Arquivos para: Abril 2009

Bob Dylan e Neil Young - Dois Garotos

29.04.09 | por Cel | Categorias: Música

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Um deles canta sobre o amor como fio condutor da própria vida. O outro resolveu fazer um diário de bordo sobre o caminho percorrido em seu carro, devidamente convertido para a energia elétrica. Estes são Bob Dylan e Neil Young, cada um dando sua versão do cotidiano e mostrando ao mundo que estão bem, leves e cheios de vida.

Ainda que seja raro encontrar um mês na história do rock que comporte lançamentos inéditos destes dois ícones, seria necessário uma nova busca para apontar um mês que mostrasse discos realmente bons, caso de Together Through Life e Fork In The Road, trabalhos que merecem destaque em meio às extensas discografias de Dylan e Young, respectivamente.

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Dylan está numa fase esplendorosa. Together Through Life é o quarto disco de uma sequência soberba, iniciada em 1997, com Time Out Of Mind. Nesses trabalhos vimos um Bob Dylan lidando com a velhice, com as experiências que ela traz e a juventude que leva em troca. Dos quatro (além dos mencionados, temos Love and Theft, 2001 e Modern Times, 2006) Together é o mais arejado e jovem. Com o passar dos anos, Dylan transmutou-se num cantor de blues, algo que é perceptível em seu registro, cada vez mais fanhoso e sibilante. Ao contrário de soltar alguma profecia ou celebrar algum prazer simulado da modernidade, Bob prefere a farra do rock'n'roll pre-existente, imorredouro, ancestral.

Nada de meditações trascendentais, pelo menos, não de cara. O disco é cheio de pequenas referências à celebração da vida - eterna? - e do quanto isso pode ser bom. A única canção que se compadece das dificuldades, ainda que otimista, é "Life Is Hard", que segue naquela onda "viva, enfrente obstáculos, vença, siga em frente". O resto é diversão na beira da estrada. "Jolene" é um rockão, "Beyond Here Lies Nothing" é um blues mestiço, "Shake Mama Shake" e "It's All Good" só comprovam o sorrisão (disfarçado) que Bob Dylan deve estar soltando por aí.

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Neil Young também está feliz. Após chutar a burrice da América de Bush em Living With War (2006) e revisitar o passado em Chrome Dreams II (2007), o sujeito volta com um disco conceitual. Após converter seu Linconl Continental 1959 para uso de energia elétrica (que foi chamado de Lincvolt), Young resolveu reinagurá-lo numa viagem até Washington D.C. Esse diário é o tema central de Fork In The Road, mais uma visão isenta da América pós-Bush do que qualquer outra coisa. A tara de Young por carros é notória. O sujeito já teve um carro funerário, já escreveu uma canção belíssima para este mesmo Lincoln Continental, "Long May You Run", em parceria com Stephen Stills, usou o símbolo do capô do carro na capa de Chrome Dreams II.

Nada mais justo, portanto, que esperar um disco completo com a idéia norteadora sobre quatro rodas. Engana-se porém, que é um trabalho
inacessível para aqueles que andam de trem. Neil Young usa a estrada como metáfora da própria trajetória comum a todos e fala pequenas e singelas mensagens de otimismo típicas de um eleitor de Barack Obama, vendo seu disco chegar às lojas dos USA uma semana depois do pacote presidencial de ajuda às montadoras americanas.

Ao contrário de Dylan, Neil Young não vem numa fase tão boa. Seu último trabalho realmente belo foi Harvest Moon, de 1992. De lá pra cá, Young lançou treze discos de material inédito, além de coletâneas e volumes ao vivo de sua série Archives. Talvez apenas Silver And Gold (2000) e Prairie Wind (2005) mereçam algum destaque em sua discografia. Fork In The Road está no mesmo nível desses trabalhos. Músicas como "Johnny Magic", "Hit The Road" ou "Off the Road" mostram um Neil Young inspirado, mas é em "Light A Candle" que a persona mais célebre do homem vem à tona: o folkster, o trovador baladeiro e dilacerado. E, hoje em dia, uma aparição efêmera dessa faceta de Young é garantia de felicidade.

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Resumindo, assim como Van Morrison e Leonard Cohen, dois outros veteranos que lançaram discos ao vivo maravilhoso, Dylan e Young parecem dois garotos. Um percebendo a importância do amor e o outro deslumbrado com seu carro. Justo.

A Black Music de Arthur Dapieve

24.04.09 | por Cel | Categorias: Livros

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Arthur Dapieve é um escritor carioca por excelência, ainda que não se enquadre no padrão daqueles nascidos na cidade 021. Fã de boa música - indo do rock ao erudito - e adepto das filosofias de botequim, Dapieve também é jornalista do Globo, onde mantém uma coluna semanal no Segundo Caderno e professor da PUC-RJ.

Suas crônicas e romances são arejados e afiados. Sua escrita é precisa, sem rebuscamentos estéticos, mas nunca pobre ou simplista. Seus temas podem variar do sanduíche de Atum do Bob's ao cenário político nacional, passando pelas aventuras e desventuras de torcer para o Botafogo. Seu romance anterior, De Cada Amor Herdarás Só O Cinismo, é uma simpática apropriação de alguns tiques editoriais do inglês Nick Hornby e revisitações leves à Lolita, de Maiakovski.

Em Black Music, seu mais novo romance, Dapieve constrói uma espécie de tragédia shakespeariana em três atos, usando e abusando da liberdade narrativa e assumindo três pontos de vista distintos sobre o mesmíssimo tema. Temos contato com o drama do menino americano Michael Phillips, residente no Rio de Janeiro, sequestrado por um traficante chamado He-Man e sua namorada Jô. É a oportunidade para um safári cultural pelo ecossistema das comunidades carentes e suas relações sociais, seus bailes funks, suas rimas e problemas, ainda que filtrados por uma certa lente de proteção. Isso, no entanto, não atrapalha a leitura - fácil e rápida - e revela um escritor/professor/jornalista no domínio de seu elemento.

Conversei com Arthur sobre Black Music e, sempre simpático e solícito, o homem respondeu às indagações com a sinceridade de um observador do cotidiano carioca, sem pose ou alarde. Dapieve - assim como nós mesmos - é aquela pessoa que está na multidão. Seu livro comprova isso.

- De onde surgiu a inspiração para Black Music?

Arthur: Eu estava preso no engarrafamento em frente à Igreja de São Judas Tadeu, perto da data do santo, contemplando o caos urbano aumentado ali. Pensei que se acontecesse um seqüestro naquele ponto da Rua Cosme Velho ninguém iria nem notar. Achei que isso dava o início de um livro. E, em seguida, fui criando os personagens, na ordem em que eles narram suas partes. Primeiro o garoto negro americano que quer tocar jazz, depois o traficante branco que quer ser rapper e, por fim, a namorada do trafica, mulata e funkeira...

- Como você conseguiu escapar dos clichês inerentes a uma narrativa sobre comunidades carentes e suas ações criminosas?

Arthur: Acho que a violência urbana é algo sério demais para ficar só na mão dos realistas e neo-realistas. Há dimensões simbólicas nela que nem um belo filme como "Cidade de Deus" consegue roçar. Pensei, então, em fazer algo num tom meio farsesco, absurdo, de humor negro, muito a propósito. Isso me permitiu fugir dos estereótipos ou, ao menos, brincar com eles.

- Quais tuas fontes de pesquisa para criar os diálogos e situações do livro?

Arthur: Não pesquisei nada, exatamente para tentar me distanciar criticamente da realidade. Os diálogos foram pescados aqui e ali através dos anos, nas ruas, em shoppings e até aqui em casa mesmo, nas falas de algumas empregadas. Além do mais, lembre-se, fui criado em Copacabana, um bairro cheio de prostitutas, o que me ajudou bastante na parte da Jô, por exemplo...

- O Rio é a sua principal inspiração?

Arthur: Acho que sim. Não confio numa literatura metida a universalista, que não cante a sua aldeia. E o Rio da virada do século XX para o século XXI é a minha aldeia. Ainda que eu quisesse, e não quero, acho que não conseguiria escapar dela, apenas apagaria os rastros, em detrimento da capacidade de criar um universo factível.

- Como surgiu a idéia de separar as narrativas ao longo do livro?

Arthur: O meu primeiro romance, "De cada amor tu herdarás só o cinismo", lançado quatro anos atrás, é quase todo narrado na terceira pessoa. Quando uma ex-professora minha, de literatura, leu, me disse que eu tinha optado pelo mais difícil, que o mais lógico ali teria sido assumir uma primeira pessoa. Pois bem. Ficou sendo um desafio. Em "Black music", eu quis assumir três primeiras pessoas. Portanto, que cada personagem tivesse a sua fala estava já na origem do livro.

- Todos os personagens estão em busca de algo que faça suas vidas se
transformarem. Você acha isso um problema social comum a todas as classes?

Arthur: Não creio nem que tenha a ver especificamente com classes, tem a ver com jovens. Eles têm em potência inúmeros futuros diante de si, mas a violência pode fazer opções drásticas por eles. Era esse "o que poderia ter sido e não foi" que me interessava. Nossas estatísticas de mortes entre jovens configuram quase um genocídio.

