Strokes, Radiohead, Justin Timberlake, Madonna, Arctic Monkeys, Killers, White Stripes, Raconteurs...Gosta desses artistas? Acha que eles fizeram alguns dos melhores álbuns dos últimos 10, 11 anos? Bem, a lista que está no forno e deve ser postada no fim do mês de outubro vai te mostrar novas e diferentes possibilidades.
Fique ligado, você não vai se decepcionar. Ou vai.
Este blog volta no fim de outubro, até lá, gozarei de merecidas férias.

Desde que surgiu em 1997, o Muse sempre foi alvo de comparações. No início da carreira, quando produziu os dois primeiros discos, Showbiz e Origin Of Symmetry, a banda era uma espécie de Radiohead mais pop. A partir do terceiro trabalho, Absolution, o trio incorporou elementos de rock setentista que estavam em desuso na ordem do dia. Absolution, lançado em 2003, era coalhado de detalhes progressivos e nuances de hard-glam rock, levando o Muse a ser comparado com grupos como Queen.
O sucesso alcançado nesse terceiro disco levou a banda a Black Holes And Revelations, o quarto trabalho, no qual esses insights setentistas deixaram de ocupar o segundo plano para incorporarem-se definitivamente ao som da banda. Agora, ao lançar seu quinto disco de inéditas - descontando o registro ao vivo de HAARP - o trio comandado pelo multi-tarefas Matt Bellamy - que canta e toca piano como se fosse um Freddie Mercury e concebe melodias na guitarra que fariam frente ao trabalho de Brian May - atingiu o seu ápice. The Resistance é um disco monstruoso, enorme, acachapante, apesar de não ter um só elemento original em seu arcabouço.
A ambiência é totalmente diferente do que qualquer banda de rock está fazendo hoje em dia. O Muse não hesita em optar pelo exagero e descartar a estética punk requentada de "menos é mais", empreendida por gente como, digamos, o Arctic Monkeys. The Resistance é um mosaico de sons, citações, influências melodramáticas, afetações glam, tudo empacotado num formato de ópera-rock, como não se via há um bom tempo.
Ao contrário de bandas que enveredam pela seara dos sons grandiosos e "progressivos", mas que procuram camuflar ou repaginar o estilo - como Mars Volta ou Porcupine Tree - o Muse abraça a solenidade, a pompa e a mitologia do disco conceitual, do exagero e se sai muito, muito bem. The Resistance tem cara de filme B de sci-fi, daqueles em que a sociedade é ditatorial, o governo é onipresente, o mundo é cinza, mas há alguém, um homem que se insurge e luta contra a opressão. Ou, talvez, o governo é aparentemente justo, o mundo é colorido - mas falso - e alguém, um homem, se insurge para desmascarar a armação. Você pode imaginar o que quiser, a música é feita como se o rock ainda estivesse em seus tempos ingênuos em que gerava mitos e acreditava nos maniqueísmos de "bom e mau" ou "certo e errado" para refletir a sociedade.
Como o rock é, a exemplo de toda arte, essencialmente, produto da realidade que a produz, o Muse quer mostrar uma mensagem bastante interessante: não há uniformidade, ao contrário do que pode parecer. As bandas de rock bem sucedidas não precisam se render ao formato "divulgação na internet-guitarras chupadas dos Strokes" para existir e obter sucesso de público e crítica.

