
Houve um tempo em que eu alugava CDs. Eu e uma multidão de pessoas que passavam pelos dezoito, vinte anos em 1991/92. Era um tempo bom e ingênuo de descoberta musical constante. Não consigo achar a mesma graça quando um download se encerra e eu começo a ouvir as músicas em meu Windows Media Player.
O mais legal dessa coisa de alugar CDs é que muitas bandas que ouvi/conheci no início da década de 1990 ficaram associadas a essa prática que se perdeu no passar dos anos. Pense: se hoje as pessoas não compram CDs, por que iriam alugar? E se as pessoas baixam da internet todos os discos possíveis e imagináveis, a prática de locar discos torna-se ainda mais descabida.
Eu me lembro de cruzar o Rio de Janeiro, de Copacabana à Tijuca, em direção à Praça Saenz Peña, local onde se situava um pequeno complexo musical que abasteceu minha discoteca - muitos LPs, vários CDs na época - por um bom tempo. Na simpática Vitrine da Tijuca, uma galeria ao lado da Confeitaria Palheta, haviam a Sub Som e a Vídeo Game Center.

A primeira, como o nome já dizia, ficava no subsolo da galera e me lembro de encontrar lá o vinil de Two Wheels God, segundo disco do Prefab Sprout, por volta de 1991. Esse disco saiu aqui no ano do seu lançamento, 1985, incluído numa leva de álbuns com o duvidoso selo New Rock. O Prefab foi visto pela primeira vez por mim nesse mesmo ano, através do clipe de "When Love Breaks Down", uma canção que permanece entre as minhas Top Five eternas. Procurei o disco por muito tempo e, cinco anos depois, encontrei um vinil muito bem conservado, em meio a um saldão da Sub Som numa manhã de sábado.
Nessa época ainda não estava familiarizado com a Vídeo Game Center, dois andares acima e isso só aconteceu quando entrei para a Faculdade de Comunicação Social da Uerj. Os nascentes profissionais de jornalismo musical, iludidos pelo bom mocismo que sempre nos assalta em algum momento da vida pós-adolescente, se reuniam na casa de Leonardo Salomão, no Grajaú, bairro próximo à Tijuca, para ouvir os discos que eram alugados na VGC.
A loja - como o nome já diz – tinha como carro-chefe a vendia e aluguel filmes em VHS e games, mas guardava um cantinho em que era possível pegar os discos recém-lançados nos USA e Inglaterra, que chegavam ali com uma simultaneidade impressionante para a época. Foi pelas mãos da VGC que conheci Sonic Youth, Pixies, Breeders, Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains, Lemonheads, Dinosaur Jr, enfim, toda a produção indie americana daquele momento, além do melhor das bandas de acid rock britânicas como Ride, Stone Roses, Soup Dragons, Inspiral Carpets, Blur e muito mais.
Num tempo em que era caro adquirir discos importados, que, além disso eram achados apenas na Modern Sound (loja que também ajudou a formar a minha discoteca) por um preço salgadíssimo, o aluguel de discos era uma alternativa romântica e eficiente.
Por isso, talvez pra sempre, eu ouça determinadas canções e me sinta transportado de volta à galeria da Tijuca. Não preciso dizer que a VGC também não existe mais por lá, como os pequenos Cinemas Paradiso da nossa vida.
Outra história de bravura musical aplicada à aquisição de discos teve lugar na Rua Pedro Lessa, no Centro da Cidade. Até hoje, com bem menos intensidade, funciona ali um comércio informal de discos e vinis raros. Com a popularização do CD e sua atual decadência, movida pela internet, a Pedro Lessa é um lugar bem menos movimentado.
Num dia de 1993, no entanto, eu cheguei lá com disposição para comprar o segundo disco do Blur, Modern Life Is Rubbish. O mais difícil - encontrar o disco – foi resolvido logo de cara, quando vi a capa e seu desenho de locomotiva surgindo em na pequena fileira de discos. O preço era de vinte e poucos reais - lembre-se, era 1993 - e eu não tinha um único centavo na carteira. Saquei o talão de cheques e vi que a última folha havia sido usada poucas horas antes e eu não havia retirado um tostão.

Não pensei duas vezes: ofereci três tickets-refeição para o vendedor. Se ele fosse taxativo e dissesse um "não" incontestável, minha proposta informal e alternativa de uso do ticket refeição seria rechaçada. Ele hesitou, entretanto. Foi a deixa para a minha insistência vencê-lo após algumas tentativas. Deixei os tickets e fui para a Uerj com a minha cópia lacrada do segundo disco do Blur, feliz da vida.
Meu problema com a modernidade é que esses pequenos desafios são ceifados da nossa vidinha. Quando e como a obtenção de músicas e discos será tão prazerosa novamente? O ser humano precisa inventar algo para resolver o déficit de prazer em adquirir músicas. Do contrário, como dizia o título do disco que repousava em minha mochila, a vida moderna sempre será bobagem.

