
Há um bom tempo que eu não vejo um ano musical começar tão bem. Janeiro ainda não terminou e uma boa quantidade de discos lançados ou em vias de lançamento já livra a cara desse 2010. O panorama que 2009 sugeria era de uma estiagem criativa prolongada, talvez causada pela já tradicional mudança de padrões estéticos ou comportamentais que as décadas trazem. Só que 2009 não trouxe nada de novo, apenas aquelas novidades de praxe; novos celulares, novos notebooks, velhas notícias sobre coisas supostamente inéditas. Mais do mesmo, quer dizer.
Na música pop a coisa parecia caminhar na mesma direção. A indústria cultural ainda não encontrou quem possa substituir os Strokes numa suposta cabeça de ponte do "novo" rumo ao bolso e à mente da gurizada, que está cada vez mais desinformada, imersa na realidade efêmera provida pela música no computador ou, do outro lado da moeda, restrita apenas ao que toca na rádio, na novela ou na micareta/rave/baile funk habitual.
Esqueça esse panorama estéril. O ano já começou e traz trilha sonora diversificada e, sobretudo, boa. Sade, sim, ela mesma, retorna ao disco após 10 anos, com um inesperado álbum chamado Soldier Of Love. A cantora nigeriana e sua banda estão por aí desde 1984, quando lançaram seu primeiro disco, Diamond Life. O som que eles trazem 26 anos depois ainda é classudo, cool ou de bom gosto. Mais que isso: a música é moderna, totalmente século XXI, urbana, com arranjos que tangenciam o que o trip-hop tinha de mais aprazível, com cordas, metais, bateria e baixo sinuosos e pontuais presenças de guitarras ambientes. Os singles "Skin" e "Soldier Of Love" já estão pela rede e dão uma bela amostra do que Sade oferece.
O termo "trip-hop" não existiria se não fosse pelo Massive Attack. O grupo de estranhas criaturas de Bristol, Inglaterra, também está de volta nesse começo de ano, encerrando uma espera um pouco menor que a de Sade: sete anos. Heligoland é o quinto disco de material inédito do grupo, descontanto Collected (2006, um caprichado best of), Vs. Mad Professor (1995, na verdade um disco do jamaicano Mad Professor, no qual ele remexe em canções de Protection, que o Massive Attack lançara no mesmo ano) e Danny The Dog, trilha sonora meia-boca que eles fizeram para um filme com Jet Li. Sendo assim, Heligoland é o sucessor legítimo de 100th Window, lançado em 2003 e marca a volta de um dos sócios fundadores do Massive, Daddy G, que deixara a banda no início dos anos 2000. Com um time de convidados que vai de Damon Albarn (do Blur) a Horace Andy (velho cantor de reggae, habitué dos discos da banda), passando por Guy Garvey (vocalista do Elbow), Hope Sandoval, Tunde Adebimpe (do TV On The Radio) e Martina Topley-Bird, a própria "voz" do trip-hop, Heligoland já antecipava emoções desde o lançamento do single "Splitting The Atom", no fim de 2009. Essa canção e outras, como "Psyche", "Babel" e "Atlas Air" colocam o nome do Massive Attack de volta à ordem do dia.

Corinne Bailey Rae também debruçou-se sobre o cânon do trip-hop, deixando um pouco de seu approach jazzy ensolarado pra lá. Seu segundo disco, The Sea, vem para tentar repetir o sucesso de sua estréia, que emplacou hits como "Put Your Recods On" ou "Like A Star" no inconsciente coletivo de todos que resolveram descobrir o quanto cantoras de pop-soul-jazz podem ser legais, belas e apreciáveis, a reboque do sucesso que Joss Stone obteve no início da década. Corinne foi uma das que vieram em seguida, mas conseguiu imprimir personalidade. Seu registro lembra o de Skye Edwards, ex-vocalista do Morcheeba (formação inglesa noventista de trip-hop), que se aventurou em carreira solo e desapareceu na poeira dessa estrada triste. The Sea é etéreo, mais sutil e sombrio que seu antecessor e aponta para novas direções sem que algo do frescor vocal de Corinne se mantenha intacto.

