Arquivos para: Setembro 2008

Iniciando os Trabalhos

29.09.08 | por Cel | Categorias: Comportamento, Música

A primeira coluna Blips & Blops colocava a banda inglesa Prodigy e o combo rebolativo brasileiro É O Tchan como dois lados da mesma moeda. Era o fim de 1997, o auge da bundalização nacional e uma época estranha para quem gostava de música. Eu iniciava minha coluna de opinião na Revista Rock Press (hoje transformada em Portal Rock Press) tentando desbravar essa selva cultural que é a música pop.

Dez anos depois não há mais sinal daquelas formações, mas o conceito da afirmação original comportaria uma comparação entre Gaiola das Popozudas e The Kooks. Ou entre Mr. Catra e Arctic Monkeys. Talvez Sorriso Maroto e Tokio Police Club. Isso significa que pouco mudou no processo de emburrecimento do consumidor médio de música, algo que pode ser considerado como uma conseqüência inevitável do pop/rock. Só que, claro, há escolhas e cuidados que podem te levar ao precipício mais próximo ou que podem interromper sua caminhada rumo ao rebanho.

O Blog do CEL é uma ferramenta de esclarecimento, que tem memória, senso crítico e opinião. Nem sempre isso será politicamente correto – ainda bem. Se for preciso espinafrar algo ou alguém, o blog não hesitará. Também não haverá receio em remar contra marés, principalmente porque considero um dever manter os leitores informados e alertas contra armadilhas do showbiz e do ofício de ouvir música. Sim, para este que vos escreve, ouvir música é um pouco mais que distração ou passatempo. É um momento sublime, é como sexo, como degustar um belíssimo prato, visitar o Museu do Louvre, se fazer de difícil para Jessica Biel e Mariana Ximenes. Algo transcendental, que nos coloca em contato com nossa herança pessoal e portátil. Música é, portanto, algo que será levado quase a ferro e fogo por aqui.
Estejam preparados.

Entre 1997 e 2008 estão onze anos de expansão e retração, meus e do mundo. Há uma virada de século, de milênio, esperanças, descrenças e provas definitivas de que tudo acaba bem.

Vamos iniciar os trabalhos.

Rick Wright em San Tropez

29.09.08 | por Cel | Categorias: Música

Rick Wright

Eu sempre gostei do Pink Floyd e meu amor se estabeleceu definitivamente quando ouvi seriamente "Great Gig In The Sky", lá pela década de 1980. A música, faixa do multiplatinado Dark Side Of The Moon (1973), me iniciou no Floyd. Vieram os discos setentistas, The Wall, a parte obscura e psicodélica da banda, no final dos anos 60. E veio Rick Wright.

O sujeito era aquele tipo de músico que toda boa banda deve ter, aquele cara sério, quieto, talentoso e conciliador. Mesmo que David Gilmour (guitarra) e Roger Waters (baixo, voz) sempre sejam reconhecidos como os cérebros do Pink Floyd e Nick Mason (bateria) sempre pareça carregado nos ombros dos outros em termos de talento, Wright tinha um charme tímido e um talento assombroso. Quer provas?

Os teclados de Rick deram forma a músicas marcantes do Floyd, a que mais me salta à memória é "Shine On You Crazy Diamond", do álbum Wish You Were Here (1975), seguida de perto pelo clima de "Summer 68'", do "disco da vaca", Atom Heart Mother (1970). A maior lembrança, porém, sempre será de Rick tocando piano acústico em uma pepita escondida do disco Meddle (1972), "San Tropez".

Numa primeira audição, "San Tropez" não parece música do Floyd, tamanho o clima de "estamos na praia e não atenderemos o telefone hoje". A letra é uma tiração de sarro com a fama fácil e o dinheiro que vem e vai. Tudo bem diferente da neura que acometeria Roger Waters a partir de Animals (1977) e se estabeleceria em The Wall (1979), disco no qual ele tomou o controle criativo da banda e chegou a expulsar Rick, aceitando integrá-lo para a turnê que promoveria o disco. Nesse meio tempo, Richard gravou Wet Dream (1978), primeiro trabalho solo, de uma carreira que ainda teria Identity (1984, gravado com Dave Harris, sob o nome Zee) e Broken China (1996).

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Rick morreu hoje, aos 65 anos, vítima do câncer. Descanse em paz e beba champanhe como um grande magnata em San Tropez, meu velho.

Roger Hodgson Sorri

29.09.08 | por Cel | Categorias: Egotrip, Música

Roger

Eu estava na Praça da Apoteose em 1988 vendo o show do Supertramp. Era o último da noite, após exaustivas e insossas apresentações de Lulu Santos e Marina Lima. Sabíamos todos que a banda inglesa viria sem a presença de Roger Hodgson, o "vocalista da voz fina", o sujeito que alcançava agudos extremos e não parecia nem se cansar.

O Supetramp vinha na turnê de lançamento do disco Free As A Bird, o segundo sem a presença de Hodgson (Brother Where You Bound, de 1985 fora o primeiro trabalho sem Roger) mas minha curiosidade não era pelos discos mais recentes. Eu queria ouvir "The Logical Song", "Hide In Your Shell", "School", dentre tantos sucessos da banda, mas sabia que Mark Hart, guitarrista e vocalista dublê de Roger não daria conta do recado - o que realmente aconteceu.

O tempo passou, minha admiração pelo Supertramp só fez aumentar e meus questionamentos sobre a crítica musical ganharam vulto. A banda sempre fora alvo fácil de detonações infinitas, principalmente porque seu som tinha nascedouro no rock progressivo inglês dos anos 70, agravado pelo fato de Roger e Rick Davies (o vocalista da voz grossa) serem compositores pop de mão cheia, o que dotava as composições do Supetramp de um notável acento radiofônico, sem abrir mão do instrumental virtuoso. Mais que um guilty pleasure, ouvir a banda sempre foi um dos caminhos mais fáceis para aquele momentum da vida em que tudo parece dar certo e que é lembrado como tempo perfeito, sem problemas.

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Com essa impressão adentrei o Vivo Rio na sexta-feira, dia 5 de setembro para ver o segundo show de Roger Hodgson na Cidade Maravilhosa, dez anos depois de sua primeira vinda. O clima era de expectativa e certa apreensão pois o homem vinha divulgando seu DVD Take The Long Way Home - Live In Montreal, no qual recria várias canções do Supertramp em versões acústicas, todas de bom gosto inquestionável, mas insignificantes diante da perspectiva de ouvir os arranjos originais com banda.

Minha esposa, mais fã dos ingleses do que eu, estava previamente aborrecida com a idéia de ver Roger desperdiçando sua voz numa balela unplugged, impressão que sumiu ante a primeira visão da banda no palco, montada especialmente para as apresentações no Brasil. Lá estavam o baterista Bryan Head, o baixista Jesse Siebenberg e o versátil Aaron McDonald, responsável por harmônica, saxofone e teclados. E Roger, todo de branco, olhar doce, expressão tranquila, tentando falar português com anotações do tamanho de uma folha de papel A4. Parecia uma espécie de monge, de ser tranquilo e razoavelmente elevado. Ele que ficara inativo por quase toda a década de 1990, após sofrer fraturas sérias nos dois pulsos em 1988, época de lançamento de seu segundo disco solo, Hai Hai.

A primeira canção já fez os corações tremerem: "Take The Long Way Home" apareceu gloriosa, do alto de seus 29 anos de idade, com atmosfera perfeita e execução idem, no esquema "estamos reproduzindo fielmente os arranjos do Supertramp e não estamos nem aí para mais nada". E nesse esquema vieram "Give A Little Bit", "Hide In Your Shell" e duas canções solo do homem, as supertrâmpicas "In Jeopardy" e "Lovers In The Wind". O povo logo viu que estava diante de algo grandioso e provavelmente inesquecível.

Supertramp e Roger Hodgson se separaram em 1983, após o lançamento do fabuloso disco Famous Last Words. Nesse ano a banda deu continuidade à fileira de hits que o álbum anterior, Breakfast In America (1979) iniciou, principalmente com a execução maciça de "It's Raining Again" e "My Kind Of Lady". Desentendimentos criativos e pessoais entre Rick Davies e Roger decretaram a saída deste e o início de uma respeitavel carreira solo. In The Eye Of The Storm (1984) foi lançado imediatamente após a saída do Supertramp e causou mal estar entre as duas partes. O disco era totalmente voltado para a sonoridade da banda e, se fosse misturado com Brother Where You Bound (disco do Supertramp de 1985), teríamos um excelente álbum, na melhor tradição dos grandes trabalhos deles. Todo esse clima adverso, a substituição vocal por Mark Hart e a ação do tempo acabaram afastando Roger das canções que ele tocou no Vivo Rio. É a turnê de reconciliação do homem com ele mesmo, com suas lembranças e seus coelhos na cartola. É uma turnê extremamente pessoal, daquelas que levam multidões a cantar.

No Rio não foi diferente. Após as cinco primeiras músicas, os 2 mil felizardos presentes ao Vivo Rio caminharam pelos caminhos de ida e volta para casa, propostos pelo nome da canção. Gente de classe média, na faixa dos 30/40 anos, alguns com filhos, transmitindo lembranças e legados, como deve ser. Roger e sua banda revisitaram 15 canções de todas as fases do Supetramp, indo dos sucessos "Dreamer", "The Logical Song", "Breakfast In America", passando por surpresas como "Easy Does It", "Child Of Vision", "Don't Leave Me Now" e chegando ao momento mágico do show, quando Roger sentou-se ao piano de cauda que dominava o centro do palco e disse: - A próxima canção que eu vou tocar foi escrita há bastante tempo e pensei numa orquestra quando bolava o arranjo. É a primeira vez que toco essa música desde que saí do Supertramp.

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Trememos, eu e Maria, minha esposa. Ela na Ilha do Governador, eu em Copacabana, ao longo dos tempos, cantamos, dublamos e tocamos todos os instrumentos do Supertramp de forma imaginária e "Fools Overture" sempre foi um momento máximo. A suite progressiva de 1977, com instrumental futurista mesclado com piano e saxofone sempre foi um ponto alto. Ao primeiro acorde da canção, imediatamente vi uma das minhas certezas - a de que nunca veria essa música ao vivo - cair por terra. A execução perfeita, a sustentação de McDonald à parafernália de efeitos especiais, entre eles o famoso dircurso do Primeiro Ministro inglês Winston Churchill, no qual ele diz que os ingleses lutarão nos campos e cidades, tudo foi perfeito e o próprio Roger Hodgson se espantou com o efeito causado na multidão.

Após o intervalo protocolar, a banda volta para revisitar "School", outro highlight da infância, na qual eu me transformava num virtuoso solista ao piano e a comemoração final com "It's Raining Again", uma das músicas que mais clamam por uma dança à dois nesse mundo.

Dessa vez, em 2008, dancei "It's Raining Again" com minha esposa, algo que sempre quis e só descobri na hora que Roger sorria diante da multidão que dançava à sua frente. Talvez em algum momento da década de 1980, eu sempre soubesse que a dançaria da maneira correta e com a pessoa certa. Dito e feito. E, ainda agora, espero, Roger Hodgson sorri.

Set List
1) Take the Long Way Home
2) Give a Little Bit
3) In Jeopardy
4) Hide in Your Shell
5) Lovers in The Wind
6) A Soap Box Opera
7) You Make Me Love You
8) Easy Does It
9) Sister Moonshine
10) Breakfast in America
11) Along Came Mary
12) The Logical Song
13) The More I Look
14) Child of Vision
15) Lord Is It Mine
16) Don't Leave Me Now
17) Dreamer
18) Fool's Overture
BIS
19) School
20) It's Raining Again

Conversando Com Ed Motta

29.09.08 | por Cel | Categorias: Música

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Ed Motta é uma excelente praça. A imagem de artista complicado se desfaz no primeiro momento e a entrevista rola solta. O assunto é seu nono disco de carreira, Chapter 9, e suas influências. O papo atravessa os limites musicais e conversamos sobre lanchonetes do passado de Copacabana (Ed nasceu na Tijuca, um bairro muito parecido com Copa), lojas de brinquedos e as perspectivas do mundo sob o ponto de vista musical. Conhecedor profundo de música - principalmente de rock - Ed fala de suas experiências e de como fez um disco de blues rock, algo que ninguém poderia supor.

Chapter 9 é o seu disco mais próximo do idioma rock?

Sim,com certeza. Na verdade eu já tinha dado uma visitada nesse terreno quando gravei "A Loja Do Sub-Solo", pro Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins (disco de 1997). Essa vinheta é uma homenagem à Sub-Som, uma loja que existia na Galeria Vitrine da Tijuca, na qual eu conheci e comprei muita coisa. Eu já pensava nessa coisa de tocar rock com um approach negro, como aquelas bandas inglesas da virada da década de 60/70, Free, Spencer Davis Group, essa galera. Mas não tem só o rock, o disco tem influência de um monte de coisas, desde a maneira de conceber a estrutura harmônica das canções até trilhas de cinema.

Como foi a transição do clima Rio Antigo do seu disco anterior, Aystelum (2005), para o soul blues do novo trabalho?