Amigos, encerro o assunto sobre as eleições para Prefeito do Rio de Janeiro com esse texto, escrito pelo Lula Vieira.
"Escrevo ao meio dia de domingo, antes de encerrar a votação aqui no Rio de Janeiro, com as pesquisas de intenção de voto indicando empate técnico entre os dois candidatos a prefeito, Fernando Gabeira e Eduardo Paes.
Trabalhei para Gabeira desde quando ele tinha 4% das intenções de voto e era um candidato tão pequeno que nem mereceu ser entrevistado pelo RJTV, que restringia o supremo prestígio de ser ouvido pelos repórteres àqueles que tivessem algo acima de 5% das intenções de voto.
Invariavelmente Gabeira aparecia na condição de "outros" quando os jornais e as emissoras de televisão falavam dos candidatos. O que mais ouvi neste mês de agosto foi que sem dúvida Gabeira era o melhor nome para a Prefeitura, mas que infelizmente não teria a menor chance.
Os eleitores mais conscientes tratavam de escolher "o menos pior" entre os que poderiam ganhar, Jandira Fegali, Bispo Crivella e Eduardo Paes. Essa difícil e desanimadora escolha ficava entre Jandira e Paes, pois "Crivella nunca", pelo menos na ótica – como eu já disse – dos mais conscientes. Ou dos mais bem informados, sei lá.
Uma revista semanal, acredito que a IstoÉ ou Época (Veja tenho certeza que não foi) chegou a apelidar Gabeira de "Candidato Carrossel" por girar, girar, girar e não sair do lugar. Fui procurado pela mulher de Gabeira, Neila Figueiredo, e selamos o trabalho em conjunto no dia do velório de dona Ruth Cardoso, no aeroporto Santos Dumont, que permanecera fechado durante toda manhã.
Teria total liberdade, desde que não resolvesse criar um Gabeira de mentira. A restrição a qualquer tipo de maquilagem ia até mesmo à própria maquilagem. "As rugas são as marcas do tempo no rosto dele, devem ficar". Não seria necessária a advertência. Mas fiquei contente por ouvi-la.
Acho que os marqueteiros são responsáveis pelo esvaziamento do conteúdo verdadeiro dos candidatos, embora não tenham culpa na falta de caráter e na compulsão pela mentira. Essas características o sujeito já traz de casa, ou de berço, como queiram.
Dias depois, na minha casa, traçamos o rumo da campanha: não atacar o adversário, ser absolutamente transparente, não sujar a cidade. A transparência deveria ir até mesmo no caixa da campanha: nada de Caixa 2, não receber dinheiro de companhia de ônibus nem de cooperativa de taxi, pagar e receber tudo "por dentro" e colocar
todas as movimentaçõs imediatamente na Internet.
Se você for até o site da campanha vai achar lá o ítem "Ebulição". É a
nossa empresa. Todos os pagamentos que recebemos (e pagamos os impostos) estão lá. Para os padrões brasileiros, o dinheiro da campanha era quase pobre.
Como vantagem tínhamos a melhor equipe que a ideologia pode comprar: Moacir Góis na direção do programa de televisão, João Paulo na edição, Moacir Padilha dirigindo o rádio, Carlinhos Chagas na redação, e por aí afora. Gente que se dispôs a trabalhar por menos da metade do que poderia cobrar, mas que se sentia recompensada pela oportunidade de se engajar na campanha de um candidato digno, limpo, idealista, agradável.Coisa raríssima nestes dias que correm.
Uma noite, logo nos primeiros dias, o Campanelli da MCR apareceu com um jingle de estarrecedora simplicidade, mas com potencial de se tranformar num mantra: "O Rio é de Gabeira…Gabeira…Gabeira" num ritmo classificado de "marchável", meio hip hop, um chiclete de ouvido irresistível. Fizemos um santinho, uma equipe se encarregou do site, nos concentramos nos programas de TVe rádio e entregamos a Deus, que com certeza deve ter pensado "Crivella nunca". Tanto é verdade que Crivella, que vinha liderando as pesquisas, se envolveu com o escândalo de uma obra que se chamava "cimento social" e serviu como pá de cal para suas pretenções, com perdão pelo trocadilho.
Teve até a participação de um militar alucinado que entregou uns garotos para serem chacinados por uma gangue do tráfego. Tudo respingou no Bispo e no seu discurso messiânico de ungido pelo céu e por Lula. Só no discurso dele, pois ambos não quiseram se comprometer.
Tivemos a imensa vantagem de termos bom tempo na TV e no rádio, cerca de cinco minutos, e de não sermos ameaça para ninguém. Por isso pudemos apresentar Gabeira com toda calma, como alguém capaz de ter uma visão mais aberta, mais moderna, mais cosmopolita para os imensos problemas da cidade.
Eduardo Paes veio como o grande síndico que se preparou durante dezessete anos para ser prefeito. Dizia conhecer cada pedra, cada buraco da cidade. Prometeu instalar 40 UPA's (Unidades de Pronto Atendimento), uma espécie de Centro de Saúde feito rapidamente e outras coisinhas que transformariam o Rio de Janeiro numa Finlândia em
apenas 4 anos.
Jandira, por ser médica, centrou seus esforços na saúde e Crivella era o amigo dos pobres. Jandira parecia ter acabado de acordar no meio de um plantão: nervosa, desgrenhada, vestido aparentemente amassado.
Entre os nanicos, o candidato do PT resolveu transgredir a mais sagrada das normas da televisão e passou o tempo todo falando de lado, para um ponto à esquerda do espectador. Bonitinho, bonzinho, arrumadinho, era o bom filho, o bom colega e o bom professor. Todos sabem que realmente é um homem direito, mas ficou bonzinho demais, arrumadinho demais. Falou bastante, mas todo mundo se perguntava porque ele olhava para o lado. Chico Alencar é o Chico Alencar, veio de Chico Alencar e falou como Chico Alencar. Levou os votos de Chico Alencar. Meia dúzia.
Os demais se confundiam com os candidatos a vereador. Um deles tinha um belo slogan: "quem pica cartão não vota em patrão". Em conjunto eles iam implantar o socialismo, destruir a Rede Globo e conduzir os povos à libertação, à verdadeira democracia e à divisão justa de renda.
Chega o dia da eleição e, para estupor geral, Gabeira – o candidato Carrossel, o sem chance, o nanico do bem, tira um magnífico segundo lugar e vai para o segundo turno, juntamente com Eduardo Paes, candidato do governador e do presidente. O espanto maior, no entanto, foi dos institutos de pesquisas que até o dia anterior davam como certa presença de Crivella como adversário de Paes. Neste mesmo dia, Gabeira virou maconheiro, viado, defensor do aborto e da prostituição, nefelibata e tudo mais que é possível se falar contra um político brasileiro.
Só não poderia ser demagogo, mentiroso e ladrão porque no caso do Gabeira é impossível se falar isso dele. Nas primeiras semanas todos os derrotados se aliaram ao Paes, que passou a ser candidato da máquina estadual, nacional e universal (do Reino de Deus).
Lula falou de Paes, Cabral falou de Paes, Crivella falou de Paes, Jandira falou de Paes. Até Molon do PT e Vladimir Palmeira se aliaram a Eduardo Paes. O solitário apoio a Gabeira veio de César Maia, o único prefeito do mundo que surtou e virou blogueiro em pleno mandato.
Quer dizer, vieram dar apoio, além de César Maia, Caetano Veloso, Fernanda Torres, Adriana Calcanhoto, Alceu Valença, Debora Colker, Oscar Niemayer, Gustavo Lins, Alcione, Wagner Moura, Martinália, Pedro Luiz, Marina Lima, João Bosco, Paula Toller, Frejat, Nelson Mota, Armínio Fraga, Aécio Neves e mais oito mil voluntários.
Logo no comecinho me lembro de uma passagem de Gabeira. Um político, dos mais conceituados, propôs a Gabeira começar a mostrar os podres da turma de Paes, um amplo arco de alianças que iam do famoso Piciani a Jorge Babu, passando por uma variadíssima fauna de pessoas sobre as quais não resta a menor dúvida. Gabeira respondeu: "eu prometi não atacar adversários". O interlocutor não deixou por menos: "então você vai perder". Gabeira respondeu firme: "então eu vou perder". Noutra ocasião, um empresário, que já foi meu cliente, liga oferecendo dinheiro para a campanha. Gabeira instrui o financeiro: "você já sabe, quando empatar com as despesas, pare de receber qualquer
dinheiro".
Nunca antes na história deste país um político se dispôs a receber somente o dinheiro necessário para a campanha. Fizeram de tudo, de tudo mesmo, até a suprema burrice: mandar imprimir na Gráfica da Ediouro, de quem sou Diretor de Marketing, um folheto contra Gabeira.
Ninguém acreditou nem vai acreditar, mas tal como Lula, eu não soube de nada, a não ser quando o TRE confiscou o material, que por sinal estava dentro da Lei, com nota fiscal e tudo. Paes ficou repetindo o bordão: "Gabeira é apoiado pelo César Maia, Gabeira é apoiado pelo César Maia, Gabeira é apoiado pelo César Maia".
O engraçado é que todo o currículo de grandes realizações de Paes foi como subprefeito, e secretário… de César Maia. Que raça! No telefone, Gabeira fala de uma vereadora: "ela é analfabeta política…está fazendo política suburbana". Os jornalistas ouvem e dão a notícia.
Mais um bordão: "Gabeira é preconceituoso, Gabeira é preconceituoso, Gabeira é preconceituoso". Milhares de faixas são impressas: "sou suburbano com muito orgulho". Uma feijoada é oferecida aos suburbanos ofendidos e Noca da Portela e outros menos votados dão apoio a Paes, o amigão do subúrbio.
Cria-se uma situação irreal. Gabeira, menino pobre, que vendia banana e ovo para ajudar o pai, professor voluntário na Zona Norte, vira o "candidato dos ricos", enquanto Paes, menino da Zona Sul, estudante de colégios caros e da PUC, quer se consagrar como "o candidato dos pobres".
Paes, 38 anos, cara de garotão é o velho matreiro, conhecedor dos meandros da política, o experiente. Gabeira, 68 anos é o jovem, impetuoso, novidadeiro, contemporâneo. E começam os debates. Até o último, da TV Globo na sexta-feira anterior ao domingo da votação, foram 7 deles.
Gabeira venceu sempre, na opinião dos internautas. Alguns momentos foram muito bons. Por exemplo, quando Paes afirmou que se preparava a vida inteira para ser prefeito do Rio, Gabeira respondeu: "pois eu me prepararei a vida inteira para… a vida inteira".
Ou, então, quando Paes disse que seria necessário saber que "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa", recebeu como resposta: "a esta altura da vida eu já sei".
Vladimir Palmeira pode nesta eleição ter batido o recorde mundial de ingratidão. Gabeira sequestrou o embaixador americano para que Vladimir, entre outros presos políticos, pudesse ser libertado. E Palmeira decidiu apoiar Eduardo Paes.
Por falar em embaixador sequestrado, a filha do próprio fez absoluta questão de declarar seu apoio a Gabeira. E contou que o pai dela tinha boas recordações dele. Na imprensa escrita, inaugurou-se um novo tipo de colunismo: o de crítica a horário eleitoral gratuito. Como se fosse novela.
O Globo e o Jornal do Brasil tiveram seus colunistas que diariamente comentavam sobre roupa, postura, edição. O colunista do JB, se sentindo obrigado a fazer uma gracinha por dia, algumas vezes se perdeu na busca do humor.
A certa altura, como o programa de Gabeira fazia enorme sucesso com seus clipes de cantores, Paes colocou no seu programa a entrevista de uma jovem na rua que afirmou: "eu quero ver propostas, não musiquinhas bonitas". Nem na Noruega se vê tanta participação cidadã.
Uma jovem exigir dos candidatos a apresentarem suas propostas de governo é tão natural quanto as donas de casa que afirmavam que Paes no seu tempo de sub prefeito entrou na lama até a cintura para ajudar as pessoas assoladas por uma enchente.
Uma enorme demonstração de incompetência de seus auxiliares foi não encontrar uma única foto registrando o heróico feito. Hoje o eleitor decide quem é o prefeito do Rio de Janeiro. O resultado sairá dentro de algumas horas. Seja qual for o vencedor, Gabeira sai muito maior do que entrou.
É um político que pode se orgulhar do respeito de todos, inclusive de seus adversários, que jamais colocaram em dúvida sua honradez e honestidade. Outra vitória de sua candidatura foi a de trazer para milhões de pessoas a informação de que é possível se fazer politica com seriedade.
Trouxe também a participação dos jovens, entre os quais, as pesquisas eram unânimes em apontá-lo como o candidato preferido. Nesta eleição não se ouviu o tradicional discurso do "político é tudo igual", principalmente por parte deles.
Gabeira demonstrou que os políticos, como as pessoas, são diferentes. Sua campanha termina com a marca da elegância, do bom humor e do amor pelo Rio de Janeiro. O Rio foi votar sorrindo. Essa é a grande, a enorme vitória de Fernando Gabeira".
Lula Vieira - publicitário, responsável pela campanha de Fernando Gabeira à Prefeitura do Rio de Janeiro.

