
Houve um tempo em que eu alugava CDs. Eu e uma multidão de pessoas que passavam pelos dezoito, vinte anos em 1991/92. Era um tempo bom e ingênuo de descoberta musical constante. Não consigo achar a mesma graça quando um download se encerra e eu começo a ouvir as músicas em meu Windows Media Player.
O mais legal dessa coisa de alugar CDs é que muitas bandas que ouvi/conheci no início da década de 1990 ficaram associadas a essa prática que se perdeu no passar dos anos. Pense: se hoje as pessoas não compram CDs, por que iriam alugar? E se as pessoas baixam da internet todos os discos possíveis e imagináveis, a prática de locar discos torna-se ainda mais descabida.
Eu me lembro de cruzar o Rio de Janeiro, de Copacabana à Tijuca, em direção à Praça Saenz Peña, local onde se situava um pequeno complexo musical que abasteceu minha discoteca - muitos LPs, vários CDs na época - por um bom tempo. Na simpática Vitrine da Tijuca, uma galeria ao lado da Confeitaria Palheta, haviam a Sub Som e a Vídeo Game Center.

A primeira, como o nome já dizia, ficava no subsolo da galera e me lembro de encontrar lá o vinil de Two Wheels God, segundo disco do Prefab Sprout, por volta de 1991. Esse disco saiu aqui no ano do seu lançamento, 1985, incluído numa leva de álbuns com o duvidoso selo New Rock. O Prefab foi visto pela primeira vez por mim nesse mesmo ano, através do clipe de "When Love Breaks Down", uma canção que permanece entre as minhas Top Five eternas. Procurei o disco por muito tempo e, cinco anos depois, encontrei um vinil muito bem conservado, em meio a um saldão da Sub Som numa manhã de sábado.
Nessa época ainda não estava familiarizado com a Vídeo Game Center, dois andares acima e isso só aconteceu quando entrei para a Faculdade de Comunicação Social da Uerj. Os nascentes profissionais de jornalismo musical, iludidos pelo bom mocismo que sempre nos assalta em algum momento da vida pós-adolescente, se reuniam na casa de Leonardo Salomão, no Grajaú, bairro próximo à Tijuca, para ouvir os discos que eram alugados na VGC.
A loja - como o nome já diz – tinha como carro-chefe a vendia e aluguel filmes em VHS e games, mas guardava um cantinho em que era possível pegar os discos recém-lançados nos USA e Inglaterra, que chegavam ali com uma simultaneidade impressionante para a época. Foi pelas mãos da VGC que conheci Sonic Youth, Pixies, Breeders, Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains, Lemonheads, Dinosaur Jr, enfim, toda a produção indie americana daquele momento, além do melhor das bandas de acid rock britânicas como Ride, Stone Roses, Soup Dragons, Inspiral Carpets, Blur e muito mais.
Num tempo em que era caro adquirir discos importados, que, além disso eram achados apenas na Modern Sound (loja que também ajudou a formar a minha discoteca) por um preço salgadíssimo, o aluguel de discos era uma alternativa romântica e eficiente.
Por isso, talvez pra sempre, eu ouça determinadas canções e me sinta transportado de volta à galeria da Tijuca. Não preciso dizer que a VGC também não existe mais por lá, como os pequenos Cinemas Paradiso da nossa vida.
Outra história de bravura musical aplicada à aquisição de discos teve lugar na Rua Pedro Lessa, no Centro da Cidade. Até hoje, com bem menos intensidade, funciona ali um comércio informal de discos e vinis raros. Com a popularização do CD e sua atual decadência, movida pela internet, a Pedro Lessa é um lugar bem menos movimentado.
Num dia de 1993, no entanto, eu cheguei lá com disposição para comprar o segundo disco do Blur, Modern Life Is Rubbish. O mais difícil - encontrar o disco – foi resolvido logo de cara, quando vi a capa e seu desenho de locomotiva surgindo em na pequena fileira de discos. O preço era de vinte e poucos reais - lembre-se, era 1993 - e eu não tinha um único centavo na carteira. Saquei o talão de cheques e vi que a última folha havia sido usada poucas horas antes e eu não havia retirado um tostão.

Não pensei duas vezes: ofereci três tickets-refeição para o vendedor. Se ele fosse taxativo e dissesse um "não" incontestável, minha proposta informal e alternativa de uso do ticket refeição seria rechaçada. Ele hesitou, entretanto. Foi a deixa para a minha insistência vencê-lo após algumas tentativas. Deixei os tickets e fui para a Uerj com a minha cópia lacrada do segundo disco do Blur, feliz da vida.
Meu problema com a modernidade é que esses pequenos desafios são ceifados da nossa vidinha. Quando e como a obtenção de músicas e discos será tão prazerosa novamente? O ser humano precisa inventar algo para resolver o déficit de prazer em adquirir músicas. Do contrário, como dizia o título do disco que repousava em minha mochila, a vida moderna sempre será bobagem.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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