
Zii e Zie (tio e tia em italiano) é o mais novo atestado de vida de Caetano Veloso. Digo atestado de vida porque o cantor e compositor baiano de 66 anos de idade parece ter encontrado um elixir da juventude quando resolveu juntar-se à turma de músicos da qual seu filho Moreno Veloso faz parte. É a mesma galera de Los Hermanos, Orquestra Imperial e +2, gente que atualizou as informações musicais de Caetano, que mostrou a ele a capacidade de fazer música moderna e de tonalidades rock, talvez mesmo de rock indie. Caetano gosta dessas coisas, é um cara inquieto, sempre buscou novos idiomas, novas formas de fazer valer o que diz e o que canta.
O impacto do disco anterior, Cê (2006), na carreira dele foi enorme. Ainda que o trabalho careça de boas músicas e pareça um rascunho de composições acabadas antes da hora ou intencionalmente estragadas por uma abordagem modernóide e vazia, serviu para críticos musicais recém-desmamados acharem que Caetano Veloso tornara-se indie, roqueiro, descolado e tal. Gente que nunca soube da existência de trabalhos como Transa (1972), Muito (1978), Velô (1984), todos com alguma interseção com o rock, maior ou menor. Mesmo que Caê não tenha conseguido revisitar as paradas de sucesso com qualquer música do disco - e ele nem deve ter pensado nisso ao compô-lo - não dá pra negar que a associação com os jovens músicos revitalizou sua carreira e o fez mais carioca do que nunca. A tal ponto de negar-se a viajar durante todo o ano de 2008, no qual deu forma aos espetáculos Obra em Progresso, com as músicas que comporiam o repertório do novo disco, ensaiadas e quase paridas nos palcos do Vivo Rio e do Teatro Casa Grande.

Zii e Zie traz uma proposta muito mais delineada e bem amarrada que Cê. A começar por Caetano assumindo-se como um integrante da Banda Cê, ao lado de Pedro Sá (guitarras), Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (teclados, baixo) e inserir-se na tal cena carioca de cantores e compositores. ]
É uma obra muito mais familiar ao cânon de Caetano Veloso do que o antecessor. Aqui está uma bela elegia à Lapa, bairro boêmio da região central do Rio Janeiro, no mesmo formato de "Sampa" ou "Trilhos Urbanos". "Lapa", a canção, é uma lista de fatos, pessoas e eventos, todos amarrados pelo burburinho social da juventude boêmia de classe média-alta carioca, identificada com ritmos como samba, forró ou chorinho. O lado tropicalista-concreto também dá sinais de vida no disco, na forma de duas canções, "Menina da Ria" (a auto-referência também está de volta) e "A Cor Amarela". Em "Baía de Guantanamo", Caetano repete uma única frase como se fosse um mantra, aliando a violência americana em solo cubano à sua incapacidade de não manifestar-se sobre isso. As músicas que citam outras pessoas também reaparecem, mais explicitamente em "Lobão Tem Razão", na qual Caetano Veloso mostra-se bem menos furioso que as declarações do roqueiro-apresentador da MTV, chegando a elogiá-lo, ao invés de responder as famosas acusações que Lobão faz periodicamente a ele. Há ainda versões simpáticas de "Incompatibilidade de Gênios", de João Bosco e Aldir Blanc e "Ingenuidade" (Serafim Adriano) e uma bela música chamada "Falso Leblon", na qual o compositor fala novamente do bairro onde mora e do que gravita em seu universo. Já não é a primeira vez que ele menciona o Leblon, antes lembrado num verso de "Fora da Ordem", do disco Circuladô, de 1991.

Às canções de Zii e Zie Caetano resolveu chamar de transambas ou transrocks. Só mostra o quanto o baiano entende de mídia e marketing, pois os tais nomes seriam apenas para definir "sambas tocados como se fossem rock". Nada disso, Zii e Zie é um bom disco de Caetano Veloso, totalmente reconhecível e dentro de seu universo - que é bem vasto, diga-se de passagem. Aqui ele lida com elementos usuais e com seus novos tons de cinza e escuro sonoros, cariocas e supostamente vanguardistas.
Mesmo que muita gente ache chato ou prefira o péssimo disco anterior, que músico brasileiro ainda é capaz de oferecer tanta reflexâo à crítica especializada e brindar seu público com inquietação e qualidade? Mais que isso, em Zii e Zie, Caetano soa sincero como há muito não se permitia.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.