O nome Fyfe Dangerfield te diz alguma coisa? Sim, ele mesmo, o vocalista do Guillemots. A banda não acabou, mas Fyfe lançou um disco disco solo que é extremamente superior a tudo que já fez antes. Se o som do Guillemots trazia um certo frescor pop a la Tears For Fears ou New Radicals, principalmente em sua estréia, Through The Windown Pane (2005), Fyfe ampliou essa idéia em seu supimpa Fly Yellow Moon. São dez canções, gravadas em cinco dias, cheias de ganchos pop, nas quais o piano é o instrumento que se sobressai. Dizer apenas isso do disco seria cometer uma brutal injustiça. Fyfe vai buscar inspiração em gente como Elton John e David Bowie para construir um painel sonoro que pode ser triste (como em "Barricades", um baladão ao piano), pungente (como em "High On The Tide", que lembra "This Is The Sea" dos Waterboys em espírito) e, sobretudo, alegre, como no single "She Needs Me", que mistura levada disco com cordas sintetizadas, num clima desajeitado de baile de branco. Sensacional é pouco.

Josh Rouse também está de volta. Diretamente de seu idílico rincão no antigo Al Andaluz, mais precisamente em Valencia, sul da Espanha, Josh resolveu se arriscar e gravar metade das canções de El Turista no idioma de seu novo país. Nada errado nisso, o rapaz tem a manha. O grande trunfo desse novo trabalho é a evolução musical que ele traz. Josh está bem longe do rapaz alt-country que surgiu no fim dos anos 90 e igualmente distante do meticuloso compositor pop de discos como Under The Cold Blue Stars (2002) ou 1972 (2004). Seu som hoje é uma mescla inextrincável de pop, jazz, levadas latinas de Paul Simon em 1971, trilhas de Vince Guaraldi para desenhos do Charlie Brown e melodias forjadas na escola Paddy McAloon de música, da qual também é aluno o aplicadíssimo norueguês Sondre Lerche. Josh Rouse é um pequeno e desenvolto mestre do pop, o qual muitos chamariam de retrô, mas que traz tamanha sutileza e delicadeza em suas composições atuais que chega a embaralhar a mente de quem tem uma visão restrita da música. El Turista deixa discos maravilhosos de Rouse como Subtitulo ou Nashville a léguas de distância em termos de sofisticação.

Chegando com a raspa do tacho, temos Ringo Starr e Peter Gabriel. O novo trabalho de Ringo, Y Not, que traz a participação de Paul McCartney e parcerias com Van Dyke Parks, não faz feio, pelo contrário. É mais um disco de Ringo contemplando sua idade e seu passado beatle, tudo pelo filtro pessoal-sentimental do ex-beatle brincalhão e simpático. Como se fosse uma espécie inglesa e bem menos rígida de um Clint Eastwood musical, Richard Starkey dá seqüência à temática de Liverpool 8, seu trabalho anterior e, mais que isso, reafirma um raro período prolífico em termos de composição e assunto, algo que ele nunca experimentou. Peter Gabriel, quem diria, um homem acima de qualquer suspeita, escorregou feio em seu Scratch My Back, um disco de covers interpretadas com orquestra e produção do experiente Bob Ezrin (Pink Floyd e Alice Cooper, entre outros). Com um repertório que traz desde "Heroes" (David Bowie e Brian Eno), "The Boy In The Bubble" (Paul Simon safra Graceland 1986), "Philadelphia (Neil Young) e não tem vergonha de homenagear novos grupos como Bon Iver ("Flume), Arcade Fire ("My Body Is A Cage") ou Elbow ("Mirrorball). O problema é que não há qualquer distinção entre os arranjos, poucas vezes uma orquestra foi tão subaproveitada numa gravação, deixando o registro vocal de Gabriel perdido no meio de um instrumental soturno e banal. Pena, pois discos de Peter Gabriel são eventos raros, o trabalho anterior dele, Up, veio à luz em 2002.


