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O Radiohead vem aí. E daí?

18.03.09 | por Cel | Categorias: Música

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Há um bom ditado popular para essa vinda do Radiohead ao Brasil: "o melhor da festa é esperar por ela". Há um bom punhado de fãs da banda inglesa em polvorosa com a chance de ver aqueles sujeitos que transformaram o rock em fisíca quântica por correspondência, ao vivo e a cores. O que dizer disso, amigos?

Sim, é um baita exagero a reputação do Radiohead. A banda de Oxford, Inglaterra, foi elevada à estratosfera em 1997 quando lançou seu terceiro disco, OK Computer, imediatamente incluído em listas de melhores discos de todos os tempos, desbancando Beatles e o escambau. O trabalho era inferior ao anterior, The Bends, o real grande disco do Radiohead, aquele que foi ofuscado pelo hype causado por OK Computer, muito mais pelos críticos de música que por amor à primeira audição por parte do público. Explica-se: essa galera das redações, amamentada pela teta magricela do punk e do pós-punk anglo-americanos se deparava com uma banda que não tinha medo de ser pretensiosa. Isso mesmo, a maior característica do Radiohead é a pretensão e ela vem muito antes de qualquer genialidade.

Ao compor OK Computer, Thom York, Ed O'Brien, Jonny Greenwood, Colin Greenwood e Phil Selway misturavam a tensão pré-milênio e o instrumental limítrofe entre rock e eletrônica, dando sua versão para a mesma fusão eletro-rock perpretada por Bowie, Kraftwerk, Robert Fripp, Brian Eno na década de 1970. Nada novo, portanto. Nada tão criativo, por conseguinte. Nada que fosse tão bom quanto os originais, diga-se de passagem. E, de passagem, lembramos que o U2 - banda que influenciou decisivamente o Radiohead desde sempre - fez a mesma fusão de rock e eletrônica com muito mais sucesso e propriedade em Achtung Baby, disco de 1990. A crítica, como dizia, acostumada à míngua musical, se deparou com OK Computer e não soube decodificá-lo de cara. Após compará-lo com muitas outras fontes sem sucesso, decidiu que ele seria injustamente superior a discos como Blue Lines (Massive Attack) ou Dummy (Portishead) no ranking da década de 1990.

E mais: não foram capazes de perceber a origem progressiva do trabalho, algo que eles foram educados a odiar. OK Computer, o disco, é um álbum progressivo, no bom sentido do termo. Mas, bem, o Radiohead não é só OK Computer. Pelo menos, não deveria ser, certo?
O que veio depois foi uma atitude anti-música, anti-mídia, anti-tudo.

A banda lançou dois trabalhos experimentais, Kid A (2000) e Amnesiac (2001), deliberadamente difíceis, complexos e, novamente, banhados nas águas do progressivo mais obscuro. Novamente foram alçados aos píncaros do sucesso e da vanguarda mundial. A essa altura, muitos fãs de rock foram nas águas da crítica e assumiram o Radiohead como uma espécie de porta-voz da modernidade politicamente correta e boa moça. Sim, porque Thom Yorke é um sujeito com ideais, postura, atitudes anti-comerciais, avesso ao sucesso fácil e sua vontade em peitar o estabilishment com dois discos anti-tudo tinha que ser, obrigatoriamente, positiva, justa e relevante, certo? É o que no interior se chama de "ouvir o galo cantar e não saber aonde".
Em 2003 o Radiohead lançaria Hail To The Thief, um trabalho que esboçava um desejo de retomada da normalidade. As guitarras - banidas desde Kid A - voltaram discretamente ao espectro sonoro da banda, que logo embarcou numa turnê mundial. Era como se o rock produzido na década 00 - Strokes, White Stripes e seus símiles - fossem de outro mundo. Ou o contrário.

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Mesmo que a reação do público e da crítica não tenha sido igual a demonstrada nos trabalhos anteriores, Hail To The Thief manteve-se com dignidade. Por quatro anos a banda permaneceria sem novo disco (lançando em 2004 um EP chamado Com Lag, composto por lados B e faixas ao vivo) até chegar In Rainbows. O novo trabalho foi gravado por conta própria, uma vez que o contrato com a EMI já havia acabado e rumores diziam que a banda pedira 10 milhões de dólares para renovar. Yorke e seus mancebos desmentiram e radicalizaram: colocaram todas as músicas do disco para download em seu site por qualquer valor que o usuário desejasse pagar. A responsabilidade era do freguês e a banda abria mão de seu quinhão pela arte que produzia.