Foi bastante casual. Eu entrei no estúdio pra gravar a demo do disco e dessa vez eu consegui fazer isso no Estúdio Trama. Quando eu vi a quantidade de microfones pensei que poderia microfonar todos os instrumentos e comecei a brincar com isso. O João Marcelo Bôscoli disse que poderia sair alguma coisa dali e eu só estava pensando na demo pro novo disco, como eu faço sempre! As músicas foram saindo espontâneamente, nesse cilma de blues rock. Eu precisei interromper as gravações por seis meses para ensaiar e compor as canções do musical 7. Acho que esse clima meio blues tem a ver com o fato de ter ficado um tempo em São Paulo, longe de casa. Eu preferia estar no estúdio do que no quarto do hotel, só pensei nisso.

Cantar todas as canções em inglês foi opção ou necessidade?

Olha, as letras em inglês têm a ver com uma opção estética mesmo. Pra mim o inglês é uma lingua tão natural quanto o português, aliás, pra quase todas as pessoas que têm a minha idade (Ed tem 37 anos) e gosta de rock/soul/funk. Achei que o inglês casava bem com a sonoridade que foi saindo daquela demotape. Encomendei as letras para o Chico (Botelho, com quem Ed compôs para o musical 7) e Rob Gallagher (que é inglês). Eles receberam as bases de duas em duas e foram colocando as letras. No fim das contas, o Chico só colocou uma letra.

Muita gente cobra de você uma fidelidade permanente a uma veia pop que você não parece ter vontade de usar sempre. Isso te incomoda?

Mais ou menos. O que me incomoda é essa coisa de atribuírem à arte uma função específica. As pessoas não têm uma percepção maior da arte, apenas pensam que ela é desse ou daquele jeito. No meu caso, sou influenciado por um monte de coisas extra-musicais, principalmente por quadrinhos e cinema, isso se reflete na minha música. Eu sinto uma vontade natural nada forçada de explorar outros caminhos, idiomas e esbarro nessa percepção estreita que, supostamente, me obrigaria a seguir esse ou aquele formato. Eu gosto de Stephen Soundheim, Barry Manilow, Christopher Cross, Stephen Bishop (o compositor da trilha sonora de Tootsie), mas não me sinto inspirado por eles o tempo todo. Nem pelos artistas do soul ou do funk somente. Aliás, isso mostra que o mundo vem esbarrando nessa coisa de fazer mal o seu papel. A gente vê um monte de gente informando errado, desconhecendo coisas básicas. O mundo vem perdendo a precisão nas coisas, mas isso é outro assunto.
O Chapter 9, por exemplo, me soa muito pop. Quando começaram a falar sobre ele já disseram que ele tinha esse clima "soturno" e "triste", o que eu não vejo. Pra mim as influências daquelas bandas inglesas de hard rock do início dos anos 70 são muito claras.

A Internet te ajudou de alguma forma na concepção do Chapter 9? O que você acha do disco estar disponível pra download gratuito no site da Trama?

A internet pra mim é um oásis. Muito mais que um parque de diversões. Eu sempre colecionei coisas, discos, quadrinhos, fitas VHS, catálogos, enfim, um monte de coisas. Com a web tudo ficou mais fácil para se adquirir, uma vez que os livros importados não são taxados pelo governo. Mas o e-mail ajudou apenas para me comunicar com o Rob (Gallagher, letrista inglês da maioria das faixas de Chapter 9). O disco está disponível pra baixar no site da Trama. Eu acho legal, democrático, espero mesmo - sem clichê - que mais gente tenha acesso à minha música. Os arquivos que estão disponíveis trazem o encarte, a capa, além das músicas. Sei que o cara que coleciona mídia física vai continuar comprando disco, portanto, não me incomodo com isso. Mesmo porque a Trama proporciona o download legal, patrocinado e remunerado, ou seja, sai a custo zero para o consumidor e remunera o artista. Não tenho do que reclamar, mesmo porque eu garimpo um monte de coisas e a internet viabiliza isso pra mim. Enquanto estou ouvindo estou lendo e entendendo o que está tocando, algo que todo mundo deveria saber.

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Mesmo com uso de guitarras e acento blues, o soul setentista e as levadas de piano Rhodes a la Steely Dan ainda são sua maior influência para Chapter 9?

Na verdade vem tudo junto, isso é o shuffle que aparece naturalmente no blues de Chicago. O próprio Steely Dan bebeu dessa fonte, das músicas em compasso 6/8, cheias de suingue. Acho que tem a ver com o fato de tocar todos os instrumentos no disco, isso veio naturalmente na hora de compor. Muita gente fez canções nesse compasso, com essa levada e quase nem dá pra perceber. "Fool In The Rain", do Led Zeppelin é assim. O Lulu Santos tem "Sincero" (de 1985, do disco Normal), o Wham tem "Wake Me Up Before You Go-Go" (de Make It Big, 1984), ou seja, no fim das contas, é tudo obra do shuffle de Chicago. (Ed dá os exemplos das músicas cantarolando a letra e melodia). Acho que as músicas em 6/8 fogem do esquema 4/4 e isso pode confundir um pouco e talvez atrapalhar aquelas pessoas que ficam na ditadura do econômico, simples, quase banal. Eu acho que a simplicidade pode existir ao lado das melodioas mais complexas. O Who, por exemplo, todo mundo diz que é visceral, mas o Tommy (disco de 1969, contendo a ópera-rock homônima) é totalmente pensado e planejado. Acho possível alguém ouvir o Nevermind The Bollocks (disco de estréia dos Sex Pistols) com "Anarchy In The UK" e depois apreciar o Close To The Edge (dos progressivos Yes). Eu não sou contra o barroco, acho que tem espaço pra tudo.

Como está seu relacionamento com a Trama nesses tempos tão tortuosos da indústria musical?

O relacionamento é bacana. Eles apostaram nos meus discos, sempre me deram tudo que eu precisei. Já são quatro discos (ed está no cast da gravadora desde 2001, já tendo lançado Poptical, Ao Vivo, Aystelum e agora Chapter 9) e não tenho do que reclamar. Pelo contrário.

O que você acha da música feita no Brasil hoje em dia? Há algo que te emociona?

Olha, sinceramente, nada. Aliás, tem sim. Você conhece Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz? (Eu digo que não e Ed explica)
É a big band de um saxofonista baiano, que faz um som mesclando timbres de candomblé com sopros, dentro de uma abordagem totalmente jazz. Pra mim, o sujeito é o novo Moacir Santos. Música que me emociona mesmo. Além disso, nada. Continuo comprando discos dos caras que admiro, por exemplo, o Who (cujo disco novo - Endless Wire - achei chato) e o Donald Fagen (tecladista do duo americano Steely Dan). Ouço os caras de sempre, garimpo coisas aqui e ali e sempre volto pros caras que gosto de ouvir. Muito jazz, aliás, o jazz me fez perceber o valor da música popular brasileira.

Você tem uma carreira solidificada no exterior. Os fãs de lá são muito diferentes? O que eles esperam de um novo disco do Ed Motta?

Pra eles o som do Dwitza (disco instrumental de 2000 no qual Ed envereda por uma sonoridade jazzística) é o meu som. Se eu chego pra tocar "Manuel" para o público lá fora, provavelmente não vão entender nada. É o oposto daqui, exatamente. Eles também são "primeira impressão", colocam a sonoridade num compartimento estanque. Eles esperam de mim um samba-jazz rapidinho e só.

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Chapter 9 é o melhor disco que você já fez?

Não, sei lá. Eu gosto muito do Aystelum e do Dwitza. Também gosto do Poptical. Eu gosto de todos. O meu primeiro disco está fazendo 20 anos, eu ouço ele até hoje e vejo sinceridade total no que está ali. Também gosto do Contrato Com Deus, meu segundo disco, que foi lançado na mesma semana do Plano Collor. Acho que eu já mostrava ali que não era um artista muito convencional. Até hoje tento fazer com que esse disco seja relançado, como ele tem um monte de vinhetas - o número de faixas extrapolou 14, que é o limite para a gravadora pagar o direito autoral único. A partir desse número a obra rende o dobro de direitos autorais. O disco foi amputado e lançado numa série Dois em Um com o primeiro, mas sem as vinhetas. Aí não é o disco, né? Os discos iniciais são ingênuos, sinceros, já são 20 anos. Estou quase um Van Morrison - solta uma risada.

Baixe o disco do homem (com encarte)aqui: http://albumvirtual.trama.uol.com.br

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Tempo Dos Mineiros

29.09.08 | por Cel | Categorias: Egotrip, Música

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Quando eu tinha uns 14, 15 anos de idade, descobri o som dos artistas mineiros. Entenda por “artistas mineiros”, Beto Guedes, 14 Bis, Lô Borges, Milton Nascimento e derivados. O que se mostrava como descoberta, na verdade, era uma constatação daquelas primeiras experiências musicais que temos ainda na infância. No meu caso, lembro-me de ter 8, 9 anos e passar férias de julho e janeiro em Petrópolis – cidade da região serrana do Rio – e lá, na varanda da casa ou no rádio AM/FM da Brasília da minha mãe ou do meu avô, as programações de Tamoio FM e Mundial FM sempre tocavam canções desses artistas. Quando os reencontrei alguns anos mais tarde, a sensação de “dejá ouvi” foi total.

Escrevo sobre eles porque estou constantemente “redescobrindo” o valor desses caras e parece um processo que não tem fim. Há sempre alguma canção deles sendo reouvida ou um verso reinterpretado. Acredito que os bons artistas devam sempre possuir obras passíveis de adaptação aos nossos momentos, capazes de nos lembrar de nós mesmos. Pessoalmente, acho esse o maior feito de que um compositor é capaz. Portanto, no inicio da adolescência, lá estava eu, ouvindo os mineiros e fazendo a primeira grande turma de amigos no colégio. Era o início do segundo grau, das reuniões nas casas da Denise, da Fabiana ou da Fernanda, no Leblon ou Jardim Botânico, sempre marcadas por longas sessões musicais.

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Aqueles momentos de descoberta musical coletiva, de olhares de cumplicidade e percepção simultânea de significados são inestimáveis. Até aquela época, meu idioma pop era o inglês de Queen e Police, as minhas primeiras bandas do coração. Ser capaz de furar um bloqueio cultural burro que enaltecia os produtos gringos e desdenhava da MPB era um feito e tanto. Havia espaço para o rock nacional dos anos 80, igualmente importante, mas ouvir os mineiros era, como disse acima, um reencontro com uma criança de 9 anos da qual eu já sentia falta em 1985/86. Imagine hoje.

Lembro nitidamente de me apaixonar por uma colega da mesma sala do Santo Agostinho e dedicar a ela “Amor de Índio”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, inúmeras vezes. Essas declarações de amor eram leves e secretas como o olhar e o movimento das nuvens. Intencionalmente, claro. No meu caso especifico, os mineiros eram cúmplices e parceiros, serviam, na verdade, como meus porta-vozes, representantes junto a um poder maior.

Todos os discos disponíveis desses artistas foram adquiridos na finada Copadisco ou na filial Figueiredo Magalhães das Lojas Americanas. O carinho especial pela obra de Beto Guedes e Milton Nascimento permanece intacto, apesar de constatar tristemente que eles estão esgotados criativamente, ainda que esses sujeitos não precisem de novos sucessos ou discos para manter seu encanto. O público deles – e de todos os mineiros – está interessado no reencontro coletivo, é como um efeito especial que nos coloca frente a frente conosco, em diferentes momentos. Lembro-me de fazer fitas cassete com essas músicas, me imaginar em paisagens vistas da janela lateral do quarto de dormir ou embarcando num trem azul com o sol na cabeça.

Dos discos desses sujeitos eu tenho amor incondicional por Contos da Lua Vaga, Amor de Índio e Sol de Primavera, todos de Beto Guedes; Flor Lunar, Encontro das Águas e o primeiro do 14 Bis, além do Nascente, do Flávio Venturini, do Via Láctea e do “disco do tênis” do Lô Borges, pra não mencionar os dois volumes do Clube da Esquina e a discografia do Milton Nascimento até o Sentinela (1980).

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O tempo passou e muitos momentos de reencontro com os mineiros vieram, num deles, por volta de 1989, conheci a obra de Pat Metheny, apresentada por um colega da Caixa Econômica Federal (meu primeiro emprego, como estagiário), que me mostrou um disco chamado First Circle, mineiro até os ossos, mas feito nos Estados Unidos. Metheny, o futuro senhor Sonia Braga, ainda tinha pelo menos um disco totalmente mineiro, chamado Still Life (Talking), com uma canção chamada “Last Train Home”, que poderia ser trilha sonora de uma viagem na mitológica Ponta de Areia, a estrada de ferro que ligava Minas à Bahia, na qual jamais passei da maneira convencional, mas que me é tão familiar como qualquer rua que tenha me visto nascer.
O tempo passa e eu estou cada vez mais sentimental em relação à música. Daqui a pouco será quase antiético escrever sobre ela, tamanha a intensidade da minha relação com artistas como os citados aqui.

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Sobre se apaixonar e dedicar letras, um dia escrevi que queria uma fita cassete com “Os Outros” do Kid Abelha, dada por alguma ex-namorada arrependida e que tivesse me feito sofrer muito. Pois bem, voltando no tempo dessa suposição, essa namorada certamente teria em seus guardados, se tudo desse certo, um papel com a letra de “Amor de Índio”. Coisas da adolescência, meus caros. Um dia eu falo sobre as namoradas que não sabem que as namoramos.

Abba? Sim, por que não?