Há tempos uma eleição não me despertava tanto interesse. Tanto que peço licença aos meus leitores para escrever um pouco sobre política e os dois candidatos ao cargo de Prefeito do Rio de Janeiro, em vez de falar sobre música, cinema ou qualquer outro assunto pop. Não que eleição não seja pop, é por sentido indissociável do termo - graças a Deus - mas, bem, não é o que você está acostumado a ler por aqui. Sendo eu um cara educado, achei por bem avisar.
Eu voto em Fernando Gabeira para Prefeito. Sempre votei nele em todas as eleições que disputou, exceto para Presidente da República (1989) e Governador do Rio de Janeiro (1986 - eu não votava, mas, se votasse, cravaria em Lisâneas Maciel, do PT).
Gabeira fundou o Partido Verde em 1986 e manteve-se oscilante entre ele e o PT ao longo de sua carreira política, sendo que foi pelo Partido dos Trabalhores que obteve seu último mandato de Deputado Federal.
Desde que eu aprendi História, no Colégio Santo Agostinho, descobri que o mundo sempre viveu ciclos de luta pelo poder, seja por grupos rivais ou pelo povo contra esses grupos. Quase sempre a luta foi perdida pelo povo - exceto talvez nas Revoluções Francesa e Russa - mas esse é um detalhe. Sempre li e aprendi que os sujeitos com boas intenções são vítimas de políticas de descrédito ou de mecanismos de toda sorte nas máquinas administrativas para que não consigam chegar a uma posição em que algo possa ser feito. Quando conseguem, são assassinados (Salvador Allende no Chile, João Goulart no Brasil) ou se tornam ditadores (Stalin na URSS, Castro em Cuba), o que nos leva a crer que política e poder são coisas bastante complicadas de se entender e exercer. Aliás, quando eu estudava História no Santo Agostinho, a partir da quarta série primária, um certo Eduardo da Costa Paes fazia parte da minha turma. Lá permaneceu até a oitava. Eduardo Paes é o outro candidato ao cargo de Prefeito do Rio.

Paes representa o PMDB, o que, a rigor, significa representar um bando de políticos que serve como sustentáculo para o governo federal. Quando digo "governo federal", não me refiro apenas ao Lula, pois imagino o PMDB apoiando qualquer presidente, de qualquer partido, pois o PMDB vive disso. Não há ideologia, não há coerência.
Mas não é disso que quero falar. Apenas convém dizer que Eduardo Paes, o "Duda", representa essa galera, além de simbolizar o continuismo de uma gente que sempre governou o Rio, desde 1986, quando Moreira Franco foi Governador. Isso inclui uma linhagem de pessoas que mantiveram a cidade - e o estado - numa descendente contínua, rumo ao ocaso e consumando a perda de importância do Rio no cenário nacional, algo que nunca poderia acontecer.
Gabeira, por sua vez, não bastasse a atuação contra a ditadura (chegando à luta armada em 1969, quando seqüestrou o embaixador americano Charles Elbrick, episódio que descreveu em seu livro "O Que É Isso, Commpanheiro") sempre manteve-se fiel a uma "esquerda" que significa luta pelos mais fracos, pobres e desamparados, num escopo que contempla a justiça e igualdade para todos. Paes, por sua vez, trocou de partido três vezes, indo da direita reacionária do PFL para o murismo do PSDB e, há pouco tempo, a prostituição ideológica do PMDB. Se você não mora no Rio, basta dizer que o PMDB tem em seus quadros os ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho, duas das figuras mais lamentáveis a ocupar cargos públicos no estado.

Reproduzo abaixo uma lista de motivos que Pedro Dória (jornalista do Estado de São Paulo) publicou em seu blog para os cariocas não darem o voto a Eduardo Paes.
"1. Eduardo Paes foi um mais virulentos críticos do Governo Lula na Câmara dos Deputados. Foi líder do PSDB na Câmara. Gabeira também foi crítico? Foi. Mas suas críticas não nasceram do puro jogo partidário e sempre foram leais. Este argumento não é meu. É de Jaques Wagner, governador petista da Bahia, que sugere que seu partido deveria apoiar Gabeira no segundo turno.
2. Se o PT nacional apoiar Paes oficialmente, não será porque se preocupa com o futuro do Rio. Certamente não virá de coerência ideológica. Virá de um jogo de alianças nacionais puramente político no qual o Rio é sempre sacrificado. Não custa jamais lembrar a eleição para governo do Estado de 1998, em que o PT do Rio queria a candidatura de Wladimir Palmeira e o PT nacional impôs o apoio a Anthony Garotinho.
3. Eduardo Paes tem como principais doadores de sua campanha Eike Batista e a construtora OAS. A mesma OAS virtualmente criada por Antonio Carlos Magalhães. Não representam grupos que costumam investir em políticos pelos seus belos olhos.
3. Apoiaram Eduardo Paes no Primeiro Turno: o PTB de Sandra Cavalcanti, o PP de Paulo Maluf e Francisco Dornelles, o PSL de Celso Pitta.
4. Eduardo Paes não tem qualquer história política e qualquer firmeza de ideais. Muda de partido independente de sua ideologia. De protótipo dos mauricinhos criados por Cesar Maia virou o garoto prodígio do PSDB e se bandeou para o PMDB de Garotinho.
É por isso que Eduardo Paes não é o melhor nome para a prefeitura do Rio de Janeiro."
Lembrem-se: não importa em que cidade ou estado do Brasil você esteja, o voto é um troço muito sério. Quando penso na quantidade de seres humanos que perderam a vida para que você apertasse o botãozinho da urna eletrônica, não me passa pela cabeça desperdiçar a chance de participar da escolha do sujeito que vai mandar na vida de tanta gente. E, bem, de vez em quando, surge a chance de escolher alguém que realmente seja honesto, digno, sincero e cheio de boas idéias. Como agora.


O Cérebro Eletrônico quer ter com vocês. Leiam.
"Somos rapazes de família – apenas parecemos modernos – e por essa razão não costumamos dar nada no primeiro encontro.
Não se trata de moralismo religioso ou capitalista, apenas de um mecanismo de molas que se contrai para armazenar força e então expandir plenamente. Pois é somente depois de estabelecida certa intimidade que tem início o processo de concessão e abertura de certos limites. O resto é apelido carinhoso, planejamento familiar, contas a pagar e reformas da sala.
Estamos íntimos?
Então agora podemos dar sem receio. Não tudo. Porque não queremos que acabe cedo, antes do terceiro disco. São 8 músicas muito bem selecionadas na plantação recente. Começamos com “Pareço Moderno” e “Dê” (as mais pedidas), descemos o morro com “Mar Morro” e subimos aos céus com “Os Astronautas” em versão ao vivo gravada em Rodoxland (o antro florestal de criação cerebral). As 3 últimas são presentes que ganhamos, remixes feitos por amigos e comparsas.
“Antes Eu Tivesse Convivido Só com a Minha Guitarra” feita por AnvilFX, “Dominó Tecnológico” por Macacorama e “Pareço Moderno” remixada por Guab.
Para lançar esse EP optamos por agregar os amigos reais e virtuais. Muitos deles mantém seus BLOGS e então nos perguntamos: “por que não oferecer o arquivo e deixar a galera fazer o que bem entender?”. E foi isso mesmo o que aconteceu. O EP está disponível em blogs camaradas para quem quiser usufruir.
Depois tem mais, ok?"
Não é sempre que uma banda é tão legal no palco e em suas RP's com o público. Por isso, o Blog Do CEL, integrando a lista de blogs amigos, disponibiliza pra vocês o EP Pareço Virtual, complemento mais que luxuoso do CD Pareço Moderno, sério candidato a melhor disco nacional do ano. . Baixaqui.

Pessoal, post curtinho antes de dormir.
O que é Arnaldo Antunes substituindo Paul Weller no Tim Festival?
De quem foi essa idéia? Sei que é complicado chamar alguém em cima da hora para cobrir uma ausência destas, mas, sinceramente, o nome Arnaldo Antunes não poderia ser pior escolha.
O compositor concretista paulistano tem um passado de relativa glória, já fez coisas interessantes, mas não há Cristo que consiga suportar uma noite com ele e Marcelo Camelo em versão contemplativa praiana.
Sem falar que muitos esperam décadas para ver Weller ao vivo. Esperarão mais um ano, afinal.
Bola fora, Tim.

