
Há tempos uma eleição não me despertava tanto interesse. Tanto que peço licença aos meus leitores para escrever um pouco sobre política e os dois candidatos ao cargo de Prefeito do Rio de Janeiro, em vez de falar sobre música, cinema ou qualquer outro assunto pop. Não que eleição não seja pop, é por sentido indissociável do termo - graças a Deus - mas, bem, não é o que você está acostumado a ler por aqui. Sendo eu um cara educado, achei por bem avisar.
Eu voto em Fernando Gabeira para Prefeito. Sempre votei nele em todas as eleições que disputou, exceto para Presidente da República (1989) e Governador do Rio de Janeiro (1986 - eu não votava, mas, se votasse, cravaria em Lisâneas Maciel, do PT).
Gabeira fundou o Partido Verde em 1986 e manteve-se oscilante entre ele e o PT ao longo de sua carreira política, sendo que foi pelo Partido dos Trabalhores que obteve seu último mandato de Deputado Federal.
Desde que eu aprendi História, no Colégio Santo Agostinho, descobri que o mundo sempre viveu ciclos de luta pelo poder, seja por grupos rivais ou pelo povo contra esses grupos. Quase sempre a luta foi perdida pelo povo - exceto talvez nas Revoluções Francesa e Russa - mas esse é um detalhe. Sempre li e aprendi que os sujeitos com boas intenções são vítimas de políticas de descrédito ou de mecanismos de toda sorte nas máquinas administrativas para que não consigam chegar a uma posição em que algo possa ser feito. Quando conseguem, são assassinados (Salvador Allende no Chile, João Goulart no Brasil) ou se tornam ditadores (Stalin na URSS, Castro em Cuba), o que nos leva a crer que política e poder são coisas bastante complicadas de se entender e exercer. Aliás, quando eu estudava História no Santo Agostinho, a partir da quarta série primária, um certo Eduardo da Costa Paes fazia parte da minha turma. Lá permaneceu até a oitava. Eduardo Paes é o outro candidato ao cargo de Prefeito do Rio.

Paes representa o PMDB, o que, a rigor, significa representar um bando de políticos que serve como sustentáculo para o governo federal. Quando digo "governo federal", não me refiro apenas ao Lula, pois imagino o PMDB apoiando qualquer presidente, de qualquer partido, pois o PMDB vive disso. Não há ideologia, não há coerência.
Mas não é disso que quero falar. Apenas convém dizer que Eduardo Paes, o "Duda", representa essa galera, além de simbolizar o continuismo de uma gente que sempre governou o Rio, desde 1986, quando Moreira Franco foi Governador. Isso inclui uma linhagem de pessoas que mantiveram a cidade - e o estado - numa descendente contínua, rumo ao ocaso e consumando a perda de importância do Rio no cenário nacional, algo que nunca poderia acontecer.
Gabeira, por sua vez, não bastasse a atuação contra a ditadura (chegando à luta armada em 1969, quando seqüestrou o embaixador americano Charles Elbrick, episódio que descreveu em seu livro "O Que É Isso, Commpanheiro") sempre manteve-se fiel a uma "esquerda" que significa luta pelos mais fracos, pobres e desamparados, num escopo que contempla a justiça e igualdade para todos. Paes, por sua vez, trocou de partido três vezes, indo da direita reacionária do PFL para o murismo do PSDB e, há pouco tempo, a prostituição ideológica do PMDB. Se você não mora no Rio, basta dizer que o PMDB tem em seus quadros os ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho, duas das figuras mais lamentáveis a ocupar cargos públicos no estado.

Reproduzo abaixo uma lista de motivos que Pedro Dória (jornalista do Estado de São Paulo) publicou em seu blog para os cariocas não darem o voto a Eduardo Paes.
"1. Eduardo Paes foi um mais virulentos críticos do Governo Lula na Câmara dos Deputados. Foi líder do PSDB na Câmara. Gabeira também foi crítico? Foi. Mas suas críticas não nasceram do puro jogo partidário e sempre foram leais. Este argumento não é meu. É de Jaques Wagner, governador petista da Bahia, que sugere que seu partido deveria apoiar Gabeira no segundo turno.
2. Se o PT nacional apoiar Paes oficialmente, não será porque se preocupa com o futuro do Rio. Certamente não virá de coerência ideológica. Virá de um jogo de alianças nacionais puramente político no qual o Rio é sempre sacrificado. Não custa jamais lembrar a eleição para governo do Estado de 1998, em que o PT do Rio queria a candidatura de Wladimir Palmeira e o PT nacional impôs o apoio a Anthony Garotinho.
3. Eduardo Paes tem como principais doadores de sua campanha Eike Batista e a construtora OAS. A mesma OAS virtualmente criada por Antonio Carlos Magalhães. Não representam grupos que costumam investir em políticos pelos seus belos olhos.
3. Apoiaram Eduardo Paes no Primeiro Turno: o PTB de Sandra Cavalcanti, o PP de Paulo Maluf e Francisco Dornelles, o PSL de Celso Pitta.
4. Eduardo Paes não tem qualquer história política e qualquer firmeza de ideais. Muda de partido independente de sua ideologia. De protótipo dos mauricinhos criados por Cesar Maia virou o garoto prodígio do PSDB e se bandeou para o PMDB de Garotinho.
É por isso que Eduardo Paes não é o melhor nome para a prefeitura do Rio de Janeiro."
Lembrem-se: não importa em que cidade ou estado do Brasil você esteja, o voto é um troço muito sério. Quando penso na quantidade de seres humanos que perderam a vida para que você apertasse o botãozinho da urna eletrônica, não me passa pela cabeça desperdiçar a chance de participar da escolha do sujeito que vai mandar na vida de tanta gente. E, bem, de vez em quando, surge a chance de escolher alguém que realmente seja honesto, digno, sincero e cheio de boas idéias. Como agora.

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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.