29.09.08 | por Cel | Categorias: Música

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Se eu tivesse que elaborar uma teoria conspiratória, diria que houve um complô a partir da década de 1980 para eivar o ser humano da sua ingenuidade. E o resultado é um mundo menos ousado e muito mais previsível, com poucas possibilidades de reverter a situação.
O que me levou a pensar isso? Bem, há tempos cogito algumas teorias malucas, uma delas, inclusive, dá conta que o mundo acabou lá por 1994 e ninguém notou. Mas o fim da ingenuidade, e suas conseqüências para nós, é algo quase palpável. O último insight que tive e que me lembrou os males que surgem com o domínio do ceticismo e do pragmatismo sobre nós, teve lugar com a audição de uma coletânea do Abba. Sim, isso mesmo.

A banda sueca – e mais um monte de artistas dos anos 70 – representa a vitória do otimismo e da ingenuidade, além de uma nada sutil bofetada na face do chamado “sistema”, num nível próximo dos efeitos do movimento punk.
Exagero? Sim, oras, tudo referente ao Abba é exagerado, inclusive o talento por trás das canções e dos arranjos.

A reavaliação crítica dos suecos foi providencial a partir dos anos 90 e teve lugar com manifestações espontâneas de dois popstars. Bono Vox e o U2 resolveram incluir “Dancing Queen”, canção presente no quarto disco do Abba, Arrival (1976), no repertório da turnê que empreendiam em 1992. Gravações piratas de shows mostram a reverência do arranjo dos irlandeses, fidelíssimo ao original. E, quase na mesma época, Kurt Cobain aparecia numa foto com uma camiseta do Bjorn Again, grupo australiano que corria o mundo com o repertório dos suecos e que homenageava o mentor do Abba, Bjorn Ulvaeus em seu nome, além de procurar o trocadilho com a expressão “born again”. Ao ser perguntado sobre a camiseta, Kurt teria dito que admirava muito as canções do Abba. Estava aberto o caminho para a coletânea Gold, lançada em 1992, com todos os maiores sucessos da banda, para uma multidão de gente que desconhecia a existência deles, prontos para se esbaldar na versão grandiloqüente do pop sob a visão de Ulvaeus, do tecladista Benny Andersson e das cantoras Agnetha Faltskog e Anni-Frid Lyngstad (depois chamada de Frida).

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A carreira do Abba não existiria se não fosse pela intervenção de Stig Anderson, produtor da primeira banda de Bjorn, os Hootenanny Singers e fundador do selo Polar Music. Anderson também conhecia os Hep Stars, conjunto que Benny liderava e pensou que os dois músicos renderiam muito mais se trabalhassem juntos. Bjorn, incentivado pelo empresário, trouxe sua esposa Agnetha para cantar na nova banda e Frida viria por intermédio de Benny, com quem começava a sair. O Abba, portanto, era formado por dois casais, tinha em seu nome um anagrama das iniciais dos integrantes (Anni-Frid, Bjorn, Benny, Agnetha) e uma visão empresarial ambiciosa (ingênua?) de Stig Anderson como guia das ações. Não podia dar errado.

Na Suécia dos anos 70 a música já era totalmente derivada do pop inglês mas existiam detalhes e situações próprias. Por exemplo, o Abba apareceu para o país a partir de duas participações no festival da Eurovision, uma emissora de televisão. “Ring Ring” obteve o terceiro lugar em 1973 e no ano seguinte, “Waterloo” tornou-se o primeiro single da banda a chegar ao topo da parada inglesa. O Abba era visualmente influenciado pelo glam rock, mas seu som não tinha qualquer relação com o estilo de Marc Bolan. O pop do Abba era uma meticulosa criação de Bjorn e Benny, influenciados diretamente por Phil Spector, Brian Wilson, Bee Gees e os Beatles. Os elementos sonoros que aparecem a partir do quarto disco, Arrival, são acima de qualquer suspeita e não fazem feio diante das comparações com as influências.

O efeito de “wall of sound” que eles conseguiram a partir deste trabalho coloca o Abba como um herdeiro nórdico do pop sessentista, acrescido de batidas disco e marcado por uma tendência ingênua e extravagante de misturar elementos visuais. As letras, ao contrário do que podem parecer, são multifacetadas e podem falar de one-night stands (Voulez Vous”), musas adolescentes (“Dancing Queen), paixões espanholas (“Fernando”, “Chiquitita”) ou refugiados russos em plena União Soviética (“Visitors”). O consenso geral aponta o sétimo disco do Abba, Super Trouper (1980), como o melhor de sua carreira. Era um tempo de mudança, da chegada da new wave e os suecos aproveitavam para se desvincular da disco music. A banda sempre foi incluída de maneira equivocada no balaio de gatos da disco, algo que nunca foi totalmente coerente. Em 1980 os suecos deram a sua versão do novo som, um amálgama que guardava pouca semelhança com o que grupos americanos e ingleses vinham fazendo, mas era totalmente Abba.

Os fraseados de teclado que Bjorn concebia se mantém atuais, a ponto de Madonna samplear “Gimme Gimme Gimme” e usá-la como base para seu sucesso de 2005, “Hung Up”. Além dela, “The Winner Takes It All”, canção melodramática – no bom sentido – sobre o divorcio de Bjorn e Agnetha dava o tom de tristeza total e “Our Last Summer” acenava para amores no Summer Of Love (1968), definida por Bjorn como "uma memória de melancolia de um último verão de inocência".

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Em 1983, dois anos após o lançamento do oitavo e último disco The Visitors, o Abba encerraria suas atividades para nunca mais voltar, nem por um bilhão de dólares, valor oficialmente oferecido a eles por disco, turnê e todo o aparato publicitário em 2000.
O que dá pra pensar disso? O Abba e outras bandas setentistas como Electric Light Orchestra, Carpenters, por exemplo, não tinham como preocupação nenhuma forma de posição política ou comportamental. A identificação dessas formações com os ouvintes descompromissados da música pop formou gerações de fãs em países remotos como Argentina, Austrália e quase toda a Europa, até mesmo os EUA.

A proposta de uma banda sueca que emulava sons sessentistas e se valia das habilidades de músicos locais para atingir astronômicos 360 milhões de discos vendidos não era apenas misturar talento, roupas bregas e diversão. Eram dois casais numa aventura pop, ganhando o mundo, algo impensável para suecos em meados da década de 1970. Cantaram em inglês, sueco, espanhol, alemão e marcaram seu nome para sempre na história. E nunca deixaram de lado a ingenuidade, não aquela que se aproxima da tolice, mas a que possibilita pessoas com figurinos de oncinha e roupas espaciais de gosto duvidoso serem tratadas como heróis.

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PS: Esse texto não é produto da ação do filme Mamma Mia, inspirado no musical da Broadway, que traz Meryl Streep, Colin Firth e outros, cantando 18 sucessos da carreira do Abba. Mesmo que as interpretações sejam sensacionais, servem de guia para a obra da banda. Veja sem preconceitos.

Dedos de Prosa sobre Rock Progressivo

29.09.08 | por Cel | Categorias: Música

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Amigos, amigos, eu estou ouvindo muito rock progressivo atualmente. A tal ponto que não consigo ouvir – como se deve – outro estilo musical. Isso está, inclusive, atrapalhando minha função de crítico, principalmente porque preciso emitir opinião sobre bandas totalmente anti-progressivas e o estilo nunca me pareceu tão amigável e hospitaleiro.

Talvez tenha a ver com o número cada vez maior de bandas atuais que pegam emprestado a estética do progressivo e a mascaram. Pode ser também um grande e permanente tédio com a modernidade, cada vez mais vazia e dominada por falsas novidades, personificadas em artistas sem conteúdo ou o quê dizer. Talvez os dois motivos juntos.

Há uma total falta de informações para o grande público sobre o que significa o termo “progressivo”, mesmo que algumas bandas badaladas em diferentes nichos mercadológicos sejam cria direta do chamado “prog rock”. Desde 14 Bis a Mars Volta, muita gente deve os fundilhos ao prog, criado e estabelecido no fim dos anos 60, mais precisamente na Inglaterra. Algo que sempre me irritou na crítica musical da grande/média imprensa foi o preconceito geracional com o estilo e a total falta de disposição para compreender o significado de discos e bandas progressivas ao longo dos tempos.

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É como se o crítico de trinta anos – com infância nos anos 80 – fosse criado com raiva do irmão mais velho, que não emprestava os discos do Yes e do Genesis. Sendo assim, em busca do “moderno” e “atual”, o futuro escrevente rocker iria encontrar o movimento punk e seus rescaldos, o pós-punk e a new wave e os adotaria como ponto de partida para estabelecer seu gosto. Acreditem, essa cena é mais comum do que vocês podem imaginar.

O progressivo nasceu de uma mutação do rock psicodélico. Na época se definia por “psicodélico” o grupo que se valia do uso de drogas alucinógenas para compor – algo que acabou banalizado e descaracterizado com o tempo, principalmente porque todo mundo passou a se valer desse “aditivo” químico. O progressivo é, portanto, uma tentativa louvável de dar ao rock um status mais “sério” e “valioso” enquanto música.

Os arquitetos dessa vertente pensaram nos parâmetros da época para credenciar o rock para freqüentar os grandes salões do mundo adulto e o revestiram com uma roupagem clássica, erudita, além de um subtexto mitológico/mágico, que insinuava uma aproximação com a literatura. Era engraçado notar que os jovens músicos que integraram as primeiras bandas progressivas possuíam um background clássico, herdado da educação tradicional européia. Isso quer dizer que os sujeitos aprendiam a tocar música clássica no colégio e emprestavam essa visão para o rock, algo que aparecia muito mais como destreza/habilidade na execução de um instrumento do que na criatividade para compor.

Claro, isso num primeiro instante, pois, a partir de 1970, grandes discos progressivos foram feitos, lançados, magnificamente compostos e com músicas nos primeiros lugares das paradas de sucesso britânicas, em versões editadas de suas longas canções. Aliás, o formato das músicas também refletia o abandono da estética pop (instrumental de baixo, bateria e guitarra, refrão, duração de três minutos) em benefício de canções com mais de dez minutos de duração, com vários “movimentos”, lembrando sinfonias, sonatas e demais abordagens clássicas.

Num determinado momento, nada foi mais moderno e antenado que o rock progressivo. Bandas como Yes, King Crimson, ELP, Pink Floyd, Moody Blues, Genesis, apenas para mencionar as mais famosas, representavam o futuro, procuravam conectar seus discos a conceitos literatos, esclarecidos e não hesitavam em estender suas canções para fronteiras dos vinte, trinta minutos.

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Tudo isso é muito legal e libertador. Você imagina algo assim nos dias de hoje? Até poderia considerar bandas como Marillion, Pendragon, Porcupine Tree ou mesmo os islandeses do Sigur Rós para ilustrar esse panorama, mas a imagem delas não é totalmente satisfatória diante da sensação de novidade que as primeiras incursões das formações setentistas tiveram lugar. O estilo foi tão democrático que proporcionou o surgimento pioneiro de bandas na Holanda (Focus), Itália (PFM, Le Orme), Alemanha (Kraftwerk, Tangerine Dream, Can), unidas pelo terreno comum da mistura de clássico com rock e com sucesso fora de seus países de origem.

O rock ficou velho, meus caros. A despeito do que sempre poderão afirmar, fica cada vez menos acessível ao jovem dos anos 00 o entendimento do que seus pais ouviam em 1970, 1980. E sempre tivemos vontade de chocar os pais ou, pelo menos, fazer tudo diferente do que eles poderiam pensar em fazer. Pais são fãs de rock, filhos não. Claro, é uma regra com muitas exceções, mas desconfortavelmente presente.

Na tentativa de quebrar o bloqueio de informações, aqui vai uma pequena lista pessoal de discos legais para você começar a sua exploração no progressivo. Experimente...E sugira os seus favoritos também.

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Yes – Close To The Edge (1972)
Define o momento em que o Yes atingia a maturidade, algo que já se insinuara no disco anterior, Fragile (1971), também altamente recomendável. Aliás, a discografia do Yes é um bom indicativo do que o rock progressivo poderia proporcionar – para o bem ou para o mal.

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Genesis – Lamb Lies Down On Broadway (1974)
É o último disco com Peter Gabriel nos vocais e marca o fim de uma era. O Genesis ainda seguiria digno até 1978, quando abraçou o formato pop.

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Moody Blues – Seventh Sojourn (1974)
É o ultimo trabalho dos chamados “classic seven”, a seqüência de discos gravados pelo Moody Blues entre 1967 e 1974. Seventh Sojourn é um belo exemplo de progressivo sutil, sem grandes viagens instrumentais e se valendo de um formato mais “pop”.

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Emerson, Lake And Palmer – Brain Salad Surgery (1973)
O grande disco do trio, ainda que seu trabalho homonimo de estréia seja sensacional. Aqui está a belíssima balada de Carl Palmer “Still You Turn Me On”, bem como as “impressões” sobre “Karn Evil”. A capa é um show à parte.

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King Crimson – In The Wake Of Poiseidon (1971)
A grande banda progressiva, influente, ousada, genial. Esse é o segundo disco deles, com uma das músicas mais bonitas jamais feitas, “Cadence And Cascade”. Aviso: a discografia do Crimson, entre 1969 e 1975 é indispensável. O retorno da banda em 1980, totalmente reformulada, ainda geraria três discos essenciais para a compreensão do rock moderno (até hoje não igualado) – Discipline (1980), Beat (1982) e Three Of A Perfect Pair (1983)

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Pink Floyd – Meddle (1972)
Este é o primeiro disco realmente progressivo do Pink Floyd e talvez o único, dentro da estética mais convencional do estilo. Faixas como “One Of These Days” e “Echoes” credenciam o antecessor de Dark Side Of The Moon e o que entende-se por “som Pink Floyd”.

