
Se você ainda não sabe, leitor, Paul Weller não vem mais para a edição 2008 do festival devido a problemas com o visto de trabalho de seu pianista, Andrew John Gonçalves. Com esse sobrenome, claro, o sujeito é brasileiro, mas reside na Inglaterra desde os dois anos.
A organização do Tim promete anunciar na quarta-feira, dia 22, o que fará para cobrir a cratera no Palco Bossa Mod, no qual Weller se apresentaria, após o show do ex-Los Hermanos, Marcelo Camelo. É esperar para ver. Ou não.
Com a desistência do Modfather, de tantas glórias e tradições a bordo de Jam, Style Council e numa carreira solo impecável, o que sobrou de interessante no festival fica concentrado no setor do jazz, um gênero musical sempre privilegiado pela organização do evento. Sendo assim, aqui vai uma pequena lista com indicações de bons shows e alertas sobre outros, que a imprensa já promove o hype desde o início do ano.
Ao contrário do que muita gente diz, os americanos de MGMT e The National não são nada demais. São bandas divertidas, principalmente a primeira (mesmo porque, o National é tudo menos divertido) e têm, no máximo, duas ou três músicas mais ou menos conhecidas. Além do mais, hoje em dia, não confio em gente que faz show com apenas um disco lançado, caso do MGMT, com seu debut Oracular Spetacular. Seu som é totalmente, indubitavelmente, loucamente, decalcado de Flaming Lips, só que com um acento ripongo planejado e pra inglês ver, que dificulta ainda mais a boa vontade com a dupla. É banda pra ouvir no IPod. Quem for no show já terá esquecido de tudo três dias depois.

O National é uma dessas bandas que pega emprestada a solenidade tristonha de formações como Tindersticks e American Music Club (que devem tudo a mestres como Leonard Cohen e Scott Walker) e, pelo menos em seu último trabalho, Boxer (2007), a empacota com algumas batidas mais ou menos animadas. Para quem nunca ouviu um disco das bandas mencionadas acima, reconheço que o contato com essa sonoridade deve ser equivalente à chegada do messias. Mesmo assim, com todo dejá ouvi, "Fake Empire", "Squalor Victoria" e "Mistake For Strangers" são belas e devem fazer a delícia do público indie na faixa dos 20 anos.

O Neon Neon, projeto paralelo do vocalista e mente maior do Super Furry Animals, Gruff Rhyes, é bastante legal. A idéia dele e seu parceiro, o produtor Boom Bip, é fazer o tradicional "disco em homenagem aos anos 80". Isso, aquele mesmo, que tantas e tantas pessoas e bandas no mundo tentam fazer todos os dias. Em Stainless Style (2008) a dupla não tem a menor vergonha de se esbaldar no lado mais ridículo da década, visitando todos os estilos. O disco tem rap farofa, rock farofa, teclados que poderiam ser comprados no camelô da esquina e timbres estudados para capturar o ouvinte novo e dar aos mais velhos uma série de sobressaltos à medida que reconhecem uma batida, um riff, um sei-lá-o-quê. Músicas como "Dream Cars" e "I Told Her On Aldebaraan" crescerão muito ao vivo e o batidão funk carioquês de "I Lust U" será catártico.

Marcelo Camelo terá um belo desafio, talvez diminuido pela ausência de Paul Weller. O público roqueiro do inglês provavelmente não se conectaria à nova proposta intimista-MPB que o ex-Los Hermanos apresenta em seu primeiro disco solo, Sou. Camelo tem a seu favor a adição de canções de sua ex-banda no repertório, além da presença do sexteto paulistano Hurtmold como sua banda de acompanhamento. Os sujeitos são realmente muito bons e devem quebrar o clima lento que reinará.
Klaxons é uma banda não mais que mediana. Foi hypada ano passado como sendo uma precursora do "new rave", algo que não existe. Será engolida pelo show do Neon Neon - que abrirá os trabalhos do palco...New Raves. Seu único disco, Myths Of The Near Future, foi lançado aqui no ano passado e não é muito melhor que o primeiro trabalho do Cansei de Ser Sexy, se isso serve como uma boa referência. "Atlantis To Interzone" é a puxadora do disco, uma frenética short trip de pouco mais de três minutos, cheia de sirenes e batidas disco-punk, no mesmo estilo de tantas outras bandecas que apareceram nos últimos momentos. Vai fazer o povo pular, nada mais.

O rapper Kanye West terá um palco só dele, principalmente porque seu show Glowing In The Dark é uma espécie de space-rap-opera, ou seja lá o que for. O rapper, natural do estado americano da Georgia, é considerado o melhor artista do gênero da atualidade, mas seu som não tem nada de especial, se comparado a gente como Run DMC ou LL Cool J. Claro, a idéia da mídia e da indústria é vender novas caras como se fossem absolutamente novas, por isso, West é o bam-bam-bam da parada, mesmo que não tenha originalidade. Não dá, entretanto, para dizer que o sujeito não tem talento. Seu rap é à moda antiga, cheio de samplers de gente bamba, de Aretha Franklin a Al Green, uma prática usual no passado, mas que se tornou sinônimo de genialidade tamanho o lamaçal que o rap habita hoje em dia. Para quem ouve música há uns dez anos, West deve ser a salvação da lavoura mesmo. Seus três discos são interessantes, principalmete a estréia em The College Dropout (2004), mas seu trabalho mais recente, "Graduation" será mais tocado no show. Talvez West ainda apresente novidades de seu quarto disco, "808's And Heartbreak", a ser lançado em novembro. Aliás, o homem se apresentará com banda ao vivo, bonecos alienígenas, figurantes, vocalistas, percussionistas e tudo mais. Pode ser legal e dar vontade de ouvir De La Soul e A Tribe Called Quest quando chegar em casa.

