Os 63 Melhores Discos Internacionais (1999-2009)

15.11.09 | por Cel | Categorias: Música

63

Demorou, mas saiu. Ao concluir essa lista de melhores discos internacionais desta década, pude perceber que a quantidade de trabalhos interessantes e que mereciam estar entre os álbuns abaixo era bem grande. Surpreendente, principalmente para um crítico ferrenho dos rumos que a música pop tomou nos anos 00.

Uma olhada mais atenta à lista traduzirá uma decepção grande com as bandas de "rock" formadas e catapultadas ao sucesso nesses dez anos. O rockinho decalcado de anos 80 dos Strokes, a suposta revisitação punk-blues do White Stripes, o cabecismo inatacável do Radiohead, tudo isso passou longe dos escolhidos. Além disso, procurei colocar nomes que você não verá em nenhuma outra lista de melhores discos da década, ainda que a presença deles aqui seja justíssima.

Dessa vez não atribuirei valor nenhum aos discos. Ao contrário das categorizações da lista de melhores nacionais da década, aqui só teremos os trabalhos, ordenados pelo ano de lançamento, começando em 1999 e chegando a 2009.

Os comentários sobre os escolhidos também estão menores principalmente para agilizar a leitura dos discos, concentrando o espaço para discussões, reclamações, tapas e beijos nos comentários. Sintam-se à vontade!

vinil

Fountains of Wayne - Utopia Parkway (1999)

Segundo disco da banda de New Jersey, sob o comando de Adam Schlesinger. Canções sobre amores,carros, desilusões, shows de rock e tudo mais que nos interessa e diz respeito. A sonoridade traz o melhor que o powerpop é capaz de produzir. Uma beleza.

Ben Folds Five - The Autobiography of Reinhold Messner (1999)

Terceiro e último disco de Ben Folds à frente de seu "five", na verdade, o baixista Robert Sledge e o baterista Darren Jessee. É também o trabalho mais arrojado do trio, trazendo as maravilhosas canções "piano driven" de Folds ousando em território experimental. Depois ele embarcaria numa carreira solo simpática, mas nunca capaz de alcançar seus melhores momentos com sua banda.

Avalanches - Since I Left You (2000)

Composto em sua totalidade por samplers e colagens, esse primeiro disco dos australianos do Avalanches parece executado por seres humanos. Da abertura que emula cocktails numa piscina da Ilha da Fantasia (com a faixa-título) até o final da viagem, esse disco é um passeio numa Disneyworld sonora para quem cresceu nos anos 70 e 80. Maravilhoso.

avalanches

Phoenix - United (2000)

O primeiro trabalho dos franceses do Phoenix não é o seu melhor (condição que cabe mais apropriadamente ao último disco deles, Wolfgang Amadeus Phoenix, desse ano, também incluído na lista), mas traz uma banda na determinada missão de soar como uma formação setentista. Para gauleses supostamente sem tarimba nos mistérios do soft rock e do powerpop, o Phoenix cravou nesse disco uma das melhores canções da década, com "Too Young".

Lambchop - Nixon (2000)

Uma dúzia de músicos no palco, tocando canções sombrias que misturam a languidês do soul setentista com acepipes country obscuros. Assim é o Lambchop, cujo líder, Kurt Wagner, detém um dos registros mais graves do rock. Músicas como "You Masculine You" ou "Grumpus" comprovam a excelência dessa estranha banda de Nashville.

A-Ha - Minor Earth, Major Sky (2000)

Depois de sete anos sem lançar um disco, os noruegueses do A-Ha vieram repaginados e mantendo a competência dos anos 80. Minor Earth, Major Sky é um discaço, com a voz perfeita de Morten Harket ainda mantendo a mesma versatilidade de 1984 e composições belíssimas, com destaque para a épica "Summer Moved On". O segundo melhor disco do trio, perdendo apenas para Scoundrel Days, de 1986.

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Coldplay - Parachutes (2000)

O primeiro disco da banda de Chris Martin traz uma das melhores sequências da década, começando com "Don't Panic" e chegando à sexta música, "Trouble". Melancolia, arranjos soturnos, pianos que pegam uma estrada alternativa da highway cabeçona do Radiohead e uma garra de banda iniciante credenciam Parachutes para a lista. Ninguém poderia supor que Martin se tornaria uma das maiores malas do showbiz.

Sea and Cake - Oui (2000)

Sam Prekop sempre foi o cérebro do Sea and Cake e esse quinto disco da banda de Chicago trazia um forte acento eletrônico, no sentido Stereolab do termo, principalmente pelo fato do baterista John McEntire ter produzido dois álbuns da banda anglo-francesa. De qualquer forma, ainda que diferente dos trabalhos anterioes, Oui traz belas canções, principalmente as duas que abrem o disco, "Afternoon Speaker" e "All The Photos", que produzem efeitos ainda melhores se ouvidas interligadas.

U2 - All That You Can't Leave Behind (2000)

Este é o último grande disco do U2 e significa um retorno à sonoridade mais simples que a banda praticava no final dos anos 80. Não que este seja um trabalho revisionista, mas o produtor Brian Eno soube recolocar o U2 nos trilhos após a empreitada camp de Pop, disco de 1997 da banda. Composições belas como "Beautiful Day" e "Elevation" também se inserem entre as melhores já produzidas pela lavra de Bono, Edge, Adam Clayton e Larry Jr.

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Modest Mouse - Moon and Antarctica (2000)

O quarto disco da banda de Isaack Brock é, ao mesmo tempo, sua estreia numa grande gravadora e seu melhor trabalho. O Modest Mouse conseguia nesse disco dar foco à sonoridade indie-progressiva que perpetrava desde o início da carreira em 1993. Além disso, canções mais curtas e falando de morte ou medo, como "Tiny Cities Made Of Ashes" ou "The Stars Are Projectors" são belos exemplos de como muita gente querida nos meios independentes nunca deixou de ouvir rock progressivo.

Wilco - Yankee Hotel Foxtrot (2001)

O grande trabalho do Wilco, a grande mutação da banda de pop/alternative country num combo guitarreiro obscuro. Mesmo que YHF não tivesse uma mitologia própria, principalmente pela persistência da banda em lançá-lo contra a vontade da gravadora, Jeff Tweedy e seus asseclas mostram-se insuperáveis. A beleza triste e empoeirada de canções como "Ashes Of American Flags" ou "I Am Trying To Break Your Heart" constrastam com a ingenuidade de "Heavy Metal Drummer", num disco praticamente perfeito.

Bob Dylan - Love and Theft (2001)

O bardo dando provas de vida. Dylan manteve nesse disco a classe e a competência de Time Out Of Mind, seu trabalho anterior e reafirmou o belo entrosamento com o produtor Daniel Lanois. Com a rouquidão de um velho lobo misterioso, Dylan assume sua porção blues em momentos iluminados como "Mississippi", "Summer Days" e "Tweedle Dee, Tweedle Dum" e abre caminho para uma discreta reinvenção estética em seu trabalho.

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My Morning Jacket - At Dawn (2001)

O segundo disco desses moleques do Kentucky, comandados pelo maluquete Jim Jones é o mais próximo que outro artista conseguiria chegar da persona folk de Neil Young. Não bastasse o timbre vocal de Jones ser praticamente idêntico, canções como "Lowdown" também mostram que a banda é capaz de forjar uma sonoridade própria, livrando-se do rótulo de mero copydesk. A sensação de que estamos ouvindo um disco de 1973/74, no entanto, é irresistível.

Weezer - Green Album (2001)

A banda de Rivers Cuomo retornava de um hiato de cinco anos, no qual boatos davam conta de seu fim, agravado pelo fato de Cuomo ter, inclusive, retornado à universidade. O fato é que o Green Album, terceiro disco do Weezer, trazia toda a fórmula vencedora da estreia, em 1994, ou seja: produção de Ric Okasec (dos Cars), canções nerds sobre o amor numa América na qual os valentões sempre vencem, duas
colheres de riffs do Van Halen, romantismo cinquentista de gosto duvidoso, uma armação de óculos do Devo e duas porções de new wave de boa procedência. O resultado está em canções como "Island In The Sun" ou "O Girlfriend".