A abertura de The Resistance, com o single "Uprising", mostra que a possibilidade de fundir glam rock e technopop de grupos como Depeche Mode é elemento essencial para a banda. A levada sinuosa e dançante aponta para danças extra-terrestres num happy hour na cantina de Star Wars. A faixa-título, logo em seguida, já mostra que o clima mudou e pianos de europop oitentista emolduram o canto derramado de Bellamy numa levada que poderia ser classificada como uma fusão de Pet Shop Boys e Queen. "Undisclosed Desires", a terceira faixa, é uma abdução das batidas de um Timbaland para o mundo de Admirável Mundo Novo. A produção - a cargo da banda - amplia o tom de "Supermassive Black Hole" (faixa do disco anterior) e confirma a pista de dança como uma das muitas influências do Muse. "United States Of Eurasia" vem em seguida e desmancha as luzes da dança num tema obliterado de totalitarismo a la 1984, com citações explícitas ao Queen (que já experimentou tema semelhante em "Radio Ga-Ga"), sejam vocais ou guitarrísticas. Ao fim da canção, o Noturno de Chopin é tocado por Bellamy ao piano, em meio a efeitos especiais estranhos. "Guiding Light" dá continuidade à grandiosidade, dessa vez com instrumental baladeiro dos anos 80 e vocais se equilibrando entre o sentimento verdadeiro e a canastrice. O disco mergulha novamente no hard rock sinfônico em "Unnatural Selection" e segue assim pela faixa seguinte, "MK Ultra", para desaguar numa canção "piano driven", com batidas alegres, que poderiam ser um lado B esquecido de Let's Dance, de David Bowie. "I Belong To You", no entanto, é assaltada pela dramaticidade de um cabaret espacial e, em meio a clarinetes e oboés sintetizados, se transforma em "Mon Coeur S'Ouvre A Ta Voix".
As três últimas faixas de The Resistance formam uma suite progressiva clássica, com o sintomático nome de "Exogenesis Symphony", dividida em "Part I: Overture", "Part II: Cross Polinnation" e "Part III: Redemption", todas cheias de pianos apocalípticos, mitologia de heróis e ambiência de novelas de ficção científica.
Resumindo a ópera (rock): o Muse fez não só o seu melhor disco, como foi capaz de reafirmar sua capacidade de se valer de referências malditas e/ou ridicularizadas e torná-las verdadeiras novamente, sem parecer irônico ou blasé.
Num mundo em que as pessoas não têm quase noção de arte ou capacidade para desvincular a novidade da cronologia, entrar no clima de The Resistence é um convite para uma bela imersão num escapismo que parecia sepultado pelo pragmatismo e pelo politicamente correto. Bravo.

Eu nunca tive uma aula de música no colégio. Lembro de ter algo no gênero quando estava no maternal ou no CA, não sei ao certo. A partir de 1977, no entanto, eu não tive uma aula de música sequer. E eu acho que deveria ser obrigatório aprender música nas escolas do mundo, não só pela oportunidade de manter contato com uma forma tão bela de arte como pelo aspecto educacional, de nos dar mais e mais elementos para formarmos nossa personalidade e caráter. Certo? Sim.
Essa conversa sobre as aulas de música não surgiu do nada. Dois fatores recentes me levaram a essa consideração. A exibição de Mr.Holland - Adorável Professor há uns dias me levou novamente às lágrimas, dessa vez acompanhado por Maria, minha esposa, que nunca vira o filme com a atenção devida. Se você nunca viu, a história é mais ou menos essa: Richard Dreyfuss (que foi indicado ao Oscar pelo papel) é Glenn Holland, um compositor americano, fã de jazz e Beatles, que é obrigado a trabalhar como professor de música na América dos anos 60. Ele não lida bem com a idéia, pois, em sua visão, ensinar música seria um trabalho menos nobre do que compor sinfonias. Aliás, Holland passa o filme todo rascunhando uma tal de American Symphony, na qual pretende misturar tudo o que gosta de ouvir.

Com o passar do tempo, Holland percebe que pode influenciar as pessoas positivamente através da docência, ele começa a gostar de seu trabalho, dedicando-se mais e mais. Até que chegam os anos 90, pragmáticos, frios e práticos, que levam o filme ao desfecho que não contarei aqui. Recomendo totalmente uma sessão de Mr.Holland em família, com a pessoa amada ou sozinho, para uma boa reflexão sobre um monte de coisas. Dê o desconto para o tique americano de provocar lágrimas e para a roupagem essencialmente ianque com que a trama é revestida. A música fala mais alto o tempo todo.

O outro fator que me levou a querer aulas de música nas escolas foi o disco Innocence And Despair - The Langley Schools Music Project.
Imagine que você é um audiófilo qualquer que entra numa loja de Hoboken, Nova Jersey, atrás de alguma raridade e topa com um LP de uma escola primária do Canadá, gravado em 1976, mas, em vez de canções infantis, o track list traz "Space Oddity" (David Bowie), "Band On The Run" (Paul McCartney) ou "Help Me Rhonda" (Beach Boys). O tal audiófilo, Irwin Chusid, leva o disco para seus amigos do selo Bar None e tem início uma grande pesquisa para descobrir como aquilo havia sido feito.
A figura de Hans Fenger, o professor dos alunos, é logo identificada. Fenger, um guitarrista da noite de Vancouver, sobrevivia com seus pequenos shows em bares e buracos diversos da cidade canadense e de aulas em uma loja de instrumentos musicais. Descobre que sua namorada está grávida e percebe que precisa de um emprego mais estável para sustentar a família. Dois anos depois, já com o diploma de professor, Fenger é contratado para lecionar música em escolas do interior do estado canadense da Columbia Britânica.