O coletivo paulistano Instituto é bem intencionado. Seu primeiro disco, Coleção Nacional (2002) era cheio daquela abordagem moderna e esclarecida dos ritmos negros, principalmente funk e samba. Confesso, é algo que não me agrada, principalmente porque acredito que os ritmos negros precisam de contato com a perdição e o infortúnio para que sejam legítimos. Ou seja, você pode imitar, copiar, tentar, nada parecerá autêntico ou válido. A idéia de tocar os sucessos da fase Racional de Tim Maia é louvável, mas, pergunto, esta é a fase mais rica da carreira do "Síndico"? Não, apesar de ser a mais badalada, hypada e, hum, conhecida pela platéia esclarecida. Não aposto nesse show, prefiro as interpretações do velho Sebastião, principalmente no início de sua carreira, quando passava fome, não pegava ninguém e vivia revoltado porque todos à sua volta faziam sucesso e ele não decolava. Nem as presenças de Thalma de Freitas e B Negão farão qualquer diferença.
Quem conhece o Gogol Bordello, gosta do Gogol Bordello. Se você lembra da virada dos anos 80/90 deve ter em mente uma formação franco-espanhola chamada Mano Negra. A idéia de Eugene Hutz, nascido na Ucrânia e líder do GB, é fundir música do Leste Europeu, principalmente cigana, além de ritmos como o flamenco, o reggae e até trilhas sonoras de Ennio Morricone com o punk, o ska e tudo mais que for alto e rápido, do mesmo jeito que a Mano Negra fazia. A liga sonora forjada aqui funciona e está longe da caricatura que alguns podem pensar ao associar o nome da banda à diversidade musical. Super Taranta é o nome do quarto disco lançado pelo Gogol e mantém intacta a mistura sonora, trazendo belos espécimes em suas 14 faixas. Confira "American Wedding", "My Strange Uncles From Abroad", "Haren In Tuscany"

Cérebro Eletrônico já é o contrário. Banda moderna sem forçar a barra, cheia de referências psicodélicas, tropicalistas e bem sacadas, indo de Mulheres Negras a Mutantes, sem qualquer problema ao longo do percurso. Devem tocar seu novo disco Pareço Moderno, lançado esse ano, mais pop, nem por isso menos legal. DJ Dolores e Siba, principalmente o primeiro, deverão manter suas conexões com o Nordeste musical, aliando tradição e modernidade. Pode ser legal, pode ser bastante chato, depende de você.
Na área eletrônica-dançante do festival, o destaque vai para o DJ Yoda ou, quem sabe, Duncan Belny, seu nome de batismo. O sujeito é famoso por uma discotecagem frenética, na qual mistura músicas de comerciais de TV, de desenhos animados e tudo mais. Apesar da conexão com o mais famoso Mestre Jedi, o show de Yoda e seus comparsas não são para este velho e ranzinza escrevedor. Vão e divirtam-se.
Esperanza Spalding, já no terreno do jazz, é uma mocinha bonita de 24 anos. Também é professora de música na Berklee School, em Boston, na qual se formou bem antes do tempo. Ela toca contrabaixo desde os quinze anos de idade. Isso porque já reconhecia as escalas iniciais ao manusear um violino aos cinco anos. Seu segundo disco, "Esperanza", lançado nesse ano, é uma beleza, principalmente por não ser hermético demais. A faixa de abertura é uma recriação respeitosa de "Ponta de Areia", belíssima canção de Milton Nascimento, do disco Minas (1976). Esperanza a canta num português acima da média e, além de revisitar clássicos do jazz ao longo do disco, decide encerrá-lo com uma outra homenagem à música brasileira, dessa vez com uma releitura de "Samba em Prelúdio", de Baden Powell. O show de Esperanza terá a companhia de Chico Pinheiro, um dos mais interessantes compositores brasileiros dos últimos tempos. Promete.

Agora recorro ao amigo Sérgio Martins, ex-editor da Revista Bizz, atualmente na Veja para algumas recomendações sobre a escalação jazzística do festival. O homem crava como pontos altos da programação do Tim, as presenças de Sonny Rollins e Bill Frisell, além de Carla Bley, Stacey Kent e Enrico Pieranuzzi.

Rollins é uma lenda viva. Tocou com Miles Davis e ostenta uma longevidade impressionante, personificada em sua carreira composta por quase cem discos. O sujeito foi um dos maiores músicos da era do bebop e do hard bop. Bill Frisell, por sua vez, é quase um estudioso da guitarra elétrica. Seus discos são verdadeiros exercícios de conhecimento, vão do jazz ao blues, passando pelo pop. Vale dar uma olhada em sua coletânea dupla, History/Mistery, lançada por aqui na onda do festival. Carla Bley é uma artista inovadora dentro do estilo. Quando lançou seu primeiro disco, o álbum triplo Escalator Over The Hill, a pianista misturou sonoridades de diversos estilos, indo do rock aos mantras indianos e concebeu algo praticamente novo. Stacey Kent é americana e faz a linha das cantoras de jazz, tornadas tão comuns desde o advento de Diana Krall. Seu último disco, Breakfast On The Morning Tram é seu décimo trabalho em onze anos de carreira e mostra a moça cantando em inglês e francês com igual competência e passeando por diversos terrenos, fazendo belas versões de "Landslide" (Fleetwood Mac) e "Ces Petits riens" (Serge Gainsbourg). Enrico Pieranuzzi, pianista italiano e Tomasz Stanko, trompetista polonês, fecham a lista de indicações do Sérgio, que ressalta Pieranuzzi como um grande talento e recomenda os discos "Plays Morricone" e "Plays Morricone 2", duas belas homenagens ao grande mestre das trilhas sonoras.

Bons shows.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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