- Qual sua relação com comunidades carentes?

Arthur: Dei algumas aulas de jornalismo para turmas de estudantes da Rocinha, da Cruzada São Sebastião e da Cidade de Deus. Mas isso não teve importância na hora de pensar em personagens e situações, já que esse realismo não me interessava. O contato com eles foi importante, sim, para gerar a empatia que eu queria transmitir ao He-Man e à Jô.

- Você acredita no mito do Rio de Janeiro como uma "cidade partida"?

Arthur: Não de todo. Essa visão está correta, mas dá conta de apenas um ângulo da cidade, o da luta de classes. Historicamente, porém, o Rio é o que é exatamente porque sempre, desde João do Rio e de Noel Rosa, houve trocas simbólicas entre morro e asfalto. Veja o caso contemporâneo do funk.

- Você diria que a cultura produzida pela equação tráfico de drogas-baile funk tem que tipo de valor?

Arthur: Ela é a forma de expressão daqueles a quem a expressão cotidiana não é permitida, daqueles que, de outro modo, seriam invisíveis para o resto da sociedade. Basta ver como outros segmentos reagem ao funk, com moralismo e desqualificação. "Ah, isso não é música..." O samba já foi alvo de preconceito parecido em seu tempo.

- Qual a relação da música com a juventude carioca atualmente?

Arthur: Eu ando muito preocupado com o fato de que as pessoas hoje em dia, não só os jovens, não só aqui, nunca escutaram tanta música e paradoxalmente nunca a ouviram tão pouco. A banalização dos aparelhos de som individuais periga criar um quadro de surdos funcionais. É como se vivêssemos dentro de elevadores com música ambiente. A música tem algo de sagrado, exige concentração, ritual.

- A história de Black Music seria possível nos anos 80?

Arthur: Não, não creio. Vinte anos atrás essa cidade era incrivelmente mais gentil!

- O Rio de Janeiro continua lindo?

Arthur: Cada vez menos. A ocupação desordenada dos espaços urbanos, tanto pelas favelas quanto pelos condomínios de classe alta, a degradação ambiental e a superpopulação estão embaragando a cidade maravilhosa a olhos vistos.

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Vem aí - 45 Melhores Discos do Pop Nacional (1999 - 2009)

23.04.09 | por Cel | Categorias: Música

É isso, amiguinhos. Diante do pedido de muitos para que houvesse uma lista positiva sobre discos nacionais entre 1999 e 2009, teremos, em breve essa nova relação de bolachas musicais.

Terá de tudo. Ou não.

Aguardem, o post virá no fim de semana.

Os 18 anos do Pearl Jam - Ten Revisitado

20.04.09 | por Cel | Categorias: Música

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Há um momentum na história do rock que marca o aparecimento do segundo disco do Nirvana, Nevermind, em 1991. Talvez este seja um dos últimos acontecimentos do rock como ele costumava ser, movimentando mídia, gerando tendências, questionando, mudando o mundo. Por mais ingênuo que isso possa parecer, a chegada do Nirvana às paradas foi o último caso de gente absolutamente desavisada e despreocupada com a fama e a grana subindo ao degrau mais alto do pódium, para ganhar...fama e grana.

O despreparo era tanto que Kurt Cobain não suportou o status de rockstar e estourou seus miolos em 1994. Talvez ele não precisasse ir ao extremo definitivo. A resposta para essa questão estava lá, no mesmo ano de 1991, quando o Nirvana apareceu para o mundo via MTV. Bem, não só ele, mas os chamados "quatro grandes" de Seattle, os arquitetos do que se chamou grunge: Alice In Chains, Soundgarden, o já citado Nirvana e o Pearl Jam. De todas essas formações, por motivos distintos, o PJ é a única ainda em atividade, talvez pela tal habilidade que Cobain não teve: sobreviver à fama e a superexposição do estrelato rock. E o Pearl Jam tinha princípios, não aceitou fazer clipes - além do único single do disco, "Jeremy" e de "Oceans" - não topou os caminhos fáceis da MTV, além, claro, do protocolar Unplugged (que nunca foi lançado como CD ou DVD pela banda até 2009) e procurou se preservar das capas de revistas de celebridades. Era meio complicado, porque seu primeiro disco, Ten (1991), foi um dos mais bem sucedidos álbuns de estréia da história do rock, facilmente um dos melhores trabalhos da década de 1990 e responsável por permitir que o tal grunge fosse, hum, popularizado. Fácil de entender: o Nirvana era um trio punk de gente estranha; o Alice In Chains era depressivo e metálico demais; o Soundgarden era uma banda com pouquissíma habilidade em compor canções com o tal acento pop, ainda que preservassem o peso.

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O Pearl Jam estava mais próximo do hard rock setentista, do classic rock, além de ter em suas fileiras músicos bastante competentes, principalmente os guitarristas Mike McCready e Stone Gossard, os arquitetos da sonoridade nova que chegava às paradas. Sim, o Pearl Jam frequentou as paradas de sucesso assiduamente entre 1991 e 1997 e sua permanência ali não se devia apenas ao entrosamento Coutinho/Pelé de McCready/Gossard. Eddie Vedder, o vocalista, compositor e ex-frentista que emprestou o rosto e a voz para a banda era a pessoa certa na hora certa. Dono de um estilo originalíssimo - e muito imitado a partir daí - Vedder dava credibilidade ao que cantava e tornava o Pearl Jam quase acima de qualquer suspeita.

A chegada de Ten aos braços do povo só se deu após o estouro de Nevermind, ainda que seja extremamente superior. Ten possui canções elaboradíssimas, composições sinceramente torturadas, que abordam temas barra-pesada, desde suicidio infantil e uso indiscriminado de armas, passando por solidão, incapacidade de comunicação com o resto do mundo e questionamentos mil. Vedder cantava tudo isso com a sinceridade exigida, o pesar e as cicatrizes necessárias. A sobrevida da banda só fez tornar a experiência mais real, como as pessoas que sofrem os infortúnios do dia-a-dia e seguem vivendo, menos risonhas, alienadas ou otimistas. Ten não era um disco otimista ou ufanista, era uma inevitável porrada na falta de expectativa da geração que chegava aos 20 anos no início dos anos 90, entrando na maturidade num mundo que era diferente de tudo que havia sido previsto ou lido nos livros de história. Nada de suicídio ou alienação: como dizia Belchior, "a alucinação maior era suportar o dia-a-dia" e tudo que estava contido em Ten dava conta disso.

Além de "Jeremy", vieram "Alive", "Black", "Even Flow", todas transformadas em sucesso nas rádios ou MTV. E belas canções como "Why Go" ou "Porch" permaneceram como favoritas pessoais, queridas apenas dos chamados "die-hard fans" da banda.

Hoje, 18 anos após tudo isso, o Pearl Jam inicia os preparativos para comemorar seus 20 anos de carreira, em 2011. Estão previstos os relançamentos de todos os trabalhos da banda, de Ten (1991) a Pearl Jam (2006), em versões ampliadas, remasterizadas e, talvez, com faixas-bônus. O "talvez" se deve ao fato do Pearl Jam ter lançado em 2004 a compilação dupla Lost Dogs, na qual concentrou praticamente todas as canções que nunca apareceram em seus discos.

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Se esses relançamentos mantiverem a qualidade das edições múltipas que Ten ganhou por conta da ocasião especial, os cofres dos fãs precisarão de reforço. O primeiro disco da banda aparece em três formatos, todos irresistíveis à sua maneira.
- A versão Legacy Edition traz Ten remasterizado e um disco-bônus com remixes feitos por Brendan O'Brien. Explica-se: O'Brien produziu todos os trabalhos do Pearl Jam, exceto Ten, e não é absurdo pensar o que ele poderia fazer com as canções do disco, principalmente se levarmos em conta que a produção original - a cargo de Rick Parashar - é bem sem sal. Cinco faixas-bônus completam o track list, com destaque para a demo de "State Of Love And Trust", quase uma faixa honorária de Ten, gravada para a trilha sonora de "Singles - Vida de Solteiro", de Cameron Crowe.
- A versão DeLuxe Edition acrescenta um DVD ao pacote, contendo a íntegra do famoso - e altamente pirateado - MTV Unplugged, gravado em 1992, com aúdio 5.1 e a inclusão de "Oceans", que não foi ao ar pela emissora americana.
- A versão Collector's Edition, senhoras e senhores, abre um precedente gravíssimo para os pobres fãs. Nunca um disco foi tão esmiuçado e o tal "momentum" a que me refiro no primeiro parágrafo deste texto, foi tão celebrado. A nostalgia palpável, daquelas coisas que se ouviu ou viu falará mais alto aqui. Além do DVD e dos dois CD's, a caixa traz os conteúdos destes em quatro LP's, incluindo aí o inédito show Drop In The Park, gravado no Magnusson Park em Seattle, em 20 de setembro de 1992, com nove canções de Ten e mais "State Of Love And Trust", remasterizadas pelo mesmo Brendan O'Brien. Além disso, como se não fosse o bastante, temos a réplica da famosa "Momma-Son", a fita cassete que trazia os rascunhos instrumentais de "Alive", "Once" e "Footsteps", e que foi dada a Eddie Vedder pelo então baterista Jack Irons. Esta fita foi a responsável pelo ingresso de Vedder na banda, pela mudança do nome de Mookie Blaylock (um armador da NBA da época) para Pearl Jam. Temos também um caderno de letras estilizado, contendo os primeiros rabiscos de Vedder à frente da banda e mesmo um flyer do tal concerto Drop In The Park. Nem mesmo a bagatela de 150 dólares deverá espantar os fãs fiéis da banda nessa empreitada.