O telefone tocou no meio da década de 1990. Meu amigo Léo Salomão me ligava para falar do Blur. Se a memória não falha, eu falava de Counting Crows, mais precisamente de "Mr. Jones', a canção que tornou a banda de Adam Duritz conhecida naqueles tempos.
Nada demais, eu e Léo estávamos resenhando discos num caderno - lembre-se, era o meio da década passada, computadores ainda eram bem raros - e já contávamos com um bom acervo. Eu faria a resenha dos Counting Crows, ele escreveria sobre o novo disco do Blur, Parklife. Léo estava entusiasmado e me disse ao telefone:
- Ouve essa música aqui, você vai gostar. Ele colocou o telefone na saída do som no Grajaú e eu ouvi os acordes beatlemaníacos de "End Of A Century" em Copacabana. Realmente, uma bela canção.
O Blur é um dos caminhos mais fáceis para a Uerj 1994/95. Lembro de um monte de coisas e sinto falta de várias pessoas. Este texto, porém, não pretende ser nostálgico dessa forma, principalmente porque quero falar do presente, mais precisamente do lançamento hoje do filme No Distance Left To Run, que conta a história do Blur desde sua formação na virada da década de 1980/90 até o meio do ano passado, quando a banda londrina lotou o Hyde Park nos dias 2 e 3 de julho com dois shows antológicos, que iniciaram uma turnê de reunião. O filme será lançado depois em formato de DVD duplo. Posso dizer que tenho uma história com o Blur. Não só por pequenos fatos como o diálogo com Léo no telefone, a vigília pela chegada do sucessor de Parklife (The Great Escape) no balcão da extinta Spider, em Ipanema ou mesmo pela aquisição do segundo disco da banda, Modern Life Is Rubbish com vales-refeição num camelô da rua Pedro Lessa, no Centro do Rio, numa tarde qualquer do mesmo meio de década de 1990.

Uma pequena digressão se faz necessária: engraçado como somos compelidos a sentir nostalgia e nossa memória seletiva se encarrega de nos livrar do mal, amém. A década de 1990 será lembrada como o momento em que a faceta mais cruel do capitalismo deu as caras no mundo, após conquistas obtidas desde a década de 1950. O chamado "estado de bem-estar" era engolido pelas linhas de montagem do Sudeste Asiático, pela Guerra da Bósnia, pela falsa globalização, pela opressão da liberdade de opinião, pela chegada do "politicamente correto" e do pensamento único. Tudo que eu lembro é dos backing vocals de "End Of A Century" e de seu simpático verso "and your mind gets dirty as you get closer to thirty". Ok, voltemos ao Blur.
A banda lança, além do filme e sua versão posterior em DVD, dois discos duplos, contendo a íntegra dos shows no Hyde Park. Aqui no Brasil só teremos o lançamento do volume dedicado ao dia 02 de julho. Na Inglaterra há a chance de adquirir os dois discos como um eficaz souvenir do evento, principalmente porque o Blur teve seu melhor momento em 1993-97. Mesmo que Damon Albarn, Grahan Coxon, Alex James e James Rowntree ainda sejam capazes de entreter uma platéia gigantesca, a magia, como se diz por aí, se perdeu.

O período em que o Blur era o rei da cocada preta corresponde ao surgimento do Britpop, levado adiante pelo próprio quarteto. A história nos mostra que a Inglaterra foi dominada pelo grunge até que o segundo disco do Blur trouxe de volta o orgulho de cantar com sotaque cockney, de meter o cacete na Rainha, falar mal do governo e destilar humor negro em toda circunstância possível. Mais: trouxe de volta a vontade de revisitar Beatles e Stones, dar um alô para o Who, redescobrir o Kinks e tirar a poeira dos velhos discos do Small Faces. Isso, sob uma visão novinha e antenada com o mundo noventista, foi o Britpop, o segundo "movimento" numa década que ainda traria o estouro do techno quase simultaneamente à tomada da Ilha pelas novas bandas surgidas a partir daí e por gente que já batalhava nos clubinhos e buracos pestilentos atrás de alguma coisa. Vieram Charlatans, Ride, Cast, Bluetones, Pulp, Primal Scream, Radiohead e, claro, Oasis e Blur.
Modern Life Is Rubbish (1993), Parklife (1994), The Great Escape (1995) e Blur (1997) estariam numa suposta lista de 20 trabalhos mais importantes do Britpop e não seria nenhum exagero colocá-los em tamanho grau de importância. Tanto o primeiro disco da banda - Leisure (1991) - como os subsequentes ao quarteto dourado, 13 (1999) e Think Tank (2003) são menos interessantes e servem apenas para completistas caçadores de obscuridades. Melhor negócio é adquirir uma das coletâneas, Best Of Blur ou Midlife - A Beginner's Guide To Blur e buscar as canções que se salvam destes discos, como "There's No Other Way", "She's So High", "Coffee And TV" ou "Tender".
Os shows do Hyde Park me fazem refletir sobre a passagem do tempo. Façamos as contas sobre um detalhe em particular. Damon Albarn, o vocalista e rosto da banda, nasceu em 1968 e gravou "End Of A Century" em 1994. O tal versinho mencionado no início do texto reflete sobre a chegada da meia-idade, aquela época nebulosa da qual nos apercebemos quando ela já chegou em nossas vidas. Albarn e sua idéia de que as "mentes ficam mais pervertidas quando chegamos mais perto dos trinta" fazia sentido nos seus 26 anos de idade. O que teria ele pensado ao cantar a mesma canção para milhares de londrinos em pleno verão no Hemisfério Norte 15 anos depois, aos 41 anos? Nunca é demais lembrar que Damon participou do Gorillaz desde 2000, emprestou seu vocal anasalado e arrastado para várias canções do grupo "virtual" bem como no posterior combo The Good, The Bad And The Queen e sempre buscou caminhos distintos do roteiro de banda criada em escola de arte que o Blur possui. Portanto, a ironia de antanho teria se transformado numa discreta e melancólica crônica de que o tempo passa, nos leva embora e nos traz de volta completamente modificados? Ou isso é neura de quem leva a música pop muito a sério?

