes intérpretes do gênero - Cassiano, Tim Maia - do que modernizá-lo. Seu primeiro disco é uma boa prova de que ele conseguiu o objetivo. Canções como "Aquele Gol", "Ter Você", a boa versão de "Eu e a Brisa" (de Johnny Alf) e a bela "Flor do Futuro" são bons exemplos do êxito alcançado por Simoninha.

Vitor Ramil - Tambong (2000)
(Excelente)
Tambong é um belo disco que pretende - e consegue - ser relevante no contexto nacional e, ao mesmo tempo, integrar-se à cultura e música dos países platinos. Para isso, Vitor Ramil rumou para Buenos Aires e gravou duas versões do disco, em português e espanhol, recrutou o argentino Pedro Aznar para a produção, ao mesmo tempo que convocava músicos brasileiros como João Barone, Lenine e Egberto Gismonti. O resultado é ímpar e belo. A regravação de "Foi No Mês Que Vem" (do próprio Vitor, lançada anteriormente no disco À Beça - 1996), salta aos ouvidos pela beleza acachapante dos versos, misturando presente e passado num tempo verbal novo, com a moldura genial do piano de Gismonti. "A Ilusão da Casa" e "Um Dia Você Vai Servir a Alguém" também são um belos exemplos da chamada "estética do frio", como Ramil define sua mistura de causos gaúchos e castellanos. Sensacional.

Bebel Gilberto - Tanto Tempo (2000)
(Muito bom)
Este disco marcou o retorno de Bebel Gilberto ao universo da música, no qual ela praticamente nasceu. Filha de João Gilberto e Miúcha, Bebel era da turma que habitava as noites do Baixo Leblon carioca nos anos 80. Parceira de Cazuza e Dé (seu ex-marido) em "Preciso Dizer Que Te Amo", ela chegou a lançar um disco homônimo em 1986 e outro, em 1991, chamado De Tarde Vendo O Mar, que não despertaram atenção do público ou crítica. Nove anos depois a moça voltaria à carga, totalmente reformulada com esse terceiro disco, cheio de misturas simpáticas de ritmos brasileiros e sonoridades eletrônicas. O repertório traz pequenas maravilhas como as versões para "Samba da Bênção" (Baden Powell e Vinícius de Moraes), "Samba e Amor" (Chico Buarque) e "Samba de Verão" (Marcos Valle), além de revisitar outra parceira oitentisa com Dé e Cazuza, "Mais Feliz". Com produção dividida entre Suba e Mario Caldato Jr e contando com participação de gente tão distinta quanto o duo eletrônico Thievery Corporation e o
percussionista João Parahyba, Tanto Tempo tornou Bebel uma estrela internacional.

Marisa Monte - Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000)
(Muito bom)
Marisa Monte permaneceu quase seis anos sem gravar um disco de material inédito. Entre 1994 (lançamento de Verde Anil Amarelo Cor de Rosa Carvão) e 2000, apenas o registro ao vivo Barulinho Bom, com algumas canções novas inseridas num EP-bônus. O retorno de Marisa veio com esse belo Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, no qual observamos uma sutil guinada em sua maneira de compor, principalmente
pela adoção maior de elementos pop, internacionalizando sua música de uma maneira até então inédita. Sai o flerte seguro com o Brasil sob os olhos da classe média e entra a cantora universal, ainda que brasileira. Pode parecer pouco, mas o hit "Amor I Love You" é um bom exemplo dessa mudança de foco, cheio de arranjos emulando sonoridades beatles. A bela e tristíssima interpretação de "O Que Me Importa" também traz um arranjo pop convencional e belo. Ainda há um simpático
samba de Paulinho da Viola, "Para Ver As Meninas", e a popíssima "Não Vá Embora", que formam um belo painel dessa chegada de Marisa Monte à maturidade artística.

Nei Lisboa - Cena Beatnik (2001)
(Excelente)
Um dos maiores tesouros musicais do Rio Grande do Sul, Nei Lisboa é um trovador urbano e boêmio, habitante do bairro do Bom Fim, em Porto Alegre, ainda que seja natural de Caxias do Sul. Com uma carreira aleatória, passando por várias gravadoras, Nei chegava ao ano de 2001 com esse Cena Beatnik, após passar o fim do milênio excursionando pelo sul do país, cantando clássicos do pop internacional, que ele reunira para versões voz/violão em seu trabalho anterior, o belo Hi-Fi. Retomando as letras autorais, críticas e confessionais, Nei já
mandava o belo verso "o acaso me deixou na porta da tua casa" na faixa-título e adentrava pelas searas do progresso e da perda de ingenuidade. "Zarpar Pro Futuro" é outra bela música sobre otimismo e força para enfrentar adversidades como "pão de queijo ser copyright e pão-de-ló se comprar na Internet", acenando para o passado. O disco é quase conceitual, questionando os benefícios do progresso e os paradoxos da mídia. Cena Beatnik é uma cacetada.

Brilhantines - Cançonetas por ti Entoadas (2001)
(Excelente)
O primeiro CD do Brilhantines é um acerto, do início ao fim. A banda de Cerquilho, interior de São Paulo, propõe aqui uma visita aos anos dourados, não os que vemos na TV, mas aqueles que habitam cada um de nós. Ainda que a roupagem musical escolhida por Neto (vocais), Dadá (bateria), Yuri (guitarra) e Nilton Denardi (baixo) seja o mix de levadas do início do rock e Jovem Guarda com guitarrices indies americanas, a nostalgia paira, feliz, no ar. Tudo no disco beira a perfeição: A produção imprecisa que acaba colocando guitarras sobre bateria, enfatizando a melodia; os vocais precisos de Neto se equilibrando para não exagerar na emoção e, o ponto forte, as composições cheias de apelo pop. Músicas simples e belas como "Dramática" e "Esplendor" remontam ao primeiro disco dos Los Hermanos, enquanto "Amanhã" surge graciosa em seus três minutos de doçura pop irresistível. Belo disco, bela banda.

