Aí está, meus caros leitores. Uma listinha simpática de onze discos gringos e onze nacionais que estiveram em alta rotação por essas bandas daqui. É uma lista simples, comentem se quiserem, ok?

Tedeschi Trucks Band - Revelator
Wilco - The Whole Love
Black Keys – El Camino
Real Estate - Days
Glen Campbell - Ghost On The Canvas
Brant Cash - How Strange It Seems
Booker T. Jones - The Road From Memphis
Sharon Jones And The Dap Kings - Soul Time
Noel Gallagher’s High Flying Birds - Noel Gallagher’s High Flying Birds
Lou Reed & Metallica – Lulu
Sondre Lerche - Sondre Lerche

Celso Fonseca e Ronaldo Bastos - Liebe Paradiso
Mallu - Pitanga
mundo livre s/a - Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa
Constantina - Haveno
Wado - Samba 808
Fabio Góes - O Destino Vestido de Noiva
Beto Só - Ferro Velho das Boas Intenções
Momo – Serenade of a Sailor
Cícero – Canções de Apartamento
Vanguart - Boa Parte de Mim Vai Embora
Chico Buarque - Chico

Hoje chorei de saudade da minha mãe. Uma saudade aguda, enorme, maior que a vida. Ela faleceu no dia 8 de agosto, vítima de agravamento de problemas respiratórios causados por 45 anos de cigarro. Engraçado que eu ainda não tinha passado por um desses momentos de choro soluçante por conta de sua ausência, de tão aliviado que estava - e estou - pelo fim de seu sofrimento. Ela, uma pessoa tão independente, durona, forte, estava dependendo demais de muita gente para fazer coisas básicas e simples do cotidiano e já havia perdido para a doença um monte de pequenos prazeres terrenos. Foi uma luta injusta, mas nós resistimos bravamente. Aqui vai a nota mental, meninos e meninas: não fumem. A menos que queiram isso para vocês. There's no alternative.
Eu não sei se alguém que está lendo essas linhas já não tem sua mãe por perto. Eu não tive o meu pai, mas tive um staff de pessoas para cumprir um mix de papéis paternos, no caso, meus avós maternos e minha segunda mãe, que ajudou a me criar. Sendo assim, não dei por falta do meu pai e acho que não tive qualquer sequela social ou psicológica por conta de sua ausência. Mas minha mãe foi minha companheira de estrada até agora, Tigre e Cachorro, Sagitário e Câncer, Helena e Carlos Eduardo (como ela me chamava quando estava prestes a me dar uma bronca). É uma sensação aterradora e imensamente solitária saber que não deve haver mais ninguém no mundo muito interessado se você se alimentou ou está agasalhado. No caso da Dona Helena, sua recomendação favorita era pedir que eu atravessasse a rua no sinal, por conta de um atropelamento que sofri lá em 1988. E eu, apesar de tudo que me dizia para não levar em conta algo tão trivial, sempre atravessei no lugar certo.
No dia de sua morte eu chorei pelo choque do já esperado, nunca completamente esperado até que se tenha a notícia. Mas estava incomodado por não ter chorado até agora o tanto que minha mãe merecia. Até que percebi a provável impossibilidade em demonstrar dessa forma o quanto ela faz falta. Sendo assim, movido por música que sou, não procurei ouvir nada que fosse me fazer sofrer ainda mais, a tal da auto-comiseração. Até que hoje me deparei com uma das minhas músicas mais queridas de todos os tempos, "So Far Away", de Carole King. As lágrimas vieram como se abrissem os diques de uma represa. com força, sem qualquer possibilidade de evitar.