Se você ainda não sabe, leitor, Paul Weller não vem mais para a edição 2008 do festival devido a problemas com o visto de trabalho de seu pianista, Andrew John Gonçalves. Com esse sobrenome, claro, o sujeito é brasileiro, mas reside na Inglaterra desde os dois anos.
A organização do Tim promete anunciar na quarta-feira, dia 22, o que fará para cobrir a cratera no Palco Bossa Mod, no qual Weller se apresentaria, após o show do ex-Los Hermanos, Marcelo Camelo. É esperar para ver. Ou não.
Com a desistência do Modfather, de tantas glórias e tradições a bordo de Jam, Style Council e numa carreira solo impecável, o que sobrou de interessante no festival fica concentrado no setor do jazz, um gênero musical sempre privilegiado pela organização do evento. Sendo assim, aqui vai uma pequena lista com indicações de bons shows e alertas sobre outros, que a imprensa já promove o hype desde o início do ano.
Ao contrário do que muita gente diz, os americanos de MGMT e The National não são nada demais. São bandas divertidas, principalmente a primeira (mesmo porque, o National é tudo menos divertido) e têm, no máximo, duas ou três músicas mais ou menos conhecidas. Além do mais, hoje em dia, não confio em gente que faz show com apenas um disco lançado, caso do MGMT, com seu debut Oracular Spetacular. Seu som é totalmente, indubitavelmente, loucamente, decalcado de Flaming Lips, só que com um acento ripongo planejado e pra inglês ver, que dificulta ainda mais a boa vontade com a dupla. É banda pra ouvir no IPod. Quem for no show já terá esquecido de tudo três dias depois.

O National é uma dessas bandas que pega emprestada a solenidade tristonha de formações como Tindersticks e American Music Club (que devem tudo a mestres como Leonard Cohen e Scott Walker) e, pelo menos em seu último trabalho, Boxer (2007), a empacota com algumas batidas mais ou menos animadas. Para quem nunca ouviu um disco das bandas mencionadas acima, reconheço que o contato com essa sonoridade deve ser equivalente à chegada do messias. Mesmo assim, com todo dejá ouvi, "Fake Empire", "Squalor Victoria" e "Mistake For Strangers" são belas e devem fazer a delícia do público indie na faixa dos 20 anos.

O Neon Neon, projeto paralelo do vocalista e mente maior do Super Furry Animals, Gruff Rhyes, é bastante legal. A idéia dele e seu parceiro, o produtor Boom Bip, é fazer o tradicional "disco em homenagem aos anos 80". Isso, aquele mesmo, que tantas e tantas pessoas e bandas no mundo tentam fazer todos os dias. Em Stainless Style (2008) a dupla não tem a menor vergonha de se esbaldar no lado mais ridículo da década, visitando todos os estilos. O disco tem rap farofa, rock farofa, teclados que poderiam ser comprados no camelô da esquina e timbres estudados para capturar o ouvinte novo e dar aos mais velhos uma série de sobressaltos à medida que reconhecem uma batida, um riff, um sei-lá-o-quê. Músicas como "Dream Cars" e "I Told Her On Aldebaraan" crescerão muito ao vivo e o batidão funk carioquês de "I Lust U" será catártico.

Marcelo Camelo terá um belo desafio, talvez diminuido pela ausência de Paul Weller. O público roqueiro do inglês provavelmente não se conectaria à nova proposta intimista-MPB que o ex-Los Hermanos apresenta em seu primeiro disco solo, Sou. Camelo tem a seu favor a adição de canções de sua ex-banda no repertório, além da presença do sexteto paulistano Hurtmold como sua banda de acompanhamento. Os sujeitos são realmente muito bons e devem quebrar o clima lento que reinará.
Klaxons é uma banda não mais que mediana. Foi hypada ano passado como sendo uma precursora do "new rave", algo que não existe. Será engolida pelo show do Neon Neon - que abrirá os trabalhos do palco...New Raves. Seu único disco, Myths Of The Near Future, foi lançado aqui no ano passado e não é muito melhor que o primeiro trabalho do Cansei de Ser Sexy, se isso serve como uma boa referência. "Atlantis To Interzone" é a puxadora do disco, uma frenética short trip de pouco mais de três minutos, cheia de sirenes e batidas disco-punk, no mesmo estilo de tantas outras bandecas que apareceram nos últimos momentos. Vai fazer o povo pular, nada mais.

O rapper Kanye West terá um palco só dele, principalmente porque seu show Glowing In The Dark é uma espécie de space-rap-opera, ou seja lá o que for. O rapper, natural do estado americano da Georgia, é considerado o melhor artista do gênero da atualidade, mas seu som não tem nada de especial, se comparado a gente como Run DMC ou LL Cool J. Claro, a idéia da mídia e da indústria é vender novas caras como se fossem absolutamente novas, por isso, West é o bam-bam-bam da parada, mesmo que não tenha originalidade. Não dá, entretanto, para dizer que o sujeito não tem talento. Seu rap é à moda antiga, cheio de samplers de gente bamba, de Aretha Franklin a Al Green, uma prática usual no passado, mas que se tornou sinônimo de genialidade tamanho o lamaçal que o rap habita hoje em dia. Para quem ouve música há uns dez anos, West deve ser a salvação da lavoura mesmo. Seus três discos são interessantes, principalmete a estréia em The College Dropout (2004), mas seu trabalho mais recente, "Graduation" será mais tocado no show. Talvez West ainda apresente novidades de seu quarto disco, "808's And Heartbreak", a ser lançado em novembro. Aliás, o homem se apresentará com banda ao vivo, bonecos alienígenas, figurantes, vocalistas, percussionistas e tudo mais. Pode ser legal e dar vontade de ouvir De La Soul e A Tribe Called Quest quando chegar em casa.

O coletivo paulistano Instituto é bem intencionado. Seu primeiro disco, Coleção Nacional (2002) era cheio daquela abordagem moderna e esclarecida dos ritmos negros, principalmente funk e samba. Confesso, é algo que não me agrada, principalmente porque acredito que os ritmos negros precisam de contato com a perdição e o infortúnio para que sejam legítimos. Ou seja, você pode imitar, copiar, tentar, nada parecerá autêntico ou válido. A idéia de tocar os sucessos da fase Racional de Tim Maia é louvável, mas, pergunto, esta é a fase mais rica da carreira do "Síndico"? Não, apesar de ser a mais badalada, hypada e, hum, conhecida pela platéia esclarecida. Não aposto nesse show, prefiro as interpretações do velho Sebastião, principalmente no início de sua carreira, quando passava fome, não pegava ninguém e vivia revoltado porque todos à sua volta faziam sucesso e ele não decolava. Nem as presenças de Thalma de Freitas e B Negão farão qualquer diferença.
Quem conhece o Gogol Bordello, gosta do Gogol Bordello. Se você lembra da virada dos anos 80/90 deve ter em mente uma formação franco-espanhola chamada Mano Negra. A idéia de Eugene Hutz, nascido na Ucrânia e líder do GB, é fundir música do Leste Europeu, principalmente cigana, além de ritmos como o flamenco, o reggae e até trilhas sonoras de Ennio Morricone com o punk, o ska e tudo mais que for alto e rápido, do mesmo jeito que a Mano Negra fazia. A liga sonora forjada aqui funciona e está longe da caricatura que alguns podem pensar ao associar o nome da banda à diversidade musical. Super Taranta é o nome do quarto disco lançado pelo Gogol e mantém intacta a mistura sonora, trazendo belos espécimes em suas 14 faixas. Confira "American Wedding", "My Strange Uncles From Abroad", "Haren In Tuscany"

Cérebro Eletrônico já é o contrário. Banda moderna sem forçar a barra, cheia de referências psicodélicas, tropicalistas e bem sacadas, indo de Mulheres Negras a Mutantes, sem qualquer problema ao longo do percurso. Devem tocar seu novo disco Pareço Moderno, lançado esse ano, mais pop, nem por isso menos legal. DJ Dolores e Siba, principalmente o primeiro, deverão manter suas conexões com o Nordeste musical, aliando tradição e modernidade. Pode ser legal, pode ser bastante chato, depende de você.
Na área eletrônica-dançante do festival, o destaque vai para o DJ Yoda ou, quem sabe, Duncan Belny, seu nome de batismo. O sujeito é famoso por uma discotecagem frenética, na qual mistura músicas de comerciais de TV, de desenhos animados e tudo mais. Apesar da conexão com o mais famoso Mestre Jedi, o show de Yoda e seus comparsas não são para este velho e ranzinza escrevedor. Vão e divirtam-se.
Esperanza Spalding, já no terreno do jazz, é uma mocinha bonita de 24 anos. Também é professora de música na Berklee School, em Boston, na qual se formou bem antes do tempo. Ela toca contrabaixo desde os quinze anos de idade. Isso porque já reconhecia as escalas iniciais ao manusear um violino aos cinco anos. Seu segundo disco, "Esperanza", lançado nesse ano, é uma beleza, principalmente por não ser hermético demais. A faixa de abertura é uma recriação respeitosa de "Ponta de Areia", belíssima canção de Milton Nascimento, do disco Minas (1976). Esperanza a canta num português acima da média e, além de revisitar clássicos do jazz ao longo do disco, decide encerrá-lo com uma outra homenagem à música brasileira, dessa vez com uma releitura de "Samba em Prelúdio", de Baden Powell. O show de Esperanza terá a companhia de Chico Pinheiro, um dos mais interessantes compositores brasileiros dos últimos tempos. Promete.

Agora recorro ao amigo Sérgio Martins, ex-editor da Revista Bizz, atualmente na Veja para algumas recomendações sobre a escalação jazzística do festival. O homem crava como pontos altos da programação do Tim, as presenças de Sonny Rollins e Bill Frisell, além de Carla Bley, Stacey Kent e Enrico Pieranuzzi.