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Jethro Tull – Thick As A Brick (1971)
Clássico em todas as suas expressões, desde o encarte – que compunha as páginas de um jornal fictício – até a fusão perfeita de folk e progressivo pelas mãos do louco Ian Anderson. Aqualung, de 1970, também é essencial.

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Renaissance – Prologue (1972)
Grande banda inglesa de segundo escalão, responsável por belos discos, dentre os quais esse é o melhor. Enxuto, cheio de canções pontuadas pelo vocal celestial de Anne Haslam, Prologue fala sobre o mar e as pessoas, de forma suave e belíssima. Também vale conferir Novella e Ashes Are Burning.

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Premiata Forneria Marconi – Per Un Amico (1972)
A banda de progressivo italiano mais conhecida. O PFM surgiu no início dos anos 70 com uma sonoridade híbrida de Genesis e King Crimson, evoluindo para um estilo próprio. Vale ouvir a versão em inglês desse disco, gravada para o Reino Unido no ano seguinte, Pictures Of Ghosts.

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Marillion – Script For A Jester’s Tear (1981)
O primeiro disco da grande banda de “neo-progressivo” escocesa, responsável por belíssimos trabalhos conceituais entre 1981 e 1988, quando teve o vocalista e compositor Fish à sua frente. Depois, a partir de Season’s End (1989), Steve Hogarth assumiu a liderança do Marillion sem o mesmo brilho. Em 2005, no entanto, a banda reeditaria seus bons momentos com o belo disco Marbles.

O Futebol

15.09.08 | por Cel | Categorias: Egotrip, Esportes, Futebol

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Há pouco menos de uma semana eu estive na Gávea. Pra quem não sabe, além de um bairro de classe média-alta carioca, entende-se por “Gávea” o nome da sede do Clube de Regatas do Flamengo. Fomos levar meu enteado Gabriel – um rubro-negro dedicado, de 13 anos – e um amigo dele ao treino do time, às vésperas do jogo em que o Flamengo empataria sem gols com o Botafogo. Ficamos no estacionamento próximo ao campo de treino, esperando os jogadores saírem para que as crianças pedissem autógrafos, nada mais normal. Até que, em meio aos integrantes do atual elenco do time, surge Andrade, hoje um dos auxiliares técnicos do Flamengo. Me emocionei e pedi à minha esposa que encontrasse uma brecha para me fotografar ao lado do velho ídolo rubro-negro. O resultado abre esse texto, que ficou indo e vindo em minha mente, pedindo por publicação.

Andrade era meio-campo do antológico time do Flamengo de 1981, que foi a Tóquio e venceu o Liverpool, na final do Campeonato Mundial Interclubes. Isso aconteceu no dia 13 de dezembro daquele ano, aniversário da minha mãe. Eu tinha 11 anos e me lembro que obtive uma permissão inédita para ficar acordado com meu avô para ver o time jogar. Talvez tenha sido a primeira vez em que eu dormi tão tarde. Em campo, uma constelação de astros, que venceu os ingleses por três gols a zero. A minha intenção não é fazer uma ode ao time que torço, mas compreender o porquê da visão de um Andrade grisalho me desperta essa conexão tão forte com um passado que acredito ser comum a todos.

Sim, você não precisa gostar de futebol a ponto de ver jogos como XV de Jaú x Saad E.C. ou similares para entender alguns detalhes sobre o esporte bretão que justificam plenamente sua relevância mundial. O esporte – quase sempre – foi uma forma ética, controlada e civilizada de guerra e competição entre homens e grupos de homens. Não se espante, o ser humano gosta e precisa de afirmações de força e soberania sobre seus semelhantes. Está na natureza humana e, possivelmente, escrito à base de adeninas, guaninas e demais integrantes do nosso DNA.

As competições em que o mais forte vence – seja em que habilidade for – remontam aos tempos da caverna e podem ser observadas em outras espécies. Portanto, sem falsos moralismos. Futebol, vôlei, basquete, boliche e todos os esportes constituem uma tentativa de superação de metas e oponentes. O grande toque da civilização foi tornar esse desejo de sobrepor-se algo ético e dotado de explicação moral. O esporte é a disputa controlada e dentro de limites, que o tornam inspirador e fonte de ensinamentos que dotam o ser humano de cidadania.

Quando a gente toma ciência do que é esporte, lá pelos primeiros anos de vida, compreendemos que podemos fazer parte daquilo. Toda criança gosta de correr e jogar bola, até que surgem as primeiras competições informais, nas quais os mais hábeis se destacam dos outros. O código para isso é a associação da destreza com a virtude, algo que desestimula os menos hábeis a continuar jogando. Mais tarde, a maturidade dá a esses jogadores de segundo escalão o bom humor e a capacidade de enfrentar a situação em que os mais virtuosos sempre vencem.

A moralidade do esporte diz que o treino e a determinação são as chaves para ser um bom atleta, algo que praticamente inclui todo mundo como potencial praticante de esporte. E têm lugar aqueles conselhos que ouvimos a cada jogada frustrada: “Veja, se você é ruim no futebol, pode ser bom no vôlei ou basquete”. Quem nunca ouviu isso? E quem nunca foi colocado no gol porque não jogava bem na linha? E quem nunca ouviu que só tinha lugar no time de handebol? São metáforas moralmente legais para “você é ruim, não tem lugar no nosso time”.

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Os esportes coletivos têm um parentesco evidente com as guerras, principalmente porque eles se apresentam em diferentes âmbitos. Sempre tomando o futebol como exemplo, podemos pensar que há times dentro de um município, disputando o mesmo campeonato. As rivalidades entre bairros e regiões da cidade são colocadas em campo. Sendo assim, times de diferentes procedências dentro de um mesmo lugar se enfrentam como gangues rivais, dentro de regras e determinações que procuram dar igualdade de condições a todos.

Amplie essa perspectiva para campeonatos que congregam os estados de um país e as nações propriamente ditas, todas se enfrentando em busca do objetivo final – a vitória. O futebol talvez seja o esporte em que a moralidade e o bom-mocismo são menos evidentes. O que dizer de jogos entre Brasil x Argentina ou Brasil contra qualquer outro país da América do Sul? Estão em campo todas as diferenças culturais, o português imperial contra as repúblicas bolivarianas ou platinas, todas formadas na mesma época. Os países mais pobres contra o “gigante continental”. E os jogos entre México e Estados Unidos, nos quais os mexicanos têm a chance de dar o troco pela opressão ianque de muitos anos e pela anexação de terras que os americanos promoveram ao longo do século XIX? Quem achar que essas questões não estão em algum pensamento ancestral dos jogadores, estará enganado.

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Os jogadores são os protagonistas da guerra. O técnico é o sujeito que imagina a maneira de vencer o oponente. Quando uma torcida vaia um jogador é porque não o julga digno de vestir o uniforme do time. E o que seria o estádio senão o campo de batalha? E a platéia senão os povos que se enfrentam e são afetados diretamente pelos resultados das partidas?

Desde a década de 1990 que o futebol – e os esportes coletivos em geral – vêm sofrendo com a assimilação do dinheiro na engrenagem que mantém a máquina moral funcionando. Salários altos, propostas financeiras tentadoras, campeonatos mais disputados em países europeus; tudo isso faz com que cada vez mais jovens iniciados sejam despachados para o exterior, em busca de algo que a torcida não consegue associar à guerra. Quando há um conflito entre nações, não há espaço para dilemas morais ou de qualquer outra natureza para explicar o porquê deste ou daquele soldado não combater. Todos são voluntários na defesa do bem comum, certo? E no futebol, quando este ou aquele atleta deixa um time por proposta de outro e abandona o uniforme anterior para vestir uma nova farda?

Andrade, o homem da foto inicial, fez isso ao usar o uniforme do maior rival do Flamengo, o Vasco da Gama. Naquele tempo – fim dos anos 80 – ainda havia algo que não permitia duvidar da honra de um jogador. E eles ficavam anos a fio no mesmo time, como se nos dessem a certeza de que eram torcedores e defensores da mesma causa.

O mundo esportivo moderno é regido pelo dinheiro – assim como quase todas as manifestações humanas – e isso, por mais que estejamos acostumados à rotina do esporte, é um elemento estranho ao todo.

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De qualquer forma, há vinte e sete anos, eu não sabia de nada disso. Era apenas um pouco hábil jogador de futebol no colégio, porém, um orgulhoso torcedor do meu time e das pessoas que fizeram essa personificação do que ele representa. Andrade, o velho Tromba, camisa 6, foi um dos responsáveis por isso e eu sou grato a ele.

O Celular de Diamante do Jota Quest

15.09.08 | por Cel | Categorias: Comportamento, Música, Tecnologia

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Vejam essa notícia, meus caros e caras:

"Novos tempos no mercado da música. O Jota Quest vai receber um prêmio inusitado essa semana: um "Celular de Diamante", versão do tradicional "disco de diamante", entregue pelas gravadoras quando um álbum atinge determinado número de vendas. Isso porque o aparelho celular Sony Ericsson contendo músicas do álbum "Até Onde Vai" (termo oficial: "conteúdo embarcado") ultrapassou as 500 mil unidades vendidas. Além disso, foi recorde de vendas da Sony Ericsson, que realizou essa parceria com a operadora Vivo e a gravadora SonyBMG. O conteúdo do CD lançado em outubro e ainda disponível nas lojas é: 5 músicas ("Dias Melhores", "Palavras de Um Futuro Bom", "Mais uma Vez", "Até Onde Vai" e "De Volta Ao Planeta" ), 1 videoclipe ("Palavras ao Vivo"), 1 mini documentário (extraído do DVD "Até Onde Vai" ) e 3 wallpapers (capa do DVD + foto da banda + logo da banda)".

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O que pensar disso? Antes de mais nada, sinto saudades sinceras do tempo em que o celular era um telefone, apenas isso. Sei que é legal ouvir mp3, ver televisão, jogar, tirar fotos, mandar e-mails, mas acho sempre que o celular deveria apenas servir para funções telefônicas e todo o espectro de demandas que estão ligadas a essa situação.

Por exemplo, é legal ter agenda, opções de toques polifônicos e tecnologias mil para variá-los de vez em quando. Me aflige ver uma banda de rock sendo premiada com o Celular de Diamante, mas conforta-me que seja o Jota Quest a receber essa "honrosa" menção. São os tempos difíceis, dos discos financiados com a Lei Rouanet, dos DVD's ao vivo pagos com dinheiro do Ministério da Cultura, dos conteúdos na internet, dos álbuns lançados (e somente viáveis) sob a chancela de canais de televisão.

Enfim, a indústria musical, em sua faceta mais conservadora e anti-consumidor está representada nessa notícia e mostra o quanto o Brasil não aprendeu com coisas como selos independentes e do it yourself. E, pior, me constrange ver a quantidade de artistas independentes e promissores no país que não têm qualquer chance de aparecer para um usuário de celular. Mesmo que ele tenha optado por comprar seu aparelho sabendo que teria um conteudo especial do Jota Quest. Será que os aparelhos oferecidos gratuitamente pelas operadores como mecanismo de retenção de clientes estão contabilizados nessa estatística? Eu, como cliente da Vivo, já recebi oferta para ter um Sony Ericsson gratuito e não o quis. Caso tivesse aceito, eu integraria esse grupo de 500 mil usuários/ouvintes?

A propósito: já vi aparelhos com conteúdo do Killers, da Amy Winehouse e do Rappa.
No fim dá tudo no mesmo, não?

A Irritação com Nome Próprio

15.09.08 | por Cel | Categorias: Blogosfera, Cinema, Comportamento, Relacionamentos

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Diga-me, você veria um filme inspirado totalmente na “obra” da blogueira Clarah Averbuck? Pagaria – ainda que fosse meia-entrada – para ver quase duas horas de uma versão pequeno-burguesa e inconseqüente de sociopatia light, travestida de marginalidade e “busca pela liberdade de expressão”?

Eu não. Mas fui mesmo assim, principalmente porque a atriz escolhida para o papel chama-se Leandra Leal, certamente um dos maiores nomes da dramaturgia nacional. A menina vai longe, se tudo der certo.

Quanto ao filme de Murilo “Unibanco” Salles, podemos dizer que ele constitui um curioso exemplo de bom trabalho sobre um tema inócuo, o que, aparentemente, tira muito do brilho da empreitada.

Lá pelo inicio da década de 2000, a Internet começou a ser popularizada e uma de suas revoluções foi o advento dos blogs. Com eles, praticamente todo usuário da Grande Rede passou a contar com o poder de emitir opiniões e tê-las publicadas em diários – os tais weblogs, depois chamados de blogs – cuja leitura estava ao alcance de todos. Daí vem a história de Clarah Averbuck, uma gaúcha que iniciou-se no ofício dos blogs nessa época, mais precisamente em 2001, quando mudou-se para São Paulo e iniciou as postagens do diário virtual "brazileira!preta". Logo depois ela lançaria seu primeiro livro, “Maquina de Pinball”, no qual narra seu cotidiano na cidade grande, sempre sob o ponto de vista pessoal e versando sobre amor, ódio, solidão e frustração.

Mais dois livros vieram, “Das Coisas Esquecidas Atrás Da Estantes” e “Vida de Gato”, consolidando a figura da moça como uma espécie de ícone desse universo virtual. A adaptação de “Pinball” para o teatro por Antonio Abujamra em 2003 abriu caminho para a idéia de trazer um mix das histórias de Clarah para o cinema, levada adiante por Elena Soarez e Melanie Damantas, que escreveram o roteiro para Murilo Salles produzir e dirigir Nome Próprio. Ok. E daí?