A idéia de encarar a vida sem alguém é um desafio dos mais pungentes. A gente passa por isso de forma mais corriqueira sob a forma de romances interrompidos, relacionamentos amorosos que vâo à falência e achamos que essa dor pode ser a maior de todas, muito porque nossos pais assumem papel coadjuvante em nossas vidas à medida que nos tornamos senhores de nossos narizes. Eles estão sempre presentes, não se enganem, mesmo que vocês não precisem lidar com dois anos e meio de enfrentamento contra uma doença respiratória. No meu caso, esse período serviu como uma longuíssima e sutil despedida entre ela e eu, a ponto de existir poucos traços do que minha mãe mais representava quando de seus últimos dias.
A letra de "So Far Away", canção do mais belo disco de Carole King, Tapestry, de 1971, é uma metáfora para a derrocada dos ideais hippies dos anos 60. O amor livre se fora, a liberdade era impossível, você havia mudado o mundo e ele voltara à estaca zero, bem diante dos seus olhos. O Vietnã ainda estava lá, o medo da URSS também. E a cultura, transformada para sempre, mais por conta do surgimento de uma indústria cultural que conspurcaria tudo que veria pela frente em pouco mais de duas décadas, do que pela sua vontade. Todo mundo marchara, lutara, talvez morrera para que a conjuntura enquadrasse a todos no esquema emprego-dinheiro-casa-pra-sustentar e esse trinômio pesasse mais que os ideais defendidos anos antes. Sendo assim, dá pra pensar em Carole King, uma das maiores compositoras da história da música pop (são dela várias canções douradas como "Locomotion", "It's Too Late", "You've Got A Friend", "Will You Love Me Tomorrow", "Up On The Roof") usando a figura do amor que se foi para falar dos ideais perdidos e de como a vida seria melhor com eles por perto. Isso fica claro no verso: "I sure do hope the road don't come to own me, There's so many dreams I've yet to find" (Eu espero que a estrada não acabe em mim, há tantos sonhos que eu tenho que encontrar). Não dá? Claro que sim.

Não sei se minha mãe gostava dessa canção. Hoje ela só faz sentido como hino de saudade pura e simples e todo esse parágrafo acadêmico me parece sem qualquer significado. Mas uma lição ficou disso tudo: eu estou vivo e tenho que honrar isso. Tenho uma esposa linda, um garotão que é o mais próximo de um filho que eu poderia querer e eles estão do meu lado para o que der e vier. Se não fosse por eles, creiam, tudo seria praticamente impossível. Perdoem o texto triste, logo eu volto com meu habitual mau humor.

A maior dificuldade do crítico de rock é não ser fã de rock enquanto escreve. Para criticar alguma coisa é preciso isenção e cinismo, coisas que o fã genuíno não possui quando o assunto é seu artista favorito. Uma vez eu disse que a diferença entre o jornalista de rock e o fã de rock é que a emoção era vendida para uma folha de papel. Ou, sei lá, para um monitor Samsung, no meu caso.
Escrever sobre U2 é complicado para mim, pois, confesso, sou fã da banda desde War. Fui ouvir October e Boy depois de ouvir War. Gosto de quase todos os discos da banda, via memória afetiva. Sei que alguns não são maravilhosos como
outros e, bem, já fiz coisas típicas de fã de banda. Nada que seja tão espalhafatoso, na verdade, nem pude ir ao show deles no Rio, cidade onde moro, por conta do trabalho. Mas, comprei dois de seus discos por volta da meia-noite.
Explico: havia aqui no Rio uma cadeia de lojas de disco chamada Gramophone. Havia algumas no Centro da Cidade, uma em Copacabana e outra no Shopping da Gávea. Assim que essas lojas começaram a desaparecer do mapa, seja pelas vendas por internet, seja pelas megastores, seja pelo mp3, elas tiveram alguns momentos de brilhantismo. A Gramophone fez aqui algo que é comum nos USA e Europa. Abriu à meia-noite para vender discos do U2. O lançamento de Pop e do Best Of 1980-1990 foi assim.