Com o afago do tempo, Ten permanece impávido colosso e simbolo augusto de um tempo ido no rock. Sua sinceridade e ingenuidade permanecem cativantes, em forma de canções que se tornaram hinos em estádios, quartos e mentes de milhões de pessoas ao redor do mundo. Tudo isso foi desnudado nessas edições comemorativas e nada parece extravagante ou desnecessário nelas. Pelo contrário, o prazer proporcionado por reencontrar momentos perdidos nessas músicas e imagens é mais forte que a grana e a fama que a própria banda deixou em segundo plano.

Caetano do Rio

16.04.09 | por Cel | Categorias: Música

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Zii e Zie (tio e tia em italiano) é o mais novo atestado de vida de Caetano Veloso. Digo atestado de vida porque o cantor e compositor baiano de 66 anos de idade parece ter encontrado um elixir da juventude quando resolveu juntar-se à turma de músicos da qual seu filho Moreno Veloso faz parte. É a mesma galera de Los Hermanos, Orquestra Imperial e +2, gente que atualizou as informações musicais de Caetano, que mostrou a ele a capacidade de fazer música moderna e de tonalidades rock, talvez mesmo de rock indie. Caetano gosta dessas coisas, é um cara inquieto, sempre buscou novos idiomas, novas formas de fazer valer o que diz e o que canta.

O impacto do disco anterior, Cê (2006), na carreira dele foi enorme. Ainda que o trabalho careça de boas músicas e pareça um rascunho de composições acabadas antes da hora ou intencionalmente estragadas por uma abordagem modernóide e vazia, serviu para críticos musicais recém-desmamados acharem que Caetano Veloso tornara-se indie, roqueiro, descolado e tal. Gente que nunca soube da existência de trabalhos como Transa (1972), Muito (1978), Velô (1984), todos com alguma interseção com o rock, maior ou menor. Mesmo que Caê não tenha conseguido revisitar as paradas de sucesso com qualquer música do disco - e ele nem deve ter pensado nisso ao compô-lo - não dá pra negar que a associação com os jovens músicos revitalizou sua carreira e o fez mais carioca do que nunca. A tal ponto de negar-se a viajar durante todo o ano de 2008, no qual deu forma aos espetáculos Obra em Progresso, com as músicas que comporiam o repertório do novo disco, ensaiadas e quase paridas nos palcos do Vivo Rio e do Teatro Casa Grande.

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Zii e Zie traz uma proposta muito mais delineada e bem amarrada que Cê. A começar por Caetano assumindo-se como um integrante da Banda Cê, ao lado de Pedro Sá (guitarras), Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (teclados, baixo) e inserir-se na tal cena carioca de cantores e compositores. ]

É uma obra muito mais familiar ao cânon de Caetano Veloso do que o antecessor. Aqui está uma bela elegia à Lapa, bairro boêmio da região central do Rio Janeiro, no mesmo formato de "Sampa" ou "Trilhos Urbanos". "Lapa", a canção, é uma lista de fatos, pessoas e eventos, todos amarrados pelo burburinho social da juventude boêmia de classe média-alta carioca, identificada com ritmos como samba, forró ou chorinho. O lado tropicalista-concreto também dá sinais de vida no disco, na forma de duas canções, "Menina da Ria" (a auto-referência também está de volta) e "A Cor Amarela". Em "Baía de Guantanamo", Caetano repete uma única frase como se fosse um mantra, aliando a violência americana em solo cubano à sua incapacidade de não manifestar-se sobre isso. As músicas que citam outras pessoas também reaparecem, mais explicitamente em "Lobão Tem Razão", na qual Caetano Veloso mostra-se bem menos furioso que as declarações do roqueiro-apresentador da MTV, chegando a elogiá-lo, ao invés de responder as famosas acusações que Lobão faz periodicamente a ele. Há ainda versões simpáticas de "Incompatibilidade de Gênios", de João Bosco e Aldir Blanc e "Ingenuidade" (Serafim Adriano) e uma bela música chamada "Falso Leblon", na qual o compositor fala novamente do bairro onde mora e do que gravita em seu universo. Já não é a primeira vez que ele menciona o Leblon, antes lembrado num verso de "Fora da Ordem", do disco Circuladô, de 1991.

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Às canções de Zii e Zie Caetano resolveu chamar de transambas ou transrocks. Só mostra o quanto o baiano entende de mídia e marketing, pois os tais nomes seriam apenas para definir "sambas tocados como se fossem rock". Nada disso, Zii e Zie é um bom disco de Caetano Veloso, totalmente reconhecível e dentro de seu universo - que é bem vasto, diga-se de passagem. Aqui ele lida com elementos usuais e com seus novos tons de cinza e escuro sonoros, cariocas e supostamente vanguardistas.

Mesmo que muita gente ache chato ou prefira o péssimo disco anterior, que músico brasileiro ainda é capaz de oferecer tanta reflexâo à crítica especializada e brindar seu público com inquietação e qualidade? Mais que isso, em Zii e Zie, Caetano soa sincero como há muito não se permitia.

Os 45 Piores Discos do Pop Nacional (1999-2008)

06.04.09 | por Cel | Categorias: Música

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O leitor deve pensar que é sempre interessante para o crítico musical escrever artigos negativos e desabonadores. Errado. A cada vez que textos negativos são concebidos e publicados, o jornalista especializado naquele assunto assume que algo não vai bem. Quando o tema é a música pop nacional, de glórias passadas inegáveis, o crítico que digita essas palavras sente pena. Seria adorável listar discos sensacionais e tecer elogios infinitos.

É uma quantidade significativa de trabalhos fracos de artistas consagrados e que, via de regra, tiveram êxito comercial e/ou de mídia. Aliás, divulgação na mídia não faltou para os álbuns lembrados aqui. Todos os artistas citados nessa lista - totalmente aberta a discussões - deveriam fazer trabalhos sempre bons. Não lhes faltou grana, projeção, tempo em televisão e demais veículos de comunicação, ou seja, eles poderiam - e deveriam - ter feito melhor.

Antes de ler, convém algumas explicações sobre o critério utilizado.

- São 45 discos compreendendo o período entre 1999 e 2008, ou seja, exatamente a época que marca a queda do mercado fonográfico, a ascenção da internet como ferramenta de conhecimento musical e democratização dos downloads de arquivos musicais.

- Os artistas que estão listados são bem conhecidos do grande público. Não foram incluidos artistas completamente lamentáveis como bandas de pagode, axé, sertanejo, funk nacional e demais gêneros que já sabemos não serem capazes de produzir trabalhos dignos de receber alguma crítica, mesmo negativa.

- Alguns artistas aparecem mais de uma vez na lista.

- Rita Lee aparece três vezes na lista.

- Temos três graus de avaliação: lamentável (o disco é ruim, a banda ou artista poderia ter feito melhor); horroroso (disco realmente péssimo no qual é impossível achar alguma justificativa); imperdoável (caso perdido, seja pela qualidade, intenção, critério ou qualquer outro motivo).

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Titãs - As dez mais (1999)
(Imperdoável)

Os Titãs estavam no fundo do poço criativo em 1999. Após o lançamento de dois discos péssimos (Tudo ao Mesmo Tempo Agora (1991) e Titanomaquia (1992), do Acústico MTV e de seu irmão elétrico, Volume 2, a banda paulista soltou esse terrível As Dez Mais. São covers, tocadas burocraticamente, cheias de falsa esponteidade e descolamento. Quem poderia engolir essa galera cantando "Pelados Em Santos", dos Mamonas Assassinas? Ou "Ciúmes", do Ultraje A Rigor e "Gostava Tanto De Você", do mestre Tim Maia? E dizer que esse pessoal posava de intelectual e gênio do rock nacional dez anos antes, ao lançar seu último disco digno, O Blesq Blom...

Zeca Baleiro - Líricas (2000)
(Lamentável)

Sejamos sinceros: Zeca Baleiro é um sujeito que jamais conseguirá fazer algo original, desde que já tenhamos nomes como Moraes Moreira, Alceu Valença, Belchior e Fagner. O que nosso amigo José Ribamar faz na carreira é regurgitar clichês da MPB nordestina, usar letras mais ou menos espertas que são feitas sob medida para a classe média achar genial ("não quero ser triste como um poeta que envelhece lendo Maiakovski na loja de conveniência", em "Minha Casa") e perpetuar esse flerte - também típico da classe média - de fazer safáris culturais pela cultura nacional. Aqui, além dessa lenga-lenga toda, ainda temos uma versão apocalíptica para "Proibida Pra Mim", do Charlie Brown Jr, tratada com respeito folk suspeito. Baleiro tem coisas muito melhores em seu catálogo.