Pelvs - Península (2001)
(Muito bom)
A Pelvs foi uma banda carioca, integrante de uma cena rock da Cidade Maravilhosa que poucos sabem que existiu. Depois de militar pela casas noturnas do Rio, aparecer nos fanzines, na revista Rock Press (na qual eu escrevia desde 1996), a Pelvs adentrou o terceiro milênio com um disco muito melhor que qualquer registro anterior. De cara, a perfeição pop de "Even If The Sun Goes Down (I'll Surf)" aparecia com uma levada conduzida por pedais wah-wah e encorpada mais além por teclados e metais em brasa. Mas a praia dos rapazes aparece sem muito sol na beleza de "Equador" ou "Sun Of A Beach" e na levada a la Sonic Youth oitentista de "Backdoor". Mesmo cantando em inglês, a Pelvs não procura esconder sua cara de Rio de Janeiro.

Los Hermanos - Bloco do Eu Sozinho (2001)
(Clássico)
Esse disco é um divisor de águas na música pop nacional, queiram ou não. Os Hermanos deixaram o primeiro disco de lado, no qual faziam uma fusão frágil de hardcore com canções românticas para dar luz a um trabalho inovador e bem sucedido. Com a tarefa aparentemente simples de fundir música popular brasileira (em sua vertente mais clássica, indo de Chico Buarque em diante) com sonoridades típicas do rock independente americano (principalmente Weezer, Guided By Voices e Pavement), o quarteto carioca obteve uma sonoridade única e muito nova. Saltam aos ouvidos o entendimento entre os dois vocalistas, compositores, os guitarristas Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, e a capacidade de revezarem-se na autoria das canções ou em sua interpretação, sem que a noção de complemento nunca se perca. Com uma assinatura sonora que ainda comporta metais, teclados e a bateria precisa de Rodrigo Barba, músicas como "A Flor", "Todo Carnaval Tem Seu Fim", "Casa Pré-Fabricada", "Sentimental" e "Retrato Pra Iaiá" mostram todo o espectro sonoro da banda, cheio de nuances e sutilezas. Um disco que apontou para novas possibilidades e influenciou o modo de fazer rock no Brasil definitivamente.

Moreno +2 – Máquina de Escrever Música (2001)
(Muito bom)
O trio formado por Moreno Veloso, Domenico Lancelotti é responsável por uma abordagem moderna da MPB, buscando atualizá-la e promover misturebas aqui e ali. Cada um dos integrantes já lançou seu disco, sendo que o trabalho com Moreno à frente foi a estréia. Aqui o clima é de vitória do experimentalismo sobre a melodia propriamente dita, mas já é possível ver o talento do trio para encontrar climas e nuances corretas dentro do contexto. A versão voz/violão de "Eu Sou Melhor Que Você" é um momento luminoso do disco. O original fora gravado pelo grupo Mulheres Q Dizem Sim no início da década de 1990, no qual Moreno e Domenico, mais o guitarrista Pedro Sá apareceram pela primeira vez. Outro exemplo da capacidade criativa está em "Arrivederci", com levada funk experimentalista. Um trabalho inovador que, infelizmente, fez mais sucesso no exterior, mas que influenciaria a maneira de pensar em produção musical nos anos seguintes.

Pato Fu - Ruído Rosa (2001)
(Muito bom)
O Pato Fu chegava ao novo milênio com o status de banda grande. Um triunfo para uma banda mineira que tinha sua receita sonora se equilibrando entre o referências da psicodelia sessentista, pop rock oitentista e o experimentalismo. Em Ruído Rosa, a banda de Fernanda Takai e seu marido, John Ulhoa, consegue aliar as melhores qualidades em canções como "Eu" (do repertório do grupo gaúcho Graforréia Xilarmônica) e "Tolices" (pepita de ouro do primeiro disco do Ira!, Mudança de Comportamento, de 1984), se apropriando das composições e imprimindo seu estilo agridoce. Em composições próprias, como "Tribunal de Causas Realmente Pequenas" ou a faixa-título, o charme da voz miúda de Fernanda faz a diferença. No fim do disco está a cover de "Ando Meio Desligado", dos ídolos Mutantes, fechando um disco respeitável, talvez o melhor trabalho da banda.

Kelly Key - Kelly Key (2001)
(Excelente)
Sim, ela mesma, Kelly de Almeida Afonso. Antes de ofender o pobre crítico musical, leia essas pequenas linhas. A estréia de Kelly Key ainda não teve paralelo na música popinha nacional. A menina lourinha, com corpão de academia, cantando músicas compostas pelo picareta Latino é nosso correspondente nacional às Britneys e Christinas Aguileras da vida. Com o benefício que o discurso que Kelly adotou era muito mais familiar às meninas púberes que não sabem o que fazer com a vida quando têm 15, 16 anos. Mais que imbelicilizá-las numa aura pós-Xuxa para adolescentes alienadinhas, as músicas de Kelly falavam de sexo, namoro, motel,traição, carência e ressaltavam a auto-estima da mulher, sempre jogada no lixo do machismo da sociedade latino-americana desde sempre. Com produção de
Andinho e do saudoso Tom Capone e mixado em Nova York, as programações de ritmos são ok, o vocal de Kelly - um fio de voz, na verdade - foi devidamente tratado no estúdio e não dá para desabonar músicas como "Baba", "Escondido" ou "Anjo". Não estamos falando da sub-Eliana para baixinhos que hoje aí está. Quando surgiu, Kelly Key era sensual e insinuante na medida certa, convincente, espontânea,
metade vulgaridade, metade sinceridade.