O filme tem dois méritos bastante louváveis, além da atuação prodigiosa de Leandra Leal: a estética anti-Globo, cheia de silêncios, escuros, vocabulário nada moderado e cenas de sexo implícito – mais reais que as explicitas – e uma aura politicamente incorreta. E, além disso, um time de atores praticamente desconhecidos do grande público, todos com cara de amadores e iniciantes, conferindo ao filme outra aura, a de filme independente.

Assusta, no entanto, a seriedade com que as narrativas umbiguistas de Clarah Averbuck são tratadas por esse pessoal "das artes". Longe de ser um fenômeno ou uma voz a ser ouvida, a blogueira e sua vida passam por uma análise nada isenta por parte do roteiro e tem seu modus vivendi quase glorificado e legitimado, ainda que isso tudo pareça contundente e cru na tela. A Camila de Leandra Leal vive uma marginalidade falsa, experimenta e procura suplantar limites irreais e clama por uma dúbia liberdade de expressão. Todo o suposto arrojo da personagem – que pode ser confundido com má índole, prostituição e mau-caratismo explícitos – é produto de uma sociedade paralela e extremamente tolerante com os desvios sociais e psicológicos, na qual os jovens experimentam toda sorte de drogas e enchem a cara de bebida alcoólica, não como reflexo de suas vidas miseráveis, mas para glorificar o status “marginal”, algo que é mantido com um código de comportamento e conhecimento superficiais da realidade.

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É irritante ver uma jovem mulher escrevendo num computador à base de anfetaminas reclamando do namorado que a pôs para fora do apartamento dele porque ela transou com outro, em vez de vê-la procurando um emprego ou algo assim. A alienação atinge um nível desconfortavelmente grande, afinal de contas, a vida dessas pessoas parece existir e fazer sentido apenas nos sites da Internet. Diante da vida real, toda a maquiagem e esperteza somem num redemoinho de erros.

Enquanto clama por uma liberdade de escrita, exercida através da descrição nada ética de suas aventuras em seu blog, Camila não hesita em trair amigos, namorados, leitores e abusa de todos – e talvez dela também – para satisfazer apenas a si mesma, deixando de lado qualquer possibilidade de coexistência.

A pesquisa de Leandra Leal para o papel deu-se com a própria Clarah, mas talvez o trabalho da atriz e sua dedicação ao filme e ao personagem seja muito mais legítima e verdadeira que as palavras de Averbuck. O charme do filme tem muito de sua razão de existir na tênue fronteira que coloca o sofrimento de Camila/Leandra/Clarah em dúvida o tempo todo e na irritação que tanta alienação travestida de marginalidade pode causar em pessoas que não vêem o mundo sob a ótica de um monitor.

Prepare seu estômago e procure ir acompanhado para poder meter o malho em muitas situações ao longo do filme.

Nós Somos o Coringa

15.09.08 | por Cel | Categorias: Cinema, Egotrip, Quadrinhos

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O universo das HQ’s tem uma regra de ouro não revelada: o vilão é sempre mais interessante que o herói. Motivos não faltam para isso, talvez o mais evidente seja a capacidade do vilão revelar o lado mais podre e asqueroso do ser humano, seja através daqueles pensamentos e atitudes que chutam as noções de correção para escanteio ou, simplesmente, pelo uso indiscriminado da maldade. Por alguns momentos – porque o herói sempre vence no final – o vilão domina a história usando (perdão pela redundância) toda a sua vilania e todos nós soltamos contidos risos atávicos de satisfação, que deveriam ter ficado em alguma encruzilhada da nossa evolução.

O que me motiva a adentrar esse assunto é, claro, o novo Batman, que acabei de ver no cinema. Mais que isso: o que me assustou no longa de Christopher Nolan foi a capacidade de transcender o âmbito cinematográfico e, por conseguinte, deixar de lado toda a pirotecnia tão comum aos filmes de ação, para penetrar nos subterrâneos que sustentam a história do Batman. Entenda: a pirotecnia está toda lá, em efeitos especiais de tirar o fôlego, mas eles são secundários aqui. Aliás, adianto que qualquer análise desse espetáculo sob a ótica restritiva de tópicos como roteiro, direção e mesmo capacidade dramática dos atores será sempre insuficiente. Batman – The Dark Knight não é apenas cinema. Nolan conseguiu, provavelmente inspirado pelo roteiro que ele mesmo escreveu e pela total compreensão das noções básicas do dilema do herói x vilão, encerrar discussões sobre o assunto e escancarar a sutileza dos traços dos quadrinhos num debate terrível sobre a mente humana. Exagero? Não, não mesmo.

Filmes de heróis foram péssimos ou maravilhosos. X-Men, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Hulk, Hellboy, Quarteto Fantástico, Superman, até mesmo filmes sérios e metafóricos como Corpo Fechado (Unbreakable – 2000), dirigido por M. Night Shyamalan. Os outros episódios cinematográficos do próprio Homem-Morcego foram desastrosos, aqueles dirigidos por Joel Schumacher e Tim Burton, uma sucessão de equívocos e visões moderninhas com transgressão estética confundida com mau gosto. Exceto pelo anterior, Batman Begins, também dirigido e escrito por Nolan, trazendo o surpreendente Christian Bale no papel do milionário Bruce Wayne, o velho morcegão caminhava para uma injusta carreira na tela grande.

Pois bem, temos então Batman – O Cavaleiro das Trevas. A história traz nosso herói mascarado às voltas com seu maior inimigo, o Coringa. É dele que quero falar e não tem nada a ver com a atuação de Heath Ledger. Antes, porém, é preciso dizer que Ledger teve seu maior momento no cinema na pele do terrível criminoso desfigurado. Nenhum papel vivido pelo jovem ator australiano – precocemente morto no inicio desse ano – foi tão arrebatador quanto esse. Dizem os rumores que a overdose de tranqüilizantes que o matou num quarto de hotel foi uma conseqüência da atuação e pesquisa de Ledger para encarnar o Coringa. O próprio ator disse em entrevistas que usou várias fontes de inspiração para encarnar o maior rival do Batman, inclusive as performances de John Lydon à frente dos Sex Pistols e do P.I.L.

O que precisa ser dito é que a alquimia dos quadrinhos criados por Bob Kane e Bill Finger para a DC Comics, a visão de Nolan ao dirigir o filme e escrever o roteiro e, sim, a atuação de Ledger, proporcionaram um painel terrível das mais escuras facetas humanas.

O Coringa nunca foi um bandido comum. Ele nunca cometeu seus crimes visando lucro ou algo no gênero. Sua maldade é ilimitada, sua visão da humanidade é a mesma que um cientista tem de suas cobaias, e ele se vale de uma isenção – proporcionada por sua condição mental, digamos, alterada – para brincar de machucar quem ele quiser. Há quem diga que o Coringa não é um mero louco, mas alguém terrivelmente são, a ponto de desenvolver um estado de percepção, digamos, superior ao resto das pessoas.

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Ao longo do filme ele manipula pessoas, fatos, se vale da influência e do medo que gera nos criminosos comuns e vislumbra com exatidão o alvo que precisa ser atacado. Ele é um agente do caos – como o personagem se define em certo momento – e não pretende parar. Na verdade, o Coringa propicia reflexão sobre a própria natureza do herói e a coloca em xeque, a partir do momento que as regras morais que são seguidas por Batman – e não por ele, Coringa – são os verdadeiros mecanismos que engessam a sociedade.

Em miúdos: o Batman precisa do Coringa e vice-versa. Por isso a idéia maior não é destruir o herói mascarado, mas atacar os valores e erodir lentamente a sociedade que ele defende. Levar o caos aonde existe ordem. Batman, por sua vez, não se dá conta de que precisa de gente como o Coringa para existir. Enquanto criminosos comuns são perseguidos e presos em Gotham City – uma metáfora sinistra da sociedade americana do século XXI criada pelos governos Bush – pela ação da Justiça (personificada pelo promotor Harvey Dent – vivido por Aaron Eckhart), o Batman assume uma condição secundária no cenário, apenas ajudando a polícia e talvez combatendo o crime de uma maneira mais rápida e eficiente. Aliás, convém lembrar da atuação de Gary Oldman no papel do Comissário Gordon. Ele é o homem comum no olho do furacão. Entre bandidos, corrupção e reviravoltas mil, Gordon é o policial que ainda acredita em valores, que vai pra rua prender os ladrões e tenta voltar pra casa toda noite. Oldman – que viveu um policial viciado em drogas em O Profissional, de Luc Bresson – está soberbo, assim como Morgan Freeman, Michael Caine, o elenco de apoio é um desfile no tapete vermelho de Hollywood.

Quando entram em cena a corrupção e a falta de ética, Batman, Gordon e Dent se vêem incapazes em lidar com a situação, pois eles mesmos são vítimas em potencial da mesma inversão de valores que tentam combater. Batman/Bruce Wayne se vê às voltas com o sacrifício de sua vida normal para combater o crime e Dent tem sua vida modificada para sempre por não se corromper. A partir disso, surge outro inimigo do tradicional do Batman, o Duas Caras. Por trás disso tudo, se valendo de uma inteligência privilegiada, o Coringa manipula a todos como marionetes.

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Em poucos filmes de heróis se viu um desnudamento tão grande da psique humana. Talvez em alguns momentos da saga X-Men, pela própria dualidade entre mocinhos e bandidos proposta pela trama de Stan Lee, tenha sido tão “normal” ser mau e tão “chato” ser bom. Em Batman, talvez tristemente, ser “mau” é praticamente ser humano e isso é assustador. Não se engane com toda a linguagem corporal exagerada e genial do Coringa de Ledger. Está tudo ali.

Batman – The Dark Knight é um passeio audacioso no lado escuro da alma e extrapola o âmbito dos filmes de heróis coloridos e justos.

WALL-E - Nasce Um Clássico

15.09.08 | por Cel | Categorias: Cinema, Crianças, Egotrip

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WALL-E, o novo filme da Disney/Pixar é um clássico. Supera facilmente outras realizações como Procurando Nemo ou Carros e periga destronar os quase insuperáveis Monstros S.A e Os Incríveis.

A sigla, que significa Waste Allocation Load Lifters – Earth Class (algo como “lixeiro classe Terra”) é o indicativo do que será visto na tela. O planeta foi abandonado, transformou-se num imenso vazadouro de lixo, após séculos de maus usos pela Humanidade. Nesse cenário surge WALL-E, o último de sua série, ainda vagando por uma paisagem especialmente desolada, pontuada por pilhas enormes de lixo, que ele mesmo constrói sistematicamente. Sua única companheira é uma pequena barata, que vive feliz em meio ao lixão global.

Sua rotina de sete séculos de coleta de lixo acabou por danificar algum circuito cognitivo, o que conferiu ao pequeno robô um “defeito” peculiar: personalidade. WALL-E desenvolveu carinho pelos objetos que coleta e, por conseqüência, pela humanidade. Ele vê trechos do mesmo filme toda noite (“Bonequinha de Luxo”, que empresta sua canção “Put On Your Sunday Clothes” para a abertura do longa) e sonha com um mundo diferente. Podemos dizer que WALL-E sente saudades de um mundo que ele não conhece completamente, algo que o faz sentir-se pequeno.

Um belo dia a senha para essa mudança aparece na forma de uma visitante inesperada. EVE, uma sonda-robô desembarca nas vizinhanças e começa a vasculhar o cenário, em busca de algo. O encantamento é imediato e WALL-E não mede esforços para permanecer próximo de EVE, mesmo depois que alguns fatos acontecem.

As referências existenciais no filme são um prato cheio para a elaboração de teorias mil sobre o que vemos na tela. As metáforas são muitas e preciosas. A preocupação com a ecologia é o pano de fundo para toda a ação. É curioso que o filme mostre máquinas como guardiãs de aspectos diferentes da vida humana, seja a busca por melhorias como a determinação de manter tudo em seu lugar, confrontando as opiniões quase o tempo todo.

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A solidão de WALL-E é sentida facilmente ao longo do filme. É uma condição que não foi fruto de escolha, mas mostra o quanto é possível permanecer em uma realidade opressora que permita sonhos e aspirações, que vêm, ironicamente, em forma de “defeito”. Há referências na cultura pop sobre como esses enfoques diametralmente opostos sobre a presença de máquinas no cotidiano do ser humano, definindo e transformando o mundo que ele habita. Dou três exemplos:
Donald Fagen, integrante do duo Steely Dan, lançou seu primeiro disco solo em 1981, The Nightingale, um trabalho praticamente conceitual sobre as visões de futuro que o mundo experimentava na época. Era um fato a ser consumado que as máquinas poderiam resolver todos os problemas do ser humano, facilitando sua vida a tal ponto que ele teria tempo de sobra para ser mais feliz.

A Trilogia Matrix (especialmente o primeiro filme) traça um painel assustador de um mundo que foi dominado pelas máquinas, não as simpáticas criações que Donald Fagen pensou, mas seres conscientes e especialmente cruéis com o homem.

Em 1971 Marvin Gaye lançava seu disco chave, What’s Going On. Foi a obra-prima definitiva da carreira do cantor, constituindo um feixe de canções cheias de questionamentos sobre o mundo, a sociedade e o futuro, sob uma perspectiva que oscilava entre o realismo e o pessimismo. Em “Mercy Mercy Me”, Marvin Gaye fala de oceanos poluídos, rios cheio de mercúrio, superpopulação e uma série de conseqüências que os maus tratos ao planeta podem trazer.