O que importa é que o Blur lança no mercado uma dose maciça de nostalgia de bom gosto, que vai fazer as pessoas pessoas. As que estão "closer to forty", como eu, especialmente se deleitarão, apesar das reflexões sobre o tempo insistirem em dar as caras.

Há algum tempo venho me preparando para algo terrível: a probabilidade cada vez maior de meus ídolos falecerem gradativamente, à medida que o tempo vai passando. McCartney, Ringo, Pete Townsend, Van Morrison, Keith Richards, David Gilmour, Robert Plant, Jimmy Page, entre outros, estão adentrando os 70 anos de idade. Claro, mesmo que vivam muito e com saúde, as turnês vão rareando, a inspiração vai acabando e, mesmo que a gente saiba que a obra de todos eles - e muitos outros que se foram - são eternas até que se prove o contrário, a idéia de saber que eles não estão mais vivos, andando por aí me aflige. Talvez isso aconteça porque seja mais uma evidência de que o tempo vai passando mesmo que a gente não perceba sempre.
Com Teddy Pendergrass não foi assim. O homem faleceu ontem, vítima de câncer no intestino. Teddy faria 60 anos em março. Esse nativo da Filadélfia, amigos e amigas, foi um dos gigantes da soul music e responsável por algumas das mais belas gravações do chamado "philly soul". Teddy começou como integrante dos Blue Notes, grupo de doo-wop liderado por Harold Melvin. Pouco tempo depois, Melvin desfez o grupo e fundou o Harold Melvin And The Bluenotes, com Teddy dividindo os vocais com ele. Assinaram contrato com a Philadelphia International e deram início a uma das mais sólidas carreiras do início dos anos 70, quando a soul music se deparava com grandes mudanças sociais e estéticas, indo desde a adoção de discursos pacifistas (como feito por Marvin Gaye em 1971, através de seu sublime What's Going On) passando pela incorporação definitiva dos elementos psicodélicos nas produções de Norman Whitfield para os Temptations e no aparecimento de grupos como o Funkadelic de George Clinton e Eddie Hazel e no sucesso de discos como Stand e There's A Riot Going On, de Sly And The Family Stone.