Cassia Eller - Dez de Dezembro (2002)
(Muito bom)
O falecimento prematuro de Cássia Eller em 29 de dezembro de 2001 foi uma perda considerável para música pop nacional. Dona de certa originalidade e estilo orbitando o rock e a MPB com elegância, a cantora carioca gravou discos irregulares ao longo de sua carreira. A partir de 1999, Cássia teria como parceiro e amigo o ex-Titã Nando Reis. Os três trabalhos que ela produziu sob influência das informações de Nando constituem o seu melhor momento. Neste álbum póstumo, produzido por ele, a receita seguida é a mesma dos anteriores, Com Você Meu Mundo Ficaria Completo (1999) e Acústivo MTV (2001), ou seja, covers e músicas de Nando apropriadas por Cássia. Em Dez de dezembro, essa mistura assume um ar plácido e bem resolvido, algo que é atestado pelas belas versões para "All Star" e "No Recreio", músicas de Nando Reis. Os Beatles, sempre lembrados em discos de Cássia, são revistos em interpretações sinceras de "Get Back" e, sobretudo, "Julia". Em "Só Se For A Dois", Cássia também dá nova cor ao original de Cazuza, datado de 1987 e outra versão, dessa vez de Jimi Hendrix, para "Little Wing", também comprova a boa qualidade de Dez de dezembro. O disco póstumo de Cássia Eller é seu melhor trabalho

Nação Zumbi - Nação Zumbi (2002)
(Muito bom)
O disco homônimo da Nação Zumbi mostra opções que não estavam presentes no trabalho anterior, o ótimo Rádio S.AMB.A. Aqui já temos uma banda com total personalidade e praticamente livre da sombra dos tempos em que era liderada por Chico Science. Também estão ausentes os timbres eletrônicos e os flertes com hip-hop, pelo menos da maneira como aconteciam até esse disco. O groove da Nação Zumbi assume uma forma totalmente pessoal, levado adiante apenas por guitarra, baixo, bateria e a abundante percussão. Lúcio Maia, titular da guitarra, continua sem deixar pedra sobre pedra e os vocais de Jorge du Peixe já assumem identidade própria, ainda que emprestem o mesmo tom dos tempos com Science. Surgem pequenas maravilhas como "Blunt Of Judah", "Mormaço" e a invocada "Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada".
Video Hits - Registro Sonoro Oficial (2002)
(Muito bom)
Misturando doses iguais de Jovem Guarda, conterrâneos gaúchos como Frank Jorge, bandas indies dos anos 90 (Teenage Fanclub, Weezer, Super Furry Animals) e o rock anglo-americano da virada da década de 60 para 70, o Video Hits existiu até 2003. Sua estréia na Abril Music com este Registro Sonoro Oficial, apontava para uma direção simpática. O pop bem-humorado de Diego Medina e seus amigos até conseguia escapar do bloqueio cultural que atrapalha as bandas gáuchas quando saem do sul do país. O painel que mostravam era diverso e unia uma inusitada cover de "Silvia 20 Horas Domigo", da fase psicodélica de Ronnie Von e pop songs enguitarradas, como o hit "Vo(c)", além de outras menos cotadas como "O Basset Azul" ou mesmo
"Trobetas de Isaías". Com apenas esse disco gravado e algumas demos, o Video Hits sumiu tão rápido quanto apareceu.

Casino - Casino (2002)
(Muito bom)
Cecília Gianetti era a frontwoman de uma banda chamada 4-Track Valsa. Após algum tempo no underground carioca dos anos 90, ela ressurgiu com o Casino. Dona de uma voz que chegou a ganhar comparações com Nara Leão e à frente de uma proposta de revisitar os anos 60 via Jorge Ben e alguns momentos da Bossa Nova, Cecília e sua banda gravaram esse EP de cinco faixas. Os arranjos são belíssimos, as canções são dotadas de personalidade própria e pelo menos uma delas se destaca aos ouvidos: "A Ponte", na qual a voz esperançosa solta o belo verso "faz um tempo que eu já penso mesmo em me mudar. Largar o meu trabalho, ser contra-produtiva, pra ver televisão, pra ler um livro, dormir demais, rever amigos(...)". Uma pequena maravilha que o tempo levou.
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Celso Fonseca e Ronaldo Bastos - Slow Motion Bossa Nova (2002)
(Excelente)
A associação do letrista Ronaldo Bastos com o guitarrista, cantor e compositor Celso Fonseca sempre produziu discos belos. Neste Slow Motion Bossa Nova, o terceiro da carreira, a dupla acerta a mão novamente e propõe uma revisitação de elementos clássicos da Bossa Nova em meio a uma perspectiva moderna, nunca modernosa. Há espaço para a clássica faixa-título, com letra arejada de Bastos, na qual o vocal sutil de Celso Fonseca canta "you're a soluction to my dilema,
you're my girl from Ipanema, inspiration for my samba in slow motion", que foi tema de um anúncio com Giselle Bündchen, além de pequenos achados como "Ledusha" ou "Satélite Bar", cheias de classe e lirismo. Uma visão bela dos elementos da Bossa Nova sem nunca resvalar para a cópia ou reprodução de tiques.

Leoni - Você Sabe o Que Eu Quero Dizer (2002)
(Excelente)
O ex-Kid Abelha sempre mereceu mais sucesso do que conquistou. Esse segundo disco solo (o primeiro, homônimo, foi gravado em 1993) trouxe o nome dele de volta à ordem do dia. Dono de uma habilidade pop rara e bom instrumentista, Leoni costurou um compêndio de belas canções sobre a maturidade, a passagem do tempo e os valores que mudam a toda hora. Há momentos singelos como em "Criado Mudo", no qual ele assume a persona de um ancião ("mesmo que agora o sol insista em castigar Copacabana, é só um momento, no fim da tarde as sombras sempre vêm deitar na minha cama e no meu pensamento") ou na auto-biográfica "Temporada das Flores" ("me espera amor, que eu tô chegando, depois do inverno é a vida em cores, me espera amor, nossa temporada das flores") ou ainda na brejeira "Fotografia", parceria bem sucedida com Leo Jaime. Um disco de retorno e reconciliação, cheio de belos momentos.

Moska - Tudo Novo de Novo (2003)
(Muito bom)
Paulinho Moska sempre foi visto com má vontade pela crítica musical ao mesmo tempo que mantinha seu público fiel. Dono de um bom senso pop significativo, além de uma bela voz, ele passou a usar apenas o "Moska" após o lançamento do álbum anterior, Eu Falso da Minha Vida o Que eu Quiser. Este Tudo Novo de Novo é o seu mais inspirado momento em disco. De cara vemos uma bela versão para o português de "La Edad Del Cielo", do uruguaio Jorge Drexler. A tradução é literal e transforma a canção em "A Idade do Céu", dando uma nova dimensão ao arranjo original, de 1999. O próprio Drexler participa do disco em outro momento, uma versão de "Dos Colores (blacn y Negro)", outro original seu, desta vez em espanhol, com belo arranjo. Moska também tem seu lado compositor aparecendo nas boas "Pensando em Você" e "Essa É A Última Solidão da Sua Vida". Um belo disco.