Voltando. O filme da Pixar condensa diferentes visões da mesma moeda, azul e branca, cada vez mais suja e mal administrada, não poupando o ser humano da redução ao papel mais humilhante já visto num desenho animado. Detalhes tão pequenos como o uso inteligente do silêncio e uma bela canção inédita de Peter Gabriel (“Down To Earth”) na trilha fazem de WALL-E uma pequena revolução na linguagem do desenho animado. Mais que uma obra de animação, o diretor Andrew Stanton (que dirigiu Procurando Nemo) obteve um belíssimo filme, capaz de disputar prêmios com histórias cheias de personagens de carne e osso. WALL-E pode ser mais humano que quase tudo lançado em 2008.

Antes que eu me esqueça: é preciso avisar às platéias de filmes como WALL-E que nem todo longa-metragem de animação é, necessáriamente, engraçado e feito para provocar risos do espectador.

O Que Steve Jobs Tem A Ver Com Isso?

A cada nova história contada pela visão impressionante da Pixar, os conceitos de animação precisam ser revistos ou, no mínimo, ampliados, tamanha é a grandeza do espetáculo colocado nas telas.

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A evolução desde Toy Story (1995) é notável e merece um pouco de história. A existência da Pixar inicia-se em meados dos anos 80, como uma subsidiária da Lucasfilm. Em 1986, Steve Jobs (sim, ele mesmo, o dono da Apple) comprou a empresa e a tornou independente, o que facilitou a aproximação com os Estúdios Disney. A realização de Toy Story marcou o inicio da colaboração entre as duas partes, o que traria uma seqüência de lucros e prêmios cada vez mais expressivos, chegando a totalizar treze Oscars e três Globos de Ouro, entre outros menos importantes, além de uma interessante quantia estimada de dois bilhões e meio de dólares de bilheteria.

A realização de Carros (2006) seria o último da parceira entre as duas empresas, devido a desentendimentos freqüentes entre Jobs e o presidente da Disney, Michael Eisner, algo que resultou na compra da Pixar pela impressionante soma de sete bilhões e meio de dólares, o que transformou Steve Jobs no maior acionista da empresa.

Por coincidência, WALL-E é cheio de referências estéticas à Apple, desde o I-Pod que o robô utiliza para ver seu filme preferido, passando pelo design de todos os outros personagens cibernéticos que aparecem no filme, principalmente EVE, que parece um periférico futurista criado pela companhia de Jobs. Deve ser legal ser dono de algo como a Pixar.

That Summer Feeling

15.09.08 | por Cel | Categorias: A, Egotrip, Música

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Estou no inferno.
Calma, não é do subterrâneo flamejante que estou falando. Me refiro ao período que antecede ao aniversário, o que as pessoas entendidas em astrologia (não é o meu caso, note bem) chamam de Inferno Astral.

Está lá, no Google: “Inferno Astral é o período de 30 dias que antecede a data de seu aniversário. Nessa época, a cada ano, você fica mais sensível e precisa se dar a si mesmo(a) mais atenção. Durante essa fase, recomenda-se fazer um balanço de sua vida e quando se deparar com problemas, esforce-se por resolvê-los.”

Bem, eu acredito nisso. Não sou aquele tipo de pessoa que lê seção de horóscopo nos jornais e revistas mas acho que estamos sujeitos a influências diversas por aqui e penso que Deus tem um plano para todos nós. Enfim, o que importa é o significado do tal “inferno astral”, que se reflete em uma profunda auto-analise sobre tudo.

Mais ou menos como o post sobre o novo disco do Weezer, me sinto fazendo constantes inventários sobre minha vida e meus atos. Ou a falta deles quando concluo que eram necessários. Às vezes esses balanços são menos felizes que outros mas, por piores que eles sejam, os fatos e pessoas vêm à minha mente sob a forma de música feliz, quase sempre da década de 1990. Apesar de lembrar até de coisas como o primeiro disco do Spin Doctors (e achá-lo bastante legal até hoje), minha trilha sonora aparece na forma de canções powerpop, que trazem em seu conceito, um link automático para os anos 70. Ou seja, é uma porrada dupla de nostalgia, uma lembrança da inspiração, causada pela...Lembrança.

Entenda: se eu batizo o post com essa expressão “that summer feeling”, não estou escolhendo algo bonitinho, mas sendo quase abduzido pelo poder melódico do Teenage Fanclub de 1995, que nos deu “Sparky’s Dream”, uma das favoritas de Inferno Astral, contida em seu disco Grand Prix.

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Lembro de comprar a minha cópia desse álbum na antiga Spider, uma loja no segundo andar de uma galeria em Ipanema. Era um cubículo, mas o dono se mantinha sempre antenado com os sons que davam as cartas no exterior. Grande parte da minha coleção de britpop foi adquirida na Spider, além do revelador primeiro disco do Ben Folds Five, hit instantâneo entre os estudantes de Comunicação Social da Uerj em 1995.

Bem, a lembrança da década de 1990 (e dos anos 70, por tabela) não é casual, pelo contrário, aparece perfeitamente explicável para mim. Naquele tempo – putz, já vão uns quinze anos disso tudo – eu era um cara pronto para novos desafios, conhecendo gente jovem reunida, tentando não ser como meus pais e colecionando bons momentos. Estava mais magro, com mais cabelo, namorava uma das meninas mais lindas desse mundo, finalmente adentrava os domínios da Modern Sound com meus caraminguás e saía da poderosa loja de Copacabana com alguns discos.

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Naquele tempo haviam três lojas de disco, lado a lado. A Billboard, a Gramophone e a Modern Sound, que sempre foi maior e mais sortida que as outras, porém, fraca em promoções e ofertas. A Gramophone, em cujos domínios encontrei um nervosíssimo Renato Russo, circa 1992, comprando discos de Cat Stevens e Joni Mitchell, era mais camarada com os preços e trazia um monte de lançamentos importados. A Billboard era a terceira em preferência, mas era legal. Com o tempo as duas lojas menores faliram e foram englobadas pela Modern Sound, assim como o antigo cinema Star Copacabana. Ou seja, os prédios foram exorcizados de seus espíritos originais e se contentaram em ser partes de um todo que antecipava o monopólio de venda de discos.

Aliás, me aflige pensar que minhas lembranças passam por algo que está tão démodé como o CD (rima não voluntária, claro). Sempre que penso em anos como 1992/93/94/95 o faço em forma de discos. Lembro deles, dos encartes, de chegar em casa e colocar no carrossel Sony de cinco discos e sugar as letras e perceber o quanto as conexões se estabeleciam com a minha vida.

Não me espanta, portanto, que eu esteja ouvindo bandas como Fountains Of Wayne, Teenage Fanclub e uma espécie de pai deles, o Raspeberries. Nesse balaio powerpop a justiça nunca se fez completamente. Sempre que falamos de formações desse estilo, seja nos anos 70 ou nos anos 90, pensamos em bandas subestimadas ou desconhecidas da maioria. Talvez seja simples pensar nos motivos disso.

Músicas “de verão”, com melodias beatle, guitarras desviadas do hard rock e cobertas de açúcar, além de vocais simpáticos cantando letras sobre amores impossíveis do high school nem sempre estiveram na moda, algo que não se aplica à minha pessoa, principalmente em inferno astral.

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As lembranças de lugares como a Tijuca, Méier, Grajaú (bairros da Zona Norte do Rio), dos prédios da Uerj; de pessoas que nunca mais vi, de filmes como “O Balconista”, que se conectam com “Curtindo A Vida Adoidado” (assistido nas escadas do Cinema Leblon, numa tarde sold out após o colégio) e “A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa” (filme de 1977 com o soberbo Peter Sellers, que eu via nas Sessões de Gala das noites), tudo isso é um looping de “summer feelings” na minha mente. Some a isso a crise da meia-idade chegando e você ter uma idéia do que passa por aqui.

Só mais um detalhe: o verão, essa estação do ano que parece tão presente em nosso Tropico de Capricórnio é algo raro no Hemisfério Norte. Lá, no lugar em que os compositores, artistas e personagens balizadores dos meus inventários nasceram, o sol é aguardado como quem espera quebrar correntes de jugo perpetuo para ser livre. No sentido mais amplo. O povo fica feliz, a neve derrete, o mundo é mais azul e faz todo o sentido cantar as músicas de verão. Assim como se faz necessário cantar as contrapartes de inverno, quando o mundo fica cinza.

No meu inferno astral, encerrando-se em dez dias, porém, o clima é de verão musical pleno e perpétuo, mesmo que a saudade seja um estranho tempero nesse milkshake de Ovomaltine, tomado no Bob’s da rua Domingos Ferreira, em Copacabana, ao lado do meu avô...

PS: Quem quiser dar uma olhada nos temas do inferno astral, precisa ouvir:

- Teenage Fanclub – Grand Prix (1995)
- Fountains Of Wayne – Fountains Of Wayne, Utopia Parkway (1996/1998)
- Raspberries – Live At Sunset Strip (2007)
- Ben Folds Five – Ben Folds Five (1995)
- Lemonheads – It’s A Shame About Ray (1993)
- Dinosaur Jr – Where You’ve Been (1992)
- Weezer – The Blue Album, Pinkerton (1994/1996)
- Neil Young – Harvest Moon (1992)
- Nirvana – Nevermind (1991)
- Pearl Jam – Ten/Vs (1991/93)

PPS: alguns clipes abaixo para "ilustrar" o post. Temos "Denise", com o Fountains Of Wayne, do disco Utopia Parkway (1998). A banda de Nova Jersey, liderada por Adam Schlesinger, atingia o topo das paradas pela primeira vez. Detalhe para a presença da atriz Jolene Blalock (que participaria da série Enterprise (da franquia Star Trek), no papel da subcomandante vulcana T'Pol. Depois vemos Ben Folds Five cantando "Philosophy" ao vivo, no programa de Jools Holland. E fechamos com "Sparky's Dream", do Teenage Fanclub.

Fim dos Tempos e da Paciência

15.09.08 | por Cel | Categorias: Cinema

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M Night Shyamalan apareceu para o mundo em 1999, principalmente por seu segundo filme, O Sexto Sentido. Seu primeiro trabalho, O Pequeno Stuart Little, apesar de bem sucedido e ter gerado uma seqüência, não colocou o cineasta americano, descendente de indianos no mapa das celebridades. Pelo menos, não da forma como passamos a associar seu nome a filmes misteriosos e com uma grande revelação no final.

A filmografia de Shyalaman passa essencialmente por alguns elementos que se repetem nesse seu novo longa, O Fim Dos Tempos (The Happening). O suspense está lá. As suposições e conclusões tiradas ao longo da história também. Personagens atormentados e introspectivos, quase anti-heróis continuam povoando as narrativas. Até o próprio diretor, aparecendo numa ponta, quase despercebido, tudo está presente em The Happening.

O grande problema deste e de outros filmes do diretor, espacialmente Sinais e Dama Na Água, é que a história contada beira o ridículo, o nonsense, resvalando para um filme-B não intencional, quase constrangedor.

Aqui temos Mark Wahlberg no papel de um professor de Ciências numa escola secundaria da Filadélfia. Ele tem problemas no casamento e uma vida sem muitas novidades até que se vê sorvido por um redemoinho de fatos inexplicáveis que começam a assolar a região nordeste dos Estados Unidos, de Boston até sua cidade. Rumores de ataques terroristas chegam em noticias confusas e logo as pessoas estão fugindo, sem saber realmente o que estão fazendo.

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Ao longo do caminho, Wahlberg, sua esposa Alma (vivida pela interessante Zooey Deschanel), o colega Julian (um professor de Matemática, vivido pelo correto John Leguizamo) e a filha deste, Jess (Ashlyn Sanchez) vão notando que quase nada pode deter os acontecimentos e que só lhes resta esperar, resignados pelo destino.

A idéia de Shyalaman tem méritos mas eles estão longe de fazer valer a visita à sala escura. A trama se explica de maneira patética e parece jogada na cara do espectador como uma torta. As cenas de tensão – uma marca registrada do cineasta – estão frouxas e resvalam para a auto-caricatura não intencional e comprometem qualquer possibilidade de se levar The Happening a sério.

Mesmo a badalada teoria de que o ser humano está infligindo danos tão graves ao planeta que pode ser repelido como se fosse um vírus num organismo doente, soa como um mero recurso mal utilizado. É criado um clima de tensão ao longo do filme que acaba de maneira anti-climática e tola, confundindo valores, situações e mesmo conceitos como “instinto de sobrevivência” numa salada pseudo-ecológica de feira de ciências. Passe longe e aproveite para rever o que Shyalaman já foi capaz de fazer, extraindo belas atuações de Bruce Willis (um canastrão assumindo) em O Sexto Sentido e em seu melhor – e mais subestimado filme – Unbreakable, pobremente traduzido para o português como “Corpo Fechado”.

MGMT e a Psicodelia Fofa

15.09.08 | por Cel | Categorias: Música

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A vitrolinha virtual já executa "Future Reflections", a última faixa do álbum de estréia do MGMT e a sensação não vai embora: é Flaming Lips? É Plyphonic Spree? É Grandaddy? É Banana Split? É Shazam, Xerife & Cia?

