
Houve, certa vez, um momento em que comecei a ouvir rock. Ao contrário do que a maioria dos jornalistas musicais apregoa, não comecei a ouvir rock pelas mãos do Led Zeppelin ou pelas invenções do Talking Heads, tampouco pelo 1,2,3,4 dos Ramones. Quem me conduziu, por volta dos 11 anos de idade, ao mundo do rock foi o Police.
Eu gostava de músicas que tocavam em trilhas sonoras de novela e, apesar de algumas pessoas acharem que essas compilações que serviam de retrato musical dos folhetins globais guardarem alguma forma tacanha de sabedoria, o rock não estava exatamente ali. Até hoje eu não sei onde está o rock, mas, em 1981, parecia que o trio comandado por Sting, que emplacava sua “Every Little Thing She Does Is Magic” nas paradas do mundo e nos anúncios do cigarro Hollywood pareciam saber alguma coisa.
A partir do Police, tomei conhecimento de Men At Work, Culture Club, Bruce Springsteen e Duran Duran, o que hoje pode parecer uma involução musical, pelo menos no que diz respeito ao rock. Até que, num dia qualquer de 1984, 1985, alguém escreveu bem grande no quadro negro da minha sala de aula: U2. Eu sabia que era a sigla de um avião espião americano, que quase causou a Terceira Guerra Mundial, durante a crise dos mísseis de Cuba, no início dos anos 60, mas não pensava que algum maluco por aviação militar estaria enaltecendo o velho Lockheed U2 para uma platéia de jovens cariocas.

Descobri que um sujeito chamado Almir, meu colega de turma, hoje um dentista de sucesso, era o autor da suposta pichação. O cara tocava contrabaixo e um dia foi com a camisa da banda. Ao mesmo tempo, as rádios cariocas abriam espaço para a passagem de “(Pride) In The Name Of Love”, que começou a tocar insistentemente (antes disso, claro, já constavam da programação da rádio Fluminense FM várias faixas de Boy, October e War).
Nos programas de clipes, pré-pré-MTV, como FM TV e Clip Clip, os pequenos filminhos musicais da banda irlandesa começavam a pipocar. Primeiro foi “New Year’s Day”, com os cavalos na neve. Depois veio “Sunday Bloody Sunday”, ao vivo, com Bono carregando a bandeira branca. Ainda vieram os clipes de “Two Heartbeats As One” e “Gloria”, além do meu preferido, que não era da banda, mas que trazia Bono logo na abertura, Band-Aid, o projeto para ajuda às crianças africanas, com “Do They Know It’s Christmas”. Nessa época, ele rivalizada com o “We Are The World”, do conglomerado USA For Africa. Mas, longe disso, o U2 havia chegado pra ficar.
Eu comprei o War e o Unforgettable Fire juntos, na filial Copacabana das Lojas Americanas. Ouvi ambos e... não gostei. Sim, é verdade. Eu preferia The Head On The Door, do Cure. Preferia Misplaced Childhood, do Marillion. Eu preferia, bem, eu preferia O Passo Do Lui, dos Paralamas Do Sucesso, principalmente porque lembrava e muito, The Police.
A grande verdade é que fui gostar de U2 por causa de uma menina bonita da minha turma, que achava “Bad”, faixa do Unforgettable Fire, “linda de morrer”. Fernanda era o nome dela. E, bem, eu passei a gostar de “Bad” por causa dela, sob alguma influência hormonal que a crítica musical correta e altiva não comporta, for the record.
Off the record, tanto críticos quando músicos sabem muito bem o que querem do rock, mas isso é outra história. Devidamente doutrinado pelo gosto alheio, realmente apreciei o U2 de verdade quando Joshua Tree foi lançado em 1987. Era impossível não gostar da banda, era quase inconcebível. Desde então, seja na aurora rock’n’roll da minha vida ou no ainda distante ocaso diluído em lembranças pálidas de algumas tardes de verão dos anos 80, estará o rádio do carro de alguém tocando “With Or Without You”.
Não sei onde andam Almir ou Fernanda hoje, mas espero que lembrem, assim como eu, do tempo em que as descobertas, musicais (ou não), conduziam a sorrisos e aprendizados, como se fossem parte de um roteiro de filme de Sessão da Tarde pré-escrito. De uns tempos pra cá, descobertas são como filmes iranianos, escritos, produzidos, pagos e vendidos por nós para nós mesmos.

PS: Rogo ao leitor que perdoe o tom confessional-bloguístico desse textinho, mas, a despeito do que pode ser certo em termos de jornalismo musical, não há música sem emoção. A idéia é falar tudo sobre o U2, portanto, é legal (ainda que possa soar piegas) dizer pra vocês como descobri a banda ainda adolescente. Além disso, vocês sabem que os adolescentes são, acima de tudo, animais emocionais. That’s it.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.