Zeca Baleiro - Pet Shop Mundo Cão (2003)
(Muito bom)
Como eu disse na lista de piores discos, quando me referi ao Líricas, Zeca Baleiro é um compositor que não prima pela criatividade. Seu esquema é reempacotar a estética do cantor nordestino esclarecido e irônico, algo que já existia com Belchior, Fagner ou Alceu Valença, e inserir esse discurso para as classes médias acharem sensacional. Mesmo assim, esse Pet Shop Mundo Cão é um trabalho superior de Zeca, principalmente pela idéia de afinar sua proposta e inserir elementos eletrônicos e globais em seus arranjos. Tudo o que ele ainda não conseguira em seus três discos anteriores. Um bom exemplo disso é "Telegrama", com o belo versinho "mas ontem eu recebi um telegrama, era você, de Aracaju ou do Alabama", com uma levada esperta, pontuada por teclados e violões. Outro bom exemplo é "Eu Demiti O Meu Patrão", na qual Zeca diz "ele roubava o que eu mais-valia", em meio a um xote estilizado. É o melhor trabalho da carreira do cantor e compositor maranhense.

Domenico + 2 - Sincerely Hot (2003)
(Muito bom)
Este é o segundo disco do trio formado por Kassin, Moreno Veloso e Domenico Lancelotti, desta vez tendo Domenico à frente dos trabalhos. A diferença para o volume que trazia Moreno no comando é que o experimentalismo está a favor da música e não o contrário - como às vezes acontecia anteriormente. A ênfase na renovação da música popular ainda é a principal característica do disco, principalmente em "Te Convidei pro Samba", com uma levada irresistível e vocais
cheios de efeitos. Em "Aeroporto 77" uma atmosfera lounge conduz a melodia, que parece saída diretamente dos anos 60. A melhor faixa, contudo, é "Felizes Ficaremos na Estrada", com letra declamada e um clima anos 70 de largação total em meio a samplers e tecladinhos.

Los Hermanos - Ventura (2003)
(Clássico)
O terceiro disco dos Hermanos é totalmente diferente de seu antecessor, o ótimo Bloco do Eu Sozinho. E, ainda assim, mantém o mesmo nível do trabalho anterior, ainda que aponte para outra direção. O que se insinuara no Bloco - a fusão de MPB com rock noventista - assume uma deslavada predileção pela melodia e pela construção de canções com identidade própria em Ventura. Muita gente não entendeu que os Hermanos buscavam criar o que Marcelo Camelo definiu como "música de inconsciente coletivo", aquelas canções que te lembram almoços de domingo com a família ou férias na serra. Ventura é um trabalho sutil, impregnado de um espírito aventureiro contagiante, de uma banda trilhando um caminho próprio e não se importando com nada além de criar boa música. A levada dolente de "Samba a Dois" abre o disco e vários momentos memoráveis aparecem. A letra misteriosa de "Do Sétimo Andar", a levada a la Weezer de "Cara Estranho", a beleza de "O Velho e o Moço", o piano Ivan Lins de "Conversa de Botas Batidas" e a marcinha "Deixa O Verão". Resumindo, um clássico.

Ed Motta - Poptical (2003)
(Muito bom)
Esse foi o primeiro disco que Ed Motta lançou pela Trama. A obra do compositor tijucano se divide em discos "comerciais" e "difíceis", sendo que Poptical se insere na primeira categoria, o que, no caso de Ed Motta, sempre significará um produto de qualidade e cheio de nuances a serem exploradas. A preponderância dos grooves de funk setentistas continua a valer, dessa vez com uma influência cada
vez maior de timbres decalcados do jazz rock de gente como Steely Dan. Faixas dançantes e bem legais como "Tem Espaço Na Van", "Eu Avisei" e "Que Bom Voltar" convivem com momentos mais intensos como "Minha Casa, Minha Cama, Minha Mesa" ou "Pra Se Lembrar". Com mais teclados que os trabalhos anteriores, Poptical é um belo disco de música pop nacional, bem executado e criativo.

Trio Mocotó - Beleza, Beleza, Beleza!! (2003)
(Muito bom)
Este disco é o segundo produzido pelo Trio após sua volta em 2001. Com Skowa efetivado como membro após a saída de Fritz Escovão e capitaneado por Nereu e João Parahyba, o Trio Mocotó ganhou fôlego para manter o nível de seus melhores momentos nos anos 70. Novas versões de "Coqueiro Verde" (Roberto e Erasmo Carlos) e "Eu Também Quero Mocotó" (Jorge Ben) convivem com leituras inéditas e cheias de
malandragem como "Replay" (gravada originalmente pelo Trio Esperança) ou a emocionante versão para "Dingue Li Bangue", do repertório de Wilson Simonal, com participação de seus dois filhos, Max de Castro e Wilson Simoninha. Mesmo com a presença de gente moderninha como Zuco 103, Apollo 9 e Anvil FX, o disco não resvala para aquelas atualizações vazias e sem sentido e mantém intacto o espírito do samba-rock, estilo que o Mocotó criou no fim dos anos 60. Beleza,
beleza, beleza.

Violins - Aurora Prisma (2003)
(Muito bom)
O indie rock nacional contabiliza bons achados e o Violins é um deles. Original de Goiânia, a banda liderada por Beto Cupertino tem em seu primeiro disco o melhor momento da carreira. Aurora Prisma é um intenso mosaico com influências de Radiohead fase The Bends, folk rock, cheio de teclados, cordas e climas tristes, que servem de moldura para letras em bom português - até então uma novidade para a banda, que compunha em inglês - que remetem diretamente aos trabalhos finais da Legião Urbana, principalmente A Tempestade e a climas inequívocos de artistas setentistas como Beto Guedes. As letras são um belo atrativo dessas canções (e permaneceriam nos discos posteriores do Violins), com belos achados como "eu estive em tantas batalhas que os meus filhos não me conhecem mais, eu estive em tantas batalhas que os seus gritos não me comovem mais" (em "Ex-Falso") ou "feche seu corpo e nunca me deixe sair" (em "Feche Seu Corpo"). Um disco que permaneceu único na própria obra do Violins, que enveredaria por um rock mais básico nos discos seguintes, Tribunal Surdo e A Redenção dos Corpos.