Ryan Adams - Gold (2001)

Nessa época, Ryan Adams era apenas o ex-líder do Whiskeytown, tentando mantes o nível de Heartbreaker, sua aguardada estreia como artista solo. Gold ainda é seu melhor disco, aquele que trouxe um equilíbrio pop entre as canções do passado alt-country de Adams, mas que também mostrou a capacidade do moço como bom compositor de canções como "The Rescue Blues" ou "La Cienega Just Smiled".

ryan adams

Death Cab For Cutie - Photo Album (2001)

O DCFC é uma banda de Seattle mas nada tem em comum com as formações grunges que vieram de lá. Sob a batuta de Ben Gibbard e Chris Walla, este terceiro disco traz canções de rara beleza como "Movie Script Ending", "We Laugh Indoors" e a inspiradíssima "Blacking Out Of Friction", todas aliando lirismo e um instrumental que traz muito de grupos diferentes como Weezer e Big Star.

Daft Punk - Discovery (2001)

O segundo disco da dupla francesa mostra um outro lado da moeda revisionista, jogada ao alto na estreia do Daft Punk, Homework. Se nesse disco eles buscam a redenção da dance music eletrônica por meio de teclados amadores num estúdio nos fundos da casa, em Discovery eles ampliam essa busca para os grandes ambientes, as grandes pistas de dança. Ainda conseguiram revestir o disco com uma aura
setentista que faria inveja a baluartes daquele tempo como a Electric Light Orchestra, que também poderia ser autora da multiplatinada "One More Time".

Paul Westerberg - Stereo (2002)

O ex-líder dos Replacements só acertou a mão em sua carreira solo neste quarto disco. Dava a impressão que Westerberg seria um popstar dos anos 90 a julgar por sua participação na trilha do filme Singles - Vida de Solteiro e seu primeiro disco, 14 Songs. Previsão errada, Paul só encontrou seu passo nesse Stereo, um mix de riffs dos Stones, com folk de Neil Young e composições belas como "High Times" e "Eyes Like Sparks".

paul westerberg

Flaming Lips - Yoshimi Battles The Pink Robots (2002)

Quase uma ópera psicodélica moderna, esse disco da banda do maluquete Wayne Coyne alcança uma sonoridade que nem eles conseguiram igualar nos trabalhos seguintes. Misturando ecos de Pink Floyd com ideário de séries japonesas de quinta categoria, há lugar em Yoshimi para tudo, até para um plágio descarado de "Father And Son" (de Cat Stevens) em "Fight Test", o grande hit do disco. Ainda assim, um álbum sensacional.

Bill Ricchini - Ordinary Life (2002)

Um pós-adolescente entra no porão de sua casa na Filadélfia e, sob a influência de Nick Drake e Eliott Smith, resolve gravar um disco. Essa é a bula para o entendimento inicial desse Ordinary Life, um trabalho triste, melancólico e, acima de tudo, belo. Ricchinni toca todos os instrumentos, entre eles xilofone e trumpete, e consegue passar uma noção que está secundado por uma banda. Destaque para "Like an X-Ray", "Julie Christie" e a melhor do disco, "Rain Parade".

Supergrass - Life on Other Planets (2002)

O quarto disco do Supergrass foi seu último álbum realmente criativo. E também o mais interessante, ainda mais que sua estreia ou o homônimo disco de 1999. Em LOOP, o Supergrass honra sua herança mod e atinge o status de "primeira divisão" do rock inglês, além de desvincular-se do decadente britpop - um movimento que ele apenas tangenciou. Com músicas enguitarradas e a voz de Gaz Coombes em bela forma, músicas como "Grace" e "Seen The Light" são os destaques por aqui.

supergrass

Bruce Springsteen - The Rising (2002)

O Boss reencontrou a boa verve de sempre neste disco deliberadamente simples. Não que isso desmereça The Rising, pelo contrário. Aqui Bruce fala do 11 de setembro e critica o governo Bush ("Lonesome Day", "My City Of Ruins"), mas também retoma sua veia pop mais desencanada ao homenagear Smokey Robinson em "Waiting On A Sunny Day", uma pequena gema encravada nesse belo feixe de músicas sinceras e pungentes.

Queens of the Stone Age - Song for the Deaf (2002)

Não que o QOTSA seja uma banda superestimada ou que Josh Homme, o sujeito que inventou o stoner rock com seu Kyuss nos anos 90 seja por demais endeusado. O fato é que esse disco do Queens traz uma solução para a ausência de rock "pesado" e com pegada razoavelmente pop, igualmente pervertido e "de macho", que o stoner nunca conseguiu solucionar, muito menos outros gêneros como o grunge, por exemplo. Aqui, com a ajuda de Dave Grohl e Mark Lanegan em canções bem feitas como "No One Knows", o QOTSA mostra ao que veio.

Solomon Burke - Don't Give up on Me (2002)

Muita gente pensa que sabe o que é soul. E este homem, amigos, é um de seus baluartes. Relegado a um injustíssimo segundo plano nos anos 80 e 90, Burke foi citado por Nick Hornby em Alta Fidelidade e, talvez por coincidência, pouco após a adoção do livro como um bíblia para machos sensíveis dos anos 00, King Solomon voltou a gravar material relevante. Aqui ele recebe composições de Van Morrison, Elvis Costello, Brian Wilson e Bob Dylan, além de contar com Daniel Lanois na guitarra e Joe Henry na produção. Resultado: imperdível.

solomon burke

Pernice Brothers - Yours, Mine and Ours (2002)

Os Pernice Brothers ainda são um segredo para muita gente. Joe Pernice tem uma voz que poderia figurar entre as melhores do pop/rock contemporâneo, além de ser um excelente compositor. Nesse disco ele aparece com sua banda rezando na cartilha do powerpop perfeito setentista, seja ele de Elvis Costello ou do Badfinger, trazendo
gemas como "Weakest Shade Of Blue" ou a comovente "Baby In Two", uma perplexa canção sobre separação, cheia de humor negro. Mestres.

Camera Obscura - Biggest Bluest Hi-Fi (2002)

Esse grupo escocês, assim como seus amigos do Belle And Sebastian, procura revisitar o pop alegrinho dos anos 60 e 70. O Camera Obscura, no entanto, é muito mais consistente e tem ambições maiores quando lança discos. Os vocais de Tracyanne Campbell parecem com os de Tracey Thorn quando apareceu para o mundo a bordo do Everything But The Girl, lá nos anos 80. Neste disco, produzido por Stuart Murdoch (do Belle And Sebastian), o Camera Obscura oferece um feixe de dez
belezinhas agridoces das quais "Eighties Fan" e a linda "I Don't Do Crowds" são imbatíveis.

Los Lobos - Good Morning Aztlan (2002)

Os velhos lobos do leste de Los Angeles não são mexicanos, gente. Eles são, sim, inspirados pela irresistível mistura de texmex, rock, soul e r&b dos anos dourados da música americana. Mesmo que o mundo pense que eles são os autores de "La Bamba", os lobos são uma bandaça. Nesse disco, cujo título quer dizer "bom dia, México", há espaço para verdadeiros colossos mestiços como "Maria Cristina", "Done Gone Blue", "Luz de Mi Vida" e a soberba "Tony and Maria".

los lobos

Raphael Saadiq - Instant Vintage (2002)

Este é um dos principais responsáveis pela manutenção do soul nos dias de hoje, preservando-o da invasão do hip-hop cafetão e de "divas" como Beyoncé. Saadiq compõe como se estivesse em Detroit, 1966, sem, no entanto, deixar de lado tudo de bom que a evolução do groove negro pode trazer desde o chamado new jack swing do início dos anos 90 e mesmo do smooth soul oitentista. Como o nome já diz, Saadiq
não só absorve esses elementos, como também procura criar canções e arranjos à moda antiga.