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Capital Inicial - Acústico MTV (2000)
(Lamentável)

Esse disco invadiu todas as rádios na virada do milênio e mostrou o Capital Inicial para toda uma nova geração criada pela MTV. O que esperar? Dinho e sua banda foram imediatamente aceitos pelo senso comum emburrecido e não-esclarecido. Na verdade, o Capital deve tudo a Kiko Zambianchi, veterano compositor do rock paulista, pela inclusão e participação numa releitura de "Primeiros Erros", canção que fez sucesso com Kiko, mas que ultrapassou os limites com o Capital. Outro credor dos brasilienses é Alvin L, autor dos dois outros sucessos do disco, "Tudo Que Vai" - que fora dada para Tony Platão gravar, mas que, por motivos estranhos, apareceu primeiro com o Capital - e "Natasha", que Felipe Lemos teve coragem de comparar a "She's Leaving Home", dos Beatles, numa entrevista. Falta de noção, repertório razoável jogado no lixo dos arranjos semi-folk concebidos pelo ex-Herva Doce Marcelo Susskind, tudo isso faz desse Acústico MTV um disco lamentável.

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Marina Lima - Sissi na sua ao vivo (2000)
(Horroroso)

Marina perdeu sua voz por questões emocionais em meados dos anos 90. Nunca mais ela conseguiu fazer um disco decente e esse álbum duplo ao vivo foi anunciado como a sua volta à boa forma. Que nada. Pessimamente produzido, cheio de clichês instrumentais para mascarar a voz curtíssima que restou à cantora, Sissi Ao Vivo é uma bomba. Versões tristes de sucessos do passado como "Fullgás" ou "Pra Começar" se misturam a músicas novas, como "Sissi" ou a conveniente "À Meia Voz". No mais, um show que começa com Marina lendo um texto de Fernanda Young é apenas para os mais fortes e/ou surdos.

marina

Jota Quest - Oxigênio (2000)
(Imperdoável)

Jota Quest é garantia de discos ruins. Talvez seja possível abrir uma pequena exceção para o primeiro trabalho dos mineiros, no qual eles ainda eram J.Quest e gravaram uma cover simpática de "As Dores Do Mundo", de Hyldon. Aliás, o Jota Quest nunca confraternizou com o autor da música e nunca informou seu público sobre isso. Enfim, neste Oxigênio, Rogério Flausino (que é irmão de Wilsom Sideral e Landau - diga, essa família estaria prestando melhores serviços ao país se estivesse no ramo de padarias, administração de imóveis ou qualquer coisa que não se relacionasse com música, certo?) e sua banda tentaram uma guinada para o rock. Resultado: um disco patético, que traz alguns dos piores trechos já escritos em português, como "Não alimento amor por telefone, isso é ilusão" ou "Vou desligar, não me ligue mais, a obrigação da sua voz é estar aqui" (em "Tele-Fome"). O resto do disco segue o mesmo padrão de qualidade, típico da banda. Aliás, poderíamos incluir aqui todo o catálogo deles, mas tentamos não resvalar para a repetição.

Ed Motta - Dwitza (2000)
(Lamentável)

Ed Motta é um cara talentoso e simpático, mais do que as pessoas podem pensar. Em Dwitza, no entanto, o gorducho cantor e compositor assumiu sua faceta mais pedante e mandou bala num disco supostamente de jazz, mas que não coube em nenhum rótulo. Ed deve ter se inspirado em obras como As Coisas, de Moacir Santos, mas jamais conseguiu atingir uma audiência definida. Lançado em LP e CD, Dwitza não agradou nem aos fãs de jazz e fez os admiradores de Ed tremerem na base. Ele lançaria discos comerciais - nos quais se vale de sua base funk'n'soul - e revisitaria o universo de Dwitza em Aystelum, de 2005, igualmente mal recebido por seus fãs.

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Rita Lee - 3001 (2001)
(Imperdoável)

Rita Lee é campeã. Talvez porque ela tenha um passado tão importante na música nacional ou tenha inspirado tantas canções legais que a revolta com sua absoluta falta de inspiração cause indignação. Esse 3001 foi lançado como se fosse uma revisitação da melhor fase de Rita - nos Mutantes - com 2001. Não deu certo. Sua atualização, além de ser um recurso pálido para mascarar seu maior mal desde o fim dos anos 70 - a falta de criatividade - não deu conta do disco. O maior hit tornou-se uma versão imbecil para "Poison Ivy", na verdade, uma "versão da versão", pois esta clássica canção americana dos anos 50 já sofrera uma "releitura" do grupo carioca Herva Doce em 1984, na qual foi rebatizada de "Erva Venenosa". Péssimo.

Otto - Condom Black (2001)
(Horroroso)

Quando terminam as eleições e algum político picareta vence, a gente nunca encontra seus eleitores na rua, certo? Eu também nunca conheci um fã do pernambucano Otto. Sua carreira musical iniciou-se no mundo livre s/a e transformou-se em solo quando ele gravou o sintomático Samba Pra Burro, no fim da década de 1990. Se esse disco não era nada do que a imprensa burra e deslumbrada anunciou, Condomblack, seu sucessor, era pior ainda. Todas as tentativas de misturar modernidade insípida com regionalismo de tangente estão presentes aqui. Além de tudo, Otto casou-se com a bela atriz Alessandra Negrini, fato que ainda tornou a compreensão de sua realidade mais complicada. Otto é o artista típico desses nossos tempos, sem discurso, forma, conhecimento musical ou veia pop que justifique seus 15 minutos na mídia.

otto

CPM22 - CPM22 (2001)
(Horroroso)

Caixa Postal 1022. Essa é a razão para a sigla que compõe o nome dessa banda santista. Triste? Engraçado? Bem, o disco é um amontoado de timbres e clichês do que se chamou equivocadamente de "emocore" na virada do milênio. O que o CPM22 faz é música ruim, pseudo-pesada e que deve tudo às letras emocionais de almanaque e à pose sofrida da banda, estudada e feita sob encomenda para a juventude consumir. Esse primeiro disco já apontava todas as direções que o CPM seguiria, participando efetivamente da estupidificação da juventude nacional.

Kid Abelha - Surf (2001)
(Horroroso)

O Kid Abelha é uma alvo fácil para críticas, uma vez que tem uma cantora que não sabe cantar ou compor, músicos sofríveis e uma pose blasé que quase incomoda. Além disso, não dá pra compreender como a banda sobreviveu sem a presença do baixista Leoni, o único integrante talentoso do Kid, hoje em carreira solo simpática. Surf marcou a volta da banda às composições inéditas, algo que ficara quatro anos sem gravar, perdida entre tributos e compilações. É mais do mesmo, com canções chatas sobre o Rio de Janeiro, o mar e a praia, algo que os integrantes não têm o menor cacoete de frequentar. De qualquer forma, Surf tem canções horríveis como "O Rei do Salão" ou "Eu contra A Noite".

kid

Ana Carolina - Ana, Rita, Joana, Iracema e Carolina (2001)
(Horroroso)

Quando ouvi Ana Carolina em 1999, cantando "Garganta", pensei: Cassia Eller? Alguém imitando (mal) Cássia Eller? A segunda opção, claro. Ana Carolina começou a mascarar sua falta de originalidade nesse segundo trabalho, da pior maneira. Quando "Quem de Nós Dois" apareceu na mídia, com seu refrão grudento e letra mal construída, poucos sabiam que se tratava de uma versão de "La Mia Storia Tra Le Dita", do italiano Gianlucca Grignani e menos ainda tinham noção que José Augusto - cantor brega veterano e frequentador de programas como Clube do Bolinha - já havia feito versão da mesma música, muito melhor diga-se. Bem, Ana Carolina foi alçada à condição de "cantora de MPB", dona de voz "personalíssima" e dotada de ironia e relevância. Nada disso, amigos. Esse disco marca a coroação de um formato de música, sem graça, com achados rasos como a palma da mão e esperteza de produtores e gravadoras no comando. Esse tipo de música impressiona a quem nunca ouviu cantoras de verdade, com músicas de verdade. Triste, mas um retrato fiel dos nossos dias.

anajorge

Biquini Cavadão - 80 (2001)
(Horroroso)

O Biquini sempre foi um grupo da segunda divisão do rock nacional. Acho que eles nem pensaram em ir muito além disso, mas a banda continuou, os tempos passaram, os discos se sucederam até que a fonte de inspiração secou. O que fazer, então? Claro, um disco de covers, inteligentemente focado na década da memória emocional, aquela em que o Biquini cravou seus hits radiofônicos. Bem, temos então 80. É um compêndio a ser ensinado nas escolas de música popular sobre como não fazer versões, não escolher repertório, não interpretar, não tentar modernizar, enfim, o disco é um erro após outro. Se o repertório abusa do óbvio com "Me Chama" (Lobão), "Educação Sentimental" (Kid Abelha) ou "Toda Forma de Poder" (Engenheiros do Hawai), a banda também não se sai bem quando tenta ousar nas escolhas de "Juvenilia" (RPM), "Quem Me Olha Só" (Barão Vermelho) ou "Armadilha" (Finis AFricae). Quando menos se espera, lá está o Biquini Cavadão regravando uma canção sua, "Múmias", que tinha participação de Renato Russo nos vocais. Não satisfeitos em reeditar a parceria - já espírita, na ocasião - a banda achou por bem incluir um trecho rap, a cargo do grupo Jigaboo. Resumindo, 80 é um disco que não deveria existir.

biquini

Rita Lee - Aqui, ali, em qualquer lugar (2001)
(Imperdoável)

Tia Rita novamente. Não dá pra livrar a cara dela nesse projeto nefasto que procurou unir o melhor de dois mundos mas resvalou para a caricatura absoluta. Rita Lee cantando músicas dos Beatles em arranjos bossanovistas. O que difere isso daqueles discos tipo "Beatles Sinfônicos" ou "Ivanildo Sax de Ouro Interpreta Beatles"? Nada, a picaretagem é a mesma, a falta absoluta de criatividade é a mesma, tudo agravado pela voz minúscula de Rita, o repertório óbvio e a execução burocrática das canções. João Barone, baterista dos Paralamas, integra a banda e chegou a excursionar com Rita, algo que só pode ser entendido como a segunda pior burrada de sua carreira. A primeira, sempre será a produção de um disco do Supla, cuja canção "Encoleirado" chegou a ser hit. Mas, de quem estávamos falando mesmo?

