
Aos leitores um aviso: esse texto foi escrito em março desse ano, diante do aparecimento de Mallu Magalhães para a mídia nacional. Os números estão obsoletos e ele (o texto) só está aqui para um agradável exercício de comparação entre Mallu em março e hoje, em vias de disponibilizar faixas de seu primeiro disco no Myspace.
Confesso achar um exagero o trelelê a respeito da menina, Marcelo Camelo (que a recrutou para um dueto em seu disco solo, Sou) se referiu a ela como uma "figura eterna". Portanto, antes de quebrar a vidraça do blog, lembrem-se que as palavras abaixo são de março.
Não sei se as palavras de outubro/novembro serão muito diferentes disso, mas...
CEL
Um amigo e leitor me perguntou outro dia, via Orkut, o que eu achava de Mallu Magalhães. Quem? Confesso que estava por fora do buxixo em torno da menina e fui me interar. Eis o que penso. A menina é legal porque é real.
Mallu Magalhães é a primeira “cantora” brasileira a assumir um “status” (discutível) de fenômeno de acessos no site Myspace.com. Lá fora, no ultramar, isso não é novidade, vide o estouro de cocotas cantantes como Kate Nash, Lilly Allen, Colbie Caillat e outras menos cotadas. Os quase trezentos mil acessos à página de Mallu no Myspace não se comparam aos milhões que essas meninas acima conseguiram no mesmo meio de comunicação virtual, mas, é uma quantidade considerável para um país como o Brasil e merece um olhar, hum, analítico.
Antes de começar a escrever, finda a audição das canções disponíveis no site, procurei mais alguns registros da menina e concluí que temos sete músicas na voz de Mallu, sendo que uma delas é uma cover de Johnny Cash, “Folsom Prison Blues” e apenas “Vanguart” tem letra em português.

As referências que habitam seu som são boas, pelo menos é o que ela diz, indo de Beatles e Dylan, passando por Tropicália, Johnny Cash, “O Leãozinho” (sim, a canção do Caetano), Cat Power, Belle And Sebastian, chegando em Vanguart, aquela banda de Cuiabá que dizem que faz folk rock.
Mallu é paulistana, tem quinze anos e dona de uma beleza tipicamente nerd, algo que parece ser universal: palidez, cabelos castanhos meio avermelhados, olhos claros e voz de criança. Ela tem algo que falta em muitos segmentos da combalida engrenagem musical, seja na produção, criação ou comercialização: espontaneidade.
Ao contar sobre sua carreira em entrevista no programa Altas Horas, ela não parecia intimidada pelo aparato da Globo TV mas nitidamente não se encaixava no modelo de atração da emissora, causando risos na platéia do programa, acostumada a idolatrar participantes de BBB, Claudias Leittes e Sangalos da vida. Mallu não pareceu notar os risinhos dados por seu jeito expansivo e seu babytalking, algo que pode ser irritante, mas que soava agradavelmente fora de lugar no meio de tanta esperteza uniformizante e falsa. Ela explicou porque faz suas letras em inglês: - Eu componho em inglês porque gosto e prefiro. Serginho Groisman, um dos caras mais lamentáveis da mídia televisiva ficou desconcertado, mesmo com toda a sua “tarimba” em lidar com a juventude nacional.

Mallu é uma jovem mundial, produto de um planeta que gira em ritmos diferentes, que variam de acordo com a classe social. Se ela teve acesso a informação musical acima da média, seja em forma de leitura, filmes ou discos e se valeu delas para a composição de sua persona artística de classe média-alta, não há como recriminá-la por isso. E, claro, há que se entender o risinho do populacho do Altas Horas diante da espontaneidade da mocinha. Eles desconhecem a existência de vida além do que o plim-plim apresenta.
Mas, chega dessa lenga-lenga, pombas! As músicas são boas? Bem, é aquela história. Empreendendo um exercício de isenção e lavando o cérebro das informações que dão conta da existência de uns cinqüenta artistas/bandas que habitam o mesmo nicho da adolescente e fazem trabalhos melhores que o dela, dá para curtir o folkinho inconseqüente da guria.
O que é mais interessante nisso tudo é que os indies nacionais não parecem dotados de xenofobia, algo que impediu Kelly Key de ganhar os fãs da Britney Spears. Ou seja, o sujeito que gosta de Belle And Sebastian pode até torcer o nariz para canções como “J1” ou “Get To Denmark”, mas algo como um “sentimento de classe”, o conectará com a beleza pálida e os maneirismos indie de Mallu.
A exceção aqui é uma canção chamada “Tchubaruba”, que é uma engraçada declaração de amor e felicidade, como a menina que acorda e cumprimenta o sol, as árvores e o dia. É feliz, quase como um dia no jardim da infância, quando somos uns dois anos mais velhos e já o superamos. Uma canção infantil feliz, feita por alguém que só deve conhecer Johnny Cash pela exibição de Johnny And June nos cinemas ou que ouviu o pai cantar “O Leãozinho” para fazê-la dormir há poucos anos. Não são apenas achismos do crítico, são palavras da própria Mallu, numa entrevista dada na internet.

A menina é legal porque é real. Ela poderia ser da sua sala de aula, do seu curso de inglês. E só tem quinze anos. Imagine quando tiver dezessete?
Texto originalmente publicado no Portal Rock Press.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.