
Estive ontem no Vivo Rio para cobrir o show da Dave Matthews Band para o Portal Rock Press. Meu primeiro contato com a sonoridade do músico sul-africano radicado nos USA foi em 1994, por ocasião do lançamento de seu primeiro disco, Under The Table And Dreaming, pela então BMG (depois Sony/BMG).
Achei legal, ouvi músicas como "Ants Marching" e "Warehouse" tendo a certeza que eram bem feitas e interessantes, mas, desde o ínício, a semelhança com algumas nuances dos trabalhos solos de Paul Simon nos anos 80 (sintomaticamente seu disco Graceland, feito com músicos sul-africanos) e Sting nunca me enganaram. O que saltou aos ouvidos, três anos depois, foi o lançamento de um disco duplo ao vivo, gravado no Red Rocks Amphitheater, manjado palco ao ar live dos States.
Com apenas dois álbuns de estúdio (o primeiro e o então recém-lançado Crash), Matthews não tinha qualquer pudor de centrar seu repertório em dezessete canções dos trabalhos de estúdio e oferecia uma performance cheia de alternativas, improvisações, solos, dando aos fãs uma versão 90's do que bandas como Grateful Dead cunharam nos anos 70: a celebração do show.
A idéia de Matthews era detonar os fazedores de bootlegs - discos piratas - que tiveram sua atividade facilitada na então era do CD. Dave queria lançar discos ao vivo oficiais para que o interesse por gravações não-autorizadas fosse minado, o que era uma atitude bem legal, copiada pelo Pearl Jam anos depois, que lançou todos os discos de sua turnê mundial e que mantém até hoje uma relação próspera na comercialização das gravações oficiais de seus shows.
O tempo passou, os discos vieram, os shows permaneceram e Dave Matthews e sua banda já têm um catálogo de seis álbuns de estúdio, numa linha decrescente de inspiração desde o primeiro trabalho. A quantidade de registros chega ao dobro com a contagem dos discos ao vivo, lançados a cada ano, sempre com a íntegra dos shows. A série Live Trax tem vários volumes, como, por exemplo, o que traz o concerto em Fenway Park, Boston, com quatro discos. Os álbuns dedicados aos shows dados no ano passado em Piedmont Park, Atlanta, e no Central Park (Nova York) são triplos.
É legal, principalmente porque há o estabelecimento de uma relação entre artista e público, que transcende o âmbito musical/comercial e adentra o terreno da identificação pessoal. O fã de Dave Matthews concorda com ele, admira sua postura, compactua de seus ideais estéticos - principalmente musicais - e compra os produtos como se fossem seus.
O que funciona nos USA parece atingir o mesmo nível de cumplicidade no Brasil, por incrível que pareça. As pessoas que estavam na casa de shows carioca ontem eram de classe média alta, com condições de adquirir os discos ou, claro, computadores e banda larga para downloads do catálogo da banda, dos ítens mais comuns aos shows lançados apenas no exterior. A Sony, de olho no burburinho da passagem da DMB pelo país (shows em Manaus e São Paulo, antes do Rio), colocou à venda dez discos, sendo dois duplos (Live At Luther College e Radio City Music Hall, ao vivo, acústicos, apenas com Dave e seu parceiro Tim Reynolds), um triplo (Central Park) e nada menos que a discografia completa de estúdio, além da coletânea inédita aqui, The Best Of What's Around. Quem faz um investimento desses em tempos tão bicudos, só pode perceber que o público da DMB compra os discos, principalmente os gravados ao vivo.

A primeira vontade é descer a lenha nos fãs da banda, pelo menos nos brasileiros. É uma gente yuppie, riquinha, com um conhecimento superficial da música pop, norteado por conceitos que temos quando começamos a ouvir música: "gostamos desse cara porque ele toca bem pra c***lho" ou "o som que esse cara faz é original" ou ainda "a energia deles no palco é f*da", mesmo que não tenha visto um show sequer.
O som do Dave tem os ingredientes pra conquistar não só os mais dispostos. As exibições de talento nos instrumentos são constantes, estendendo a duração das músicas para além de dez minutos em média, chegando a varar vinte voltinhas no relógio em "Two Steps" ou "Ants Marching".
Não é progressivo, não é jazz, não é funk, não é rock, não é pop. O que é então, pombas? Não sei bem, mas não é algo totalmente ruim, mesmo que seja chato, igual e eloquente demais.
O público, pasmo, aplaude, urra, tem chiliques. Como podem conhecer tanto as músicas do Dave se ele não lança nada de novo desde Stand Up, de 2005? Onde eles as ouvem? É gente que vai pro exterior? É gente que tem fã-clube? Ainda existe fã-clube?

Eu sou um conhecedor razoável da obra da DMB, ainda que meu interesse por eles tenha se perdido a partir do terceiro disco, Before These Crowded Streets. Não há clipes dele no Multishow, na MTV, no Fantástico, em lugar nenhum! Os discos estavam fora de catálogo...Dave nem é um cara pintoso, se comparado a seus seguidores formais ou informais - Ben Harper, Jack Johnson, John Mayer - e ele arrasta o povo. Se permite fazer covers de Neil Young ("Cortez The Killer"), Rick James ("Superfreak"), Talking Heads ("Burning Down The House", tocada ontem), Allman Brothers ("Melissa"), Bob Dylan ("All Along The Watchtower", transformada em um dos pontos altos dos shows, curiosamente ausente da apresentação do Rio) e tem o cuidado de não repetir um setlist. O sujeito excursiona com Bruce Springsteen em turnês Rock The Vote, apóia Barack Obama, é bom pai de família, bom amigo, bom cunhado...
O povo de ontem sabia pausas, improvisos, parecia ensaiado. Por que eu não estou entusiasmado?
Posts similares:
Jefferson Gonçalves
Bob Dylan é a mensagem
O Que Ver No Tim Festival 2008
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
ave nem é um cara pintoso (...) e ele arrasta o povo.” Aí já está parecendo uma pontinha de inveja. Dave tem um baita carisma, é hiper simpático no palco, demonstra alegria no que faz. A banda é super competente. E isso arrasta o povo, claro!
CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.