Vanessa da Mata - Essa Boneca Tem Manual (2004)
(Excelente)
Esse disco da cantora matogrossense é um exemplar raro na produção pop atual. Ao mesmo tempo autoral e universal, o segndo trabalho de Vanessa da Mata evolui constantemente e revela detalhes muito legais. Neste álbum, também produzido por Liminha, Vanessa mostra influências de reggae sutilíssimas, samba e habilidade para mesclar suas composições próprias com versões legais ("História de Uma Gata", de Chico Buarque, "Eu Sou Neguinha", de Caetano Veloso) e contextualizar
tudo sem problemas ou forcação de barra. A voz belíssima e a interpretação apaixonada e extremamente feminina de Vanessa fazem a diferença e a colocam no mesmo patamar de medalhonas como Marisa Monte ou Adriana Calcanhotto. A grande beleza desse disco, no entanto, está mesmo nas canções compostas por Vanessa, como "Ainda Bem", "Joãozinho", "Essa Boneca Tem Manual" e na cortante beleza de
"Nossa Música". Sem falar no sucesso radiofônico inesperado de "Ai,Ai,Ai", que, apesar da superexposição, é outra bela canção.

Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede - Vagabundo (2004)
(Excelente)
Essa inusitada parceria produziu um dos melhores discos da carreira de Ney Matogrosso e deu um novo sentido ao combo percussivo de Pedro Luís. Com um repertório que traz canções de Pedro ("Inspiração","Seres Tupy" e a brejeira "Noite Severina") em meio a clássicos do cancioneiro nacional (como "Disritmia", de Martinho da Vila e "A Ordem é Sambar", de Jackson do Pandeiro), Vagabundo é um
disco moderno e capaz de agradar até a quem nunca ouviu nenhum dos dois artistas. A voz de Ney Matogrosso permanece intacta à ação do tempo e ele exibe sua habitual competência enquanto Pedro Luis e sua Parede sabem exatamente o momento de sobressair ou simplesmente servir de pano de fundo. Maravilha.

Adriana Partimpim - Adriana Partimpim (2004)
(Excelente)
A idéia era fazer "um disco infantil para adultos", segundo palavras da própria Adriana Calcanhotto, usando o sobrenome Partimpim, incorporando uma persona distinta, especialmente para esse projeto. Com a produção de Dé Palmeira, Sacha Amback e da própria, o disco é uma delícia e conta com a participação do trio + 2 (Moreno Veloso, Kassin e Domenico Lancelotti), que conferiu um ar moderninho simpático ao todo. O repertório traz belas canções de Arnaldo Antunes ("Saiba"), Paula Toller ("Oito Anos") e "Ciranda da Bailarina" (Chico Buarque e Edu Lobo), além da soberba versão para "Fico Assim Sem Você", da dupla Claudinho e Buchecha. Um trabalho ímpar, diversificado e ousado.
Mombojó - Nadadenovo (2004)
(Muito bom)
O primeiro disco do Mombojó foi recebido com entusiasmo em 2004. Ali parecia surgir uma espécie de segunda geração do mangue beat, mesmo que as influências sejam bem diferentes daquelas que inspiraram Chico Science e mundo livre s/a, todos, assim como o Mombojó, originários de Recife. Nadadenovo é um belo exemplo de fusão de rock com música urbana nordestina, não sobrando espaço para qualquer tribalismo ou safari cultural. É apenas mais uma banda de rock captando sua
inspiração na música de sua cidade. Somam-se ao rock o samba e doses light de percussão e programações eletrônicas, fazendo de canções como "Nem Parece", "Absorva" ou a bela "Baú", belos espécimes dessa liga sonora ainda pouco conhecida do resto do país.

Hurtmold - Mestro (2004)
(Muito bom)
O Hurtmold está na batalha desde 1998 e sua idéia original é fazer o que as pessoas entendem por post-rock. Isso quer dizer longas canções com vários efeitos de guitarras, microfonias, distorções e alternâncias de timbres. Mas o quinteto liderado por M.Takara não faz isso, pelo menos, não só isso. Com vários instrumentos percussivos e artesanais, além de um talento raríssimo para compor belas melodias, o Hurtmold atinge nesse seu segundo disco um patamar admirável para uma banda nacional. No mesmo nível de gente como Tortoise e Mogwai, o
Hurtmold tem a vantagem de soar absolutamente jazzy e brasileiro muitas vezes, atingindo níveis que lembram um King Crimson contemporâneo, se isso fosse possível. Em Mestro eles vão além do proposto no primeiro disco, Cozido (2002) e reafirmam-se como uma força no cenário underground. Atualmente o Hurtmold é a banda de acompanhamento de Marcelo Camelo em seus shows solo e responsável pela sutileza absoluta de várias canções de seu disco Nós. Em Mestro o bicho pega.
Nando Reis - MTV ao Vivo (2004)
(Excelente)
A carreira solo de Nando Reis é calcada no folk rock. Ele mesmo diz que tem em Neil Young sua maior referência como compositor e, principalmente, como cantor, uma vez que ambos não têm exatamente uma bela voz, mas se viram como podem. Nando chegava a este registro ao vivo depois de lançar três discos e colaborar intensamente com Cássia Eller, dois fatos que lhe deram projeção nacional como artista solo. Além disso, ele havia deixado os Titãs pouco tempo antes de uma maneira, digamos, não amistosa. O repertório desse show, gravado em Porto Alegre, é irretocável e mostra um Nando com sede de palco e liderando sua banda Os Infernais, como se essa fosse sua última apresentação. Boas canções aparecem em versões energéticas como "A Letra A", "No Recreio", "Por Onde Andei", além de três músicas pinçadas do repertório dos Titãs, "Marvin","Não Vou Me Adaptar" e
"Os Cegos do Castelo". Um belo show em um belo disco.