Detonautas - Detonautas roque clube (2002)
(Horroroso)

Detonautas é mais uma banda que traz a garantia de péssimos discos. O que agrava a situação dos cariocas - em relação a gente como o Jota Quest, por exemplo - é que eles têm uma pose rocker alternativa que só engana a quem desmamou ontem. Tico Santa Cruz, hoje blogueiro polêmico e pseudo-ativista social é um vocalista lamentável. O resto da banda não ajuda, todo mundo imerso naquela sonoridade Red Hot Chili Peppers da Apae e cantando as letras "antenadas" de Santa Cruz. Daí para músicas incluídas na trilha sonora da novelinha global Malhação foi um passo natural. Aliás, o maior sucesso da banda está aqui, a temerária "Quando O SOl Se Por". Lastimável.

detonautas

Sandy e Junior - Internacional (2002)
(Horroroso)

A duplinha de irmãos sertanejos sempre foi um alvo fácil da crítica especializada e levada a sério demais pela mídia. Aliás, a inclusão deles aqui quase viola uma das condições, a de não mencionar artistas que sejam abaixo da crítica. A tentativa frustrada de invadir o mercado internacional a bordo desse disco, no entanto, não poderia ficar de fora. São canções com letra em inglês, no mesmo esquema das boy bands ianques, todas coreografadas e feitas para a juventude sacolejar sob o sol de Miami e Orlando, no máximo. A empreitada, no entanto, não se concretizou. Americano - ou chicano, que seja - comprando disco de dupla brasileira teen ex-sertaneja? Alguém deve ter sido demitido no departamento de marketing da gravadora, creio eu, não sei. Mas tudo bem, logo depois Sandy apareceria no Faustão trucidando clássicos da MPB para ganhar seu status de "boa cantora", enquanto Junior chegou a ser vencedor de um Prêmio Multishow como melhor instrumentista, para assombro geral. A maior raiva mesmo está na inclusão de "We've Only Just Begun", dos Carpenters, no repertório, reduzida a uma baladinha asséptica qualquer nota.

sandy

Zélia Duncan - Sortimento (2002)
(Lamentável)

Zélia Duncan parece ser uma pessoa legal. Certa vez ela fez elogios sinceros aos Beach Boys e não parece pedante como sua contemporânea, Ana Carolina. Bem, Zélia também representa um filão mais soft e esclarecido, dentro do grupo das "cantoras de MPB", surgidas no meio da década de 90 e, nem por isso, é menos irritante. Sortimento tem todas aquelas referências duvidosas, como músicas de Itamar Assumpção, canções grudentas e inócuas (como "Alma") e colaborações temerárias com Herbert Vianna ("Partir, Andar") e Capital Inicial (em "Eu Vou Estar"). Disco sem sal, sem atrativo, sem nenhuma graça.

Tribalistas - (2002)
(Lamentável)

Toda uma geração de gente esclarecida, elegante, sincera e colorida ama esse disco. Claro, ele traz a medida certa de muitas coisas. Aqui estão a brejeirice carioca de Marisa Monte, o concretismo roqueiro de Arnaldo Antunes e a baianidade nagô de Carlinhos Brown, todos se banhando no lago emocional e musical dos Novos Baianos. O grande problema dos Tribalistas sempre foi a absoluta falta de originalidade e a falta de alquimia entre os participantes, curiosamente parceiros pregressos em vários discos de Marisa Monte. O disco parece mais um trabalho da cantora carioca, sem qualquer contribuição dos outros tribalistas. O potencial irritante do álbum foi aumentado pela inclusão de "Velha Infância" na trilha sonora da novela das oito da época e pela apropriação da mídia de "Já Sei Namorar", alçada à condição de hino do verão de 2002/2003, no qual o "tribalismo" foi instituido. E o que era isso? A condição de gente cada vez mais jovem querer apenas "ficar" em vez de namorar, motivada pela letra "já sei namorar, já sei beijar de língua, agora só me resta sonhar". Minha esposa discorda da inclusão do disco nessa lista, fazer o quê...

tribalistas

Pitty - Admirável chip novo (2002)
(Imperdoável)

Pobre rock nacional. Quando uma cantora como Pitty assume a liderança do estilo que já teve Rita Lee no comando é porque algo muito grave aconteceu. Pitty até se esforça para soar sincera, talvez até seja, tamanha a mediocridade do universo proposto por esse disco de estréia. Egressa da banda baiana Inkoma, a cantora chupinhou toda a estética de bandas como Korn e Evanescence, deixando de lado os vocais agudos da americana Amy Lee - que, por sua vez, chupinhou a finlandesa Tarja Turunen e sua banda Nightwish. Pitty escreveu letras supostamente sérias (até usou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley como referência), decalcou o melhor do então nu metal e forjou seu som. Uma multidão de meninas sem noção a seguiu e construiu seu público, movido pela filosofia de almanaque de letras como "viva tudo como se não houvesse amanhã" e outros super-clichês.

pitty

Renato Russo - Presente (2003)
(Imperdoável)

Se Renato Russo estivesse vivo na ocasião do lançamento desse disco, certamente não ficaria contente com ele. É um amontoado de sobras de estúdio, entrevistas e ítens duvidosos de memorabilia indicado apenas para fãs que não têm noção do significado de seus ídolos. Se em vida, Russo procurou pautar sua carreira à frente da Legião Urbana por músicas que traziam mensagens sinceras sobre amadurecer e enfrentar as dificuldades da vida, Presente bate de frente com isso, fazendo crer que a picaretagem sempre vence. Claro, a esperteza vem das pessoas que idealizam o projeto. E o que Presente oferece é a música "Mais Uma Vez", parceria de Russo com Flávio Venturini, quem nem inédita é, uma vez que aparece num disco ao vivo do 14 Bis - banda de Venturini - de 1987. O cânon da Legião Urbana já está devidamente cheio de obras importantes e não precisa da esperteza de gente que não compreende aquilo que jura admirar.

Rita Lee - Balacobaco (2003)
(Horroroso)

Rita Lee volta à lista, dessa vez no festivo e pífio Balacobaco. O motivo da inclusão desse disco aqui está nas horríveis canções "Tudo Vira Bosta", de Moacyr Franco e "Sexo e Amor", com letra de Arnaldo Jabor, esta adotada como hino dos frustrados sentimentais da classe média por algum tempo. De resto é apenas mais um trabalho seguindo a linha dos discos de Rita Lee desde seu álbum Rita e Roberto (1985), ou seja, vazio, sem inspiração, fraco e indigno da grandeza da intérprete. Pena.

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Marcelo D2 - À procura da batida perfeita (2003)
(Imperdoável)

O movimento hip-hop é terra incógnita no Brasil. Muita gente em São Paulo reivindica sua tutela e curatela e até faria sentido pensar na maior cidade do país como uma metrópole com legitimidade para tal. Longe de pensar que o Rio de Janeiro, praiano e malandro, não tenha hip-hop, mas D2 é o rapper que o playboy adora. Suas letras de suposta malandragem, sua exaltação ao ego - ao contrário da conscientização do movimento - e todo o seu discurso são abjetos. Sua suposta fusão de rap com samba já havia sido executada antes e com muito mais êxito e ginga por Rappin Hood. Sobrou ao malandro a adoção do lema "procura da batida perfeita", para ilustrar a tal mescla com samba, uma frase decalcada de Afrika Bambaataa e seu "looking for the perfect beat", mas, claro, isso não importa. Esse disco - assim como a discografia do Planet Hemp e os outros trabalhos solo de D2 - são perda de tempo e desperdício de produção, dinheiro e músicos. Passe muito longe.