Uma atitude que causou furor na época mas que é discutível e não influenciou outros artistas e seus lançamentos. A EMI deu o troco no Radiohead a lançou uma belíssima compilação dupla de hits e faixas obscuras, seis meses depois. In Rainbows, o disco, é bastante interessante se comparado às quatro obras anteriores. Yorke parece mais próximo do início da carreira do que jamais esteve. As semelhanças entre alguns aspectos do disco e The Bends é bastante grande.

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Desde então, o Radiohead está em turnê, divulgando seu trabalho na estrada, como qualquer outra banda. Ele é o headliner do Just A Fest, evento que vai reunir Vanguart, Los Hermanos (em seu retorno aos palcos depois de um hiato de dois anos) e Kraftwerk.

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Os shows não poderiam ser mais distintos entre si. Se o Vanguart vai para abrir os trabalhos e, provavelmente, tocar cerca de meia-hora, o mesmo não se pode dizer dos Hermanos, que deve levar mais gente à Praça da Apoteose (RJ) e Pacaembu (SP) que o Radiohead. E o que dizer do Kraftwerk, uma entidade do rock, ainda que representada apenas por um de seus integrantes originais, Ralf Hutter? Fará o mesmo show maravilhoso com repertório imbatível, mesmo abrindo para a banda de Yorke? Em que mundo estamos, no qual Radiohead abre para o Kraftwerk?

Bem, o que resta a este jornalista é desmentir os erros mais comuns quando as pessoas falam em Radiohead:

- Radiohead é a banda mais importante dos últimos 20 anos.

Errado. Fazendo as contas, chegamos em 1989 e podemos afirmar que o Nirvana seria a banda mais importante, independente de ser a melhor. A formação de Kurt Cobain criou o último movimento do rock, a última circunstância que motivou pessoas a mudarem sua maneira de ser por causa da música que ouviam. Ainda teríamos o Oasis, Blur e Pulp, criando o britpop. Todas essas bandas são mais importantes para o rock que o Radiohead.

- A relevância de OK Computer para o rock

É superestimada. Há discos melhores na década de 1990, como Definitely Maybe (Oasis - 1994), Parklife (Blur - 1994), Blue Lines (Massive Attack - 1991), Dummy (Portishead - 1994) ou Achtung Baby (U2 - 1990). Todos esses trabalhos são musicalmente superiores e relevantes.

- Criativadade e ousadia contra o sucesso fácil

Uma visão ingênua, principalmente porque o Radiohead sempre fez sucesso e vendeu discos da mesma forma. O sucesso "difícil" é lucrativo e dá respaldo aos consumidores que gostam de se sentir esclarecidos e superiores, mas, ainda assim, são consumidores. Além do mais, as tais cratividade e ousadia do Radiohead tornam a audição de suas músicas uma experiência opressora em face da suposta importãncia de cada canção. Parece que estamos salvando o mundo da burrice e, convenhamos, nada poderia ser menos inteligente que pensar dessa forma.

- Oportunidade de ver clássicos do rock contemporâneo

Onde? Clássicos? Clássicos mesmo? Quais? No dia em que alguma canção do Radiohead for mais "clássica" que "Roxanne", "Smoke On The Water" ou "Satisfaction", o mundo terá chegado ao fim. Infelizmente ou não.

- Kraftwerk como banda de abertura

Nada pode ser mais injusto e estranho.

Set list do show do Radiohead no México, em 15 de março.

01-- 15 Step
02-- There There
03-- The National Anthem
04-- All I Need
05-- Kid A
06-- Karma Police
07-- Nude
08-- Weird Fishes/Arpeggi
09-- The Gloaming
10-- Talk Show Host
11-- Videotape
12-- You and Whose Army?
13-- Jigsaw Falling Into Place
14-- Idioteque
15-- Climbing Up The Walls
16-- Exit Music (For a Film)
17-- Bodysnatchers

18-- How to Disappear Completely
19-- Paranoid Android
20-- Dollars and Cents
21-- The Bends
22-- Everything In Its Right Place

23-- Like Spinning Plates
24-- Reckoner
25-- Creep



Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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