Você chegava na loja da Gávea, entrava numa fila e esperava a hora para entrar. Ia direto na estante do disco, ia no caixa, pagava e saía com a sensação que só os fãs sabem como é. Em ambos os casos estive com meu amigo de faculdade Leonardo Salomão, que já escreveu muitos textos na Rock Press e que hoje é produtor de eventos. Lembro que minha coletânea 1980-1990 vinha com numeração gravada na caixinha de acrílico - a minha era 000117. De uma tiragem inicial de 200 mil cópias.
Os tempos eram outros, U2 era U2, o retorno era garantido. Com Pop foi a mesma coisa, exceto pela caixinha não numerada. E, confesso, até hoje é o disco de que eu menos gosto do U2, ainda tenho dificuldades para entendê-lo e gostar dele. Mas sei o que ele representa dentro do contexto da banda e de sua carreira e sobre como ele foi importante pra muita gente.

As lojas da Gramophone não existem mais. Muitas vezes eu saía de Copacabana para a Gávea só para ir naquela loja. Ela não tinha nada de especial, exceto por um dia em que a cantora inglesa Des’ree (aquela do “you gotta be cool, you gotta be tuff”) estava sentada numa mesinha, autografando seu disco. Estava meio esquecida num canto e eu não me animei a comprar o disco da moça inglesa para contar com seu autógrafo. Um dia voltei ao shopping e dei com a cara na porta, pois a loja havia se transformado numa dessas butiques pseudo-cools.
A vida seguiu, o U2 adentrou os anos 00 de forma mais ou menos honrosa e a gente continua prestando atenção neles.
Meus caros leitores,
Mais que falta de inspiração, decidi postar aqui alguns textos antigos e simpáticos. Eles podem falar muito sobre os nossos dias e os desafios em vê-los anoitecer ou talvez não façam mais nenhum sentido. Não importa. Vamos dar uma olhada no que eu andava pensando há alguns anos. Pra começar, dei o nome a essa série de CEL Greatest Hits. Vão dizer que sou ególatra, talvez até seja. Mas a exposição das angústias de ontem é uma maneira audaciosa de se mostrar humano, vulnerável e imperfeito. Como todos. Portanto, nada menos pretensioso que isso. De qualquer forma, os textos serão postados sem edição ou atualização, apenas com a data da publicação original. Esse aqui viu a luz do dia pelo glorioso Scream & Yell, do amigo Marcelo Costa. A data da postagem vai abaixo. Divirtam-se.

26/05/02
De uns dias pra cá eu me convenci de uma coisa meio assustadora. Tão assustadora e sutil que resolvi dividi-la com quem ocasionalmente pousa os olhos nesta humilde coluna. Pode parecer doideira, paranóia, exposição prolongada a radiações UV-A e UV-B, seja o que for, mas estou plenamente convencido de que o mundo acabou.
Sério, o mundo, como o conhecíamos, acabou. Não estou falando apenas de mudanças sócio-econômicas profundas, novas coisas tecnológicas, coisas assim. O mundo acabou. Mesmo. Só que a coisa não é simples assim. A grande sacanagem no fim do mundo foi o jeito como tudo se deu. Sutilmente. Sem alarde, trombetas de anjos soando, raios caindo, naves espaciais lançando lasers contra cidades. Nada disso.

