
Arthur Dapieve é um escritor carioca por excelência, ainda que não se enquadre no padrão daqueles nascidos na cidade 021. Fã de boa música - indo do rock ao erudito - e adepto das filosofias de botequim, Dapieve também é jornalista do Globo, onde mantém uma coluna semanal no Segundo Caderno e professor da PUC-RJ.
Suas crônicas e romances são arejados e afiados. Sua escrita é precisa, sem rebuscamentos estéticos, mas nunca pobre ou simplista. Seus temas podem variar do sanduíche de Atum do Bob's ao cenário político nacional, passando pelas aventuras e desventuras de torcer para o Botafogo. Seu romance anterior, De Cada Amor Herdarás Só O Cinismo, é uma simpática apropriação de alguns tiques editoriais do inglês Nick Hornby e revisitações leves à Lolita, de Nabokov.
Em Black Music, seu mais novo romance, Dapieve constrói uma espécie de tragédia shakespeariana em três atos, usando e abusando da liberdade narrativa e assumindo três pontos de vista distintos sobre o mesmíssimo tema. Temos contato com o drama do menino americano Michael Phillips, residente no Rio de Janeiro, sequestrado por um traficante chamado He-Man e sua namorada Jô. É a oportunidade para um safári cultural pelo ecossistema das comunidades carentes e suas relações sociais, seus bailes funks, suas rimas e problemas, ainda que filtrados por uma certa lente de proteção. Isso, no entanto, não atrapalha a leitura - fácil e rápida - e revela um escritor/professor/jornalista no domínio de seu elemento.
Conversei com Arthur sobre Black Music e, sempre simpático e solícito, o homem respondeu às indagações com a sinceridade de um observador do cotidiano carioca, sem pose ou alarde. Dapieve - assim como nós mesmos - é aquela pessoa que está na multidão. Seu livro comprova isso.
- De onde surgiu a inspiração para Black Music?
Arthur: Eu estava preso no engarrafamento em frente à Igreja de São Judas Tadeu, perto da data do santo, contemplando o caos urbano aumentado ali. Pensei que se acontecesse um seqüestro naquele ponto da Rua Cosme Velho ninguém iria nem notar. Achei que isso dava o início de um livro. E, em seguida, fui criando os personagens, na ordem em que eles narram suas partes. Primeiro o garoto negro americano que quer tocar jazz, depois o traficante branco que quer ser rapper e, por fim, a namorada do trafica, mulata e funkeira...
- Como você conseguiu escapar dos clichês inerentes a uma narrativa sobre comunidades carentes e suas ações criminosas?
Arthur: Acho que a violência urbana é algo sério demais para ficar só na mão dos realistas e neo-realistas. Há dimensões simbólicas nela que nem um belo filme como "Cidade de Deus" consegue roçar. Pensei, então, em fazer algo num tom meio farsesco, absurdo, de humor negro, muito a propósito. Isso me permitiu fugir dos estereótipos ou, ao menos, brincar com eles.
- Quais tuas fontes de pesquisa para criar os diálogos e situações do livro?
Arthur: Não pesquisei nada, exatamente para tentar me distanciar criticamente da realidade. Os diálogos foram pescados aqui e ali através dos anos, nas ruas, em shoppings e até aqui em casa mesmo, nas falas de algumas empregadas. Além do mais, lembre-se, fui criado em Copacabana, um bairro cheio de prostitutas, o que me ajudou bastante na parte da Jô, por exemplo...
- O Rio é a sua principal inspiração?
Arthur: Acho que sim. Não confio numa literatura metida a universalista, que não cante a sua aldeia. E o Rio da virada do século XX para o século XXI é a minha aldeia. Ainda que eu quisesse, e não quero, acho que não conseguiria escapar dela, apenas apagaria os rastros, em detrimento da capacidade de criar um universo factível.
- Como surgiu a idéia de separar as narrativas ao longo do livro?
Arthur: O meu primeiro romance, "De cada amor tu herdarás só o cinismo", lançado quatro anos atrás, é quase todo narrado na terceira pessoa. Quando uma ex-professora minha, de literatura, leu, me disse que eu tinha optado pelo mais difícil, que o mais lógico ali teria sido assumir uma primeira pessoa. Pois bem. Ficou sendo um desafio. Em "Black music", eu quis assumir três primeiras pessoas. Portanto, que cada personagem tivesse a sua fala estava já na origem do livro.
- Todos os personagens estão em busca de algo que faça suas vidas se
transformarem. Você acha isso um problema social comum a todas as classes?
Arthur: Não creio nem que tenha a ver especificamente com classes, tem a ver com jovens. Eles têm em potência inúmeros futuros diante de si, mas a violência pode fazer opções drásticas por eles. Era esse "o que poderia ter sido e não foi" que me interessava. Nossas estatísticas de mortes entre jovens configuram quase um genocídio.
- Qual sua relação com comunidades carentes?
Arthur: Dei algumas aulas de jornalismo para turmas de estudantes da Rocinha, da Cruzada São Sebastião e da Cidade de Deus. Mas isso não teve importância na hora de pensar em personagens e situações, já que esse realismo não me interessava. O contato com eles foi importante, sim, para gerar a empatia que eu queria transmitir ao He-Man e à Jô.
- Você acredita no mito do Rio de Janeiro como uma "cidade partida"?
Arthur: Não de todo. Essa visão está correta, mas dá conta de apenas um ângulo da cidade, o da luta de classes. Historicamente, porém, o Rio é o que é exatamente porque sempre, desde João do Rio e de Noel Rosa, houve trocas simbólicas entre morro e asfalto. Veja o caso contemporâneo do funk.
- Você diria que a cultura produzida pela equação tráfico de drogas-baile funk tem que tipo de valor?
Arthur: Ela é a forma de expressão daqueles a quem a expressão cotidiana não é permitida, daqueles que, de outro modo, seriam invisíveis para o resto da sociedade. Basta ver como outros segmentos reagem ao funk, com moralismo e desqualificação. "Ah, isso não é música..." O samba já foi alvo de preconceito parecido em seu tempo.
- Qual a relação da música com a juventude carioca atualmente?
Arthur: Eu ando muito preocupado com o fato de que as pessoas hoje em dia, não só os jovens, não só aqui, nunca escutaram tanta música e paradoxalmente nunca a ouviram tão pouco. A banalização dos aparelhos de som individuais periga criar um quadro de surdos funcionais. É como se vivêssemos dentro de elevadores com música ambiente. A música tem algo de sagrado, exige concentração, ritual.
- A história de Black Music seria possível nos anos 80?
Arthur: Não, não creio. Vinte anos atrás essa cidade era incrivelmente mais gentil!
- O Rio de Janeiro continua lindo?
Arthur: Cada vez menos. A ocupação desordenada dos espaços urbanos, tanto pelas favelas quanto pelos condomínios de classe alta, a degradação ambiental e a superpopulação estão embaragando a cidade maravilhosa a olhos vistos.

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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.