Luisa Mandou um Beijo - Luisa Mandou um Beijo (2005)
(Excelente)
A banda carioca Luisa Mandou Um Beijo merece muito sucesso em sua carreira. Comandada por Fernando Paiva e contando com os vocais angelicais de Flávia Muniz, a Luisa concentra suas energias em dar sua versão personalíssima do indie rock americano noventista e misturá-lo de maneira muito sutil com sonoridades brasileiras dos anos 60, sem que você perceba. As referências também se detém sobre a própria cidade do Rio de Janeiro, musa inspiradora discreta de todo o
disco. Com canções doces como "Bauhaus Today", "Amarelinha", "Hoje O Mar Dançou No Céu", "Desfeito em Luz" e a cinematográfica "Anselmo", a Luisa fez um discaço de estréia, diferente de tudo que se faz no Brasil hoje em dia.

Curumim - Achados e Perdidos (2005)
(Muito bom)
Luciano Nakata, o Curumin propriamente dito, é um sujeito com muito talento. Partindo do referencial funk/soul brasileiro setentista, do reggae e de influências mais recentes como hip-hop e techno, Curumin cria um painel bastante original do que se chamava de samba-rock. O maior traço dele é a capacidade de 1tornar esse ritmo brasileiríssimo algo mais universal e moderno, sem qualquer perda de identidade no meio do processo. Com composições próprias bastante legais como "Guerreiro", "Cadê O Mocotó" e na cover de "You Haven't Done Nothing", canção raivosa de Stevie Wonder, Achados e Perdidos é um disco extremamente bem feito e cheio de charme próprio.

Cidadão Instigado - Método Tufo de Experiências (2005)
(Muito bom)
Fernando Catatau é o próprio Cidadão Instigado e o responsável por esse disco absolutamente ímpar no cenário musical brasileiro. A quantidade de referências que ele propõe em Método Tufo de Experiências é tamanha que o disco exige várias audições para uma interpretação mais ou menos boa. O que se ouve é uma música nordestina (Fernando é de Fortaleza, Ceará) extremamente inteirada do que acontece no mundo, seja no presente, seja no passado. Há referências à música brega nordestina - uma força cultural enorme naquela região do páis - em meio a guitarras latinas ou pesadas ou ambas e teclados que constroem uma parede musical obsessiva. A primeira faixa do disco, "Te Encontra Logo" casa violões latinos, percussão e o timbre de voz característico de Catatau, como quem convida para uma conversa para falar de amor e de absolutamente todas as suas nuances. Uma porrada.

Terminal Guadalupe - Você Vai Perder o Chão (2005)
(Muito bom)
Direto de Curitiba para o mundo, o Terminal Guadalupe é uma bela formação que se assume como praticante do "pop de garagem". Na verdade, o que Dary Jr. e sua banda mostram é uma boa capacidade de sintetizar influências de rock oitentista inglês - Smiths, por exemplo - e brasileiro - principalmente Legião Urbana. Dary, cujo timbre se assemelha bastante ao de Renato Russo, se concentra nas letras e nos dá belos exemplares como "é quase dia e eu permito que o silêncio invada o derradeiro instante de me perguntar se fui, se ainda vou - eu nunca estou atento" (em "Tambores") ou "que o desamparo leve a saudade o meu amor foi solidariedade" (em "Lorena Foi Embora"). Boas melodias, bons vocais, belas letras é o que o Terminal Guadalupe tem para oferecer.
Marisa Monte - Infinito Particular (2006)
(Excelente)
Marisa Monte conseguiu, ao longo de sua carreira, uma certa independência criativa, fato mais ou menos raro por essas bandas. Isso credenciou a moça para o sucesso entre críticos e público, quase sempre unânimes nos elogios a seus discos. Em Infinito Particular, Marisa quase consegue repetir o êxito de seu melhor trabalho - Verde, Anil, Amarelo, Cor De Rosa e Carvão, de 1994 - através de uma sonoridade que se equilibra gentilmente entre as experiências dos Novos Baianos e a tradição de uma Gal Costa setentista, misturando informações de diferentes fontes, usando olhares internos e externos para a tal MPB, velha de guerra. Com a direção musical de Pedro Baby (filho de Baby Consuelo e Pepeu Gomes), Infinito Particular traz arranjos serenos e belos, principalmente na faixa-título e na soberba "Vilarejo". A voz de Marisa se mostra saudavelmente madura e preenche espaços sem afetação e com uma elegância pouco vista atualmente.

Mariana Aydar - Kavita 1 (2006)
(Muito bom)
O primeiro disco de Mariana Aydar tinha tudo para fazer figuração entre tantas estréias de novas e novíssimas cantoras nacionais. A personalidade da moça, no entanto, faz toda a diferença e isso se nota nos detalhes ouvidos ao longo desse Kavita 1. Mariana é espontâneamente sensual, sabe disso e usa esse dote a favor da interpretação das canções sem, no entanto, nunca resvalar para o exagero. Ela teve talento para costurar um instrumental econõmico e misturar estações ao longo do repertório do disco. Se há uma versão excelente para "Deixa O Verão" (Los Hermanos), há o contraponto em "Zé do Caroço" (Leci Brandão), tudo com muito bom gosto, belos arranjos e a voz gentil da menina.

Superguidis - Superguidis (2006)
(Muito bom)
A absoluta despretensão dessa banda gaúcha é seu maior trunfo. Partindo do terreno quase estéril do rock indie americano dos anos 90, pegando emprestadas suas guitarras e usando-as como moldura para letras simples - quase simplórias - o Superguidis conseguiu um espaço no mundinho indepentende nacional. A tarefa pode parecer difícil, mas os rapazes têm talento: o vocal quase entristecido que lamenta a ausência de um manual de instruções para entender a pessoa amada ("O
Manual de Instruções") é o mesmo que tem auto-ironia de sobra ("O Banana") e não hesita em mandar a pessoa ex-amada para aquele lugar em "O Raio que o Parta", com o cáustico verso "tenho um monte de coisa para conquistar e não quero você por perto".