Ao contrário do que podemos pensar, o interior do Canadá pode parecer bastante com o interior do Brasil, por exemplo. Crianças chegando a cavalo para a aula, gente que mora em comunidades agrícolas sem qualquer contato com nada muito urbano, mas com vontade de aprender. E Hans, sem qualquer noção de método de ensino, descobre que as crianças têm um relativo conhecimento musical do que está tocando nas paradas de sucesso. Lembre-se, é 1976 e a pop music está em um momento bastante interessante.
O professor resolve gravar alguns ensaios, até que decide promover a gravação de um disco com os alunos cantando. A idéia dá ânimo à comunidade, que contribui para a gravação com algumas doações. Um amigo de Hans, Greg Finseth, traz um gravador de dois canais para o ginásio da escola no qual cerca de 60 crianças são colocadas. Só há dois microfones para a empreitada e Hans se encarrega de tocar guitarra e piano. Consegue alguns instrumentos percussivos, um xilofone, amplificadores de segunda mão e um baixo sem todas as cordas e dá início às gravações. Ele ainda faria isso no ano seguinte, 1977, com os mesmos resultados e mais um disco gravado.
A Bar None Records juntou o repertório dos dois álbuns e lançou um CD em 2001 com a íntegra das canções. Nas 19 interpretações há momentos emocionantes de sobra, principalmente pelo fato de que as vozes infantis, sem treino fake de programa de calouros a la Raul Gil, são as nossas vozes. Todos nós tivemos aquele timbre vacilante, a tal "inocência" e "desespero" que o título do CD traz, e fica fácil a identificação com os jovens cantores. Aliás, não há qualquer traço de profissionalismo nos registros, o que aproxima a experiência ainda mais da vida real e das nossas próprias reminiscências do que pode ser a compreensão da música por crianças entre 7 e 12 anos - a faixa etária para qual Hans Fenger lecionava na época.

Eu já conhecia o disco desde seu lançamento, mas ao apresentá-lo para Maria há algum tempo, ele ganhou nova dimensão pessoal por conta da identificação imediata dela para com a obra, principalmente pelo fato de perceber nas intenções meio instintivas do professor de música, a vontade de transformar a vida das pessoas, no caso daquelas crianças que viviam nos canfundós do Canadá. Eu e ela, beirando os 40 anos, estamos com vontade de transformar vidas, as nossas e as de gente que nem conhecemos, pelo simples fato de ainda acreditarmos em coisas como bondade, alegria, conhecimento, valor à cultura e, sobretudo, por achar que as coisas, de um modo geral, vêm piorando com o passar do tempo. Achamos que há um triunfo preocupante do meio sobre a mensagem, que a produção cultural em geral está podre e que as pessoas estão perdidas no fast-forward do cotidiano, sem tempo para o que importa. Ouvir música por exemplo, a tal ponto que seja possível gravar crianças num ginásio canadense. Se você pensa da mesma forma, procure obter o disco. Recomendo a versão física, não apenas o mp3, pois o encarte é extremamente bem cuidado e rico em informação - algo que também está perdendo a importância por aí.
Track List:
1. Venus and Mars/Rock Show - Paul McCartney
2. Good Vibrations - Beach Boys
3. God Only Knows - Beach Boys
4. Space Oddity - David Bowie
5. The Long and Winding Road - Beatles
6. Band on the Run - Paul McCartney
7. I'm Into Something Good - Herman's Hermits
8. In My Room - Beach Boys
9. Saturday Night - Bay City Rollers
10. I Get Around - Beach Boys
11. Mandy - Barry Manilow
12. Help Me, Rhonda - Beach Boys
13. Desperado - Eagles
14. You're So Good to Me - Beach Boys
15. Sweet Caroline - Neil Diamond
16. To Know Him is to Love Him - Ronettes
17. Rhiannon - Fleetwood Mac
18. Wildfire - Michael Murphy
19. Calling Occupants of Interplanetary Craft - Carpenters