Rollins é uma lenda viva. Tocou com Miles Davis e ostenta uma longevidade impressionante, personificada em sua carreira composta por quase cem discos. O sujeito foi um dos maiores músicos da era do bebop e do hard bop. Bill Frisell, por sua vez, é quase um estudioso da guitarra elétrica. Seus discos são verdadeiros exercícios de conhecimento, vão do jazz ao blues, passando pelo pop. Vale dar uma olhada em sua coletânea dupla, History/Mistery, lançada por aqui na onda do festival. Carla Bley é uma artista inovadora dentro do estilo. Quando lançou seu primeiro disco, o álbum triplo Escalator Over The Hill, a pianista misturou sonoridades de diversos estilos, indo do rock aos mantras indianos e concebeu algo praticamente novo. Stacey Kent é americana e faz a linha das cantoras de jazz, tornadas tão comuns desde o advento de Diana Krall. Seu último disco, Breakfast On The Morning Tram é seu décimo trabalho em onze anos de carreira e mostra a moça cantando em inglês e francês com igual competência e passeando por diversos terrenos, fazendo belas versões de "Landslide" (Fleetwood Mac) e "Ces Petits riens" (Serge Gainsbourg). Enrico Pieranuzzi, pianista italiano e Tomasz Stanko, trompetista polonês, fecham a lista de indicações do Sérgio, que ressalta Pieranuzzi como um grande talento e recomenda os discos "Plays Morricone" e "Plays Morricone 2", duas belas homenagens ao grande mestre das trilhas sonoras.

Bons shows.

Aos leitores um aviso: esse texto foi escrito em março desse ano, diante do aparecimento de Mallu Magalhães para a mídia nacional. Os números estão obsoletos e ele (o texto) só está aqui para um agradável exercício de comparação entre Mallu em março e hoje, em vias de disponibilizar faixas de seu primeiro disco no Myspace.
Confesso achar um exagero o trelelê a respeito da menina, Marcelo Camelo (que a recrutou para um dueto em seu disco solo, Sou) se referiu a ela como uma "figura eterna". Portanto, antes de quebrar a vidraça do blog, lembrem-se que as palavras abaixo são de março.
Não sei se as palavras de outubro/novembro serão muito diferentes disso, mas...
CEL
Um amigo e leitor me perguntou outro dia, via Orkut, o que eu achava de Mallu Magalhães. Quem? Confesso que estava por fora do buxixo em torno da menina e fui me interar. Eis o que penso. A menina é legal porque é real.
Mallu Magalhães é a primeira “cantora” brasileira a assumir um “status” (discutível) de fenômeno de acessos no site Myspace.com. Lá fora, no ultramar, isso não é novidade, vide o estouro de cocotas cantantes como Kate Nash, Lilly Allen, Colbie Caillat e outras menos cotadas. Os quase trezentos mil acessos à página de Mallu no Myspace não se comparam aos milhões que essas meninas acima conseguiram no mesmo meio de comunicação virtual, mas, é uma quantidade considerável para um país como o Brasil e merece um olhar, hum, analítico.
Antes de começar a escrever, finda a audição das canções disponíveis no site, procurei mais alguns registros da menina e concluí que temos sete músicas na voz de Mallu, sendo que uma delas é uma cover de Johnny Cash, “Folsom Prison Blues” e apenas “Vanguart” tem letra em português.

As referências que habitam seu som são boas, pelo menos é o que ela diz, indo de Beatles e Dylan, passando por Tropicália, Johnny Cash, “O Leãozinho” (sim, a canção do Caetano), Cat Power, Belle And Sebastian, chegando em Vanguart, aquela banda de Cuiabá que dizem que faz folk rock.
Mallu é paulistana, tem quinze anos e dona de uma beleza tipicamente nerd, algo que parece ser universal: palidez, cabelos castanhos meio avermelhados, olhos claros e voz de criança. Ela tem algo que falta em muitos segmentos da combalida engrenagem musical, seja na produção, criação ou comercialização: espontaneidade.
Ao contar sobre sua carreira em entrevista no programa Altas Horas, ela não parecia intimidada pelo aparato da Globo TV mas nitidamente não se encaixava no modelo de atração da emissora, causando risos na platéia do programa, acostumada a idolatrar participantes de BBB, Claudias Leittes e Sangalos da vida. Mallu não pareceu notar os risinhos dados por seu jeito expansivo e seu babytalking, algo que pode ser irritante, mas que soava agradavelmente fora de lugar no meio de tanta esperteza uniformizante e falsa. Ela explicou porque faz suas letras em inglês: - Eu componho em inglês porque gosto e prefiro. Serginho Groisman, um dos caras mais lamentáveis da mídia televisiva ficou desconcertado, mesmo com toda a sua “tarimba” em lidar com a juventude nacional.

Mallu é uma jovem mundial, produto de um planeta que gira em ritmos diferentes, que variam de acordo com a classe social. Se ela teve acesso a informação musical acima da média, seja em forma de leitura, filmes ou discos e se valeu delas para a composição de sua persona artística de classe média-alta, não há como recriminá-la por isso. E, claro, há que se entender o risinho do populacho do Altas Horas diante da espontaneidade da mocinha. Eles desconhecem a existência de vida além do que o plim-plim apresenta.
Mas, chega dessa lenga-lenga, pombas! As músicas são boas? Bem, é aquela história. Empreendendo um exercício de isenção e lavando o cérebro das informações que dão conta da existência de uns cinqüenta artistas/bandas que habitam o mesmo nicho da adolescente e fazem trabalhos melhores que o dela, dá para curtir o folkinho inconseqüente da guria.
O que é mais interessante nisso tudo é que os indies nacionais não parecem dotados de xenofobia, algo que impediu Kelly Key de ganhar os fãs da Britney Spears. Ou seja, o sujeito que gosta de Belle And Sebastian pode até torcer o nariz para canções como “J1” ou “Get To Denmark”, mas algo como um “sentimento de classe”, o conectará com a beleza pálida e os maneirismos indie de Mallu.
A exceção aqui é uma canção chamada “Tchubaruba”, que é uma engraçada declaração de amor e felicidade, como a menina que acorda e cumprimenta o sol, as árvores e o dia. É feliz, quase como um dia no jardim da infância, quando somos uns dois anos mais velhos e já o superamos. Uma canção infantil feliz, feita por alguém que só deve conhecer Johnny Cash pela exibição de Johnny And June nos cinemas ou que ouviu o pai cantar “O Leãozinho” para fazê-la dormir há poucos anos. Não são apenas achismos do crítico, são palavras da própria Mallu, numa entrevista dada na internet.

A menina é legal porque é real. Ela poderia ser da sua sala de aula, do seu curso de inglês. E só tem quinze anos. Imagine quando tiver dezessete?
Texto originalmente publicado no Portal Rock Press.

Amigos, amigos, estou ouvindo o disco de Roberto Justus, Só Entre Nós, lançado recentemente pela Sony/BMG. Fico pensando em como o mundo é um lugar interessante e irônico.
Justus é um empresário bem sucedido do ramo de comunicação que surgiu para a mídia nos anos 90, após casar-se com a apresentadora de TV Adriane Galisteu. Não deu certo. Depois casou-se com outra loura falante da TV, Eliana, aquela que cantava uma música falando sobre os dedinhos. Não deu certo. Hoje ele é o marido da filha da Garota de Ipanema, Ticiane Pinheiro.
Ele também é o CEO do Grupo Newcomm, uma das maiores empresas nacionais no ramo de cases e coisas que versam sobre o assunto comunicação. Imagino que empresas como essa sejam responsáveis pela banalização da comunicação empresarial, pelo anglicanização da publicidade, pela adoção da filosofia de trabalho calcada em palavras e conceitos subjetivos como “empreendedorismo”, “proatividade”, “alavancar negócios”, "target", "budget", enfim, pelo teatro de vaidades que existe nesses lugares.

Bem, sou intencionalmente leigo nesses aspectos e minhas opiniões podem ser motivo para a criação de um case sobre a desinformação, mas, uma coisa lhes garanto, amigos, eu gosto do Justus não por ser bem sucedido, mas por ser um cara que não tem medo de pagar micos. Seu disco é um mico, um King Kong, um elefante branco tão grande que me atraiu a atenção a ponto de merecer um texto, hum, sério sobre os motivos que o levaram a existir. O homem gravou clássicos do cancioneiro mundial com uma baita cara-de-pau. Uma olhada no site da Saraiva e me deparo com o seguinte textinho sobre o Só Entre Nós:
“Em 2007 Justus foi convidado para fazer uma participação no show de um amigo e o que era para ser apenas uma brincadeira acabou se tornando uma coisa séria. Como em todos os seus negócios, Justus colocou todo seu empenho na gravação de seu primeiro CD intitulado “Just Between Us”. Justus produziu uma tiragem limitada de apenas duas mil unidades e o álbum tornou-se objeto de desejo entre seus fãs. Este álbum chega agora pela SONYBMG com seu nome em português Só Entre Nós, mas com o mesmo repertório: os grandes sucessos da musica internacional.”
Sentiram a ironia com o título em inglês quase formando o nome JUSTUS? Just Between Us? Viram o tino comercial mambembe para a coisa? Quase posso ver executivos – como os que ele demite em O Aprendiz – pensando nas possibilidades de nomes e imaginando como agradar o homem. Mas existe muita coisa sobre o disco que o mundo precisa – ou não – saber.