Arnaldo Antunes - Ao Vivo no Estúdio (2007)
(Muito bom)
A carreira solo de Arnaldo Antunes sempre esteve um passo além do pop, se perdendo em referências concretistas e caracterizada - justamente até - como "esquisita" para um público maior, até mesmo aqueles que gostavam dele quando era um dos Titãs. Arnaldo se redime de todas as suas tentativas de misturar a Semana de 1922 e o rock'n'roll nesse registro ao vivo. Ele reuniu parceiros (Nando Reis,
Marisa Monte, Carlinhos Brown) e amigos (Branco Mello, Edgard Scandurra) e reviu muitas canções de seus irregulares discos. As versões gravadas aqui são melhores que os originais e músicas como "Não Vou Me Adaptar" (com Nando Reis, do repertório antigo dos Titãs), "Saiba" (gravada por Adriana Calcanhotto em seu Adriana Partimpim) ou "Um a Um" (com Marisa Monte e Carlinhos Brown) ganham novo fôlego e novas cores. Há mais momentos luminosos como "Socorro", "Eu Não Sou da Sua Rua", "Quatro de Dormir" e a simpática cover para "Qualquer Coisa", de Caetano Veloso. Bom, muito bom.

Renato Teixeira - Ao Vivo no Auditório do Ibirapuera (2007)
(Excelente)
Renato Teixeira é um músico caipira, nunca sertanejo. Adepto das verdadeiras raízes culturais da música de viola, Renato é um representante dessa tradição oral que se perverteu a partir da década de 1980 com o deslumbre dos cantores do campo pela cidade. Com um repertório inspiradíssimo e gravado por muita gente boa na MPB como Elis Regina, Gal Costa e Almir Sater, Renato Texeira mantém-se ativo
desde 1971 e juntou seus maiores sucessos num show ao vivo no Ibirapuera, em São Paulo. Estão presentes belas canções como "Frete", "Amanheceu Peguei A Viola", "Romaria" ou "Tocando em Frente", todas cheias de passagens visuais, sinceridade e autenticidade, como a música caipira deve, realmente, ser.

Jonas Sá - Anormal (2007)
(Muito bom)
Irmão mais novo do guitarrista Pedro Sá (da Banda Cê, de Caetano Veloso) e amigo da nova geração de músicos cariocas, Jonas Sá é um novíssimo talento a dar as caras no combalido cenário musical. Como o nome do disco já diz, Jonas não é exatamente um músico convencional, mas suas canções são dotadas de um tino pop invejável a bambas como Lulu Santos ou Leoni. Produzido por ele e por Moreno Veloso, Anormal é traz 13 canções que se valem do terreno aberto por Los Hermanos
e o trio +2 no início dos anos 00. O pop dourado de "Vs" traz o verso "estou tentando conversar com o mundo que é pra ver se eu consigo me entender", "De Mim Para Eu" traz uma levada de bateria eletrônica tocada ao vivo com teclados enquanto "Comunicação" poderia ser uma faixa de Ventura, terceiro disco dos Hermanos. Jonas Sá é moderno sem ser vazio e se vale de elementos musicais sólidos para servir um prato musical raro nesses dias.

Julio Reny - Primavera do Gato Amarelo (2008)
(Excelente)
Contabilizando todas as fases de sua carreira, Primavera do Gato Amarelo é o nono disco de Júlio Reny. Aqui ele expõe as dores e decepções de um divórcio e a saudade que sente da filha de nove anos. A saída estética para isso foi criar um painel de pop rock setentista, cheio de timbres e acenos implícitos às melhores canções de Roberto e Erasmo dessa época. Há também um toque de Beatles por todo o caminho. Há momentos belos ao longo do disco, principalmente em "Chegou a Primavera", "Aconteceu no Verão", "Noite de Ingleses", todas com cheiro de nostalgia que, por mais que sejam relatos auto-biográficos, parecem comuns a todo mundo que tenha coração e por ele tenha sofrido alguma vez na vida. Sensacional.

Marcos Valle - Conecta ao Vivo no Cinemathéque (2008)
(Excelente)
Esse álbum é mais uma celebração que um registro de um show para um disco. Marcos Valle sobe ao palco do Cinemathéque, casa noturna muderninha do Rio, vai desfilando seu repertório mais clássico em meio a uma horda de convidados especiais que incluem Marcelo Camelo, Fino Coletivo e o trio +2. No comando de seu piano Fender Rhodes, Valle vai misturando suas composições com as dos convidados, como a fusão de "Nem Paletó Nem Gravata" que desemboca em "O Vencedor" (de Marcelo Camelo) ou "O Cafona", que empresta trechos de "Sincerely Hot", de Domenico Lancelotti. O grande momento, no entanto, é a versão atualizada e grooveada de "Estrelar", aquela do "tem que correr, tem que suar, tem que malhar, vamos lá", aqui totalmente despida de sua aura kitsch. Só faltou uma interpretação matadora para "Bicicleta" pro baile ficar completo.

Fernanda Takai - Onde Brilhem os Olhos Seus (2008)
(Muito bom)
O primeiro disco solo da vocalista do Pato Fu é um acerto do início ao fim. A idéia de gravar canções do repertório de Nara Leão coloca Fernanda à vontade para recriar alguns clássicos da Tropicália, da Bossa Nova e do que a MPB produziu depois. Com timbres bastante parecidos, a voz de Fernanda não descaracteriza as canções famosas na voz de Nara Leão. A produção respeitosa de John Ulhoa (marido e parceiro de Pato Fu) funciona a favor das músicas e a participação especial de Roberto Menescal em "Insensatez" dá o aval para o todo. Grandes momentos estão em "Estrada do Sol", "Trevo de Quatro Folhas", "Canta Maria" e na tropicalista "Lindonéia". Um belo trabalho de uma boa cantora.

Macaco Bong - Artista Igual Pedreiro (2008)
(Muito bom)
Original de Cuiabá, o Macaco Bong tem apenas quatro anos de existência e está em seu primeiro disco. O trio faz música instrumental e se esbalda em referências que vão do post-rock de bandas como Tortoise ou Mogwai ao jazz de baluartes do fusion como o Weather Report e Pat Metheny. O vigor com que as músicas - sempre longas, beirando os sete minutos de duração - são executadas e a total liberdade em pegar elementos de diversas fontes de inspiração colocam o Macaco como um nome a ser acompanhado de perto. Ouça "Amendoim" e "Compasso Em Ferrovia" e comprove.