Skank - Cosmotron (2003)
(Lamentável)

Esse disco marca a "guinada beatle" na carreira da banda mineira. E também marca a busca por uma sonoridade mais séria, adulta e refinada. Não há mal nisso, certo? Claro, desde que a empreitada soe autêntica e legítima. No caso de Cosmotron, tudo parece sob medida para atingir um novo nicho de mercado, um grupo de consumidores que quase repudia a alegria ensolarada das composições do grupo até Siderado, de 1998. Após o interessante Maquinarama (2000), que marca uma busca - autêntica - por novas direções, o Skank precisou da ajuda do grande Lô Borges para emplacar uma balada nas rádios, "Dois Rios". A canção - que soaria melhor na voz do veterano compositor do Clube da Esquina, traz grandes doses de timbres beatle e uma letra cheia de jogadas espertinhas. "Formato Mínimo", outro hit do disco, mostra o velho desafio de fazer letras com proparoxítonas no fim das rimas, como se isso fosse necessário para algum tipo de passagem de faixa na música nacional. Cosmotron é, apesar da qualidade sonora, um disco forçado e pré-fabricado, que levaria a banda numa direção com pouca autonomia criativa, demonstrada pelos péssimos Carrossel (2006) e Estandarte (2008).

charlibra

Charlie Brown Jr - Acustico MTV (2003)
(Horroroso)

Acústicos MTV eram trabalhos que davam à banda (ou artista) a oportunidade de rever sua carreira, emplacar hits na programação da emissora de tv paulistana e aparecer na mídia. A rigor, todos esses discos são coletãneas dos artistas enfocados, refeitas para a ocasião. No caso do Charlie Brown Jr, qualquer coletânea ou agrupamento de canções merece atenção pela péssima qualidade do produto final. A capacidade neanderthal do vocalista Chorão em entoar qualquer letra como se fosse a mesma, aliada ao cimento instrumental que os músicos proporcionam, credencia o Charlie Brown à disputa pelo pior Acustico MTV já feito. Ainda que a banda seja conduzida com certo talento pelo baixista Champignon - nesta altura ainda no CBJr - as composições do grupo não ajudam e a existência de todo o "universo" que Chorão e seus asseclas habitam, de skate, trogloditice e chupação do pior hardcore melódico/funk metal americano noventista, torna a tarefa de ouvir essa bomba muito indigesta.

Fernanda Abreu - Na paz (2004)
(Horroroso)

Fernanda enveredou em carreira solo no fim da década de 1980 e lançou um disco interessante, Sla Radical Dance Disco Club. Nele as intenções eram de recriar ou conceber uma música dançante com origem na disco music setentista e misturar com algumas pitadas de ritmos nacionais. Legal, né? A idéia deu frutos por algum tempo, mas ouvir essa mesma ladainha em pleno 2004 não dava mais. Além disso, Fernanda cometeu um erro crasso em sua carreira, a incorporação de elementos dos bailes funk dos anos 70 e 80, totalmente diferentes do que acontece hoje, no bom sentido do termo. Isso fez com que ela perdesse identificação com o público, não atingindo as popozudas e preparadas e tornando sua música empobrecida demais para o fã do início da carreira. Nesse trabalho, além da mesmice e repetição ad nauseam dessa fórmula, Fernanda achou por bem trucidar uma canção imaculada de Jorge Ben, "Eu Vou Torcer", numa versão que dá raiva até em figuras como Gandhi ou o Dalai Lama.

fernanda

Lulu santos - Letra e música (2005)
(Horroroso)

Quando Lulu Santos, o compositor, o falastrão, o guitarrista, o artista respeitado e de elite apareceu fazendo cover de "Popstar", sucesso ensolarado e genial de João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, estava colocada a pá de cal em sua carreira. Lulu, realmente um artista prolífico até o início dos anos 90, já não era capaz de emplacar hits nas paradas e fazia discos cada vez mais iguais e inócuos. Em Letra E Música não foi diferente, mas abdicar de sua autoria para empastelar um sucesso oitentista num arranjo powerpop de cartilha foi demais. Tchau, Lulu.

Capital Inicial - MTV apresenta: Aborto elétrico (2005)
(Imperdoável)

O Capital Inicial, mesmo que seja contemporâneo da Legião Urbana e que tenha em suas fileiras dois membros do Aborto Elétrico original - banda de Brasília que foi o embrião da Legião Urbana - não tem autoridade moral para fazer um disco com músicas do repertório do Aborto. A resposta é simples: o Capital, banda mediana, alçada à posição de banda grande, não guarda qualquer traço dos elementos que caracterizavam o Aborto. Além disso, a figura central da banda sempre foi Renato Russo, morto em 1996. Seria constrangedor para Russo, revisitar o repertório original mais de vinte anos depois. Mas não foi para Fê e Flávio Lemos, baixista e baterista do Capital - e da segunda formação do Aborto. As interpretações não diferem das porcarias que o Capital fez nos últimos, sei lá, vinte anos.

Seu Jorge - Life aquatic studio sessions (2005)
(Imperdoável)

Este disco dá asco e pode concorrer ao posto de pior trabalho já feito no Brasil. Veja bem, são 13 canções da fase áurea de David Bowie, vertidas para o pior português possível, por um artista que esbanja falsa criatividade e relevância. Como a gravadora teve a coragem de permitir isso? Como David Bowie, o próprio, escreveu no próprio disco, que achou as versões legais e divertidas? Como assim? Talvez nem os fãs do sambalanço picareta para brancos perpretado por Seu Jorge sejam simpáticos a essas versões ridículas em arranjos preguiçosos de voz/violão, o que configura o disco para a destruição. Uma aberração da natureza. A ONU ou algum organismo internacional deveria impedir coisas como essa.

jorge

Djavan - Na pista etc.(2005)
(Imperdoável)

OK, é covardia colocar coletâneas em listas como essa, mas Na Pista etc tem ingredientes que a credenciam para tal. Antes de mais nada, a produção é do laureado Liminha. Mais ainda: a idéia é empastelar canções de diversas fases da carreira do compositor alagoano e transformá-las em dance music qualquer nota, feita nas coxas. Músicas belas como "Asa" ou "Tanta Saudade", balançadas e dançantes à sua sutilíssima maneira, foram transformadas em bate-estacas para festas dance de publicitários pseudo-antenados e sem alma. Um artefato nocivo e que deve ter rendido bons royalties a Djavan, conivente com a coisa toda.

Paralamas do sucesso - Hoje (2005)
(Lamentável)

Esse é o primeiro disco de canções originais dos Paralamas compostas após o acidente com Herbert Vianna. Mesmo que Um Longo Caminho (2002) e o ao vivo Uns Dias (2004) apontassem para boas perfomances, em Hoje o bicho pega. São canções no piloto automático, com o registro vocal de Herbert em séria decadência, bem como sua capacidade de compositor. Sintomas aparecem em todos os lados, mas em "Então xinga, com dois a de caatinga, então para, com dois a de saara" (em "2A") o ouvinte tem certeza de que a banda pode não ser mais o que era antes. É o pior disco da carreira dos Paralamas, fácil.

rappa

O Rappa - Acústico MTV (2005)
(Horroroso)

O Rappa foi interessante até o segundo disco, Rappa Mundi (1996). A partir de Lado B LAdo A (1999), a banda adotou uma postura supostamente questionadora e encharcou suas músicas com uma verborragia de assistência social que fez esquecer das cuidadosas pesquisas sonoras que seus integrantes empreendiam. Após o acidente que causou a retirada do baterista Marcelo Yuka, principal letrista da banda, o Rappa não se libertou do fantasma populista e da cara de ong musical. Esse Acústivo MTV é a celebração dessa pataquada, com direito a participação de Maria Rita - sério, alguém poderia ser mais estranho ao suposto universo da banda? - e um arsenal de engenhocas sônicas para mascarar a pobreza dos arranjos e a limitação técnica dos músicos. O panfletarismo ainda está lá e dá a entender que o Rappa é aquela banda que os famosos e ricos ouvem achando que estão adquirindo consciência social. Quer ver como é a vida nas comunidades carentes, cara-pálida? Desligue o som hi-fi do seu carro importado e suba o morro.

Gabriel O Pensador - Cavaleiro andante (2005)
(Lamentável)

Gabriel Pensador nunca foi rapper, mesmo que se valha de vários cacoetes do estilo. Ele tem, sim, uma capacidade razoável para fazer boas letras e obteve alguns sucessos justos no passado, principalmente com "Retrato de Um Playboy" e "Loraburra", de seu primeiro disco e "2345Meia78", de seu álbum Quebra-Cabeça, de 1999. Este parece ser o último suspiro criativo de sua carreira, uma vez que seus "raps" soam cada vez menos inspirados. Gabriel, inclusive, já gravou participação em canções de Xuxa. Este Cavaleiro Andante, gravado com banda, é um compêndio de músicas pouco inspiradas e letras sob medida para a platéia do Altas Horas achar sensacional.

gabriel

Ana Carolina e Seu Jorge - Ana e Jorge (2005)
(Imperdoável)

Outro disco com credenciais para disputar o prêmio de pior álbum nacional de todos os tempos. Em 2005 era difícil escapar da sina de ouvir "É Isso Aí" nas rádios. Essa música, uma demoníaca versão de "The Blowers Daughter", do compositor e cantor irlandês Damien Rice, estava em todos os lugares. Não bastasse a falta de noção em verter uma canção bela para um português descuidado (Ana e Jorge são craques do desrespeito em versões), a interpretação dos dois, ao vivo, é lastimável. Sem emoção, ou melhor, com uma emoção falsa e esperteza pré-fabricada, o disco juntou o melhor de dois artistas que todo mundo adora gostar. Eles são "prolíficos", "bem-sucedidos", "originais" aos ouvidos alienados do grande público. Este disco é um vigoroso retrato do lixo cultural que nos é dado como "música relevante" pela mídia, artistas vazios, rasos, com nada a dizer.