O repertório avilta e joga na lama do mau gosto momentos de Beatles, Louis Armstrong, Rod Stewart, Elvis Presley, Elton John, Frankie Valli, Nat King Cole, Frank Sinatra, Mamas & Papas, em seus sucessos mais manjados, banalizados e pasteurizados, levados a cabo por uma big band de dez pessoas, comandada pelo talento musical de Afonso Nigro, o produtor. Para quem não sabe ou não lembra, Nigro já foi líder do Dominó, famosa boy band brazuca oitentista que grassou na parada de sucesso nacional com canções que escorraçavam a inteligência da nossa juventude. Dizem que Gugu Liberato estava por trás do Dominó, ou vice-versa, enfim, Nigro é o maestro do disco de Justus e executa todas as composições como se fossem uma só.
O modelo a ser seguido é daquelas bandas de baile, nas quais o teclado faz a diferença e dá essa impressão de uniformização do mal. Sem noção de arranjo ou interpretação, Entre Nós flui como um desses eventos de engravatados e emproadas, regado a muita aparência e bebidas espumantes, tudo muito brega e constrangedor.
Veja a inclusão de “Perhaps Love” no repertório. Ela figurou num disco obscuro do cantor country John Denver gravado em 1983, mas foi recolocada no mapa como trilha sonora de um comercial no início dos anos 90. Com a participação do tenor espanhol Plácido Domingo na gravação original, “Perhaps Love” é "interpretada" no disco de Justus por Agnaldo Rayol. A sutileza do dueto de Denver e Domingo é transformada num engalfinhamento estético de Justus com Rayol, certamente pensando apenas na objetividade funcional, ou seja, a voz pop e a voz erudita, apenas isso.
Em “Tonight’s The Night”, de Rod Stewart, nosso amigo Roberto conta com a participação imperdoável (mais uma para a extensa coleção) de Paulo Ricardo. Justus deve ter pensado: essa canção é rock, precisa de alguém totalmente rock para dar veracidade à minha interpretação. Paulo Ricardo também participa da execução sumária de “Your Song”, de Elton John. Dizem ainda que os discos American Songbook, de Rod Stewart, serviram de inspiração para o conceito de Só Entre Nós. É possível.
As primeiras duas mil cópias foram compradas pela Daslu, famosa boutique paulistana para serem dadas como presente para os clientes mais assíduos. O que pensar disso? Você gasta uma fortuna na loja e ganha Justus trucidando clássicos do pop internacional? Anti-marketing? Quem compra na Daslu, conhecida por envolvimentos com sonegação fiscal, talvez mereça mesmo um disco desse quilate.

O mau gosto, senhoras e senhores, chegou a um ponto de não retorno. Os conceitos do que é bom e ruim, cool e brega foram levados a um extremo que permite essas situações. Essa gente que pensa e age como se estivesse em outro país, mostra a total incompetência para manifestar-se de uma maneira artística, quando é necessário.
É engraçado ver Justus na televisão demitindo as pessoas que participam de seu programa, ainda que ele seja uma versão tupi de The Apprentice, show americano que traz Donald Trump como o empresário durão e mauzão. O laquê de Justus é fichinha perto do cabelo aerodinâmico de Trump. Ouvir Justus, entretanto, só como piada. De gosto duvidoso, claro.
Você pode dizer: esse tal de CEL é um cara despeitado, malhando o executivo bem sucedido com essas noções de crítico musical. Então ele não sabe que o Justus não deve ser levado a sério como cantor? Deve ganhar num mês o que Justus ganha em um minuto. Se você pensou isso, não está errado, pelo menos no que diz respeito aos vencimentos. De resto, é preciso que alguém se manifeste com o mínimo de propriedade sobre um evento – ou case – dessa natureza. Um disco do Justus, senhoras e senhores, é a abertura de um buraco negro na música, seja ela pop, rock ou para boi dormir.
Track list:
- What A Wonderful World
- I’ve Got You Under My Skin
- Unforgettable – dueto com Cathy Justus Fischer
- Yesterday
- Perhaps Love – dueto com Agnaldo Rayol
- Can’t Take My Eyes Off Of You
- Always On My Mind
- Your Song – dueto com Paulo Ricardo
- Tonight’s The Night – dueto com Paulo Ricardo
- Something
- My Way
- California Dreamin’

Marcelo de Souza Camelo está com 30 anos e já é um dos mais respeitados compositoresdo país. À frente do Los Hermanos, Camelo desfilou por quatro discos ("Los Hermanos - 1999", "Bloco do Eu Sozinho - 2001", "Ventura - 2003", "4 - 2006") uma musicalidade única, capaz de unir rock alternativo americano e samba, levadas indies inglesas e canções praianas. Ele diz que o processo é inconsciente, mas admite que gostava de grunge lá pelo meio da década de 1990.
Também se assume como fã de uma música popular antiga e quase anacrônica, que ele e outros artistas de sua geração (+2, Orquestra Imperial) estão revisitando e redescobrindo. Com os Hermanos em suspenso, Camelo produziu e lançou seu primeiro trabalho solo, Sou.
O título do álbum surgiu do poema visual do amigo Rodrigo Linares e traz a participação de gente tão distinta, indo de Dominguinhos e Clara Sverner até Mallu Magalhães e o amigo Domenico Lancellotti, Camelo se acompanha do sexteto paulistando Hurtmold. O disco é uma obra que necessita de várias audições para a compreensão.
A sensação de total liberdade criativa e respeito pela idéia original do artista é a primeira impressão que salta aos ouvidos. O disco foi lançado pelo selo do compositor, Zé Pereira e distribuído pela Sony/BMG e dividiu a opinião de fãs dos Hermanos e críticos musicais.
Camelo diz não se importar muito mais com a crítica, mas lamenta, como leitor, que muitos textos sejam fruto de outras referências distintas da música e do trabalho do artista.
Em quanto tempo você compôs as 14 músicas do disco?
"Santa Chuva e "Liberdade" são músicas mais antigas, inclusive "Liberdade" chegou a ser cogitada para entrar no repertório do 4 (o último álbum de estúdio do Los Hermanos), mas não teve muito a ver com o clima do disco. As outras todas foram compostas no período que eu fiquei em casa, fruto desse mood pós-banda. "Santa Chuva" apareceu primeiro na voz da Maria Rita.

A impressão que o disco traz é de que você quis fazer uma espécie de MPB mais clássica. Confere?
Sim, tem muito a ver com essa idéia mesmo. Eu sempre gostei de ouvir gente como Adoniran Barbosa, Noel Rosa, Chiquinha Gonzaga, além do último disco da Guiomar Novaes (pianista clássica brasileira, falecida em 1979) - com o repertório voltado pra obra do Villa-Lobos. O disco ficou com esse tom verde escuro, esse cheiro de Mata Atlântica, muito brasileiro. Ouvi muito Tom Jobim, João Donato, as melodias acabaram indo pra essa direção. Chico Buarque e Dorival Caymmi também entraram no esquema, eu acabo preferindo as formas mais antigas de MPB do que os filtros e intérpretes que vieram depois.
Como foi a participação da Mallu Magalhães no disco?
Putz, foi um convite de puro afeto. Vi a Mallu na internet, me encantei com o jeito dela cantar e começei a mandar e-mails pra ela, assediando mesmo. Depois pensei na música, "Janta", e fiz a letra em português. Depois pedi pra ela fazer a parte em inglês. Ela estava sem tempo e eu acabei fazendo tudo no fim. Mandei a música pronta pra ela e fiquei em cima até ela aceitar. A Mallu é eterna, você fecha os olhos e ela deixa de ter quinze anos. Clara Sverner (pianista, convidada) Dominguinhos (outros participantes do disco) também são assim, é gente eterna.

E você se sente em total liberdade finalmente?
Bem, estar sozinho é uma escolha. Eu tenho mais autonomia. Fica mais fácil assim.
Como é a participação do Hurtmold (sexteto paulistanto de rock contemporâneo) em arranjos que brincam tanto com as formas mais clássicas da MPB?
Cara, eles são demais. Sempre existiu uma admiração por eles, sou fã dos caras, há uma afinidade estética entre eu e eles. Escolhemos três bandas para abrir shows dos Los Hermanos no Canecão, em janeiro de 2006. Cidadão Instigado, Carne de Terceira e o Hurtmold. Eles eram os únicos com quem eu não tinha nenhum contato pessoal, mas já admirava os caras. A idéia de tocar com eles veio quando compus "Teo e a Gaivota" para a tilha de um filme de um amigo meu. Fiz três versões; uma com voz e violão, pra qual gravei um clipe e coloquei na internet, a segunda era pra ser tocada com orquestra sinfônica, que acabou não rolando porque a arregimentação foi muito complicada. A terceira era com o Hurtmold e foi a que entrou no disco.

