
Unanimidades sempre serão burras. O mundo, após clamar pela chegada do novo disco do Guns'n'Roses por 14 anos, está arremessando Chinese Democracy numa pira funerária para a eternidade. Os fãs, esses insensatos seres ilógicos, estão divididos entre o pasmo e a adoração cega. Alguns estão atacando os detratores do disco como se estivessem em 1992, ou seja, chamando-os de "fãs do Nirvana". Outros estão com várias pulgas atrás das orelhas, provavelmente pensando: eu esperei 14 anos para ouvir esse som? Onde estão as canções lineares, hard-rockers de sempre?
Sim, porque Chinese Democracy é tudo, menos previsível ou banal. Não significa que o disco seja "bom" ou "ruim" por esse motivo - o inesperado ou o desejo manifestado de mudar algo estabelecido - mas, sejamos francos, o novo trabalho de Axl Rose está padecendo de toneladas de pré-conceitos.
Eu nunca, jamais em tempo algum fui fã do Guns. Pelo contrário, sempre percebi que seu som foi decalcado dos melhores e piores momentos do Aerosmith, quiçá do Van Halen, e, quem sabe, de alguns momentos pouco inspirados do Led Zeppelin. Isso significa: hard rock, coisa simples, música de macho, cheia de hormônios e bad-boyismo previsível. Funcionou em 1987, quando o Guns lançou seu primeiro disco, Appetite For Destruction, que, se não tinha uma só nota original em toda a sua duração, foi uma eficiente resposta à pasmaceira das paradas de sucesso da época, empapuçadas de artistas meio bundões e que via na encruzilhada house music/madchester a possibilidade de mudança.

A cara WASP de Axl Rose nas telas da MTV, seguida pela figura chapeleira de Slash - guitarrista competente, logo alçado à condição de guitar hero de toda uma geração de semi-moucos - era a garantia de que o rock havia voltado para ficar, que a bandalha e os estádios cheios de gente gritando pelo ídolo ainda estariam preservados por algum tempo.
Assim foi, pelo menos até 1991, quando o Guns lançou seus dois últimos discos de material original, os Use Your Illusion, volumes 1 e 2. Mesmo que algumas canções desses dois álbuns duplos fossem pesadas e rápidas - como o hit "You Could Be Mine", a maioria mostrava ao mundo que Axl Rose era mais que um redneck casual na indústria da fama hollywoodiana. Ele era um cara meio estranho, obcecado com dilemas do passado e do presente, a tal ponto que colocou em xeque a credibilidade da banda em favor de dois trabalhos grandiloqüentes, longos, exagerados, cheios de uma pompa megalômana, apenas para versar sobre os temas que ele julgava relevantes. Falou de fim de namoro, fim dos tempos, de injustiça, de raiva, revanche, tudo. Pariu baladas épicas e tristes ("November Rain", "Don't Cry"), covers confessionais ("Live And Let Die", dos Wings, "Knocking On Heaven's Door", de Bob Dylan) e, finalmente, sucumbiu ao grande mal das bandas de rock - a tensão do relacionamento. Os outros integrantes do Guns - Slash e Izzy Stradlin à frente - começaram a se irritar com os caprichos de Axl, principalmente com suas tendências ditatoriais, que afloraram fortemente. Stradlin deixou a banda no fim de 1991, causando um dano irreparável no Guns, uma vez que o sujeito era o melhor compositor do grupo, responsável, inclusive, pelo segundo maior sucesso da banda, "Patience", lançada na coletânea de sobras de estúdio e algumas canções novas, GN'R Lies, de 1989.