Howie Day - Australia (2002)

A estréia de Howie Day é um belo exemplo de como é possível ser um
"singer/songwriter" nos Estados Unidos sem apelar para o modelito criado por Dave Matthews. A praia de Howie está no flerte com bandas inglesas, principalmente com a fase mais convencional do Radiohead e gente como Jeff Buckley ou Richard Ashcroft. Australia é um disco belíssimo, cheio de canções esmeradas, nas quais a guitarra criativa e os vocais derramados de Howie se fazem presentes. Ouça "So Sorry", "Ghost" ou "She Says" e comprove.

Beck - Sea Change (2002)

Beck precisou levar um fora da namorada e entrar em depressão para criar um disco realmente belo, no sentido lírico do termo. Em Sea Change ele se volta para o folk contemplativo de gente como Nick Drake e não procura inserir nenhuma mistureba musical ou sampler esperto para dar vida ao disco. Sea Change é um disco de fossa, sem qualquer alegria, feito com paixão e sem qualquer apelo comercial. E
muito bonito.

sea chance

Jayhawks - Rainy Day Music (2003)

Esse foi o último disco lançado pelos talentosos Jayhawks, mantendo a aura alt-country de grandes trabalhos nos anos 90, principalmente Hollywood Town Hall (1992) e Tomorrow The Green Grass (1995). Mas, muito mais presente aqui é a capacidade de criar melodias pop a cargo de Gary Louris, principalmente em "Save It For A Rainy Day" e "Tailspin", remetendo a nomes como Buffalo Springfield, Byrds e CSNY.

Josh Ritter - Hello Starling (2003)

A voz parece de um jovem Bob Dylan e a roupagem folk eletrificada podem enganar os mais incautos e fazê-los pensar que estão ouvindo algo do início dos anos 70. Josh Ritter é um bom compositor e cantor, capaz de escrever belezuras como "Kathleen", na qual ele diz que "All the other girls here are stars but you're the Northern Lights" ou "if you like to come along, I'll be yours for a song". Há outras belas
canções como "Man Burning" ou "Rainslicker", todas impregnadas de lirismo.

Paddy McAloon - I Trawl the Megahertz (2003)

Disco solo do líder do Prefab Sprout, composto e concebido quando Paddy enfrentava uma cegueira parcial, que ele não sabia se seria permanente. A idéia foi passar a sensação de apenas ouvir vozes no rádio, sons meio desconexos e misturá-los com reminiscências sonoras da memória. O produto é belíssimo, quase parecido com melodias de Cole Porter (compositor com quem Paddy era comparado nos primeiros
anos do Prefab) ou Gershwin. Disco atemporal e atípico, dono de beleza idem.

paddy mcaloon

Shins - Chutes Too Narrow (2003)

O Shins foi meio desprezado pela imprensa fútil por não compactuar com a estética-Strokes de rock. Pelo contrário, a banda de James Mercer volta suas baterias para o folk psicodélico setentistas, quase como se fosse um Grateful Dead adolescente ou mesmo um Eagles turbinado e inconsequente. Canções exuberantes como "Kissing The Lipless", "So Says I" ou "Pink Bullets" comprovam o talento dos rapazes.

Josh Rouse - Under the Cold Blue Stars (2003)

O terceiro disco de Josh Rouse é quase conceitual sobre as relações entre homem e mulher e foi composto inspirado nos pais dele. Assim como nos anteriores Dressed Up Like Nebraska (1998) e Home (2000), Josh mostra um talento como arranjador e compositor, muito parecido com gente como Paddy McAloon nos anos 80. O approach de Rouse é acústico, com eletricidade na medida certa, ainda retendo um certo acento country - algo que ele perderia a partir do quarto trabalho, o subsequente 1972. Aqui os destaques vão para a faixa-título, "Miracle" e "Men And Women". Soberbo.

Belle and Sebastian - Dear Catastrophe Waitress (2003)

Esse disco marcou o reencontro do B&S com sua verve de pop/rock fofinho e articulado com o indie britânico obscuro dos anos 80. Talvez pela produção de Trevor Horn, talvez por composições legais como "If You Find Yourself Caught In Love", "Piazza, New York Catcher" ou "Step Into My Office Baby", além de uma insuspeita referência ao Thin Lizzy em "I'm a Cuckoo". Um disco legal de uma banda que mostrou-se com mais fôlego do que se supunha.

belle and sebastian

Grant Lee Phillips - Virginia Creeper (2004)

Neste disco o ex-dono e mentor do Grant Lee Buffalo conseguiu atingir o ápice. Com um instrumental predominantemente acústico para emoldurar sua abençoada voz, Phillips compôs canções como "Monalisa", "Calamity Jane" ou a sublime "Always Friends" e reafirmou sua condição como grande nome do rock americano seja nos anos 90 ou nos 00. Virginia Creeper é um disco que poderia ser irmão gêmeo de Automatic For The People, do REM. Uma beleza.

Sondre Lerche - Two Way Monologue (2004)

Esse jovem cantor e compositor norueguês é, talvez, a maior revelação dessa década 00. A sensibilidade melódica de Lerche abarca influências que vão de Elvis Costello, Nick Drake, Paul McCartney, passando por Beach Boys no meio do caminho. Este é seu segundo disco, cheio de canções belas, com participações de bambas como o irlandês louco Sean O'Hagen (dos High Llamas) nor arranjos de cordas. Destaque para as magníficas "On The Tower" e "It's Too Late".

Elliott Smith - From a Basement on the Hill (2004)

Esse disco foi lançado quase um ano após a morte de Elliott. Ele marca uma tentativa do cantor e compositor de seguir independente, após dois discos lançados pela Dreamworks. O que se ouve aqui é uma obra inquietante, dolorida, mas cheia de doçura melódica decalcada do melhor de Beatles, Big Star e Beach Boys. Um disco que honra os melhores momentos de Elliott nos anos 90.

elliott smith

Josh Rouse - Nashville (2004)

O quinto disco de Rouse é também o seu melhor trabalho até hoje. Misture a melancolia de um casamento em ruínas com reflexões sobre possibilidades e lembranças dos bons tempos e você tem Nashville. Ao contrário do que o título possa insinuar, não estamos diante de um disco country, mas de pop perfeito, com espaço para composições superiores como "Winter In The Hamptons" (com a assombração dos Smiths) e a dilacerante "Streetlights", cheia de violinos celestiais.

Rilo Kiley - More Adventurous (2004)

A banda da gracinha Jenny Lewis tem neste disco o seu melhor trabalho. Partindo de uma mistura eficiente de pop, rock e revisitações ao cânon do Fleetwood Mac, o Rilo Kiley propõe desde canções para dançar juntinho ("I Never", com vocais impressionantes de Jenny e um belíssimo trabalho guitarrístico de Blake Sennett) a
rockinhos como "It's a Hit" ou a faixa-título, com um pé no country. Light mas eficiente.

LCD Soundsystem - LCD Soundsystem (2005)

Quem não se impressionou com a insistente e sensacional "Daft Punk Is Playing In My House"? Você nem precisa ser um adepto das pistas de dança para reconhecer a impossibilidade em mexer alguma parte do corpo ao ouvir a faixa de abertura do primeiro disco do LCD Soundsystem. James Murphy, o cérebro por trás do nome, é um sujeito que venera o pós-punk inglês de bandas como PIL ou A Certain Ratio e
mistura essa influência com a dance music dos anos 80/90. Resultado, bem, você já sabe.

lcd soundsystem

Paul McCartney - Chaos and Creation in the Backyard (2005)

A associação de Macca com o produtor Nigel Godrich (Radiohead) não serviu para modernizar a música do ex-Beatle como se supunha na época, mas para dar a McCartney a oportunidade de empacotar suas canções de forma distinta. Vejamos o exemplo de "It Never Happened Before", típica balada beatle, envolta por pianos e arranjos de cordas como há muito o cânon de Macca não apresentava. Além disso,
números mais rapidinhos como "Jenny Wren" confirmam o Chaos and Creation in the Backyard como o melhor trabalho do ex-Beatle nessa década.