Segunda-feira passada, dia 24/08, eu assisti à reprise do concurso de Miss Universo. A festa e toda a organização do Miss Universo estão a cargo do mega-multi trilionário americano Donald Trump, que levou toda a parafernália do pleito para as Bahamas, mais precisamente para seu novíssimo hotel no arquipélago caribenho. Uma olhadinha no site do concurso mostra que Trump e seu penteado aerodinâmico estão à frente dos concursos de Miss USA e Miss Teen USA. Nas Bahamas estiveram 84 jovens em busca do sonho de se tornar a Miss Universo 2009, sucedendo a venezuelana Diana Mendonza.
Quando eu estava na onanística idade de 13, 14 anos, me interessava em ver o concurso pela transmissão da TVS, atual SBT, desprezando as conotações afetadas e meio gays do ideário da Miss Universo para me concentrar exclusivamente nos atributos físicos das moçoilas, bastante interessantes. Naquele tempo, há cerca de 20 anos, as misses exibiam curvas interessantíssimas. O momento dos trajes de banho era o meu favorito. Hoje, não só a presença de um homem de negócios por trás da coisa bem como o próprio e proverbial afago do tempo mudaram quase tudo.

Então, estava eu vendo o desfile pela TNT e contemplando a dupla cafona de apresentadores, os jurados mequetrefes de sempre, as cenas das misses em locações paradisiácas, todas felizes, sorridentes, sem qualquer problema aparente em sua jovem existência, prontas para salvar o mundo da maldade e da mesquinharia do ser humano, passível de evanescer com um aceno de mão e um sorriso amarelo. Até que a Miss Bélgica adentrou a passarela.
Zeynep Sever, 19 anos, morena de fazer inveja ao nosso torrão natal, desfilou com elegância e simpatia. Um sorrisão anunciava a moça e um corpão anormalmente bem feito me fez acreditar na preservação do modelo de beleza feminino. Sim, porque as misses agora se tornaram primas-irmãs das top models, seguindo seu anoréxico padrão de beleza. Mulheres com rostos lindos e corpos esquálidos, beirando o estranhamento. Nada de bundas, pouco de peitos, o que, convenhamos, são o que interessa num concurso de beleza. Sei que muitos vão argumentar sobre a tal beleza interior, o que, penso, toda miss deve ter. A tal vontade e crença da salvação do mundo pelo simples fato de ser dona de beleza universal. Meu lado ogro detém a opinião que beleza interior é algo para ser apreciado apenas por cirurgiões, restando portanto, os contornos das meninas para serem admirados pelos pobres mortais.

A Miss Bélgica não foi a única a me impressionar. As misses Suécia (Renate Cerljen), Austrália (Rachael Finch) e México (Karla Carrillo), todas com 21 anos também mandaram muito bem, ficando a australiana com a terceira colocação. As outras, incluindo minha favorita belga, no máximo atingiram o top 15. Pesquisando um pouco mais sobre Zeynep Sever, me deparei com o fato da moça ter origens turcas, o que justificaria sua morenice e contornos levemente asiáticos e refleti sobre a mudança que o mundo vivencia. As misses Suiça e França, igualmente morenas, também não guardam nada do estereótipo europeu.
No fim das contas, Stefania Fernandez, outra representante da Venezuela, foi escolhida a mais bonita da noite, numa decisão questionável. A brasileira Larissa Costa nem se classificou entre as top 15. A torcida venezuelana, formada por aqueles tipos canastrões que habitam os cassinos - sejam eles na Europa, na América ou em qualquer lugar, balançaram sua bandeira tricolor como se ganhassem uma Copa do Mundo. Bem, talvez seja o único concurso que o país de Chavez tem favoritismo.