O chamado "philly soul" modificou a forma de se fazer black music. A adoção de algumas levadas do jazz e a incorporação de grooves mais rápidos e classudos, concebida por gente sublime como Kenny Gamble e Leon Huff, desembocaria na disco music mais tarde. Os Bluenotes de Melvin foram cravando hits nas paradas americanas sucessivamente. Lindas músicas como "If You Don't Know Me By Now", "The Love I Lost", "I Miss You", entre outras, a maioria delas com os vocais de Teddy Pendergrass.
Sentindo-se desprestigiado, Teddy iniciaria uma sólida carreira a partir de 1976, lançando seu primeiro disco solo no ano seguinte. Os hits vieram naturalmente e canções como "The More I Get the More I Want" "Close the Door" "I Don't Love You Anymore", "Love TKO" e "Turn Off the Lights" chegaram ao primeiro lugar da parada de r&b americana.
Em 1982 Teddy sofreria um acidente automobilístico. Seu Rolls-Royce perdeu os freios e atingiu uma árvore em cheio. Após 45 minutos preso nas ferragens, Teddy perdeu os movimentos das pernas. Ainda assim ele apareceria ao vivo no Live Aid em 1985, cantando numa cadeira de rodas. Mesmo que sua voz tenha se mantido intacta, a carreira de Teddy nunca mais foi a mesma e ele gravaria cada vez menos, sobretudo nos anos 90, aposentando-se definitivamente em 2006.
A morte de Pendergrass é uma pequena tragédia para os amantes da soul music. Mesmo que muitos especialistas no gênero consigam enxergar virtudes no trabalho de novos artistas de soul como Erikah Badu, Mary J. Blige ou Alicia Keys, na minha modesta opinião, o charme e a alma estão na Velha Guarda. Mesmo assim, Teddy ainda era um jovem senhor e deixa um legado inestimável para a soul music. Se você não conhece o homem, corra atrás de discos como Teddy Pendergrass (1977), Life Is A Song Worth Singing (1978), TP (1980) e de uma boa coletânea dos singles de Harold Melvin And The Bluenotes. As altas esferas agradecem.

Não se enganem: todo mundo que se arroga a escrever sobre música pop tem vários podres ocultos. São eles - os podres - que fazem dos críticos musicais seres humanos e não aquelas criaturas irreais que as pessoas tanto amam odiar. Pois bem, estava eu ouvindo outro dia a nova canção da Wanessa Camargo, "Fly", que conta com a participação do rapper fanfarrão Ja Rule. Eu pouco entendo sobre o rap cafetão de Snoop Dogg e congêneres (entre eles o próprio Rule) e não vou me deter buscado explicações para as mansões hollywoodianas que esses caras possuem, todas com torneiras de ouro, quadra de tênis, piscinas olímpicas climatizadas e frotas de Ferraris, Lamborghinis e BMW's nas garagens.
O que sei é que Wanessa deve ter realizado um velho sonho de infância. Ela, uma menina paulista oriunda das classes mais humildes do povo brasileiro, mas que teve a sorte de nascer numa família que enriqueceu graças ao sucesso de seu pai, Zezé Di Camargo, deve tudo o que "Fly" possui ao caminho que Mariah Carey pavimentou na década de 1990. Não só ela mas as Beyoncés, Rihannas e demais "divas" cantantes dos anos 00 devem tudo à Mariah Carey. Seja isso bom ou ruim.
E você deve estar se perguntando: o que eu tenho a ver com isso? Eu detesto Mariah Carey, odeio Wanessa Camargo e quero mais é saber dos novos lançamentos do Massive Attack (Heligoland, que sai em fevereiro) ou do Josh Rouse (El Turista, cantado em espanhol, que também sai no mês que vem) e fica esse sujeito escrevendo sobre essas broacas. Certo, certo, vamos às explicações. "Fly", de Wanessa e Ja Rule é uma boa canção, acredite. Deve ter custado caro chamar o rapper americano para colocar voz e "versos" na música de uma cantorinha tupiniquim, mas Wanessa não faz feio e coloca sua voz treinada na escola Mariah de trinados fininhos e quase-irritantes a serviço de uma batida moderna e de uma produção simpática, o que faz de "Fly" um bom exemplo do que qualquer cantorinha poderia fazer se tivesse a idade de Wanessa. Aliás, a filha do Zezé canta em perfeito inglês, fruto de seu tempo vivido na Flórida, USA. Até incluí "Fly" no meu top ten de canções de 2009. Acredite, por mais brega ou podres que eu possa ser/ter, isso não aconteceria facilmente.