O mundo acabou da noite pro dia. Pufff... Acabou. Outra sutileza interessante nisso tudo é que não ficamos boiando no espaço infinito tentando nos agarrar a destroços da Terra. Ficamos aqui, no mesmo lugar, vivendo e agindo com o comportamento moldado para um mundo que não existe mais. Em seu lugar veio o "as coisas como estão" ou o "hoje em dia".
Sei que isso tudo pode parecer uma mera neurose de um cara de 31 anos, perdido na solidão de uma metrópole do Terceiro Mundo, mas, me diga, ainda falamos em Terceiro Mundo? Não. Agora somos um só mundo. A globalização nos uniu, de um dia pro outro. Talvez a sensação de proximidade máxima entre povos (supostamente, é claro) tenha acabado com o mundo como o conhecíamos. A facilidade (supostamente, é claro) de acesso a tudo, a todos, comunicação de todas as formas, interação, internet, tudo isso mole mole, fácil fácil ao alcance de uma classe média (não existe mais classe média, apenas ricos e pobres) fundiu os circuitos de quem achava fax o máximo. Por falar nisso, cadê o fax?
Então, vivemos numa sociedade de facilidades, que nos exclui sistematicamente enquanto nos inclui. Estranho? Pense bem, você que gosta de rock. É fácil baixar músicas da internet, ouvir seu artista predileto da semana. Só que...você pode comprar um disco importado? Difícil se você for da maior parcela da população de um país como o nosso, no qual não há indústria musical séria, as bandas novas não chegam, as opções são poucas e ruins. Então me diga. É legal só baixar da internet? Se você acha que é, sua relação com a música é a mesma que você tem com um guardanapo de papel descartável.

Se você acha que música é algo mais profundo, parabéns, ou melhor, que pena. Você está no mundo errado. Não há mais espaço ou tempo para se aprofundar em assuntos como música ou outra forma de arte qualquer. Mas, você dirá: "esse cara é louco, e a internet com seus milhões de sites de cultura, os Cinemarks com suas salas modernas e pipocas gigantes com manteiga e...". O que dizer do sujeito que não tem o fuckin’computador? São a maioria. Estão fora do mundo. Estão fora da realidade, ou melhor, estão na realidade, fora do conforto do "mundo de hoje".
Como o sujeito vai saber que a MTV tem caráter duvidoso, que existe vida na televisão por assinatura (cada vez menos por mais $$$, outro sinal do fim do mundo como o conhecíamos) e que há cultura por aí? No way. Mas dá pena mesmo dos caras que estão na faixa dos trinta e alguns. A minha faixa. Fomos educados seguindo parâmetros antigos para hoje, como acreditar na família, no Brasil, em Deus, no casamento, estudar para fazer faculdade, conhecer a história do país, do mundo, saber o que é comunismo, capitalismo, socialismo, quem foi Lênin, o que queria dizer URSS. O que estas coisas significam hoje? Porra nenhuma. E, quando o mundo acabou, elas ficaram muuuuuuuuuuito velhas. Arcaicas, fósseis, inúteis mesmo. Os desenhos animados são diferentes, o timing das coisas é muito rápido.
Lembra dos Strokes? Já foram. Lembra do Hives? Ainda não aconteceu e já passou. Lembra do Megadeth? Acabou. Lembra do U2? Em 1983? Você não era nascido? Mesmo assim lembra? Leu tudo sobre a carreira do grupo? Onde? No site oficial? Tudo bem.

Ficamos presos num lapso de tempo onde os trocadilhos não fazem efeito, as piadas são referenciais, e tudo isso nos fez ficar velhos, de um minuto pro outro. Envelhecemos em achar que Che Guevara era o máximo e que "o mundo ia acabar numa explosão de sal", como dizia Chico Buarque (quem mesmo?). Acabou numa noite mal dormida de sono. E, tontos na manhã seguinte, não percebemos que o tempo passou a correr, o calor aumentou e o bom senso quase sumiu.
"Oh admirável mundo novo, que encerra criaturas tais". Shakespeare (Apaixonado, com a Gwyneth Paltrow?) Pode ser.
Pois então, chegamos a mais um 29 de dezembro. Observando o arquivo do blog, vejo que postei, há exatos 364 dias, um texto otimista sobre 2010, no qual falava de algumas realizações do ano anterior, além do grande sobressalto vivido por conta de problemas de saúde da minha mãe.
Aqui estamos novamente, no mesmo ponto da órbita e quase nada mudou. Dona Helena é forte, mas está internada há um bom tempo, por conta do agravamento de sua condição. É complicado um cotidiano em que idas ao hospital estão incluídas. Quem passou por isso, sabe do que estou falando. 2010 não foi o ano feliz que estávamos esperando por aqui.
A vida é assim, composta por anos bons e ruins. E mornos. São aqueles que parecem ter durado dez dias, nada fica na lembrança. Sendo assim, por menos legal que 2010 tenha sido, ele trouxe lembranças legais para o meu arquivo de imagens, cheiros e sons. Isso não impede a percepção de algumas coisas - que vou tentar listar abaixo - que fazem a gente ter certeza de que o mundo como o conhecemos caminha a passos largos para a hecatombe nuclear, como diria o amigo Sergio Martins. Vamos a elas:

- Tolerância total com erros de Português em todos os lugares.
Sim, antigamente a gente usava o jornal e a televisão como referências para o que estava certo em termos de escrita. Hoje a situação é quase inversa. Nunca vi tantos erros de grafia (não eram equívocos de digitação) e concordância na imprensa e, pior ainda, no cotidiano. Na universidade em que estudo, vi verdadeiros assaltos à gramática - como diria Herbert Viana. "Menas", "seje", "trago" (em vez de "trazido"), um festival de absurdos. Enquanto a humanidade descobre toneladas ou terabites de informação a cada mês, o mundo (pelo menos aqui, mas não imagino que seja diferente nos outros países) esquece como se escreve. Pior que isso: onde estão as pessoas para corrigir esses erros? Dá a sensação aterradora de que houve um apocalipse linguístico e o idioma que você falava/escrevia há pouco tempo, sofreu uma mutação pobre e involutiva. Ninguém corrige ninguém por conta do politicamente correto. Ora pois. Falaremos e escreveremos errado mas seremos todos "cidadões". Beleza.

- Celebridades como Fiuk na crista da onda.
Pelo "crista da onda", dá pra notar que tenho 40 anos, certo? Pois bem, eu já pude ver um monte de celebridades lamentáveis ao longo dos tempos, mas poucas ou nenhuma tão vazia como o filho do Fábio Jr. Veja, há uma teoria minha não publicada, que diz que toda mulher, sem exceção, gosta do Fábio Jr. Se você é mulher e diz "não" para isso, é porque não se conhece totalmente, precisa fazer um soul searching. Mas o Fiuk é de lascar. O que é ele? Líder do Hori, uma dessas bandas emo que embotam o cérebro da nossa juventude. E o que ele pensa? O que ele quer da vida? Quem ele é? Gente como o Fiuk, peruas sertanejas e/ou axezeiras baianas e ex-BBB's fazem a delícia de nossa mídia de fofocas. Todo mundo rico, todo mundo burro, gerando cultura (??) para as nossas massas serem mais e mais manobradas facilmente, com direção hidráulica e câmera no pára-choque traseiro (tem hífen aqui?).

- Meu desinteresse para com a música pop.
Quem me lê sabe que sou um cara que tem má vontade para com o presente da música. E é isso mesmo, eu assumo essa minha faceta "conservadora" e, ao contrário dos clichês e das receitas de bolo jornalísticas, acho que é indispensável ao crítico de música o conhecimento do passado para não cometer enganos na emissão de opinião sobre música pop. Dito isso, é o que mais se vê hoje, equívocos cometidos por jornalistas "especializados" sobre o que se ouve. Tanta burrice já se escreveu que a própria música pop já foi afetada, ou melhor, contaminada. Ou será que a música pop que contaminou a imprensa musical? Não importa. Nunca, nunca mesmo, a produção foi tão horrenda, pobre, pífia. Há, claro, as exceções de praxe, mas que não conseguem mais do que me despertar a lembrança imediata de artistas que as inspiraram (como Bruce Springsteen para o Gaslight Anthem, Beach Boys para o Beach House ou Blind Faith e Led Zeppelin para o Black Keys) ou, pior, a vontade imediata de ouvir os originais e largar os "novos" artistas. Aqui no Brasil, a escassez de boas coisas ou melhor, a abundância de coisas ruins, me deixou reduzido a um grupo muito pequeno de artistas que não recebe um acréscimo há um bom tempo. O autor do melhor disco nacional de 2010, Marcelo Jeneci, já colabora com um monte de gente boa há um bom tempo. Sua estréia em disco só comprovou o que, de alguma maneira inconsciente, já era sabido. No mais, combato o lixão musical atual, seja ele assumido ou incensado pelos formadores de opinião de hoje, com minhas escavações na década de 1970, a mais rica do pop. É um manancial inesgotável de artistas e canções. Estou satisfeito por lá e não pretendo sair, a não ser por obrigação profissional.