Paul Weller - As is Now (2005)

O Modfather atingiu um nível em sua carreira que só um desastre o impede de fazer bons discos. Esse As Is Now é um retorno às suas raízes musicais, bem como uma visita ao blues rock inglês de gente como Traffic e Humble Pie. Além disso, Weller ainda traz em sua banda regular monstros como o guitarrista Steve Cradock e o baixista Damon Minghella (ambos do Ocean Colour Scene) e imprime uma pegada que
pode lembrar os tempos dourados do The Jam. Destaque para a beleza do arranjo de "From The Floor Boards Up".

Richard Hawley - Coles Corner (2005)

Esse veterano guitarrista low profile de Sheffield, amigo e colaborador de Jarvis Cocker (Pulp) poderia ser chamado de "último romântico" do rock inglês. Hawley, no entanto, se limita a fazer grandes discos, totalmente calcados na estética Scott Walker de pop, ou seja: vocais graves, instrumental rico e belo e músicas que
falam de corações partidos, injustiças sentimentais e toda sorte de desventura amorosa. Nesse disco, quase temático sobre sua cidade natal, Richard atinge seu momento dourado.

richard hawley

Ry Cooder - Chavez Ravine (2005)

O homem responsável por discos como Buena Vista Social Club e Mambo Sinuendo - apenas para mencionar seus trabalhos nos últimos dez anos, iniciou aqui uma trilogia de discos sobre o imaginário da California dos anos 50/60. O caminho, no entanto, nada tem a ver com as praias dos Beach Boys, mas com o cotidiano dos descendentes de mexicanos que habitavam os bairros pobres, entre eles Chavez Ravine, cuja comunidade foi removida para a construção de um estádio de baseball.
Todas as lembranças da infância e adolescência de Cooder, um habitante da região, vem à tona em múltiplas formas, num painel belo e sentimental.

Depeche Mode - Playing the Angel (2005)

Desde Violator (1990) o Depeche Mode lança discos relevantes e renovadores, ainda que dentro do mesmo padrão dark estabelecido ali. Com Playing the Angel, essa estética mantém-se melhor do que nos trabalhos anteriores e se sustenta com muito mais facilidade. O clima é pesado, triste, apocalíptico e você, ainda assim, não quer escapar das paisagens sonoras descritas em músicas como "John The Revelator",
"Precious" ou "Lilian", todas dignas da carreira dos então 24 anos de carreira do Depeche Mode.

Neil Young - Prairie Wind (2005)

O melhor disco de Neil Young na década é pertencente ao escaninho de obras feitas por sua persona folk, a mesma que assume o controle em Comes A Time, Harvest ou Harvest Moon. Sendo assim, o clima é calmo, contemplativo e capaz de remeter o ouvinte a algum ponto dos anos 60 ou 70, ao ouvir os ecos de Buffalo Springfield aqui e acolá através do álbum. Tranquilo e simples.

neil young

Al Green - Everything's OK (2005)

O reverendo Al Green empreendia aqui o segundo capítulo de sua volta aos discos chamados "seculares" (iniciada com I Can't Stop, de 2003), livres da temática gospel que marcara sua produção nos anos 80 e 90. A sonoridade obtida aqui é praticamente a mesma que cravou o nome de Green no panteão da soul music, digna dos melhores momentos dos estúdios da Stax em Memphis, fato explicado pela presença de Willie Mitchell na produção. Canções como "Be My Baby", "I Wanna Hold You" e a faixa-título fazem todos os aspirantes a soulmen comerem poeira.

Mars Volta - Frances the Mute (2005)

O segundo trabalho do Mars Volta consegue, ainda que com certa dificuldade, sintetizar o leque de influências que a banda possui. Entre rock progressivo, funk, metal, latinidades e outros tantos gêneros, o Mars Volta tornou-se sinônimo de genialidade entre a crítica especializada, que nunca ouviu um disco do King Crimson em toda a sua existência e conjura o rock como uma cria do disco preto do Metallica. Dito isso, em France the Mute, Omar Rodriguez-Lopes e Cedric Bixler-Zavala mostram boa forma ainda que as presenças de John Frusciante e Flea tornem tudo meio parecido com um disco do Red Hot Chili Peppers vetado por alucinação coletiva.

Oasis - Don't Believe the Truth (2006)

A banda de Manchester renasceu com este disco. Em baixa desde o incompreendido Be Here Now, lançado em 1998, o Oasis esboçava um retorno ao seu nicho mais simplificado de canções, ou seja, aquelas bem parecidas com os mixes de Beatles, Stones e Who que fizeram sua fama no meio da década de 1990. Exemplos não faltam, principalmente os hits "Lyla" e "The Importance Of Being Idle", que deram fôlego a uma carreira que vinha cambaleante e que encerrou-se (até segunda ordem) neste ano.

oasis

Yusuf Islam - An Other Cup (2006)

O "artista conhecido anteriormente como Cat Stevens" fazia com este disco a sua primeira aparição na seara da música pop desde Back On Earth, de 1978. Nesses 28 anos, Yusuf deixou a música em segundo plano e dedicou-se a uma vida sabática, sob a religião muçulmana. Seu retorno foi saudado em todo o mundo, principalmente porque sua verve e sua voz mantiveram-se intactas. As composições folk com letras
surreais ou falando de esperança e amor também voltaram e, de quebra, ao lado de hits medianos como "Midday", Yusuf/Cat ainda mandou uma simpática cover de "Don't Let Me Be Misunderstood", famosa com os Animals nos anos 60.

Pipettes - We Are the Pipettes (2006)

A idéia por trás das Pipettes era emular a sonoridade dos girl groups
sessentistas, principalmente aqueles que foram produzidos por Phil Spector. Ao contrário de artistas como Amy Winehouse, que apareceram para a mídia regurgitando sonoridades alheias dizendo-se donos delas, as Pipettes preferiram cair na farra ao som de melodias irresistíveis como o hit "Pull Shapes" ou "It Hurts To See You Dance So Well". Pra se esbaldar.

Keane - Under the Iron Sea (2006)

O segundo disco do trio inglês é mais interessante do que toda a produção do Coldplay pós-Parachutes, principalmente porque o Keane teve coragem de assumir-se como uma banda sem guitarras, calcada apenas no piano competentíssimo de Tim Rice-Oxley e na competência do registro vocal de Tom Chaplin. Canções como "Is It Any Wonder", "Leaving So Soon", "Nothing In My Way" e "Frog Prince" são exemplos
também da capacidade da banda em forjar belas melodias pop.

keane

Prince - 3121 (2006)

Prince sempre teve sua carreira colocada em risco por sua prolixidade, algo que ele nunca soube controlar direito. Com álbuns triplos, duplos, sem nome, com nome, ele ressurgiria em 2004 com o bom Musicology, mas seria com 3121 que ele seria capaz de lembrar seus melhores momentos na virada dos anos 80/90. A inspiração
continua sendo a encruzilhada entre Hendrix e Funkadelic/Parliament e o velho nanico de Minneapolis se mostra capaz de incendiar pistas de dança com grooves respeitáveis como "Lolita", "Black Sweat" e "Fury".

Muse - Black Holes and Revelation (2006)

Este disco confirmou a expectativa em torno do Muse, que se mostrara uma alternativa respeitável ao caminho proposto pelo Radiohead. Pegando uma via paralela ao Coldplay, o Muse propôs uma receita muito mais rica e ampliou seu espectro sonoro para o progressivo dos anos 70 - algo também feito pelo Radiohead - mas com um acento pop inegável. Além disso, a capacidade vocal de Matthew Bellamy, cérebro e guitarrista do grupo, concede o diferencial ao Muse. Em Black Holes and Revelation está a famigerada "Knights of Cydonia", a música mais anos 70 feita nos anos 00 e um hit nos Guitar Heros da vida.

REM - Accelerate (2007)

Após um bom tempo lançando discos vacilantes e indignos de seu passado de glórias, a banda de Athens, Georgia, retornou à urgência do passado e saiu-se bem com um trabalho eminentemente rock, cheio de guitarras, melodia e vocais derramados. Longe de soar revisionista, o REM em Accelerate é uma banda como fome de bola, capaz de fazer inveja a seus contemporâneos, perdidos nas burocracias musicais e na falta de tesão/inspiração. Belo disco.