E o carnaval continua presente no seu disco...
Carnaval me lembra o tempo em que eu morava em Jacarepaguá (Zona Oeste do Rio). Sei lá. Não é um processo consciente.
Muitos fãs estão dizendo que "Copacabana" (uma marcha-frevo, faixa de Sou) é igual a "A Banda", de Chico Buarque...
Isso talvez seja porque a pessoa só ouviu essas duas marchinhas na vida. Acho que isso é mais pra gente de outros estados, aquelas pessoas que moram no Rio ou em Pernambuco talvez saibam diferenciar as duas, "Copacabana" é uma marcha-frevo, com letra em homenagem ao
"mito" Copacabana, talvez outra alusão inconsciente ao Carnaval. "A Banda", bem, não dá nem pra comparar, né?
Leia a entrevista completa no Portal Rock Press.

O Oasis está de volta. Seu novíssimo disco, Dig Out Your Soul, estará fisicamente disponível a partir do próximo dia 6 de outubro. Digo, fisicamente, pois a íntegra do álbum já está circulando pela Internet desde a última quinzena de setembro e causando diferentes reações nos fãs.
A primeira impressão que tive do disco foi que ele teria lugar na parte menos inspirada da obra dos irmãos Gallagher, ou seja, ao lado de Heaten Chemistry (2002) e Standing On the Shoulder Of Giants (2000). Essa categorização da discografia do Oasis, mais ou menos consensual até para os fãs da banda, aponta uma queda de inspiração no período compreendido pelos dois discos, principalmente por parte de Noel - até então o principal compositor do Oasis - além de uma natural adaptação às (então) novas presenças de Andy Bell (ex-Ride, no baixo) e Gem Archer (ex-Heavy Stereo, na guitarra).
Além disso, Noel ainda enfrentava o rescaldo de seu envolvimento com drogas pesadas, mesmo que, no caso de Standing..., o Oasis ainda tenha conseguido forjar dois belos hinos de estádio, "Go Let It Out" e "Who Feels Love".

Me permito achar - numa onda nostálgica, talvez - que a existência do Oasis apresentou a um monte de gente bandas como Beatles, Who, Kinks, Stones, T.Rex, autoras da matriz do "som Oasis". Noel e Liam Gallagher nunca tiveram problemas em assumir tais artistas como suas fontes de inspiração, até admitindo que copiavam melodias e acordes deles, e que, se eles copiavam de outros, que copiavam dos melhores de todos os tempos.
Gosto dessa atitude. Outro dia vi um candidato a vereador em Niterói (cidade do Rio de Janeiro, onde moro) pedir votos "pelo amor de Deus", porque "faltaram 500 nas últimas eleições" e que ele deixara de ingressar na Câmara Municipal por causa disso.

O Oasis é honesto e não posa de moderno, cool ou in. Os Gallagher são dois ogros, nascidos num cafundó industrial e sujo da Inglaterra (Manchester), um lugar tão frio e entediante que dá pra medir pela quantidade de bandas de rock surgidas lá. Uma olhada rápida já mostra Joy Division e Smiths logo de cara. Dizem que Manchester lembra Detroit, a Motortown americana, lar de gente como MC5, Kiss e toda a engrenagem da Motown.
O lançamento de Don't Believe The Truth (2005) recolocava as coisas próximas do lugar de origem, a grandiosidade da banda, a exuberância guitarreira, as levadas, os timbres usados sempre com criatividade e, sim, a chupação do cânone do british rock, com a mesma maestria dos primeiros trabalhos. Definitely Maybe (1994) e (What's the Story) Morning Glory (1995), os dois álbuns iniciais da banda, eram audição obrigatória no meio da década passada. Eram dinâmicos, rápidos (o segundo já se vale de três baladas certeiras, "Don't Look Back In Anger", "Wonderwall" e "Champagne Supernova") e muito bem feitos. Em 2005 parecia que algo dessa exuberância havia voltado, vendo o Oasis reverenciando gente "nova" em seu espectro musical, como, por exemplo Faces e Jam, tornando a banda uma espécie de catálogo ambulante do rock inglês.
Era grande, portanto, a ansiedade em torno de Dig Out Your Soul. O produtor, David Sardy, é o mesmo do trabalho anterior e a maioria das canções com autoria de Liam, pela primeira vez superando o irmão mais velho. Noel fica com três e a dupla Bell/Archer com duas.
O clipe do primeiro single, "The Shock Of Lightning" inicia-se com a banda imitando a capa clássica da coletânea de hits dos Rolling Stones, Hot Rocks (1974) e traz uma levada rápida, quase um aceno à aerodinâmica dos primeiros discos. As guitarras, o vocal miado, baixo e bateria em sintonia total, a música foi suficiente para animar todos com o resultado.

Quando ouvi o disco pela primeira vez, comentei o que disse no início do texto - que Dig Out Your Soul era mais um disco pouco inspirado da banda. Bem, eu me enganei. Ele é aquele tipo de disco que os americanos gostam de chamar de "grower", ou seja, que cresce a cada audição. É verdade.
O álbum é bom, muito bom. Ouso dizer que é melhor que Don't Believe The Truth, muito por não ter qualquer vergonha de reatar o fio condutor perdido após o terceiro trabalho, Be Here Now (1997), revisitando a grandiloqüência e o exagero da produção, mas, devidamente colocado a favor da banda pela visão objetiva do produtor Sardy.
O Oasis não tem vergonha de confirmar que o padrão beatle de canção sempre prevaleceu sobre os demais em suas composições. Músicas como "The Turning" e "Soldier On" quase passam longe desse padrão, mas o restante não escapa da inspiração beatle. "Bag It Up" e "Waiting For The Rapture" lembram a sonoridade dos Fab Four no ocaso de Let It Be - o disco. "I'm Outta Time" parece uma canção dos anos 70, algo que poderia ser da carreira solo de Paul McCartney, tamanha a leveza e o clima dos violões folk e das cordas. "The Nature Of Reality" é um blues com guitarras invocadinhas, totalmente beatle, com andamento lembrando "With A Little Help From My Friends" e "(Get Off Your) Wild Horse" é um blues com vocal saturado, lembrando "Come Together" (daquela banda de Liverpool) com as palminhas de "Give Peace A Chance" (daquele sujeito, John Lennon). O resto do disco segue o mesmo caminho, com êxito.
A verdade, amigos, é que esse disco do Oasis, um disco bom, nota 8, bate qualquer trabalho de uma banda hype atualzinha, no nível de Klaxons, Bloc Party, Arctic Monkeys e similares. A impressão que os Gallagher passam, apesar de canastrões e marrentos, é que são gente que trabalha e pensa no que faz. Eles seguem fielmente uma linha de pensamento, aplicada às canções e discos que fazem e adoram estar no Oasis. Os sujeitos são orgulhosos de sua banda, dão a entender que não viveriam sem ela.
Talvez essa ingenuidade (ou será honestidade?) seja a mercadoria que mais falte ao rock de hoje. As bandas parecem iguais, as diferenças - se existem - são tênues demais e, a exemplo de um monte de manifestações artísticas, todas parecem muito efêmeras. Gosto de saber que o Oasis existe há 14 anos e que ainda tem lenha pra queimar.

Dig Out Your Soul não decepcionará os fãs e agradará amantes do rock. Que bom.

Desde que surgiu para as lentes da MTV e os ouvidos do mundo, Beck Hansen é um artista a ser levado em conta. Seus trabalhos na década de 1990 ajudaram a expandir limites e quebrar um monte de barreiras estéticas que pareciam definitivas. O sujeito misturou estilos, criou novas e duráveis ligas musicais que pavimentaram o caminho para muitos artistas que vieram a seguir e, claro, para o próprio Beck desenvolver seu trabalho.
Quando lançou o primeiro disco, Mellow Gold, Beck teve sua imagem vendida como um Beastie Boys de um homem só, movido pela mesma modernidade e habilidade em lidar com ritmos negros (principalmente funk, hip-hop e rap) mesmo sendo um rapaz branco antenado e moderninho. Além disso, Beck não só lidou com ritmos negros como acrescentou à maçaroca sonora a sua visão personalíssima de estilos brancos como o country e o folk.
Discos como Mellow Gold (1994) como Odelay (1996) foram trabalhos extremamente criativos e inovadores. O primeiro forneceu anti-hits como "Loser", cujo refrão anglo-espanhol dizia "Baby, I´m a perdedor, so why don't you kill me" (baby, sou um fracassado, por que você não me mata?), colocou a cara de enfant terrible de Beck no mapa e mostrou a capacidade (auto)crítica do rapaz ao disparar contra os conceitos tão americanos que coloca as palavras "winner" e "loser" em rota de colisão para definir pessoas e atitudes.