Pedro Mariano - Ao Vivo (2005)
(Horroroso)

A chamada "geração Trama" propôs uma interessante situação no início dos anos 2000: lançou discos de gente nova, quase todos filhos ou parentes de artistas mais velhos da MPB. Vieram Jair Oliveira e Luciana Mello (filhos de Jair Rodrigues), Wilson Simoninha e Max de Castro (filhos de Wilson Simonal) e Pedro Mariano (filho de Cesar Camargo Mariano e Elis Regina), entre outros. Pedro encarnou a persona de um suposto soulboy branquelo, com voz e trejeitos musicais plásticos e nada espontâneos. Gravou três discos pela Trama (um deles com o pai) e foi para a Universal onde gravou o quarto disco e este trabalho ao vivo, em que revê sua carreira e mostra o quão rasa ela foi. Sua voz some no palco, a banda é frouxa e o sujeito faz duetos até com Sandy para assambarcar novas audiências. Vergonha para uma família tão musical, certo?

barao

Barão Vermelho - MTV ao vivo (2006)
(Lamentável)

O Barão nunca primou pela criatividade, seja ela estética ou não. Seu som nunca quis ser mais do que uma palidíssima versão tupi de trejeitos dos Rolling Stones em seus piores momentos e todo mundo parece satisfeito com isso, público e banda. O último trabalho respeitável do Barão, Na Calada Da Noite, data de 1990 e esse disco duplo ao vivo, gravado no Circo Voador é uma proposta dolorosa para quem não compactua com a mediocridade da banda. Os hits da era Cazuza são executados burocraticamente, assim como os que marcaram a fase com os vocais de Roberto Frejat, mas a cafonália de usar a voz pré-gravada de Cazuza em "Codinome Beija-Flor" (sucesso da carreira solo do ex-Barão) é o atestado final de que o Barão durou tempo demais, abusou da mesmice demais e não tem nada a oferecer além do que já oferece há sei lá quanto tempo. Se a oferta é de bons produtos, não há do que reclamar, mas, bem, no caso do Barão Vermelho...

mutantes

Mutantes - Live at Barbican Theater (2006)
(Imperdoável)

A ressureição dos Mutantes sem Rita Lee em 2006 foi um dos assuntos mais comentados na mídia musical brasileira. A banda que Sergio Dias reuniu, trazendo todos os integrantes da primeira fase da carreira, era legítima? A escalação de Zelia Duncan para os vocais era a melhor possível? Arnaldo Baptista, seriamente debilitado, a bordo da empreitada, era apenas para dar um ar verdadeiro a tudo? Bem, o show gravado nesse disco duplo ao vivo é uma aula de boa produção e como montar uma banda capaz de executar todo o repertório de um artista com o máximo de precisão e fidelidade aos arranjos originais. O que falta aqui, amigos, é um ingrediente insubstituivel e incapaz de ser simulado: alma. Esse disco é indicado para quem não conhece os Mutantes e não tem a menor noção do que eles fizeram nos anos 60-70.

Cê - Caetano Veloso (2006)
(lamentável)

Caetano passou grande parte da década de 1990 sem gravar uma música autoral. O baiano tem crédito de sobra, mas exagerou nas covers, versões, adaptações, shows ao vivo, enfim, Caetano abusou da paciência de seu público. Quando ele voltou ao estúdio e anunciou que gravava um disco ousado, que se valia da estética do rock, tremi por dentro. Explico: Caetano nunca dominou o idioma rock, suas tentativas pregressas foram desastrosas, principalmente se levarmos em conta o seu "disco rock" oficial, Velô, de 1984.
Bem, em Cê, Caetano procurou se cercar da suposta vanguarda pensante da música carioca, composta por seu filho Moreno Veloso, Kassim, Domenico Lancelotti e mais alguns continentes à sua escolha. Concebido por uma banda enxuta e com arranjos que privilegiavam guitarras, Cê foi saudado como uma obra-prima pela imprensa desinformada. Compararam Caetano com Pixies, buscaram correlações entre timbres do disco e do rock independente americano, sobretudo de bandas como Guided By Voices. Tudo balela, Cê é um disco fraco, vazio, o pior que Caetano faz em muito tempo.

maria

Maria Rita - Samba meu (2007)
(Horroroso)

A carreira de Maria Rita visa preencher um vazio. Não temos uma cantora de MPB com um certo pedigree, alguma legitimidade, alguma razão de ser. Ana Carolina e Zélia Duncan, principais postulantes ao cargo, são inadequadas, pelo menos para esse posto, que requer alguma santidade, algum bom-mocismo que elas não têm - não por mérito, talvez por puro desconhecimento. Ivete Sangalo é animada demais. Sobra Maria Rita, com o fantasma vocal da mãe a lhe assombrar e uma terrível falta de carisma a lhe caracterizar. A tal ponto que a gravadora e toda sua equipe deu uma repaginada total na carreira da moça. Maria Rita ficou mais bonita, magrinha, passou a usar vestidinhos curtos e encarnar um "jeito Lapa de ser". Para coroar essa mudança tão espontânea, claro, um disco de samba. Mesmo que Maria Rita tenha composições de Arlindo Cruz - veterano sambista carioca, ex-Grupo Fundo de Quintal - em seu repertório, sua adesão ao samba é forçada. Ela parece aquele advogado do Centro do Rio, que após seu trabalho, vai batucar nos botequins da vida, de terno. É ilegítimo, é falso, é produto planejado sob medida para o reles consumo. Samba, assim como a soul music americana, é um estilo que retrata a estrada da vida, suas agruras e dificuldades. São gêneros musicais que pressupõem desilusão real, dor real, para delas vir a verdade das letras e das interpretações. Do contrário, é apenas um exercício de estilo. No caso de Maria Rita, um exercício de estilo com o melhor que o dinheiro pode comprar. Ainda assim, é fake e raso.

cidades

Cidade Negra - Diversão (2007)
(Imperdoável)

O Cidade Negra pode se orgulhar de ter feito um belo disco em sua carreira, Sobre Todas As Forças, de 1994. Ali a banda imprimia uma certa brasilidade ao estilo jamaicano, nada muito genial, mas o resultado era coeso e simpático. Desde então o Cidade Negra não repetiu sua performance e se restringiu a fazer discos cada vez piores. Além disso, Toni Garrido, vocalista da banda, acumulou antipatias e um belo complexo de superioridade e, a exemplo de muitos frontmen do pop mundial, partiu para a carreira solo. Antes disso, porém, o Cidade Negra se despediu com esse disco hediondo de covers gravado ao vivo em Niterói, no mesmo Teatro Municipal em que Tim Maia passou mal e morreu. A capacidade da banda de uniformizar canções tão díspares como "Clube da Esquina 2" (Milton Nascimento e Lô Borges) e "Tudo Azul" (Lulu Santos) é espantosa. Não bastasse isso, o repertório ousa verter para o reggae rasteiro coisas como "Eu Amo Você" e "A Lua E Eu" (Cassiano), "A Palo Seco" (Belchior) e "Minha História - Gesubambino" (Chico Buarque) só corrobora uma velha teoria: discos de covers são afrontas aos originais.

Lobão - Acústico MTV (2007)
(Imperdoável)

Lobão sempre foi um artista pop. Em toda a sua carreira, o que ele mais quis foi lançar discos e vendê-los ao público. Só que, como todos os cantores e compositores, Lobão enfrentou problemas na carreira, seja por drogas, falta de inspiração, falta de opção, enfim, Lobão teve altos e baixos. Na aurora dos anos 2000, Lobão resolveu ser independente. Lançou revista com patrocínio federal, adotou um discurso libertário, criticou tudo e todos e chamou atenção para si. Lançou um bom disco independente (A Vida é Doce, 2000), outro nem tanto (Canções Dentro da Noite Escura, 2005) e, finalmente, as gravadoras viram nele um produto vendável. Após muito tempo, Lobão voltou para as majors, dessa vez para a Sony BMG. Fez sentido. Só não fez para a horda de bandas e artistas independentes que acreditaram em seu discurso vazio de menino mimado da Zona Sul carioca. O disco Acústico MTV de Lobão é um disco pop, sem qualquer atrativo. Talvez seja isso que ele sempre sonhou fazer ou ter, um emprego na emissora paulistana e lançar um disco sob a etiqueta Acústico MTV. Foi o último de sua geração a fazer isso.

lobao

Vanguart - Vanguart (2007)
(Horroroso)

Como uma banda como o Vanguart pode ser levada a sério? Talvez sejam os primeiros efeitos do aquecimento global na mente humana, talvez um grande trote da mídia especializada ou, mais provável, a comprovação de que ninguém entende mais de música por aí. A banda de Cuiabá, MT, diz que faz folk music. Gargalhadas. Quem conhece o mínimo do estilo, seja ele tradicional, moderno ou qualquer outra abordagem sabe que o Vanguart precisaria de muita estrada para produzir algo semelhante. O que eles fazem é emular violões e instrumental acústico para emoldurar letras em inglês ou português e vender seu peixe honestamente, afinal de contas, eles poderiam estar roubando, matando. Estão cantando coisas como "Semáforo", fazendo a cabeça dos indies e da imprensa musical que nasceu quando o Metallica lançava seu Album Negro. Fraco, fraco.