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Nicole Atkins - Neptune City (2007)

Em sua estréia, Nicole Atkins recebeu o simpático rótulo de "pop-noir", ou seja, música elegante, soturna, cinematográfica, mas com capacidade de assimilação e domínio da mágica fórmula das estrofes-refrão-repete refrão. Com a produção de Rick Rubin e à frente de sua banda, The Sea, Atkins traz belas canções como "Maybe
Tonight" e a faixa-título. Um disco que passou batido mas que merece uma audição dedicada.

Bob Dylan - Modern Times (2007)

Romântico, dilacerado, sincero, moderno, crítico, todos esses adjetivos cabem numa análise desse que é, provavelmente, o melhor disco de Dylan desde Blood on the Tracks (1973). Em Modern Times vemos um artista inquieto com sua época e sua capacidade de adaptação a ela, recordando de outros tempos mas sem perder tempo com nostalgia barata. O que talvez faça desse disco um dos pontos altos numa carreira tão profícua quanto a de Bob Dylan é a verdade que as observações de um homem que viveu mais de cinquenta anos influenciando e sendo influenciado no showbiz podem trazer para uma época efêmera como a nossa.

Rufus Wainwright - Release the Stars (2007)

O bardo gay retornou à boa forma com esse belíssimo trabalho, produzido por Neil Tennant, dos Pet Shop Boys. Não que seus dois discos gêmeos, Want One e Want Two tenham sido ruins, mas pecaram pelo exagero e pela extravagância de arranjos e flertes com a música operística. Em Release the Stars, Rufus retoma sua capacidade de compositor, aliada à sua interpretação passional e faz de canções como "Slideshow" e "Sanssouci" momentos arrepiantes.

rufus

Wilco - Sky Blue Sky (2007)

Após dois discos de estúdio e um registro duplo ao vivo, o Wilco se permitiu retornar a um rock mais básico, mas nunca fácil ou pobre. Pelo contrário, Jeff Tweedy calcou suas canções na encruzilhada do country rock sessentista de Byrds e CSNY e revisitou de leve a trilha pouco conhecida da mistura de country com soul, que gente como Dan Penn levou adiante e influenciou tanta gente. Comprove ouvindo "Impossible Germany" ou "You Are My Face".

Glen Campbell - Meet Glen Campbell (2008)

Este é um daqueles mavericks da canção pop. Com fama incontestável ao longo dos anos 60/70, Glen Campbell é dono de uma das vozes mais belas da música pop e a emprestou para interpretações definitivas ao longo dos tempos, principalmente em canções como "By the Time I Get to Phoenix", "Where's the Playground Susie" ou "Wichita Lineman". Este disco procurou trazer a figura de Glen para os anos 00, ainda que seu repertório seja centrado em canções de bandas oitentistas como U2 ("All I Want Is You"), sessentistas como o Velvet Underground ("Jesus"), atemporal como John Lennon ("Grow Old With Me") ou noventistas como o Travis ("Sing"). A voz de Glen e a participação de gente legal como Jason Falkner (ex-Jellyfish) e Robin Zander (Cheap Trick) dominam.

Phoenix - Wolfgang Amadeus Phoenix (2009)

O quarto disco do Phoenix é o que marcará o encontro da banda francesa com sua identidade. Se até aqui ele procuravam - com honestidade e devoção - a conexão perfeita entre os anos 70 e alguns elementos musicais dos anos 80, ela veio sob forma absolutamente original. As canções fluem, caso de "Lisztmania", "1901" ou "Girlfriend", todas absolutamente irresistíveis.

phoenix

2012 É Legal

14.11.09 | por Cel | Categorias: Cinema

2012

Já foi dito acertadamente que os livros e filmes de ficção científica falam do presente e não do futuro. Talvez sejam a mais fidedignas fontes de observação da sociedade que os produz, em qualquer época. Essa máxima fica ainda mais evidente quando vemos os filmes do alemão Roland Emmerich na telona do cinema.

Dessa vez, não satisfeito em detonar o mundo com alienígenas (Independence Day, 1994), monstros mutantes (Godzilla, 1998), alterações climáticas drásticas (O Dia Depois de Amanhã, 2004), Emmerich resolveu, literalmente, não deixar pedra sobre pedra em 2012. As imagens são impressionantes, o elenco é o melhor que ele já reuniu (John Cusack, Amanda Peet, Danny Glover, Oliver Platt, Thandie Newton, Chiwetel Ejiofor, Woody Harelson, entre outros) e as pequenas histórias pessoais que entrelaçam as hecatombes sísmicas estão bem mais convincentes dessa vez, além da própria trama, que se mostra muito mais eficaz do que todas as outras desenvolvidas por Emmerich, que também assina o roteiro, ao lado do colaborador Harald Kloser.

john cusack

Seguinte: astrônomo indiano e geólogo americano investigam alterações no comportamento do Sol, que poderão causar desastres catastróficos em pouco tempo. As estimativas dos estudos apontam para 2012, o ano em que o calendário dos maias encerra sua contagem. Tem início uma operação mundial para salvar o máximo de pessoas e da cultura humana, uma vez que o desastre é certo e vai, segundo Danny Glover, interpretando uma versão madura e pragmática do presidente Obama, "vai acabar com o mundo como o conhecemos".

Emmerich sempre recorre aos mesmos temas em seus filmes, o que nos leva à frase sobre os filmes e livros de ficção científica sempre nos falarem do presente e nunca do futuro. A humanidade, vitimada pelos agentes da destruição, sejam eles de qualquer natureza, significa o povo americano. O drama, seja na escala mundial ou pessoal, retrata sempre a superação de um indivíduo desfavorecido, seja pela condição social, pela profissão desacreditada, pela raça, enfim, uma pessoa americana que não compactua com o tal american dream e que, ainda assim, é capaz de resgatar o verdeiro espírito americano, amante da liberdade, da igualdade e pró-fraternidade. Sabemos, vocês, eu e a torcida do meu querido Flamengo, que não é assim. Quando observamos personagens como o cientista judeu frustrado e o piloto negro rejeitado pela NASA (vividos por Jeff Goldblum e Will Smith em Independence Day) e os comparamos com o cientista negro frustrado (sim, outro) e o escritor frustrado branco que precisa dirigir limusines para sobreviver (Chiwetel Eliojofor e John Cusack) de 2012, notamos a presença do mesmo espírito. A capacidade destes americanos menos favorecidos, detentores de uma fibra e garra de não se abate nunca, é a metáfora da América vencendo toda e qualquer intempérie, na defesa do mundo livre.

danny

Se entrarmos no cinema com estes pensamentos racionais e razoáveis sobre subtexto e reais intenções, nunca nos divertiremos assistindo os efeitos especiais vertiginosos criados pela bagatela de 260 milhões de dólares. E eles são absolutamente sensacionais e capazes de tirar o fôlego. Há cenas - como a alardeada queda do Cristo Redentor após um terremoto e um tsunami - que perdem de goleada para outras - que não contarei para não estragar o divertimento de meus queridos leitores.

2012 é superior a todos os filmes recentes sobre o fim do mundo, incluindo aí Armaggedon, O Núcleo, Impacto Profundo e as próprias obras anteriores de Emmerich, já citadas acima. Vale uma bela ida ao cinema, com um bom saco de pipocas (doce, no meu caso) e um copão de refrigerante. Pouco tempo depois, toda a sua trama será esquecida e arquivada em seu cérebro, preocupado com coisas mais importantes da vida, porém, por 158 minutos, você não será capaz de pensar em nada a não ser na próxima tragédia natural que aparecerá na tela. Bom divertimento.