Beck admitia sua condição em meio a um rap torto e impulsionado por violões sampleados e clamava por uma morte irônica e desmedida. O que ele pregou nessas palavras tortas foi executado em forma de som com Odelay!, o disco que forjou o "método Beck" de música; rico, imprevisível e ácido. Nada produzido nos anos 90 foi capaz de alcançar sua proposta do trabalho, uma mistura de dança, alienação, cultura de massas subvertida em cultura pop e toda uma série de possibilidades infinitas.
A impressão passada por canções como "Devil's Haircut", "Where Is At", "New Pollution" é que o mundo estava de cabeça pra baixo, fragmentado por inúmeros "produtos culturais" de qualidade duvidosa. Beck aparecia como um catador de lixo que faz uma obra de arte com dejetos e destroços. Odelay! foi seu momento maior e povoou suas criações seguintes, até seu novo disco, Modern Guilt, lançado agora.
Em alguns momentos da carreira, o padrão Odelay foi mais notado, especialmente em Midnite Vultures (1999) e Guero (2005), discos que partem de fragmentações e constroem algo novo e sustentável. Em outros momentos (principalmente em Sea Changes, de 2002), Beck se aventurou a produzir algo mais "convencional" em termos de estrutura e estética. Ali, após um fora da namorada, ele recrutava Nigel Godrich (o produtor de OK Computer, do Radiohead) e encarnava um Nick Drake caótico e estranho, dissertando sobre o fim dos tempos e as possibilidades de vida após as desilusões amorosas que matam quem as sofre.
Modern Guilt é o décimo trabalho da carreira de Beck, se entendermos o apêndice remixado Guerolito (2005) como uma espécie de bônus de sua obra inspiradora, Guero, lançado no mesmo ano. Aqui ele forma dupla com o badalado produtor Dangermouse, a metade pensante do Gnarls Barkley, também produtor de sucesso requisitado tanto por Beck quanto pela dupla hard rock-caipira Black Keys.

Se Dangermouse existe como entidade centrifugadora de sons e influências, há muito que se falar no trabalho anterior do próprio Beck. Formações como Gorillaz (do qual Dangermouse também participou) e o próprio Gnarls Barkley devem tudo à tal estética amalucada que foi inventada nos trabalhos iniciais da carreira de Beck, sobretudo Odelay!. Sendo assim, a "criatura" ajuda o "criador" nesse Modern Guilt e o resultado é melhor disco de Beck em muito tempo.
A proposta aqui é usar o máximo de objetividade nas canções, cortando assim as viagens pseudo-psicodélicas, talvez um dos únicos flancos abertos a detratores no trabalho de Beck. Ao longo dos 34 minutos do disco, Beck passeia por uma sonoridade que pode oscilar entre arremedos de wall of sound (na abertura de "Orphans"), passando por grooves negros sintéticos à la Talking Heads (no baixo de "Youthless"), visitando a sonoridade ancestral de um Eddie Cochran (em "Gamma Ray"), chegando até os porões dos hits dourados sessentistas (em "Walls") ou nos excertos da experimentação do Sonic Youth (em "Soul Of A Man").

Beck faz tudo isso com propriedade e pertinência. Apenas duas canções ("Chemtrails" e "Volcano") ultrapassam os quatro minutos de duração, o que facilita a absorção do que Modern Guilt quer transmitir, ou seja, a reflexão de uma modernidade meio vazia e frustrante, em que tudo parece possível mas poucas situações realmente transformam algo. É sobre a letargia que pontua os avanços, sobre os celulares que fazem de tudo - até ligações telefônicas - e sobre a condição da humanidade de prisioneira das novidades, ainda que sejam vazias e sem sentido. Beck tem autoridade para sentir saudades de novidades relevantes e não tem mais interesse em soar como uma delas. Bom pra nós, claro. Modern Guilt é um dos discos do ano.
Texto originalmente publicado no Portal Rock Press.

Estive ontem no Vivo Rio para cobrir o show da Dave Matthews Band para o Portal Rock Press. Meu primeiro contato com a sonoridade do músico sul-africano radicado nos USA foi em 1994, por ocasião do lançamento de seu primeiro disco, Under The Table And Dreaming, pela então BMG (depois Sony/BMG).
Achei legal, ouvi músicas como "Ants Marching" e "Warehouse" tendo a certeza que eram bem feitas e interessantes, mas, desde o ínício, a semelhança com algumas nuances dos trabalhos solos de Paul Simon nos anos 80 (sintomaticamente seu disco Graceland, feito com músicos sul-africanos) e Sting nunca me enganaram. O que saltou aos ouvidos, três anos depois, foi o lançamento de um disco duplo ao vivo, gravado no Red Rocks Amphitheater, manjado palco ao ar live dos States.
Com apenas dois álbuns de estúdio (o primeiro e o então recém-lançado Crash), Matthews não tinha qualquer pudor de centrar seu repertório em dezessete canções dos trabalhos de estúdio e oferecia uma performance cheia de alternativas, improvisações, solos, dando aos fãs uma versão 90's do que bandas como Grateful Dead cunharam nos anos 70: a celebração do show.
A idéia de Matthews era detonar os fazedores de bootlegs - discos piratas - que tiveram sua atividade facilitada na então era do CD. Dave queria lançar discos ao vivo oficiais para que o interesse por gravações não-autorizadas fosse minado, o que era uma atitude bem legal, copiada pelo Pearl Jam anos depois, que lançou todos os discos de sua turnê mundial e que mantém até hoje uma relação próspera na comercialização das gravações oficiais de seus shows.
O tempo passou, os discos vieram, os shows permaneceram e Dave Matthews e sua banda já têm um catálogo de seis álbuns de estúdio, numa linha decrescente de inspiração desde o primeiro trabalho. A quantidade de registros chega ao dobro com a contagem dos discos ao vivo, lançados a cada ano, sempre com a íntegra dos shows. A série Live Trax tem vários volumes, como, por exemplo, o que traz o concerto em Fenway Park, Boston, com quatro discos. Os álbuns dedicados aos shows dados no ano passado em Piedmont Park, Atlanta, e no Central Park (Nova York) são triplos.
É legal, principalmente porque há o estabelecimento de uma relação entre artista e público, que transcende o âmbito musical/comercial e adentra o terreno da identificação pessoal. O fã de Dave Matthews concorda com ele, admira sua postura, compactua de seus ideais estéticos - principalmente musicais - e compra os produtos como se fossem seus.
O que funciona nos USA parece atingir o mesmo nível de cumplicidade no Brasil, por incrível que pareça. As pessoas que estavam na casa de shows carioca ontem eram de classe média alta, com condições de adquirir os discos ou, claro, computadores e banda larga para downloads do catálogo da banda, dos ítens mais comuns aos shows lançados apenas no exterior. A Sony, de olho no burburinho da passagem da DMB pelo país (shows em Manaus e São Paulo, antes do Rio), colocou à venda dez discos, sendo dois duplos (Live At Luther College e Radio City Music Hall, ao vivo, acústicos, apenas com Dave e seu parceiro Tim Reynolds), um triplo (Central Park) e nada menos que a discografia completa de estúdio, além da coletânea inédita aqui, The Best Of What's Around. Quem faz um investimento desses em tempos tão bicudos, só pode perceber que o público da DMB compra os discos, principalmente os gravados ao vivo.

A primeira vontade é descer a lenha nos fãs da banda, pelo menos nos brasileiros. É uma gente yuppie, riquinha, com um conhecimento superficial da música pop, norteado por conceitos que temos quando começamos a ouvir música: "gostamos desse cara porque ele toca bem pra c***lho" ou "o som que esse cara faz é original" ou ainda "a energia deles no palco é f*da", mesmo que não tenha visto um show sequer.
O som do Dave tem os ingredientes pra conquistar não só os mais dispostos. As exibições de talento nos instrumentos são constantes, estendendo a duração das músicas para além de dez minutos em média, chegando a varar vinte voltinhas no relógio em "Two Steps" ou "Ants Marching".
Não é progressivo, não é jazz, não é funk, não é rock, não é pop. O que é então, pombas? Não sei bem, mas não é algo totalmente ruim, mesmo que seja chato, igual e eloquente demais.
O público, pasmo, aplaude, urra, tem chiliques. Como podem conhecer tanto as músicas do Dave se ele não lança nada de novo desde Stand Up, de 2005? Onde eles as ouvem? É gente que vai pro exterior? É gente que tem fã-clube? Ainda existe fã-clube?

Eu sou um conhecedor razoável da obra da DMB, ainda que meu interesse por eles tenha se perdido a partir do terceiro disco, Before These Crowded Streets. Não há clipes dele no Multishow, na MTV, no Fantástico, em lugar nenhum! Os discos estavam fora de catálogo...Dave nem é um cara pintoso, se comparado a seus seguidores formais ou informais - Ben Harper, Jack Johnson, John Mayer - e ele arrasta o povo. Se permite fazer covers de Neil Young ("Cortez The Killer"), Rick James ("Superfreak"), Talking Heads ("Burning Down The House", tocada ontem), Allman Brothers ("Melissa"), Bob Dylan ("All Along The Watchtower", transformada em um dos pontos altos dos shows, curiosamente ausente da apresentação do Rio) e tem o cuidado de não repetir um setlist. O sujeito excursiona com Bruce Springsteen em turnês Rock The Vote, apóia Barack Obama, é bom pai de família, bom amigo, bom cunhado...
O povo de ontem sabia pausas, improvisos, parecia ensaiado. Por que eu não estou entusiasmado?
CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.