Longe dali, Zeynep Sever, 19 anos, a mulher mais bonita do país que inventou as batatas fritas (sim, não foram Estados Unidos ou França, crianças), devia amargurar uma considerável decepção. Pena, era a mais bonita da noite.
PS: a ordem das fotos mostra as misses Bélgica, México, Suécia e Austrália.
Neste momento o Windows Media Player executa a sublime gravação de "I Wish I Never Saw The Sunshine", das Ronettes, produzida por Phil Spector. As técnicas de estúdio empreendidas por Spector estão presentes, configurando o que se chamou de "wall of sound", aquela sensação de que todos os instrumentos e vocais de apoio estão mixados juntos, em bloco, como se fossem mesmo uma parede sonora a envolver, dialogar ou sobrepor-se ao vocal. Aliás, quem canta é Ronnie Spector, que viria a casar com o famoso produtor.
Bem, o que quero dizer com esse ilustrativo parágrafo de abertura é que não consigo mais ouvir quase nada do que é feito hoje em dia. Não é implicância com este ou aquele artista, simplesmente caminho para um desinteresse absoluto em relação à produção musical mundial. Aliás, nada demais nisso, uma vez que a música pop repete e regurgita as mesmas influências há anos e eu me cansei de perceber que as novíssimas bandas da semana passada nada mais são do que simulacros ocos e pobres de coisas muito mais reais e belas, feitas há mais tempo.
Para uma pessoa que pretende viver às custas do jornalismo musical, a menos que ela seja uma integrante senior da redação das gloriosas revistas inglesas Mojo ou Uncut, gostar de coisas do passado e não se afinar com as últimas tendências de hoje é proverbial tiro no pé. Sendo assim, este brioso blog passará a praticar anti-jornalismo musical, desafiando as normas estabelecidas pela indústria midiática. Vou falar de velharias e criticar as novidades - claro, com todo o bom senso que imagino sempre ter tido ao longo dos tempos. Por exemplo: não tenho o menor interesse no lançamento de Humbug, o terceiro disco dos Arctic Monkeys e não entendo como gente da mesma idade que eu consegue se fascinar com isso. Compreendo - mas não aceito - que o som dos ingleses de Sheffield impressione quem desmamou ontem na arte de ouvir música, mas, uma olhadela mais atenta ao passado levará esse novato/a ao repertório dos Smiths, a pedra fundamental para a compreensão dos Monkeys e não se fala mais nisso. Sendo assim, meu raciocínio não comporta perder muito tempo com a banda se é possível reouvir as diatribes de Morrissey nos anos 80, ainda acrescidas de boa dose de memória afetiva. Os Smiths, diga-se de passagem, não eram originais, mas foram capazes de se apropriar de um monte de influências legais - de punk rock ao som dos chamados girls groups - como as Ronettes - e fazer algo novo.

Voltando ao meu Windows Media Player, que executa a bela versão de "This Guy's In Love With You", com Temptations e Supremes, gravada em 1968. A música, um dos carros-chefe do repertório de Burt Bacharach, foi composta em homenagem ao trompestista Herb Alpert e sua namorada na época. A versão entregue pelos dois maiores conjuntos da Motown na época, cheia de cordas, metais, vocais celestiais e soul é o que os americanos chamam de "ear-candy", ou seja, "doce para os ouvidos". Não sou capaz de encontrar nada feito hoje que se equipare ao resultado obtido nessas gravações dos anos 60 e 70.
Fiz um CD com 700 gB dessas canções para dar de presente aos queridos Cassiano e Elisa, copiei o conteudo e fiz uma lista de músicas para o aplicativo e não ouço outra coisa. Sai Crosby, Stills And Nash com "Our House" (composta por Nash para sua esposa na época - 1969 - Joni Mitchell) e entra Todd Rundgren com "I Saw The Light", faixa sublime de seu disco duplo Something/Anything, que trazia todas as sementes do melhor do que se chamaria de powerpop, inclusive com direito a solo de guitarra no mesmo timbre que George Harrison usava nos Beatles. Quem vem em seguida é o glorioso grupo de soul da Philadelphia, Harold Melvin And The Bluenotes, com "The Love I Lost", talvez um dos maiores colossos dos tempos pré-disco, com todos os predicados possíveis do estilo: groove aerodinâmico, orquestrações lindas, vocais abençoados.

Não tenho vontade de prestar atenção às novidades estando tão bem acompanhado e posso até padecer do problema maior de perder o bonde dos acontecimentos. Não me importo. Na minha lista de compras musicais, discos remasterizados dos Rolling Stones, álbuns de Carpenters, Dusty Springfield, tudo do período áureo da música pop, as décadas de 60/70, quando a repetição ainda não era problema. Pode ser uma fase, talvez não. Desde que começei a escrever sobre música, há 13 anos, conclamo quem me lê a refletir sobre a seguinte frase: o novo pode estar no passado. A novidade não tem nada a ver com a cronologia, principalmente porque, repito, nada feito hoje é novo, sob o ponto de vista do ineditismo. As verdadeiras novidades, os novos terrenos sendo visitados estavam nessa época. E em momentos mais adiante, talvez até o início da década de 1980. Depois, amigos, é uma constatação histórica a percepção da mesmice.
Se você quiser ler e conhecer coisas "novas", estarei aqui com certa frequência para te contar o que toca por essas bandas.

CEL aka Carlos Eduardo Lima. Jornalista, escritor, crítico musical, fã de cultura pop em todos os seus desdobramentos, espectador do mundo, agente das mudanças, colecionador de momentos, casado com Maria Estrella, filho de Helena, padrasto de Gabriel.
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