
Um deles canta sobre o amor como fio condutor da própria vida. O outro resolveu fazer um diário de bordo sobre o caminho percorrido em seu carro, devidamente convertido para a energia elétrica. Estes são Bob Dylan e Neil Young, cada um dando sua versão do cotidiano e mostrando ao mundo que estão bem, leves e cheios de vida.
Ainda que seja raro encontrar um mês na história do rock que comporte lançamentos inéditos destes dois ícones, seria necessário uma nova busca para apontar um mês que mostrasse discos realmente bons, caso de Together Through Life e Fork In The Road, trabalhos que merecem destaque em meio às extensas discografias de Dylan e Young, respectivamente.

Dylan está numa fase esplendorosa. Together Through Life é o quarto disco de uma sequência soberba, iniciada em 1997, com Time Out Of Mind. Nesses trabalhos vimos um Bob Dylan lidando com a velhice, com as experiências que ela traz e a juventude que leva em troca. Dos quatro (além dos mencionados, temos Love and Theft, 2001 e Modern Times, 2006) Together é o mais arejado e jovem. Com o passar dos anos, Dylan transmutou-se num cantor de blues, algo que é perceptível em seu registro, cada vez mais fanhoso e sibilante. Ao contrário de soltar alguma profecia ou celebrar algum prazer simulado da modernidade, Bob prefere a farra do rock'n'roll pre-existente, imorredouro, ancestral.
Nada de meditações trascendentais, pelo menos, não de cara. O disco é cheio de pequenas referências à celebração da vida - eterna? - e do quanto isso pode ser bom. A única canção que se compadece das dificuldades, ainda que otimista, é "Life Is Hard", que segue naquela onda "viva, enfrente obstáculos, vença, siga em frente". O resto é diversão na beira da estrada. "Jolene" é um rockão, "Beyond Here Lies Nothing" é um blues mestiço, "Shake Mama Shake" e "It's All Good" só comprovam o sorrisão (disfarçado) que Bob Dylan deve estar soltando por aí.

Neil Young também está feliz. Após chutar a burrice da América de Bush em Living With War (2006) e revisitar o passado em Chrome Dreams II (2007), o sujeito volta com um disco conceitual. Após converter seu Linconl Continental 1959 para uso de energia elétrica (que foi chamado de Lincvolt), Young resolveu reinagurá-lo numa viagem até Washington D.C. Esse diário é o tema central de Fork In The Road, mais uma visão isenta da América pós-Bush do que qualquer outra coisa. A tara de Young por carros é notória. O sujeito já teve um carro funerário, já escreveu uma canção belíssima para este mesmo Lincoln Continental, "Long May You Run", em parceria com Stephen Stills, usou o símbolo do capô do carro na capa de Chrome Dreams II.
Nada mais justo, portanto, que esperar um disco completo com a idéia norteadora sobre quatro rodas. Engana-se porém, que é um trabalho
inacessível para aqueles que andam de trem. Neil Young usa a estrada como metáfora da própria trajetória comum a todos e fala pequenas e singelas mensagens de otimismo típicas de um eleitor de Barack Obama, vendo seu disco chegar às lojas dos USA uma semana depois do pacote presidencial de ajuda às montadoras americanas.
Ao contrário de Dylan, Neil Young não vem numa fase tão boa. Seu último trabalho realmente belo foi Harvest Moon, de 1992. De lá pra cá, Young lançou treze discos de material inédito, além de coletâneas e volumes ao vivo de sua série Archives. Talvez apenas Silver And Gold (2000) e Prairie Wind (2005) mereçam algum destaque em sua discografia. Fork In The Road está no mesmo nível desses trabalhos. Músicas como "Johnny Magic", "Hit The Road" ou "Off the Road" mostram um Neil Young inspirado, mas é em "Light A Candle" que a persona mais célebre do homem vem à tona: o folkster, o trovador baladeiro e dilacerado. E, hoje em dia, uma aparição efêmera dessa faceta de Young é garantia de felicidade.

Resumindo, assim como Van Morrison e Leonard Cohen, dois outros veteranos que lançaram discos ao vivo maravilhoso, Dylan e Young parecem dois garotos. Um percebendo a importância do amor e o outro deslumbrado com seu carro. Justo.
Posts similares:
Bob Dylan é a mensagem
Neil Young
Lupicínio Rodrigues, Bob Dylan e as pedras rolantes
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.