Cheira a Nirvana Adolescente - Os 20 Anos de Bleach

12.11.09 | por Cel | Categorias: Música

kurt

No mês de junho de 1989 eu trabalhava na Agência Copacabana da Caixa Econômica Federal. Na verdade, eu era estagiário da Caixa e adorava a rotina de trabalhar seis horas por dia e ganhar uma bolsa-salário simpática, algo que se configurou como o grande propulsor da minha mania perene de comprar e ouvir discos. No mesmo mês, bem longe de Copacabana, Kurt Cobain entrava no estúdio de Jack Endino para gravar o primeiro disco de sua banda, Nirvana. Ele passara um bom tempo tocando nas festinhas de Olympia e Aberdeen, ambas cidadezinhas próximas a Seattle, ao lado de seu parceiro Chris Novoselic. Finalmente Kurt conseguira os pouco mais de 600 dólares para gravar o primeiro disco de sua banda. Pausa.

Essas primeiras linhas do texto servem para situar você, leitor, no tempo e no espaço. Se eu, com meus 39 anos de idade, consigo lembrar do que fazia há 20 anos, talvez você, nascido depois - ou não - de 1989, tenha memórias diferentes, mitificadas ou tomadas emprestadas do senso comum. Mesmo porque é fácil glorificar uma banda de rock como o Nirvana, principalmente pelo que ela representou para a música pop. Não é exagero dizer que o trio formado por Cobain, Novoselic e DaveGrohl (que substituiu o baterista original, Chad Channing) arrombou a porta da festa mercantilista do pop/rock oitentista e trouxe uma realidade alternativa verdadeira para as mesas dos analistas de marketing daquele tempo. Se isso foi bom ou não, é irrelevante. Se pensarmos que as paradas mundiais estavam sob o controle de Bon Jovi, Vanilla Ice ou Milli Vanilli, ver um disco como Bleach subindo na preferência de mais gente do que o escopo das college radios americanas poderiam comportar é algo assustador. Mesmo assim, a porrada na lata do estabilishment mercantil fonográfico viria em 1991, com Nevermind. Mesmo que este viesse sob a chancela da DGC Records, uma gravadora major, seu impacto na cultura pop não pode
ser diminuido pelos cultores do novo cronológico a qualquer preço.

early days

Dito isso, voltemos para Cobain entrando no estúdio com 600 doláres. Em 1989 o Nirvana não era mais do que três nerds desajustados. Esse tipo de gente, quase sempre, não adaptados a uma realidade, emputecidos por isso e cheios de frustrações e desejos inalcançáveis, são responsáveis por discos de rock com alma e verdade. Com o Nirvana não foi diferente e, depois de 20 anos, o resultado dessas gravações com Jack Endino retorna ao mercado com um tratamento "deluxe" promovido pela gravadora da banda na época, a Sub Pop. A edição comemorativa de Bleach traz o álbum remasterizado pelo próprio Jack Endino, mas, mesmo que o disco se apresente com uma sonoridade muito mais ampla e pesada que o abafado registro original, não dá pra fazer muitos milagres a partir de uma gravação chinfrim de 600 dólares num estúdio meia-boca. Endino soube tirar o proverbial leite de pedra ao repaginar Bleach para os anos 00, quase 10. O grande twist dessa edição, no entanto, é a inclusão de um show inteiro da banda, gravado em Portland, em fevereiro de 1990, quando o Nirvana excursionava pelos buracos das vizinhanças, promovendo 1Bleach. Isso é História, amiguinhos.

Se você é um fã da banda, sabe exatamente o valor que Bleach tem para o imaginário coletivo nirvânico. Mesmo porque, é muito legal ouvir o Nirvana como uma bandinha qualquer, lutando por um lugar ao sol, sem nem desconfiar que seu mix de metal e punk, acrescido da veia de compositor pop de Kurt Cobain, seria a válvula de escape de toda uma geração de músicos independentes que batalhavam no underground mais subterrâneo dos USA. Se você não é fã da banda, mas sabe do que se trata, essa versão turbinada de Bleach pode te levar a uma reavaliação de conceitos. Aqui estão presentes, com cara de novinhas, "About A Girl", "School", a supimpa cover de Shocking Blue em "Love Buzz, entre outras, num mosaico meio preto e branco, meio cinza, meio qualquer cor. Quando as faixas ao vivo entram, vemos o quanto a banda
acelera e coloca peso guitarrístico nas canções, algo que Endino quase não conseguiu pegar por 600 pratas em seu estúdio. As versões live da maioria das faixas do disco ganham a companhia de ilustres aparições de canções como "Sappy" (talvez a melhor música do Nirvana que quase ninguém conhece), "Molly's Lips" (uma cover dos escoceses do Vaselines) e composições que eram novinhas como "Been A Son" e "Dive" e que viriam a integrar a coletânea de raridades a ser lançada só em 1992, Incesticide, a reboque do estouro de Nevermind.

bleach

Bleach é o testamento de uma banda pós-adolescente, talvez símbolo de uma época que Cobain e seus amigos nunca mais tenham vivido. Mais ainda: uma lembrança de espontaneidade e sinceridade das quais a fama e a agenda o privaram até o dia em que ele resolveu acabar com tudo. Sentimentalismos à parte, este disco é um artefato totalmente livre de qualquer mesquinharia da indústria musical. Pode-se dizer que o tempo o preservou numa bolha protetora.

Blog do CEL - 80º Lugar

11.11.09 | por Cel | Categorias: Blogosfera

Meu amigos, meu blog foi rankeado pelo site Mundo Tecno como 80º colocado entre os 262 blogs brasileiros mais lidos. Sim, é isso mesmo.
Coloco abaixo o link para o site do Mundo Tecno, no qual os pesquisadores, entre eles o blogueiro e professor da UFRGS, Alex Primo, explicam os critérios utilizados na feitura do ranking.
Mesmo que esses números flutuem e não indiquem se um blog é melhor que outro, eles levam em conta, sobretudo, a capacidade do blog gerar resposta, através de menções em Google e outros sites. Sendo assim, EU TÔ FELIZ PRA CACETE com isso.
http://www.mundotecno.info/ranking/
YESSSSSSS....
Obrigado a todos os visitantes, frequentes e aleatórios, que apoiam e xingam, todos são responsáveis.
E, pombas, não deixem de prestigiar os textículos do seu amigo aqui.

The Swing Of Things

10.11.09 | por Cel | Categorias: Comportamento

lisboa

Meus caros, aqui estamos para colocar a casa em ordem. Estou atrasado em relação ao prazo que eu mesmo dei para o retorno do Blog à sua atividade normal. Ficamos ausentes por pouco mais de um mês, quando o planejamento dava conta de cerca de 20 dias. Tudo bem, provarei pra todos que bons motivos levaram ao prolongamento das minhas merecidas férias. Leiam, portanto, esse textão para colocar o swing of things em ordem.

Viajei com a família para Portugal e Inglaterra. Visitamos duas cidades em cada país, todas muito diferentes e encantadoras. Dentre Lisboa, Porto, Londres e Liverpool, a capital portuguesa levou o título de favorita da casa. É simples, mas talvez só para quem já a conheça. Não há sujeira por lá, a sensação de se aproximar pelo alto, vendo os telhados dos prédios e casas, além da incontestável simpatia dos portugueses, aliado a um cosmopolistismo com cara de uma imensa e avançada cidade histórica mineira na Europa são fatores que credenciam Lisboa para um retorno assim que possível. Logo atrás vem Londres, que todos nós julgamos que seria o ápice de nosso tempo por lá. É legal, a sensação de você "estar no mundo" é grande, tamanho o melting pot de etnias que passeiam pela Oxford Street e pelas estações do Underground, conhecido aqui como Metrô. Porto e Liverpool vem depois, são cidades menores e folclóricas, cada uma a seu jeito. Foi minha primeira ida à Europa, após três viagens aos Estados Unidos. Viajar é sempre bom e o melhor de tudo é a saudável alienação que se instala. Esquecemos todos os problemas e (quase todas) as responsabilidades no Brasil. Igualmente boa é a sensação de chegar em casa e, finalmente, dormir um bom dia de sono.