Nx zero - Agora (2007)
(horroroso)

A derrocada do rock nacional continua, sob o manto do emo. O Nx Zero é a banda-capitânea dessa onda sem qualquer viés comportamental que a justifique. Os emos são pessoas que se dizem tristes e miseráveis sentimentalmente, no estilo, "estou brigando com você porque minha Sony Cybershot é de 7 Megapixel, enquanto a sua é de 8 e você não quer me emprestar". A culpa é dos fãs, sempre, que legitimam a escolha da banda como a melhor banda nacional de 2008 pelo prêmio Multishow e o vocalista Di Ferrero como melhor cantor nacional de 2008, pelo mesmo prêmio. O toque de crueldade é dado na péssima versão de "Apenas Mais Uma De Amor", de Lulu Santos, embarcada nessa galera sem qualquer sentido. Rock deveria ser diversão, mas, com o Nx Zero, é penitência para quem tem mais que 16 anos de idade.

nx

Frejat - Intimidade entre estranhos (2008)
(Lamentável)

Frejat é um cara gente boa. Sempre pareceu honesto, simpático e tem talento como guitarrista. Sempre foi o melhor músico do Barão Vermelho - não exatamente um elogio, mas, Frejat tinha tudo para emplacar uma carreira solo razoável. Não aconteceu.
Seu terceiro disco é a prova concreta de que ele não vai além de seu público quarentão da Zona Sul carioca, perdido em lembranças de bailinhos de colégio, tentando levar uma vida saudável no calçadão de Ipanema ou Leblon. Musicalmente é a mesma sucessão de clichês sub-Barão Vermelho, com letras vergonhosas, principalmente em "Eu Não Quero Brigar Mais Não", com o temerário verso "Quando eu te amo de forma infinita, Somos Bambam e Pedrita".
Triste.

Outras Bossas - Milton Nascimento e Familia Jobim (2008)
(Lamentável)

Tinha tudo para funcionar essa empreitada de Milton Nascimento e Família Jobim. Milton já não lança um disco respeitável há algum tempo, talvez desde Nascimento (1997) e aproveitar o cinquentenário da Bossa Nova para interpretar clássicos de Tom Jobim seria mais que perfeito. Além disso, contar com a legitimidade da Família Jobim seria uma bela jogada comercial que daria lastro para o disco emplacar. Pois bem, não funcionou. Além, do repertório de Jobim, Outras Bossas ainda traz alguns sucessos da carreira de Milton, como "Cais" e "Tudo Que Você Podia Ser" em interpretações abaixo da crítica, principalmente para quem já teve uma voz como ele. O resultado é um disco pomposo mas frio e sem qualquer vestígio de alma. Tom merecia coisa melhor e Milton deve se cuidar se quiser voltar a cantar mais ou menos como costumava fazer.

novemil

Nove Mil Anjos - (2008)
(Imperdoável)

O que você pode esperar de uma banda que mistura Junior (ex-Sandy, na bateria), Champignon (ex-Charlie Brown Jr, no baixo), Peu Sousa (ex-Pitty na guitarra) e Péricles Carpigiani nos vocais? Sim, isso mesmo. A estréia do Nove Mil Anjos contou com o aval da MTV e um revoltante status de "supergrupo". A sonoridade é um poço de clichês, atirando para todos os lados, deixando de acertar em todos os alvos. A idéia deveria ter sido acenar para aquela sonoridade americana dos anos 90 de Red Hot Chili Peppers e Rage Against The Machine, mas o 9MA não lembra nenhuma dessas bandas nem em um milhão de anos. O que mais irrita em projetos como esse é que a idéia é vender imagem e não formar um grupo musical no qual os integrantes têm afinidades diversas. Essa é uma jogada de marketing deslavada, quase uma página de semi-celebridadades decadentes num reality show de quinta categoria, no qual a missão é montar uma banda. Pífio.

mallu

Mallu Magalhães - Mallu Magalhães (2008)
(Horroroso)

Para uma pessoa como Mallu Magalhães ser levada a sério, algo está errado com o mundo. Ok, algo pode estar errado comigo, vá saber. O fato é: a espontaneidade indie de Mallu beira a idiotia na maioria das vezes e é triste ver que muitas pessoas jovens se identificaram com esse estilo. Além disso, a adoção do termo "folk" na caracterização do som dela também é motivo de gargalhadas sonoras. Mallu não deve ter noção do que significa o estilo, canta mal em inglês, arranha um violão qualquer nota e o melhor de seu disco é a produção de Mario Caldato Jr, veterano piloto de estúdios, famoso quando produziu algumas das melhores faixas gravadas pelos Beastie Boys nos anos 90.
Discos como esse fazendo sucesso de crítica e público dão uma sensação terrível em quem teima em pensar na música pop com uma certa seriedade.

Scarlett x Jenny

01.04.09 | por Cel | Categorias: Cinema

scar1

jenny1

Atenção: texto machista adolescente abaixo.

Fui ver "Ele Não Está Tão A Fim De Você" no cinema. Sabia que se tratava de um filme de mulher pra mulher, ainda que Ken Kwapis, que já dirigiu episódios de ER, The Office, entre outras séries interessantes da TV americana, ocupasse a cadeira de diretor. Também sabia que o filme era baseado no livro "He's Just Not That Into You: The No-Excuses Truth to Understanding Guys", de Liz Tuccillo e Greg Behrendt, na verdade, um guia comportamental sobre o que as mulheres devem fazer quando um cara não está exatamente disposto a se relacionar "seriamente" com elas.

As aspas para "seriamente" se justificam porque o conceito de relacionamento sério é algo extramamente difícil de se definir. Por isso, deixo de lado essa introdução e parto para o real motivo do texto: foi o primeiro filme em que pude ver minhas duas atrizes favoritas e objeto de fantasias mil juntas, na mesma tela, no mesmo momento, ambas lindas, talentosas e exuberantes: Jennifer Connelly e Scarlett Johanson.

Não se trata de futilidade, o ser humano precisa de fantasia e de pensar ser possível encontrar uma dessas mulheres na rua, nem que seja para dar uma boa conferida clássica. Até então, pelo menos recentemente,Brad Pitt, George Clooney, Matt Damon, Ben Affleck e os demais galãs do momento haviam protagonizado filmes coletivamente e as mulheres se vangloriavam disso. Há algum tempo víamos Robert Redford e Paul Newman nos soberbos Golpe de Mestre e Butch Cassidy and The Sundance Kid, mas, Scarlett e Jenny juntas, foi a glória.

As duas são inteiramente diferentes e extramente interessantes. Scarlett, do alto de seus 24 aninhos, é uma atriz em ascensão evidente, ganhando mais e mais destaque na mídia mundial. Suas participações em Match Point, Scoop e Vicky Cristina Barcelona, três bons filmes de Woody Allen conferiram a ela uma aura cult, que já se insinuava desde sua presença em Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Jennifer, por sua vez, do alto de seus incompletos 39 anos, tem uma beleza mais clássica - em oposição à casualidade de Scarlett - e valoriza seus olhos azuis e sua cabeleira negra sempre que pode. Aliás, os aficcionados por louras que me perdoem, mas olhos claros e cabelos negros sempre constituirão uma combinação imbatível.

No tal filminho sobre relacionamentos sérios - engraçadinho, mas meio bobo em alguns momentos - Scarlett é Anna Taylor e Jennifer Connelly é Janine Gunders. Ambas se envolvem num triângulo amoroso com Bradley Cooper. Bradley é Ben Gunders, marido de Janine, um sujeito boa pinta, legal, ético e que se vê no dilema dos sonhos dourados perenes eternos de todo homem mais ou menos normal: escolher entre as duas. Pressionado pela situação inicial, na qual Scarlett lhe dá um dos maiores e mais intensos moles de todos os tempos numa fila de supermercado, o bonitão resolve confessar que é casado e que prefere não pular a cerca. Ótimo, ponto para ele, quer dizer, bem... Afinal de contas, quando chegar em casa, uma Jennifer Connelly de cabelos molhados do banho e dentro de uma camisolinha está esperando por ele. Mas Ben vai cedendo, muito mais pelo fato de seu casamento ter problemas do que pela beleza e simpatia de Scarlett. O sujeito chega a dispensá-la duas vezes antes de ceder a seus encantos e, sim, pular a cerca. Não contarei o fim do filme, mas um sujeito como esse já entra para a galeria dos maiores fdp's sortudos e desgraçadamente abençoados de todos os tempos cinematográficos.

Minha esposa Maria é minha maior leitora. O que será de mim? Talvez nada, afinal de contas, já tive que participar da exibição de filmes com Clooneys, Pitts e - pasmem - Tom Wilkinson no elenco. Sim, minha esposa tem uma queda pelo veterano ator inglês. O que eu posso fazer?

E você? Quem prefere nesse duelo?



Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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