Mas é de Mariah que quero falar. Eu gostava dela nos anos 90, principalmente no quesito estético. Filha de uma cantora de ópera irlandesa e de um engenheiro aeronáutico afro-venezuelano, Mariah é um remix de etnias e batia um bolão quando ostentava seu cabelo cacheado e um belo rostinho suburbano na década passada. Confesso que fiquei definitivamente encantado pela menina quando ela apareceu em 1993 cantando "Dreamlover", uma cançoneta animadinha, algo que era raro em sua carreira até então. O disco que trazia a canção, Music Box, era uma tentativa de Mariah diversificar seu espectro sonoro, uma vez que toda e qualquer aparição sua pré-1993 era cantando baladas derramadas como "Emotions" ou a cover de "I'll Be There", que alavancaram sua carreira em nível mundial. Não seria maldade dizer que o envolvimento amoroso dela com Tommy Mottola, executivo da Sony, contribuiu bastante para esse sucesso.
A idéia de Mottola era colocar Carey como uma menina americana ingênua e romântica, uma imagem que começou a mudar a partir de Music Box, deixando de ser quase solene e anacrônica para um estereótipo mais condizente com os anos 90. O clipe de "Dreamlover" traz Mariah num jardim, cantando e dançando com bailarinos street dance enquanto ela abusa das poses de menininha gatinha esperando que o novo namorado seja seu "amante dos sonhos". OK, é brega, eu sei.
Daydream (1995), o disco seguinte, trouxe outra canção bem legal: "Fantasy". Mesmo que toda a sua base seja surrupiada de "Genius Of Love", do Tom Tom Club, a voz de Mariah plana soberana diante da cama de beats pré-gravados. Ela aparece de patins no clipe, rolando num pier e depois com mais bailarinos street dance em meio a carrões tunados e demais símbolos americanos de felicidade material e realização adolescente. Com o fim do casório em 1997, Mariah soltou gradativamente sua franga e já apareceria mais sensual em "Honey", primeira canção de seu sexto disco, Butterfly.
Interessante notar que ela tornar-se-ia cada vez menos atraente, deixando seu canto de cisne (para mim, pelo menos) com "Heartbreaker", de 1999, faixa do trabalho posterior, Rainbow. Parece que Mottola, vinte anos mais velho e certamente um velhaco possessivo, colocava a moçoila na rédea curta e a obrigava a posar de ingênua mas essa engrenagem comportamental-mercadológica me cativava. Eu via Mariah passeando de partins e rindo na roda gigante e pensava: "poxa, eu queria ter uma garota assim". Presa fácil da máquina cultural-industrial que rege nosso mundo e que se consolidou definitivamente a partir da década de 1990.
Mariah hoje é uma versão flácida da Jessica Rabbit, meio maluca e já batendo na porta dos 40 anos espremida em vestidos tubinho curtíssimos. Em 1993, dançando pelo campo ao som de "Dreamlover" ou patinando no ritmo de "Fantasy", era uma gatinha encantadora. Como já dizia Nei Lisboa, "o tempo não tem dó de quem disfarça".