- Fechamento da Modern Sound.
A crônica de uma morte anunciada, para fazer minhas as palavras de Gabriel Garcia Marquez. A maior loja de discos da cidade, mal gerenciada há mais de uma década, praticando preços abusivos e irreais, alheia às mudanças no consumo de música, tinha que fechar. O engraçado foi ver a comoção geral das pessoas por conta disso, como se fossem vorazes compradores da loja na atualidade. A Modern Sound perdeu o diferencial positivo há um bom tempo: a novidade. Mesmo que palavras como "tradição" sejam mais usadas para referência a ela, talvez por conta de sua história, a loja já teve a capacidade de oferecer discos importados cerca de uma semana após o lançamento no exterior. Vejam, isso era em 1999/2000. Comprei discos como Summerteeth, do Wilco, na Modern Sound, importado, pouco depois de sair lá fora. Como eles conseguiam isso? Seja o que for, se perdeu ao longo da década 00. Setores como jazz e progressivo (cujos públicos gastam dinheiro com discos e não pretendem parar tão cedo) poderiam ser incentivados e expandidos à medida em que o rock se tornava alvo cada vez maior de downloads na Internet. Qual o quê. Criaram um bistrô para consumo de lanchinhos pequeno-burgueses e shows de MPB (esses sim, que valiam a pena) e foram deixando os discos de lado. Poderiam ter incrementado o setor de DVD's, poderiam ter feito um site legal na Grande Rede para levar o nome da loja para o além-mar, poderiam ter baixado os preços, feito promoções, queimões de natal, ano novo, sei lá, mas nada fizeram. Ficaram vendo a banda passar e cobrando cerca de 35 reais por um disco feito no Brasil. Lamento por conta de amigos que trabalhavam na loja e pelo fato de, mesmo não sendo competitiva ou atrativa hoje em dia, a Modern Sound não existir mais. Até a incluí como uma das paisagens cariocas visitadas em meu romance "Vestido de Flor", escrito em 2006, no qual o personagem principal adentra a loja para comprar um exemplar do Clube da Esquina. Pena.

Ainda sobre o fechamento de lojas de disco: estava eu outro dia na Tracks, voluntariosa lojinha situada na Gávea e participei do que há de melhor em ambientes como esse: conversa sobre música. Discutiu-se qual o melhor disco do Bruce Springsteen, falou-se sobre lançamentos ingleses de caixas com cinco CD's a preço de banana (sério, 9 libras por cinco discos de bandas como Earth Wind And Fire, Bread, Isley Brothers ou artistas como Donny Hathaway ou Aretha Franklin é quase uma pechincha) e eu saí de lá com a alma lavada. Talvez a pior perda para os compradores de disco seja representada pelo fim desses ambientes de conversa sobre música. A internet, por mais que congregue, aglutine, facilite e proporcione, não é suficiente ou substituta do in loco. Pena, novamente.
Bem, chega de mau humor, né? Que 2011 seja muito mais legal que esse 2010, que se salvou pela UFF e pela presença inquebrantável da minha família ao meu lado.
Beijos pra todos, nos vemos na semana que vem.
CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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