
Por que tanto problema em aceitar que bandas empreendam suas "reunion tours"? Por que somos levados a crer que esses eventos são oportunistas, maquiavélicos e feitos apenas para levar dinheiro fácil do bolso de incautos? E, pior, incautos que já estão aí há um bom tempo, pois as turnês se valem da nostalgia crônica que rola desde a década de 90.
O negócio é o seguinte: você veria Led Zeppelin, Police, Genesis, Rolling Stones, Who e outras bandas num show ao vivo atualmente? Enfrentaria multidões, estádios, pagaria ingressos caros e encararia a experiência de vê-los em ação? Todos os integrantes dessas e de outras formações de décadas passadas estão calvos, gordos, já na faixa dos sessenta e poucos anos de idade. Seria mais ou menos como ver o seu avô e os companheiros de bocha se reunirem para tocar um repertório de duas horas. E aí? Você veria?
Eu veria. Digo o motivo com facilidade. Acredito que a maneira de se fazer música pop mudou drasticamente ao longo das décadas até chegar num ponto - meio dos anos 90 - que a transformou em definitivo. Não vou me deter esmiuçando as nuances dessa transformação para saber se isso é bom ou mau para a música, mas o fato é que já não temos mais a mesma relação com discos e canções que tínhamos há algum tempo. Claro, nem poderíamos, uma vez que a humanidade está em constante evolução, ainda que essas mudanças não se traduzam em aperfeiçoamento para uma parcela de participantes ativos ou não.

O que está em discussão aqui é se os artistas do passado têm moral para sair de suas residências caríssimas para excursionar pelo planeta cantando canções de vinte, trinta ou quarenta anos de idade. Teriam esses senhores o direito de sair por aí lotando estádios e, por assim dizer, viver do passado de glórias? Quem diz que tais turnês são meros eventos caça-níqueis nos quais o inocente público pagante que forma filas dias antes da venda dos ingressos ou que esgota os mesmos tickets pela Internet em minutos está certo? O pagante é mesmo uma presa tão fácil? Os velhos são assim tão maus?
Bem, o rock é um ritmo jovem por excelência. Muito já se escreveu sobre a curiosa dificuldade que a parcela "esclarecida" do público e os formadores de opinião têm para aceitar a terceira idade no rock. Como assim ver Mick Jagger ou Paul McCartney com sessenta e tantos anos? E Bob Dylan? E Brian Wilson? E Peter Gabriel? E Robert Plant? Não. Em nossas mentes esses sujeitos estão (ou deveriam estar) com seus vinte e tantos, no máximo. Essa é a idade em que passamos por mais transformações e vivemos em cima do muro que separa o último suspiro de irresponsabilidade do fôlego preso do
comprometimento com o mundo.

Natural que tais artistas tenham o melhor de suas produções quando estavam próximos dos trinta anos, equilibrando-se nesse momentum. E depois eles continuaram, terminaram suas bandas, iniciaram carreiras solo que sempre foram assumidas como inferiores aos trabalhos originais pela crítica musical e a mídia, que influenciou os ouvintes. Um círculo vicioso, por certo. Daí, a partir do momento em que o mundo mergulhou no tobogã do milênio, as reuniões começaram a acontecer. Outras demoraram muito para ter lugar, principalmente a aparição do Led Zeppelin e do Police, bandas separadas pelo infortúnio e pela desavença entre integrantes, respectivamente.
E então? Como fazer quando você está num estádio e olha para a formação original de uma banda que te fez cantar quando você e seus integrantes eram vinte e cinco anos mais novos? É possível ignorar tal efeito? É possível desprezar a possibilidade de fazer um agradável carinho na psique, tão bombardeada pelo jogo e gato e rato da vida adulta, para levá-la de volta ao tempo em que ela apenas conjecturava planos infalíveis para dominar o mundo de dentro do seu quarto?
Digo que não é possível. O próprio baterista do Police, Stewart Copeland, com seus cinqüenta e tantos anos de idade, disse que as canções que o público cantava aos berros nos estádios já não pertenciam à banda e sim aqueles que as ouviram por tantas e tantas vezes. Trilhas sonoras de momentos bons, sons de fundo de momentos ruins, as músicas vencem o teste do tempo, mais que o ser humano, mais que a carne e o osso.

Quando olhamos para um artista como BB King no palco, do alto de seus oitenta anos de vida, não pensamos que ele está ultrapassado ou extorquindo dinheiro do publico. O mesmo se aplica à sensação de ver Sonny Rollins (no último Tim Festival). Por que não somos capazes de admirar a terceira idade no palco do rock? Gente como Bowie, Plant, Pete Townsend, Dylan, por que eles não podem viver das glórias de seu próprio passado?
Creio muito que esse sentimento seja fruto de diferentes formas de miscommunication no meio do caminho. Em primeiro lugar: essas mesmas pessoas, quando jovens, eternizaram em canções diferentes formas de enfrentar esse dilema terminal para o homem que é a certeza da morte. Teve gente dizendo que queria morrer antes de ficar velho, tamanho medo e o respeito que temos por ela. Muitos quase morreram, outros tantos se foram e os sobreviventes fazem o que? Se aposentam com a sensação do dever cumprido? Discordo.
Mesmo que seja evidente o aspecto mercadológico dessas empreitadas, baseadas na nostalgia, é válido que pessoas de diferentes idades possam ver shows de bandas com tantos anos de estrada. E não imagino, diante da pasmaceira da nova música pop, incapaz de sobreviver ao tal teste do Tempo, mencionado acima, quem poderia ser hábil o bastante para conduzir as pessoas nesses pequenos momentos de restabelecimento de contato com elas mesmas.
Até porque não há qualquer pessoa que tenha pago ingresso com um revólver na cabeça, todas o fizeram por livre e espontânea vontade. Ouvi minha própria esposa dizer seriamente que veria o Led Zeppelin no Acre. E ela é uma pessoa equilibrada, ora. O que acontece nessa hora é a tal volta ao quarto da adolescência e à capacidade de conquistar o mundo, algo que o rock possibilitou para muitos, durante a execução de alguma canção. Por minutos, seja os vinte de uma suíte progressiva ou os dois e meio de uma diatribe punk, o mundo automaticamente se torna nosso.

Se as pessoas responsáveis por essa magia estão vivas, num palco, na medida do possível, eu estarei lá para vê-las. E acho que todo mundo deveria aproveitar pois, como disse, o tal teste do Tempo é muito mais implacável com o ser humano. As canções ficam e permanecem as mesmas, segundo um certo zepelim de chumbo que se prepara para decolar novamente.
Esperamos nós, aqui, que Robert Plant resolva se juntar a Page e Jones. Se você não gosta, não olhe para o céu.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.