As informações negam as aparências e insistem em dizer que não. MGMT é a abreviatura de "management" (gerência, em inglês) e reafirmam os dados do primeiro parágrafo, logo acima. Os "gerentes" são Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden, ex-estudantes da Wesleyan University, Connecticut.

Os ouvidos, porém, não se convencem. Esse é um problema recorrente para quem lida com música pop nesses dias tão estranhos. As referências, as influências, o pedigree de uma banda ou artista não são mais assimilados e absorvidos. Eles simplesmente são regurgitados com o mínimo de vontade em fazer novas coisas ou dar uma cara diferente às velhas coisas.

O resultado é um padrão de "novos" discos como esse do MGMT, chamado Oracular Spetacular. A presença do produtor do Flaming Lips e do Mercury Rev, David Friedmann, no cockpit do estúdio é um indicador forte das desconfianças surgidas: é um disco psicodélico, oras! Vamos dar uma olhada no que isso pode significar.

O que bandas como Mercury Rev, Flaming Lips, Echo And The Bunnymen, The Church e MGMT têm em comum? A abordagem de alguma faceta psicodélica em seus trabalhos, variando de forma e conteúdo, mas nunca abandonando a estética que se reinstalou a partir dos anos 80 no pop. Se antes o tal som lisérgico era sinônimo de maluquices e expansão da mente, os anos 80 conferiram ao gênero um amor especial pelo lado negro da psicodelia, aquela que levou bandas como Velvet Underground a construir seu cânone nos anos 60 e que enveredou pelas vielas sujas da grande metrópole mitológica que habita as mentes de todos.

Já na Califórnia sessentista a lisergia aparecia em forma de bandas de folk rock doidão, lideradas por Byrds, Love e Grateful Dead, misturando a tradição country americana com um cenário colorido e libertário, norteado pela abertura das tais portas da percepção. Fora da América, na velha Grã-Bretanha, toda a moda e a efervescência cultural formaram o invólucro para o som de bandas como Pink Floyd e as nascentes formações progressivas.

Se essas três vertentes principais eram bastante diferentes quando surgiram, tornaram-se influências unificadas a partir dos anos 80 em seu retorno à ordem do dia. A partir daí as bandas citadas no deram a luz a variações próprias do tal rock doidão e lhe conferiram modernidade em boa dose, livrando-o do incômodo anacronismo em relação aos "dias atuais".

A raiz do som praticado pelo MGMT está nos anos 90, precisamente em bandas americanas que evoluíram do cenário alternativo genérico para levar a tal psicodelia mais a sério. Aliás, a maneira encontrada por Mercury Rev, Grandaddy e Flaming Lips, todos americanos e ex-alternativos "de ofício" foi justamente a adição de elementos visuais coloridos e enlouquecidos, como se eles fossem necessários para justificar sua opção. Essa conotação "fofa" dava um clima borbulhante ao cenário e ajudou a produzir estranhas e amalucadas obras musicais.

Os Flaming Lips, por exemplo, lançaram um disco chamado Zaireeka, cuja audição só era possível se seus quatro (!!) CDs fossem tocados ao mesmo tempo em quatro aparelhos diferentes. Os sons, interligados, dariam o resultado final ideal. Depois, um pouco menos ambiciosos, os Lips, sob o comando do maluco Wayne Coyne, deram início a uma seqüência grandiosa de discos, The Soft Bulletin (1999) e Yoshimi Battles The Pink Robots (2003) e At War With Mystics (2006).

Entre esses álbuns, a banda tocou em festivais ao redor do mundo (incluindo o Brasil em sua rota em 2005) e para uma platéia de carros (!!!) num estacionamento em Los Angeles. O Mercury Rev, por sua vez, iniciou suas atividades em 1991, mas conheceu o sucesso sete anos depois, com o lançamento de Deserter Songs, marcado por uma sonoridade que partia do Pink Floyd setentista e flertava com country, lo-fi e folk.

O que isso tem a ver com o MGMT? Tudo. Não dá pra falar no disco deles sem mencionar que ele é uma regurgitação da regurgitação da psicodelia fofa noventista. Nem por isso, entretanto, deixa de ser legal. O som que Friedmann obtém em Oracular Spetacular é cheio de efeitos, cheio de espaço, pontuado por baterias eloqüentes e teclados infantis (que atingem momentos sublimes no hit "Time To Pretend").

As vozes de Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden estão devidamente saturadas de ecos e tudo parece ir bem. "Weekend Wars" é legal. A já mencionada "Time To Pretend" gruda como um chiclete nas mentes mais fracas, "4th Dimensional Transition" se entrega pelo título, assim como "Of Moons, Birds & Monsters". O que mais podemos querer?

Simples. Um som, uma centelha, um traço de personalidade. O som do MGMT é um belo acompanhamento para um slideshow de imagens coloridas em seu notebook. Nada mais. Infelizmente.

OBS: o vídeo abaixo mostra a dupla tocando "Time To Pretend" ao vivo, no programa do David Letterman. Veja a citação que eles fazem ao final da música. Óbvia, mas legal.

A Quitanda das Vaidades

15.09.08 | por Cel | Categorias: Comportamento, Cotidiano, Relacionamentos

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Ontem eu zapeava pelos canais fechados e me espantava com a pobreza da programação que a maioria do povo tem à disposição em suas televisões.

O humor com validade vencida do Casseta & Planeta Urgente, o filme reprisado do SBT, a inacreditável novela mutante da Record e, bem, o Superpop da Rede TV, com Luciana Gimenez à frente. Passei pelo programa na hora em que o funk carioca rolava solto, com um agrupamento de seres lamentáveis tomando o palco, “cantando” e dançando as “músicas”. O indefectível MC Creu e suas dançarinas – Mulher Jaca e Mulher Moranguinho – ,o MC Frank e sua dançarina – a Mulher Melão – o grupo Malhafunk e a sobrinha de Gretchen, Caroline Miranda, ao lado do MC Lips.

Sim, meus senhores e senhoras, eu anotei esses nomes, claro. Não me estranha, entretanto, o conceito hortifrutigranjeiro que se assenhorou das novas musas da mídia classe B/C. A tal Mulher Melancia, ex-dançarina do MC Creu, já está no seu décimo-segundo minuto de fama (em tese só faltam três minutos para que ela suma de vez) completa o balcão da quitanda das vaidades. Melancia, melão, moranguinho, jaca e, numa expansão de mercado, há também uma certa Mulher Filé, cujas informações maiores são desconhecidas. A tal sobrinha de Gretchen, que jura ser virgem aos 18 anos de idade e desenvolvendo uma versão “funk” das coreografias eternizadas por sua tia nos anos 80, é a mais interessante da quitanda.

Mas não pode abrir a boca ou pensar (sic). A tal “canção” que ela “interpreta” ao lado do tal MC Lips é “Meu Selinho”, vem com uma letra sacana de duplo sentido, fazendo analogia entre o “selinho” que é beijo e que é o preferido da “moça” e aquele que denota a virgindade propalada por ela, este, o preferido de MC Lips, que, apesar da disposição em conquistar a rebolativa morena, não me pareceu muito chegado.

Triste, nada menos que isso.

A certeza de que essa escrotização da beleza feminina é algo setorial e (esperamos) passageiro fica maior quando me deparo, umas doze horas depois, com as presenças de Joss Stone e Ana Ivanovic na programação aberta, proporcionada pela Sky.

Me pergunto se a maioria das pessoas que é fã da quitanda das vaidades tem noção da existência da bela tenista sérvia, número 1 do ranking mundial ou da cantora pop inglesa, que esteve recentemente no país. Concluo que não. Ivanovic que suou o vestidinho branco para vencer a francesa Nathalie Dechy hoje, pela terceira rodada do Torneio de Wimbledon – é uma pequena princesa balcânica. “Pequena” talvez não seja o termo exato, pois a sérvia, de 21 anos, possui interessantes 1,85m de altura e exibe um biotipo moreno irresistivelmente belo, além de parecer uma menina comum.

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Claro, Ivanovic já faturou cerca de cinco milhões de dólares desde que começou a carreira, o que a destaca das “meninas comuns” que vemos por aí. Ela é mais interessante – aos olhos desse que vos escreve, pelo menos – que a russa Maria Sharapova, mas isso já é outra discussão. Joss Stone também tem beleza espantosa, simpatia cativante (comprovada in loco no show que ela deu no Vivo Rio) e alguns milhões na conta bancária, tendo em vista as vendagens de seus três discos, The Soul Sessions; Mind, Body & Soul e Introducing Joss Stone, lançados entre 2003 e 2007. Joss apareceu para o mundo com 16 anos e hoje, com a mesma idade de Ana Ivanovic, é uma jovem pra lá de bem sucedida. E o que elas têm a ver com os padrões de beleza da televisão brasileira? Nada, aparentemente, né?

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A relação é clara, mesmo que não pareça. Qual a diferença dos modelos de inspiração para a juventude planetária? As meninas da Quitanda das Vaidades e a dupla Ivanovic-Stone? Quem é mais interessante para as jovens? Mesmo que todas elas – mais e menos vulgares – atraiam o público masculino por diferentes motivos e mesmo fim, todas elas atraem o publico feminino pela mesma razão. São exemplos de vitórias pessoais que se tornaram publicas e são marteladas pela mídia em seus diferentes canais.

Muitas meninas brasileiras da classe média podem achar que rebolar num programa de televisão, posar para revistas masculinas e faturar um milhão de reais num Big Brother Brasil é o máximo em termos de objetivo para toda uma vida. É uma carreira que acaba tão cedo como, por exemplo, a carreira de Ivanovic, lá pelos trinta anos de idade. E as meninas do Primeiro Mundo? Também devem achar o mesmo, oras. O ser humano é igual em todo o planeta, pelo menos em essência e convicções. A certeza que ficou dessa pequena ponderação sobre mulheres é que nós – os homens – estabelecemos o padrão de beleza variável de acordo com várias circunstâncias e fatores. Os que desejam um contato mais objetivo com a mulherada devem preferir a mesma objetividade que as mulheres-fruta apresentam em suas aparições.

Os que ainda pensam em etapas intermediárias podem preferir Ivanovic ou Stone, principalmente pelo fato delas serem virtualmente impossíveis e as fantasias mais legais são aquelas que permanecem assim por um bom tempo, talvez pra sempre. Quem não gostaria de jantar com Ana Ivanovic e vê-la se interessando por fatos corriqueiros do cotidiano ou descobrindo afinidades de gosto? Ou quem acharia dispensável levar Joss Stone ao cinema para assisitir um desses filmes de mulherzinha e vê-la se emocionar com uma cena qualquer? Garanto que um número enorme de sujeitos mundo afora adoraria fazer esses programas com as moçoilas. Assim como há uma multidão igualmente maior que preferia uma bela salada de frutas bem rápida, sem tempo para pensar qual fruta foi servida. Há gosto, tempo, vontade e disposição pra tudo.

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Agora, cá entre nós: fica difícil convencer a esposa de que esse texto tem pretensões puramente sociológicas, não é? Talvez a presença de gente como Brad Pitt, George Clooney e até um certo Tom Wilkinson no imaginário feminino nos dê a chance desses passeios no mundo da fantasia. Do contrário, estaríamos perdidos e mal pagos. Não acha?

Weezer Vermelho

15.09.08 | por Cel | Categorias: Música

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Rivers Cuomo, cantor, guitarrista e cérebro do Weezer completou 38 primaveras no último dia 13 de junho e está, certamente, vivenciando sua crise da meia-idade. Como eu sei? Faço meus 38 anos no dia 10 de julho, ou seja, pouco menos de um mês após o líder da banda californiana.
A crise da meia-idade é algo que não dá pra ser simulado, fingido ou banalizado. É uma sensação autêntica e só perceptível para quem a experimenta e faz colocar em dúvida quase tudo que se aprendeu até o último dia do ano 37 acabar. Ou do ano 39, 40, aliás, essa é outra característica dessa fase estranha, ela não tem uma hora exata para acontecer. Quando percebemos, simplesmente estamos nela e, de certa forma, não queremos sair..

O ser humano que está na meia-idade questiona as coisas exatamente como um adolescente, só que com a (des) vantagem de se achar mais versado em assuntos diversos, o que só torna o sentimento mais difícil de ser digerido e assimilado. Perguntas do quilate de “como eu cheguei até aqui?”, “por que eu não escolhi outra carreira?” ou ainda “quem é essa pessoa no espelho me olhando enquanto eu faço minha barba?”. Sim, não nos reconhecemos mais em muitas das situações que nos definem sutilmente ao longo do dia, das maneiras mais cotidianas e naturais, sem que isso pareça totalmente errado. Parece que necessitamos dessa crise, como se ela fosse nos reafirmar para nós mesmos. Essa conversa mole e fiada é uma maneira de introduzir o verdadeiro objeto desse texto: o novo disco do Weezer.

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Eles são, por definição, um bando de nerds integrando um grupo de rock, mesmo que a figura de Cuomo se destaque da maioria e o coloque como, talvez, o único nerd presente na banda. O novo trabalho deles, homônimo e já apelidado pelos fãs de “Red Album” é mais um daqueles discos coloridos que o conjunto lança a cada sete anos, talvez para mostrar a novas gerações o que eles pensam e são. Ou não, talvez não seja nada disso. O ponto é que os discos homônimos de 1994 (Blue Album) e 2001 (Green Album) serviram para mostrar/lembrar o fã de música pop de alguns preceitos interessantes e que valem muito.