Em meio a tantas listas de melhores e piores discos e filmes de hoje, ontem e sempre, decidi dividir com vocês dois fatos que dominaram meu 2009 como se disputassem um cabo de guerra emocional. Mesmo que blogs sejam, em essência, diários pessoais expostos para o mundo, toda a contradição desse conceito não me impede de comentar esses eventos - extremamente pessoais - que me fizeram ver o mundo de forma mais ou menos diferente. Sei que isso faz parte da vida - no caso, ver o mundo com outros olhos à medida que o tempo passa - mas raramente nos damos conta do processo acontecendo. Chega de lenga-lenga e vamos aos assuntos.
Primeiramente o pior possível: quase perdi minha mãe no início deste ano. Para os filhos únicos, criados pela mãe e avós maternos, todos se desdobrando para preencher a figura paterna ausente, não ter sua mãe por perto é uma idéia perturbadora. E não se trata de qualquer fixação freudiana banal. Perdi avô e avó há tempos e ambos me fazem muita falta. Perdi uma segunda mãe muito querida e importante para mim em 2003. Por mais que minha esposa seja maravilhosa e presente em minha vida, esses espaços não podem e nem devem ser preenchidos por ela. São ausências que todo mundo tem que ter em suas vidas para - sim, ver o mundo de forma diferente. Quando precisei levar minha mãe para o Copa D'Or em 21/12/08 às pressas, tive medo de receber alguma ligação fatal pelo celular. Isso, no entanto, graças aos céus, nunca aconteceu.
Vítima de complicação respiratória séria, minha mãe permaneceu internada por 3 meses num vai e vem compreendendo quarto, UTI e unidade semiintensiva. Quando saiu de lá, tudo havia mudado. A distância entre a casa dela, em Copacabana, e a minha, em Niterói, não comportava mais a realidade dos fatos. Precisava de cuidados o tempo todo, fisioterapia, minha presença constante, enfim, ela precisava morar perto de mim e hoje está a cinco minutos de distância. É uma felicidade desejar feliz aniversário para minha mãe depois de tudo o que passou. E eu fiz isso no último dia 13 de dezembro, ainda que ela teime em detestar aniversários e se achar muito velha aos 71 anos de idade. Não importa, a sobrevida que conseguimos dar à ela garante um pouco de fôlego para quando, inevitavelmente, a vida seguir seu rumo natural. Aí, quem sabe escrevo um novo post por aqui sobre esse assunto. Por enquanto, o que era tristeza se transformou em uma forma distinta de felicidade, talvez sentida quando alguém volta da guerra ou algo assim. Confesso que ainda não havia experimentado tal emoção ao ver a Dona Helena sã e salva por aí.
O outro evento marcante de 2009 é extremamente feliz e trouxe, como diz a música, uma promessa de vida pro meu coração. Não, o sentido não é esse que você pode estar pensando, uma vez que meu coração desconhece outra senhora que não seja a que já habita grande parte de sua área construída. A promessa está na minha total realização em cursar a faculdade de História da Universidade Federal Fluminense.
Eu deveria ter feito isso em 1988, quando prestei meu primeiro vestibular. Precisei de 22 anos para ser fiel ao que mais gostava no colégio: História. Eu era bom aluno, meu professor Mauro Paixão me chamava ao quadro negro para continuar suas aulas no terceiro ano do segundo grau e isso não era motivo de vergonha ou desconforto para a turma. Era natural que eu escolhesse História para ser minha carreira, dar aulas, pesquisar, lecionar em universidades, enfim, abraçar a profissão de historiador. Que nada. Fiz oito períodos de Direito e concluí Jornalismo e sempre me perguntei por que não escolhi o que me era mais querido desde muito tempo. A coragem veio há pouco mais de um ano quando conversei com meu enteado Gabriel sobre uma matéria a ser estudada por ele para uma prova. Me surpreendi com minha explicação e com a facilidade que mencionei eventos históricos que havia estudado 20 anos antes e nunca mais depois disso. Pesquisei as formas de ingresso e vi que havia perdido a prova de aproveitamento de estudos para a UFF. Decidi então prestar o vestibular e passei para o segundo semestre de 2009. Perfeito. Se passasse para o primeiro, haveria um conflito irreversível com o primeiro evento desse post e não sei se poderia concatenar situações tão distintas.
Ao entrar em uma universidade aos 39 anos você percebe que há boas chances de ser o mais velho da turma e que a maioria dos professores. Vai enfrentar circunstâncias supostamente embaraçosas ao se enturmar com pessoas com vinte anos a menos que você e pressente que será uma daquelas figuras apagadas que sentarão na última fila e contemplarão as aulas burocraticamente. Que nada. O primeiro período - que se encerrou há uns quinze dias - me trouxe de volta uma forma juvenil de felicidade e de joie de vivre, ou seja, alegria de viver. Adotei e fui adotado por um grupo maravilhoso de pessoas, meus novos amigos para toda a vida, que não se sentem desconfortáveis em dividir textos e estudos para provas e trabalhos. Eles também não se sentem ao lado de um cara muito mais velho, mesmo porque rejuvenesci em sua presença e, talvez escaldado pelos eventos recentes da minha vida, percebi que há tempo pra tudo, até para uma nova formatura, um novo campo de trabalho, uma nova vida pra todos nós. E os excelentes professores que tive nesse primeiro período me deram uma lição mais importante que seus preciosos conhecimentos: que é possível renovar sua fé no ensino e ver a universidade como ambiente para formar profissionais preocupados com a sociedade e o mundo. É o que eu espero.
Deixo vocês com esse post sincero até demais e desejo a todos um 2010 marcante, cheio de coisas pra se lembrar. Meu 2009, que parecia ser cinzento e terrível, se encerra leve e pródigo em alegrias, que eu desejo em dobro para todo mundo.
Feliz 2010!

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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