
Se eu tivesse que elaborar uma teoria conspiratória, diria que houve um complô a partir da década de 1980 para eivar o ser humano da sua ingenuidade. E o resultado é um mundo menos ousado e muito mais previsível, com poucas possibilidades de reverter a situação.
O que me levou a pensar isso? Bem, há tempos cogito algumas teorias malucas, uma delas, inclusive, dá conta que o mundo acabou lá por 1994 e ninguém notou. Mas o fim da ingenuidade, e suas conseqüências para nós, é algo quase palpável. O último insight que tive e que me lembrou os males que surgem com o domínio do ceticismo e do pragmatismo sobre nós, teve lugar com a audição de uma coletânea do Abba. Sim, isso mesmo.
A banda sueca – e mais um monte de artistas dos anos 70 – representa a vitória do otimismo e da ingenuidade, além de uma nada sutil bofetada na face do chamado “sistema”, num nível próximo dos efeitos do movimento punk.
Exagero? Sim, oras, tudo referente ao Abba é exagerado, inclusive o talento por trás das canções e dos arranjos.
A reavaliação crítica dos suecos foi providencial a partir dos anos 90 e teve lugar com manifestações espontâneas de dois popstars. Bono Vox e o U2 resolveram incluir “Dancing Queen”, canção presente no quarto disco do Abba, Arrival (1976), no repertório da turnê que empreendiam em 1992. Gravações piratas de shows mostram a reverência do arranjo dos irlandeses, fidelíssimo ao original. E, quase na mesma época, Kurt Cobain aparecia numa foto com uma camiseta do Bjorn Again, grupo australiano que corria o mundo com o repertório dos suecos e que homenageava o mentor do Abba, Bjorn Ulvaeus em seu nome, além de procurar o trocadilho com a expressão “born again”. Ao ser perguntado sobre a camiseta, Kurt teria dito que admirava muito as canções do Abba. Estava aberto o caminho para a coletânea Gold, lançada em 1992, com todos os maiores sucessos da banda, para uma multidão de gente que desconhecia a existência deles, prontos para se esbaldar na versão grandiloqüente do pop sob a visão de Ulvaeus, do tecladista Benny Andersson e das cantoras Agnetha Faltskog e Anni-Frid Lyngstad (depois chamada de Frida).

A carreira do Abba não existiria se não fosse pela intervenção de Stig Anderson, produtor da primeira banda de Bjorn, os Hootenanny Singers e fundador do selo Polar Music. Anderson também conhecia os Hep Stars, conjunto que Benny liderava e pensou que os dois músicos renderiam muito mais se trabalhassem juntos. Bjorn, incentivado pelo empresário, trouxe sua esposa Agnetha para cantar na nova banda e Frida viria por intermédio de Benny, com quem começava a sair. O Abba, portanto, era formado por dois casais, tinha em seu nome um anagrama das iniciais dos integrantes (Anni-Frid, Bjorn, Benny, Agnetha) e uma visão empresarial ambiciosa (ingênua?) de Stig Anderson como guia das ações. Não podia dar errado.
Na Suécia dos anos 70 a música já era totalmente derivada do pop inglês mas existiam detalhes e situações próprias. Por exemplo, o Abba apareceu para o país a partir de duas participações no festival da Eurovision, uma emissora de televisão. “Ring Ring” obteve o terceiro lugar em 1973 e no ano seguinte, “Waterloo” tornou-se o primeiro single da banda a chegar ao topo da parada inglesa. O Abba era visualmente influenciado pelo glam rock, mas seu som não tinha qualquer relação com o estilo de Marc Bolan. O pop do Abba era uma meticulosa criação de Bjorn e Benny, influenciados diretamente por Phil Spector, Brian Wilson, Bee Gees e os Beatles. Os elementos sonoros que aparecem a partir do quarto disco, Arrival, são acima de qualquer suspeita e não fazem feio diante das comparações com as influências.
O efeito de “wall of sound” que eles conseguiram a partir deste trabalho coloca o Abba como um herdeiro nórdico do pop sessentista, acrescido de batidas disco e marcado por uma tendência ingênua e extravagante de misturar elementos visuais. As letras, ao contrário do que podem parecer, são multifacetadas e podem falar de one-night stands (Voulez Vous”), musas adolescentes (“Dancing Queen), paixões espanholas (“Fernando”, “Chiquitita”) ou refugiados russos em plena União Soviética (“Visitors”). O consenso geral aponta o sétimo disco do Abba, Super Trouper (1980), como o melhor de sua carreira. Era um tempo de mudança, da chegada da new wave e os suecos aproveitavam para se desvincular da disco music. A banda sempre foi incluída de maneira equivocada no balaio de gatos da disco, algo que nunca foi totalmente coerente. Em 1980 os suecos deram a sua versão do novo som, um amálgama que guardava pouca semelhança com o que grupos americanos e ingleses vinham fazendo, mas era totalmente Abba.
Os fraseados de teclado que Bjorn concebia se mantém atuais, a ponto de Madonna samplear “Gimme Gimme Gimme” e usá-la como base para seu sucesso de 2005, “Hung Up”. Além dela, “The Winner Takes It All”, canção melodramática – no bom sentido – sobre o divorcio de Bjorn e Agnetha dava o tom de tristeza total e “Our Last Summer” acenava para amores no Summer Of Love (1968), definida por Bjorn como "uma memória de melancolia de um último verão de inocência".

Em 1983, dois anos após o lançamento do oitavo e último disco The Visitors, o Abba encerraria suas atividades para nunca mais voltar, nem por um bilhão de dólares, valor oficialmente oferecido a eles por disco, turnê e todo o aparato publicitário em 2000.
O que dá pra pensar disso? O Abba e outras bandas setentistas como Electric Light Orchestra, Carpenters, por exemplo, não tinham como preocupação nenhuma forma de posição política ou comportamental. A identificação dessas formações com os ouvintes descompromissados da música pop formou gerações de fãs em países remotos como Argentina, Austrália e quase toda a Europa, até mesmo os EUA.
A proposta de uma banda sueca que emulava sons sessentistas e se valia das habilidades de músicos locais para atingir astronômicos 360 milhões de discos vendidos não era apenas misturar talento, roupas bregas e diversão. Eram dois casais numa aventura pop, ganhando o mundo, algo impensável para suecos em meados da década de 1970. Cantaram em inglês, sueco, espanhol, alemão e marcaram seu nome para sempre na história. E nunca deixaram de lado a ingenuidade, não aquela que se aproxima da tolice, mas a que possibilita pessoas com figurinos de oncinha e roupas espaciais de gosto duvidoso serem tratadas como heróis.

PS: Esse texto não é produto da ação do filme Mamma Mia, inspirado no musical da Broadway, que traz Meryl Streep, Colin Firth e outros, cantando 18 sucessos da carreira do Abba. Mesmo que as interpretações sejam sensacionais, servem de guia para a obra da banda. Veja sem preconceitos.
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CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.