Vejamos o Blue Album, disco de estréia do Weezer. Em 1994, após dois anos de garagem e shows amadores em buracos da cena alternativa de Los Angeles, o Weezer conseguiu seu contrato com a DGC, mesma gravadora que havia lançado Nevermind, o disco do Nirvana que mudou a cara do rock alternativo e sua compreensão. Ao sabor do vento que soprava as velas do tal “pós-grunge”, o quarteto californiano colocou sua cara (e seus óculos) nas telas da MTV através do hit “Say It Ain’t So”. O som era puro “dejá ouvi”, misto de Pixies e Van Halen ou de Nirvana e Kiss, misturando as guitarras pesadinhas com melodias que grudavam na mente como chiclete.

Após o primeiro hit, vieram “Buddy Holly” (e seu clássico clipe), “Holiday”, “Undone (The Sweater Song) e o Weezer ganhou o mundo, via MTV e baseado na necessidade nunca declarada de substituição do Nirvana, algo que foi mais ou menos logrado pelo lançamento de Definitely Maybe, primeiro disco dos ingleses do Oasis.

Corta pra 2001.

O Weezer retornava ao mundo dos vivos após um hiato de seis anos. O segundo disco, Pinkerton, gravado e lançado como um suposto álbum conceitual, não manteve a banda nos píncaros do sucesso. Talvez Cuomo não tenha se sentido à vontade com o peso que o showbiz reservara para ele e, não só fez um disco “difícil” como se retirou para Harvard, famosa universidade americana, na qual ele concluía o curso de Inglês.

O tal Green Album, de 2001, é um retorno à sinceridade nerd e iluminou as mentes de uma nova geração de fãs, imediatamente capturados por canções como “Photograph” ou “Island In The Sun”, que se encharcavam no romantismo confessional sem resvalar para o que foi chamado (erradamente, diga-se) de emo-rock, o tal rock emocional, que gerou uma fornada lamentável de bandas que conquistaram o Olimpo rocker. Se o Weezer não é “emo”, o que ele seria então? A mesma banda de 1994, mais velha, na casa dos trinta anos, devidamente saída da pós-adolescência e mais tarimbada sobre as coisas. A vida americana e seus desdobramentos continuavam alimentando a pena de Cuomo e isso era o que poderia acontecer de melhor.
2008.

O que pensar de um novo disco do Weezer? E o que pensar de um dos tais discos coloridos deles? Entre o álbum verde e o vermelho vieram Maladroit (2002) e Make Believe (2005), mais pesados, mais exagerados, menos intensos, ainda que guardem canções memoráveis como “Haunt You Everyday”, presente no último e que marca a entrada da banda no território das baladas, algo que não é para amadores. Aliás, uma digressão: quando uma banda de rock faz uma balada é porque está sentindo algo. Claro, esta regra não se aplica às formações flácidas e vazias de significado, afinal de contas, grupos de “rock” ganham o mundo e as mentes com (bo)baladas o tempo todo. No caso do Weezer, não. A regra é clara e válida.

Além dos dois discos, Cuomo lançou em 2007 uma compilação de gravações caseiras chamada Alone: The Home Records Of Rivers Cuomo, cheia de preciosidades, entre elas um rascunho sensacional de “Buddy Holly”.

O tal Red Album é, portanto, um disco de um sujeito que está na crise da meia-idade, se questionando sobre tudo e todos, lembrando de seus vinte anos, das ruas, das pessoas, dos colégios, dos filmes, de tudo. O Weezer é composto por sujeitos que poderiam ser os adolescentes nerds dos anos 80, aqueles que se davam bem no final das comédias Namorada de Aluguel, Gatinhas e Gatões, A Garota de Rosa Shocking, Admiradora Secreta, entre outras. Por isso é tão sincera essa nostalgia “jovem” que Rivers Cuomo experimenta no novo trabalho.

Há uma canção em especial que entrega o ouro para o ouvinte. Em “Heart Songs” eles enumeram canções e artistas queridos, citados nominalmente ou por suas canções (ou ambos) e traçam uma linha cronológica que abarca infância, adolescência e a época que assinaram seu contrato. Poucas vezes algo tão sincero foi escrito no rock, algo que faz os contemporâneos de Cuomo sentirem uma pontada doída no coração, que desencadeia um flashback incessante de imagens que compreendem formaturas, namoradas, ex-namoradas, pessoas, cheiros, séries de televisão, tempos que nos parecem indubitavelmente melhores.

O trecho que marca a audição de Nevermind é digno de figurar entre os momentos de ouro do rock’n’roll de todos os tempos, tamanha a sinceridade e a necessidade de se lembrar, sim, do que ouvimos, daquelas canções que nos definem, que nos identificam perante uma multidão de ouvintes de segunda mão. Veja:

“Back in 1991
I wasn't havin' any fun
'Till my roommate said
"Come on and put
A brand new record on"
Had a baby on it
He was naked on it
Then I heard the chords
That broke the chains
I had upon me
Got together with my bros
In some rehearsal studios
Then we played
Our first rock show
And watched the fan base
Start to grow
Signed the deal that gave
The dough to make
A record of our own
The song come
On the radio
Now people go
This is the song”

Sem cinismo, sem falsa idade, sem qualquer rodeio. Talvez haja um paralelo involuntário entre “Heart Songs” e uma faixa do primeiro disco da banda, “In The Garage”. Na letra desta, Cuomo tece uma declaração de amor ao lugar em que ele se sente seguro, onde há posters do Kiss, bonecos dos X-Men e isolamento acústico para tocar sua guitarra com os amigos, aqueles com quem compõe suas “silly rock songs”. Agora Rivers revisita a tal “bolsa marsupial” que possuímos, aquela que traz nossas bulas de remédio e que podem (e devem) ser sempre consultadas.

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O “Red Album” é sensacional. Parecidíssimo com os outros discos da banda, mas com essenciais avisos de que algo mudou. Há uma cover de “The Weight”, o maior sucesso da Band, do disco Music From The Big Pink (1968), que mostra uma nova influência no cânon da banda. Também há músicas maiores, na melhor tradição das canções maiores gravadas pelo Weezer, “The Greatest Man That Ever Lived”, “The Angel And The One” e aquelas outras músicas que são “landmarks” da sonoridade da banda, como “Troublemaker”, capaz de identificar o Weezer imediatamente.

Nenhum momento do disco, entretanto, é mais delicioso que “Heart Songs”. Ouça cantando a letra e tente escrever a sua própria versão de canções e tente substituir o momento “Nevermind” por algo tão marcante em sua vida. Torço para que você encontre facilmente ou, quem sabe, descubra que a banda tem mais esse traço em comum com você. Boa sorte.

Larger Than Life

15.09.08 | por Cel | Categorias: Egotrip, Música

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Gosto muito da expressão que dá título a este post.

Quando ela é usada em inglês, assumindo a forma de “larger than life”, fica ainda mais bonita, sem qualquer estrangeirismo barato. Algumas frases e palavras no idioma de Shakespeare são mais apropriadas, assim como outras o são no idioma de Camões. As línguas, sendo assim, se equivalem e se complementam. Bem, o assunto não é a diferença entre português e inglês, mas o uso do termo “larger than life” para definir uma canção em especial.

Quando falamos em algo maior que a vida, estamos automaticamente encapsulando nossa própria existência – e talvez a própria existência per se – e admitindo que há coisas maiores que a nossa passagem por esse plano. Não quero me prender a qualquer perspectiva terrena ou transcendental sobre a vida, mas, certamente, ela é menor que muitas “coisas”. E admito que manifestações artísticas podem e devem ser maiores e mais longevas que a nossa existência, justamente para que possam perdurar ao longo do Tempo, até que surja algo do mesmo tamanho e/ou importância.

Em 1993, mais precisamente depois que entrei para a faculdade de Jornalismo, conheci um grupo adorável de pessoas que me acompanhou ao longo dos quatro anos do curso e que não tive a habilidade para conservar ao meu lado, mesmo depois de a vida mudar as direções das nossas respectivas retas. Após a entrada na Uerj, passado o período dos trotes, conheci a última pessoa que mereceu o posto de “meu melhor amigo”. Leonardo Nascimento Salomão era um sujeito tímido, acuado num canto da sala de aula até que alguém o chamou para uma rodinha de conversa, daquelas em que a gente diz de que colégio veio, o que fez antes dali etc.

uerj

Eu vinha de oito períodos de Direito, cursados em outra universidade, ciente da perda de três anos em relação aos meus colegas de turma. E o Léo veio até a rodinha, balbuciou umas poucas palavras. Naquele dia mesmo – ou no dia seguinte, não lembro – percebemos um grande interesse em comum: a música e a vontade de escrever sobre ela. Líamos a mesma revista Bizz/Showbizz, compartilhávamos do interesse em muitos artistas e começamos a escrever resenhas sobre os discos que comprávamos e as bandas que nos eram queridas. Ao longo do primeiro ano de Uerj se estabeleceu um ritual informal que consistia em uma sessão musical na casa do Léo, no Grajaú (bairro da Zona Norte do Rio). Alugávamos discos (sim, existia locadora de CD no inicio dos anos 90) e “aprendíamos” sobre eles na casa do Léo, ou não, quando o aprendizado era deixado em segundo plano, diante da tentação de uma partida de sueca.

Dessa época da minha vida eu lembro muito bem. Lembro de duas fitas K7 que o Léo me gravara com duas bandas que ele havia conhecido em sua recente passagem por São Paulo, cidade na qual morava antes de vir para o Rio. Uma fita trazia uma coletânea de uma banda chamada Violent Femmes. A outra era uma compilação do Waterboys. As duas formações, uma americana, outra escocesa, eram dos anos 80 e pertencem aquele grupo de bandas que nunca ficam totalmente famosas mas que são capazes de marcar época e se aninhar confortavelmente em nossa mente. É dos Waterboys que quero falar.

A banda escocesa, liderada pelo cantor/compositor Mike Scott surgiu no inicio dos anos 80 e lançou seu primeiro e homônimo trabalho em 1981. Dois anos depois veio A Pagan Place, seu segundo disco. Talvez por coincidência, o trabalho que projetou os Waterboys para além do Reino Unido foi o que conheci na fita K7 do Léo, This Is The Sea, de 1985. Quando esse disco foi gravado eu tinha 15 anos e só o estava conhecendo com 22. A música tem a capacidade de subverter a ordem cronológica das coisas e eu me vi adolescente de novo, ao me espantar com a riqueza melódica e a semelhança que as canções com os trabalhos de gente que eu começava a amar, principalmente Van Morrison e Bob Dylan. “The Whole Of The Moon”, o grande hit do disco me conquistou imediatamente, mas a canção-título é que ficou no meu bolso permanente, aquela bolsa marsupial de pequenas situações e coisas que nos definem e acompanham ao longo da existência.

waterboys

Hoje, 23 anos depois do lançamento do disco e quinze depois da primeira vez em meus ouvidos, cruzei novamente com “This Is The Sea”, a música. É uma canção de redenção, de coisas no lugar. É um desses momentos em que somos capazes de olhar para nós mesmos e perceber o que fizemos, o que faremos e o que podemos fazer para acertar nos alvos que passam voando pela nossa frente. É um conselho, é um abraço de amigo, é uma viagem ao centro da nossa Terra. A voz de Mike Scott percorre a letra – nem tão grande – como quem percorre o caminho entre o quarto de sua infância e a sala da sua maturidade. Entre brinquedos, revistas, discos, choro, roupas, retratos deixados no caminho, vem a luz, como aquela calçada no clipe de “Billie Jean”, de Michael Jackson, que mostra o caminho que ele escolheu enquanto dançava. “This Is The Sea” é o barbante que amarramos no inicio do labirinto para que não esqueçamos de onde viemos e quem somos. A melhor figura da música é a analogia com o verso “that was the river, this is the sea”, no qual passado e presente são colocados frente a frente, um menor que o outro, um conectado ao outro, um alimentando o outro, indivisíveis e imprescindíveis.

“This Is The Sea” é uma canção maior que a vida. É solene, é apoteótica, vai tomando o controle aos poucos e quando você se dá conta, a canção e tudo que você pensa são quase a mesma coisa. “Larger than life”, eu diria.

PS: post dedicado a Leonardo Nascimento Salomão, meu ainda amigo, padrinho de casamento e presença constante em “This Is The Sea”.

THIS IS THE SEA

(Mike Scott) 1985

These things you keep
You'd better throw them away
You wanna turn your back
On your soulless days
Once you were tethered
And now you are free
Once you were tethered
Well now you are free

That was the river
This is the sea!

Now if you're feelin' weary
If you've been alone too long
Maybe you've been suffering from
A few too many
Plans that have gone wrong
And you're trying to remember
How fine your life used to be
Running around banging your drum
Like it's 1973

Well that was the river
This is the sea!

Now you say you've got trouble
You say you've got pain
You say've got nothing left to believe in
Nothing to hold on to
Nothing to trust
Nothing but chains
You're scouring your conscience
Raking through your memories
Scouring your conscience
Raking through your memories

But that was the river
This is the sea yeah!

Now i can see you wavering
As you try to decide
You've got a war in your head
And it's tearing you up inside
You're trying to make sense
Of something that you just can't see
Trying to make sense now
And you know you once held the key

But that was the river
And this is the sea!

Now i hear there's a train
It's coming on down the line
It's yours if you hurry
You've got still enough time
And you don't need no ticket
And you don't pay no fee
No you don't need no ticket
You don't pay no fee

Because that was the river
And this is the sea!

Behold the sea!



Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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