A raiva dos fãs do Guns com o Nirvana se deve, principalmente, à mudança de atitude que a banda de Seattle propôs a partir do chamado "levante grunge". A partir de 1992, toda e qualquer manifestação cabeçona e conceitual no rock estava condenada automaticamente ao status de "uncool". Isso incluía os fãs do Guns e a própria banda, que já não passava por um bom momento interno. O Nirvana e as outras bandas grunge, com suas calças jeans rasgadas e camisas de flanela de liquidação do Walmart fizeram obsoleto e obtuso todo o aparato rock tradicional do Guns e o tornou, digamos, ridículo. Na mesma leva foram Bon Jovi, Poison e, por pouco o Aerosmith, que iniciou um período de decadência lenta e gradativa.
Após o lançamento de Spaghetti Incident? (1994), um disco de covers punk e hard rock obscuras, o Guns ainda sobreviveu alguns meses da polêmica entre os novos rumos da banda. O disco não foi lá essas coisas, Axl estava encantado com o rock industrial de gente como Nine Inch Nails e Ministry e Slash queria continuar fazendo o hard rock de sempre. Foi o que bastou para a expedição do passaporte só de ida para o limbo.
Em 1995, slash já gravava com seu projeto paralelo Slash's Snakepit, enquanto Axl tornaria-se um recluso dos estúdios. Como a banda nunca chegou a encerrar atividades oficialmente, o sujeito permaneceu contratado da Geffen Records, enquanto Slash seguia carreira com o Snakepit e depois com o Velvet Revolver, a partir de 2002. Axl, pelo contrário, apenas apareceria esporadicamente, contratou e demitiu vários músicos. A primeira música inédita do Guns em oito anos, "Oh My God", apareceu na trilha sonora do filme Fim dos Tempos (uma bobagem com Arnold Schwarzenegger no papel de um policial que enfrenta o diabo propriamente dito) e levou a banda a excursionar. A nova encarnação trazia Axl e o tecladista Dizzy Reed (únicos da formação original), além dos guitarrisas Buckethead, Robin Finck (Nine Inch Nails) e Paul Huge, além do baterista Brian Mantia (ex-Primus).
Esse line up esteve, inclusive, no Rock In Rio III, em 2001 e protagonizou um show estranhíssimo, com um Axl gordo e esquisito. Os hits estavam lá, mas era tudo meio fora de lugar. A banda excursionaria ao longo do ano e, novamente, voltaria a ser Axl e suas experiências no estúdio. Segundo estimativas feitas em 2005, a gestação de Chinese Democracy já custava cerca de 13 milhões de dólares e o entra-e-sai de produtores e músicos continuava.
O que nos leva à espectativa sobre o lançamento do disco que demorou 14 anos para ser concluído.
O mundo não é mais o mesmo. Há fãs do Guns que têm a mesma idade que Chinese Democracy e são capazes de gostar das canções de Appetite For Destruction como se fossem gunners de primeira hora. E há os velhos - cada vez mais - fãs oitentistas, redimidos pela presença do Guns no mundo, como se eles fossem a última fronteira do rock "de verdade", sem a sombra de qualquer traço de intelectualidade ou potencial "artístico" em subtexto. Rock como música para gritar, pular, celebrar e nada mais.
Chinese Democracy, o disco, é tudo menos a mensagem original do Guns. Nem poderíamos chamá-lo de um álbum da banda, uma vez que apenas Axl e Dizzy Reed estão presentes. Dá pra pensar que, caso a banda não tivesse sofrido a diáspora dos integrantes, o som feito por eles seria bem próximo do que o Velvet Revolver - a banda de Slash - vem fazendo. Talvez um pouco mais inteligente e preocupado com rebuscamentos. Talvez não.

O que Axl mostra em Chinese Democracy é que não tem nenhuma pretensão de fazer um disco voltado para o curso natural das coisas - o futuro. E ele merece um grande crédito por isso. Claro que o rapaz de Indiana esteve atento ao mundo e o viu mudando, mas não teve qualquer vontade de fazer concessão para sonoridades moderninhas ou mesmo revisitar furiosamente o esquemão que fez o Guns despontar para a fama. Sendo assim, Chinese Democracy não tem qualquer vontade de compactuar com a mesmice das paradas de sucesso, tampouco é o "disco retrógrado e bobo" que estão dizendo os detratores da banda. Não guarda semelhança com o desprezível nu-metal noventista, não flerta com o indie rock, com o gótico, com o pop orquestral, nem com o cadáver do grunge (no qual bandas como Nickelback insistem em procurar sentido). Podemos dizer que Chinese Democracy é um trabalho com personalidade, algo que não é necessariamente "bom", muito menos "ruim".
Axl imprime uma visão de rock industrial em todas as canções sem esquecer que precisa vender e/ou tocar no rádio. Para isso, "Better" tem uma levada agradabilíssima, com guitarras cortantes e uma melodia pop linear ensolarada, diferente do que a banda costumava fazer. A faixa-título também tem potencial pop, só que para o lado mais pesado do termo. Nada demais, nada de menos.
As esquisitices começam a aparecer em "Shackler's Revenge", a segunda música. A voz de Axl parece de um Marilyn Manson velho, as guitarrinhas processadas são eficientes, a levada é rapidinha. "Street Of Dreams" é uma baladona clássica - uma das inegáveis especialidades do Guns - com direito ao timbre de voz clássico de Axl e seus igualmente tradicionais gritos de retenção anal. "If The World" e "Prostitute" são totalmente 1996, com aquelas fusões de rock com eletrônica, nem sempre bem sucedidas. "There Was A Time","This I Love" "Sorry", "I.R.S" e "Catcher In the Rye são baladas meio tortas, com arranjos de cordas bem feitos e guitarras crocantes. O timbre agudo de Axl aparece em plena forma em "Riad'N The Bedouins".
E tem "Madagascar". Pelo nome, pelo climão de cordas e samplers diversos, incluindo o manjado discurso de Martin Luther King sobre a liberdade racial (com o conhecido "free at last, free at last"), Axl quis fazer um épico roqueiro a la "Kashmir", do Led Zeppelin. Descontando a pretensão e a falha em alcançar o objetivo, a música não é tão ruim.

No meio do fogo cruzado dos fãs, da crítica negativa e do anacronismo diante do mundo, Chinese Democracy talvez seja o primeiro sinal de uma nostalgia dos anos 90. Talvez seja uma nova forma de nostalgia, que traz saudade de algo inédito, que remete a todo um imaginário conhecido, mas que não existia até ontem. Talvez seja um disco condenado ao olvido por hoje e passível de revisão crítica amanhã, o que lhe conferiria um status diferente. De qualquer forma, a espera dos fãs, da crítica, do mundo por um disco que demora 14 anos para ser concluído, foi, parcialmente recompensada.
Se você não gosta de Guns mas reconhece que eles foram felizes em alguns momentos, verá em Chinese Democracy um trabalho intrigante e diferente de tudo que existe hoje. Mérito de Mr. William "Axl" Rose. Pasme.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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