Quando você pensa em 1965, em termos de música pop, as imagens de Beatles, Who, Rolling Stones, Beach Boys e demais bandas da época saltam de seu arquivo pessoal, certo? Também dá pra pensar em gente lembrando de discos da Bossa Nova, da Jovem Guarda, confere? Poucos, pelo menos aqui no Brasil, cogitariam incluir nesse escrutínio mental os dois discos que dão nome ao post, principalmente pelo fato de serem eminentemente instrumentais e flertarem com jazz e música latina. Estou falando de A Charlie Brown Christmas e Whipped Cream, do jazzista Vince Guaraldi e do trumpetista Herb Alpert, respectivamente. O quê? Você nunca ouviu falar nessas pessoas? Não se acanhe, vamos logo aos fatos.
Antes de mais nada, ambas as bolachas são indispensáveis, pequenos clássicos de um pop que se perdeu na poeira dessa estrada triste, que foi banido das listinhas badaladas de melhores da década, do século, talvez por serem discos que habitavam as estantes dos pais dos futuros críticos, vá saber. Claro, outro motivo plausível é a total falta de ideologia, mensagem, conteúdo subliminar ou outra forma de diálogo que não a música, pura e simples.
Meu encontro com Whipped Cream se deu há uns dez anos na Modern Sound, loja famosa aqui do Rio de Janeiro. Num daqueles dias (hoje cada vez mais raros), adentrei a loja com um pouco de dinheiro para gastar e nenhuma idéia do que comprar. Para tal, fui nas prateleiras que frequentava menos, a de orquestras e música de outros países. Logo me chamou a atenção a estonteante foto da capa de Whipped Cream, na qual uma belíssima moça aparecia com creme chantilly (ou de barbear, talvez) cobrindo partes estratégicas e se misturando com uma bela saia comprida, dando a impressão de um vestido de noiva. Uma pataca de creme ainda aparecia nos cabelos, como se fosse um enfeite.
Fiquei fascinado. Naquela época eu só sabia que Herb Alpert era um trompetista americano, responsável por um hit na trilha sonora da nova global Os Gigantes (nossa, eu estou velho mesmo...), de 1979. A música chamava-se "Rise" e continha belos floreios de trompete sobre uma base light disco-funk. Pois bem, eu não comprei Whipped Cream naquele dia de 1998/99 pois não confiei em Alpert e porque havia lido várias pequenas menções a ele e sua banda (o Tijuana Brass) como sendo o supra-sumo do easy listening descartável. Gente mais burra.
Alpert é tudo, menos um músico descartável. O sujeito foi um dos arquitetos do pop orquestral - hoje extinto - que tem em Burt Bacharach seu maior expoente. Aliás, ambos cruzaram-se várias vezes nas searas musicais dos anos 60, as mais notáveis quando Burt e Herb uniram-se para compor a trilha sonora de Casino Royale, o primeiro filme baseado nos livros de Ian Fleming, o criador de James Bond. Burt ainda presentearia Alpert com um de seus maiores standards, "This Guy Is In Love With You". A música, incluída no disco Beat Of The Brass (1968), traz uma raríssima performance vocal de Alpert, cantando a letra magistral de Hal David, parceiro de Bacharach.

Não fosse o bastante, Herb Alpert ainda compôs canções que lançaram o maior soulman de todos os tempos, Sam Cooke, prematuramente morto em 1964, e fundou o selo A & M, que empregou gente como Cat Stevens, Sergio Mendes, Carpenters, Joe Cocker, além do próprio Bacharach. Dito isso, Whipped Cream é uma delícia cremosa (o trocadilho é inevitável, gente) com pouco mais que 28 minutos de duração. Canções como "A Taste Of Honey", "Green Peppers", "Whipped Cream", Lemon Tree", "Lollipops And Roses" são pérolas de pop perfeito, afiado, irresistível. A imagem da moça da capa povoou o imaginário masculino de toda uma geração, com muita justiça, diga-se de passagem. Delores Erickson, a modelo escolhida, era amiga de Alpert. Hoje ela é pintora e ainda autografa capas ensebadas, passadas a ela por jovens senhores ainda encantados. Um ícone pop, sutil e que muita gente esqueceu.
O disco contendo as músicas do especial de Natal da turma do Peanuts, liderada pelo simpaticíssimo Charlie Brown, foi o maior sucesso da carreira do pianista Vince Guaraldi. Depois de passar metade da década de 1950 aprimorando sua técnica no instrumento, o compositor encontrou no guitarrista brasileiro Bola Sete um parceiro duradouro no início dos anos 60.

Nada, no entanto, iria comparar-se à popularidade que ele alcançaria ao aceitar o convito de Charles M.Schulz para compor um score para o show dos personagens da turma do Peanuts na rede CBS de televisão. Primeiro com A Boy Named Charlie Brown e depois com A Christmas Time For Charlie Brown, Guaraldi foi responsável por apresentar o jazz a toda uma platéia "leiga", composta por pais e filhos. Os dois trabalhos são perfeitos e absolutamente pop. A inflexão que o jazz de Guaraldi e seu trio dão às canções é moderníssima para a época, trazendo influência de bossa-nova e cool jazz em vários momentos, com espaços até para "Fur Elise" e "Greensleeves"(a primeira de Beethoven e a segunda de autor desconhecido, mas com autoria supostamente atribuída ao rei inglês Henrique VIII, no século XVI). Coisas sérias, portanto, postas em contato com uma audiência que, até então, jamais ouvira nada parecido. Na verdade, o sucesso veio em 1964, com a presença de "Linus And Lucy", incluída no show, que encarou os sucessos dos Beatles em plena beatlemania americana. O disco ainda trazia pérolas como "Skating" ou "What Child Is This" e até hoje detém a liderança dos chamados "holliday albuns", ao lado de Christmans Gift For You, produzido por Phil Spector, com artistas do calibre de Ronettes, Crystals e Darlene Love.

Esses dois álbuns são a prova viva de que era possível dar à música pop um background de história e fatos, que funcionavam a favor do enriquecimento do produto que era feito e posto à venda. Hoje em dia, sem qualquer nostalgia vazia e boba, o pop é um poço sem fundo de lixo e pobreza. Se você tiver tempo, procure os dois discos e dê tempo para eles fazerem efeito em seu aparelho auditivo. Vai valer à pena.

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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