chiado

Uma das grandes vantagens de estar em cidades como essas é experimentar alguns traços culturais que nos são meio estranhos. Dou um exemplo: ainda há gente comprando discos por lá e, claro, há lojas com ofertas legais e lançamentos pipocando. Sei muito bem que a indústria do disco está com as horas contadas, que mil formatos interativos vão aparecer e disponibilizar tudo fácil fácil pra todos, de Bangladesh a Foz do Iguaçu, mas, nada como a sensação de escolher discos numa prateleira, achá-los e riscar numa listinha. Em Lisboa encontramos uma FNAC simpática num bairro meio boêmio chamado Chiado. A loja, a exemplo das megastores francesas e suas irmãs paulistanas e cariocas, traz uma grande oferta de lançamentos que procuram ser plurais. Por exemplo, era possível comprar títulos do Depeche Mode na versão CD/DVD da Rhino inglesa por 12 euros. Menos que 30 reais. Fiquei por um bom tempo com o Music For The Masses, o Violator e o Songs Of Faith And Devotion nas mãos e os descartei. Em troca recebi doses cavalares de arrependimento. Em Londres o bicho pegou em forma de promoções das edições Deluxe a 12 libras, menos que 40 reais. De The Who a Housemartins. De Eric Clapton a Alan Parsons Project. Algumas dessas foram adquiridas sem piedade, entre elas, alguns discos favoritos de muito tempo como Solid Air, de John Martyn; Too-Rye-Aye, do Dexy's Midnight Runners e Sketches Of Spain, de mestre Miles Davis. Também vieram na bagagem The Who, Waterboys, Emerson, Lake And Palmer, Beatles remasterizados, Air, Madredeus e outros. Foram aquisições felizes.

dp

Algo que me chamou a atenção tanto em Lisboa quanto em Londres foi a atenção dada ao último disco do A-Ha, Foot Of The Mountain. Isso nos leva a um outro assunto.
Eu pretendia fazer um texto em defesa do A-Ha desde antes da viagem. Acho que há um preconceito enorme em relação ao trabalho do trio noruguês e um equívoco tremendo em caracterizá-lo como "uma banda dos anos 80". Claro que os dois primeiros discos da banda. Hunting High And Low (1985) e o magnífico Scoundrel Days (1986) marcaram aquela década e o multiplatinado (ainda que um pouquinho inferior) Stay On These Roads (1988) serviu para cravar a imagem de rapazes bonitões e new romantics do A-Ha no imaginário dos eighties. Uma olhada atenta para o ano 2000 mostrará o primeiro disco da banda em 7 anos (o anterior fora o sombrio e subapreciado Memorial Beach em 1993), Minor Earth Major Sky. Ali, Morten Harket, Paul Waaktaar-Savoy e o tecladista Magne Furuholmen praticamente se reinventavam e mantinham intacta sua maneira de fazer música. Talvez a condição nórdica dos caras desse ao A-Ha uma certa emulação de fraseados clássicos e um bom gosto meio diferente dos ingleses, vá saber. Os lançamentos posteriores a esse trabalho, Lifelines (2002), Analogue (2005) e o novíssimo Foot Of The Moutain (2009) confirmam isso. A-ha é legal, ou melhor, era legal, uma vez que o trio anunciou o fim de suas atividades no ano que vem, após uma última turnê mundial. Aliás, quem quiser conferir a capacidade live do A-Ha deve correr atrás do duplo How Can I Sleep With Your Voice In My Head (2003), que traz a turnê de Lifelines, com belas releituras dos clássicos de antanho. A frase que dá nome ao disco é um verso de "The Swing Of Things", single menor do segundo disco do A-Ha. Ouçam sem preconceito pois a banda é melhor que todas as formações emuladoras de pós-punk inglês e britânico surgidas a reboque de Strokes e cia.

a-ha

Falando em Strokes: o disco solo de Julian Casablancas já estava com posters no metrô londrino quando viemos embora. Não levei fé, apesar da imagem de Julian empunhando uma guitarra plugada num amplificador ser bastante convincente de que Phrazes For The Young, seu primeiro trabalho off-Strokes seria motivo de atenção.
Muito mais que isso: o disco é surpreendentemente legal e supera largamente todos os trabalhos paralelos de seus companheiros de Strokes. Em Phrazes For The Young, Casablancas, além de compor tudo, deixa um pouco de lado o seu cinismo strokiano e se mostra vulneravel a amor, tédio, desilusão, falta de esperança. A sonoridade oscila entre algo que tanto os Cars quanto o Television poderiam fazer se fossem formados por gente nascida em 1978 e há canções que superam tudo que os Strokes fizeram até agora. Ouça "Left And Right In The Dark", "Ludlow St." e "River Of Brakelights" e comprove.

julian

Na pilha de "novos lançamentos a serem comentados" ainda está Raditude, o novo trabalho do Weezer. Uma leitura atenta a este blog revelará que este escriba é um grande simpatizante do rock nerd praticado por Rivers Cuomo e sua banda. Mantendo a tradição cromática de seus discos, o Weezer estampa uma capa "normalzinha" após trabalhos que tenham uma capa onde uma cor aparece como pano de fundo para a banda. Sendo assim, após o chamado "Red Album" do ano passado, surge Raditude, para a felicidade geral da nação. O que faz desse disco uma pequena delícia é a cuca fresca de Rivers Cuomo em relação ao mundo e sua reconciliação com o imaginário adolescente americano da virada dos anos 80/90, que sempre forneceu munição para suas letras e para a própria postura da banda. Um post antigo desse blog faz uma análise sobre o disco anterior do Weezer e constata que Cuomo esteve vivenciando uma bela crise da meia-idade, algo que parece totalmente superado em Raditude. Canções como "The Girl Got Hot" mostram que tudo passou e que o vocalista e líder da banda continua o mesmo, observando o mundo por trás de seus óculos nerdíssimos. Melhor pra nós. Raditude será lançado no Brasil ao longo desse mês de novembro.

weezer

Ainda na pilha de lançamentos está o novo disco de Norah Jones, Fall. Bem, Norah Jones é uma gatinha, além de talentosa e dona de uma bela voz aveludada e com uma capacidade para se equilibrar nas fronteiras que aproximam folk, blues e jazz. Neste novo disco, a moça resolveu mudar e fazer tudo que queria fazer. Deixou o piano de lado, empunhou uma guitarra e resolveu chamar músicos diferentes, entre eles Joey Waronker, que colabora com o REM. Além disso, parcerias com Ryan Adams e Will Sheff, além da produção de Jacquire King, famoso por pilotar estúdios para o Modest Mouse e o Kings Of Leon, confirma uma singela guinada indie na carreira da moça que, para completar o upload, resolveu descobrir que é dona de uma sensualidade inocente que pode ser fatal. O primeiro single do disco, "Chasing Pirates", é um belo exemplo de como Norah soube proceder uma sutil reinvenção. Ela, Weezer e Casablancas estão credenciados para o Top 10 deste ano. É esperar para ver.

norah

Dois discos bem importantes completam aniversários significativos e recebem edições de luxo, daquelas irresistíveis. Unforgettable Fire faz 25 anos e recebe um tratamento de gala, ganhando versão dupla, dupla com DVD e múltipla, com DVD, CD, LP, selo, fio de cabelo do Bono, areia do deserto de Los Angeles...Não é pra menos: este foi o disco que credenciou o U2 para o estrelato mundial. Se eles eram uma ótima aposta rock para a década de 1980 com o êxito de War (seu terceiro disco, lançado um ano antes), com Unforgettable Fire e a chegada de Brian Eno e Daniel Lanois para os cargos de produtor e engenheiro de som, o U2 foi capaz de criar um disco com uma sonoridade única e instigante, ao mesmo tempo rock e esparsa. Somando essa novidade a belas composições como "Pride" ou "Bad", o U2 saiu das paradas das college radios e programas de clipes para o Fantástico e para o quadro-negro da minha sala de aula no Colégio Santo Agostinho em pleno 1985, em meio ao boom roqueiro daquele início de ano. Unforgettable Fire, além de ser um discaço, é senhor de um lugar só seu no coração desse jornalista.
O outro disco a ser repaginado e receber louros é Space Oddity, de Mr. David Bowie. Esse é o trabalho que marca o início da persona camaleônica de Bowie, após este imprimir mudanças radicais em termos de approach e visão musical. Da produção de Tony Visconti e Gus Dudgeon (produtor de Elton John), vieram canções como "Janine", "Memories Of A Free Festival" e, sobretudo, a faixa-título, produzida apenas por Gus. Se Bowie parecia indeciso entre as sonoridades folk-progressivas que dominavam a Inglaterra de 1969, com este disco ele escolheu o caminho mais complicado: criou algo novo, que ganharia forma e seria reverenciado dali pra frente. Para os mais alvissareiros, "Space Oddity", a canção, traz a estréia de um dos mais famosos personagens de Bowie, o controverso Major Tom, que voltaria a aparecer 11 anos depois na letra de "Ashes To Ashes", do lancinante Scary Monsters. História sendo feita, amigos.

bowie
u2

Mudando um pouco de assunto, mas ainda no âmbito das pequenas obras de arte que são históricas. Uma das minhas canções nacionais prediletas em todos os tempos pertence a Erasmo Carlos e chama-se "Largo da Segunda-Feira". É a faixa de abertura de seu disco mais confessional, o maravilhoso Sonhos e Memórias 1941/1972. Longe de ser o Tremendão da Jovem Guarda, Erasmo faz aqui uma viagem sentimental à sua infância e adolescência na Tijuca e se deixa levar pela famigerada crise dos 30 anos (ele tinha 31 anos então). Incapaz de resistir ao ideal hippie (traduzido no Brasil como uma vida tranquila no interior do país, principalmente por canções como "Casa No Campo"), Erasmo compôs "Meu Mar", na qual ele clama por um "lugar bem pertinho ao mar", cuja letra diz "quero um pileque de água de côco e da vida saber muito pouco, quero os olhos da minha janela e ter muitos filhos com ela", referindo-se à esposa Nara. É legal ver a alternância entre o lar idealizado pelo homem de 31 anos e sua saudade pelo lar que existia quando era menor. Bem, essa digressão serve para dizer que, finalmente, Erasmo Carlos recebe uma biografia, "Minha Fama de Mau". Não bastasse a felicidade de poder ler as histórias do "Carlos menos famoso", é o próprio que as escreve, num tom de conversa de bar. Tive a oportunidade de conhecer Erasmo pessoalmente - na verdade, eu o estava tietando - por conta do lançamento de seu último e bom disco, Rock'n'Roll, e ele parece ser ótima pessoa. Nem se importou em assinar todos os dez encartes de discos que levei para ele. Leiam o livro, conheçam o homem.

erasmo

Erasmo Carlos ainda tem outras músicas que remetem à sua vida adolescente tijucana, a mais óbiva é justamente "Turma da Tijuca", que integra seu disco homônimo de 1984. Dessa época também é o sucesso "Close", que, supostamente, ele teria composto para o travesti Roberta Close. Lembro de vê-lo no Cassino do Chacrinha interpretando a canção e sobre o programa do Velho Guerreiro faço algumas considerações. O documentário Alô, Alô Terezinha, de Nélson Hoineff deve ser visto até por quem nunca ouviu falar em Abelardo Barbosa.

Eu tive oportunidade de ver o Cassino do Chacrinha entre os anos 1985 e 1988 e, a princípio o fazia por motivos onanísticos. As chacretes eram o principal atrativo do programa para o adolescente de 14 anos, num tempo em que não havia internet ou qualquer coisa que se assemelhasse à facilidade que a grande rede proporciona em termos de pornografia ou algo assim. Aliás, ver as chacretes não era pornografia para a maioria das pessoas. Para mim, entretanto, era a mais alta e celestial pornografia. Elas não seguiam um padrão de beleza, não tinham os corpos malhados e/ou magérrimos que estabeleceram os padrões de beleza atuais, tampouco usavam próteses de silicones ou mesmo faziam poses ginecológicas ao som de funks podres. Pelo contrário. As chacretes, mesmo que não economizassem em sensualidade, eram revestidas por uma aura de inacessibilidade, pelo menos para o solitário adolescente de 14 anos. Eu tinha minhas preferidas e a famigerada Rita Cadillac não figurava entre elas. Dançarinas como Cristina Azul, Maryângela, Chininha ou Erika Selvagem me atraíam muito mais. Aliás, imagino que eu tenha ido buscar algo da adolescência perdida em Alô, Alô Terezinha e, sim, encontrei. O filme é uma contundente lição de como o tempo pode passar para todos e me deu a sensação de ser um adulto de 39 anos. O adolescente de 14 ficou lá, trancado no quarto do passado, ao se deparar com as chacretes hoje, na meia-idade (ou mais velhas, no caso das mais veteranas), tentando levar a vida longe do glamour que tinham. Muitas reclamaram da maneira como o filme as trata, principalmente por insinuar que muitas faziam programa ou namoravam artistas famosos. Talvez o mais triste seja limitar as mulheres que dançavam ao status de chacrete. O documentário é interessantíssimo e nos faz pensar no que aconteceu à televisão brasileira após a morte daquele sujeito que jogava verduras, legumes e bacalhaus na audiência e que debochava da feiúra dos calouros. O "politicamente correto" nem pensava em existir naqueles tempos e homossexuais, feios e desafinados eram detonados em rede nacional, em plena época da ditadura militar. Enfim, o tempo passou, amigos.

chacretes

Fechando esse textão com mais duas recomendações cinematográficas: Distrito 9 e Adventureland. O primeiro estreiou antes da viagem e eu não deixei de conferí-lo assim que voltei. Longe do bom mocismo sociológico que muita gente diz ter visto no filme, Distrito 9 - uma ficção científica sobre alienígenas que habitam uma favela em Johannesburgo - é uma paulada na lata. E incomoda demais pela brutalidade que salta da tela. No elenco não há ninguém conhecido e a presença de Peter Jackson na produção garante um rigor estético implacável, ainda que eu não seja exatamente um fã da trilogia de Senhor dos Anéis. Adventureland foi minha distração no vôo de volta de Londres. Na minha concepção, sono, avião e noite não se misturam e eu passei quase a totalidade do vôo (9 horas!) acordado em busca de distração. Revi "Anjos e Demônios" e "Wolverine" e resolvi apostar no filme que dizia ter sua história ambientada no ano de 1987. James Brennan (Jesse Eisenberg) é um adolescente meio nerd que pretende visitar a Europa mas vê sua intenção fracassando por conta dos problemas financeiros enfrentados pelos pais. Sendo assim, James precisa ficar em casa e trabalhar no verão, caso queira continuar sonhando com uma viagem ao velho continente. Ele encontra esse emprego em Adventureland, um parque de diversões meio decadente, no qual ele vai conhecer pessoas interessantes e alguns picaretas. No primeiro time estão Joel (Martin Starr) e a lindinha Em (vivida pela badaladinha Kristen Stewart, que se credencia ao posto de Meg Ryan dark pela participação em Twilight e Lua Nova), por quem se apaixona. É o ponto de partida para um simpático filme sobre coming of ages, dirigido por Greg Mottola, responsável pelo excelente Superbad em 2007. Aqui temos a revisitação de alguns ícones oitentistas, entre ele uma prática que se perdeu no tempo - a troca de fitas cassete entre pessoas apaixonadas. A trilha sonora traz Lou Reed (de quem Brennan é fã), Replacements, Crowded House, The Outfield, The Cure, músicas originais do Yo La Tengo, além de uma canção que desencadeou um processo sério de reavaliação do INXS, "Don't Change". Essa é uma música do terceiro disco da banda australiana, Shabooh Shobaah, gravado em 1983, bem antes dos sujeitos atingirem o mega-estrelato - algo que só viria com o sexto disco, Kick, em 1987. Para quem vê o INXS como uma banda fanfarrona (é uma espécie de Aerosmith pós-punk, alternando ótimos e péssimos momentos, além de demonstrar uma queda para a canastrice equivalente), recomendo audições desse terceiro disco.

adventureland

A prometida lista de 60 melhores discos entre 1999 e 2009 está no prelo. Até o fim da semana virá ao ar. Talvez vocês gostem, talvez não e isso será muito legal. Até.

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Blog do Cel

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.

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