7 de Dezembro de 2009
Sonata ao Luar
Pois que os sonhos são só isso: intervalos comerciais entremeando este reality show de segunda, e por eles o cérebro, cansado de ser conseqüente, vai zapeando. Pois esta noite sonhei que estava no paraíso: queria te mostrar que eu trabalhava na melhor agência de propaganda do mundo. Devia te mostrar que meus patrões do sonho eram os patrões dos – sem trocadilho – sonhos de qualquer publicitário: defensores furiosos da criação, sempre protegendo sua equipe da sanha dos anunciantes carnívoros. Precisava te mostrar que as campanhas eram as mais gostosas e gratificantes de serem feitas. Não via a hora de te mostrar que a maior parte de minhas peças era premiada em Cannes, e eu recebia as láureas in loco, veja só, recebendo junto a brisa da Côte d'Azur. Acontece que eu olhava para um lado e para o outro, sabendo que aquela completude tinha um gosto de impostura. Eu devia te mostrar que eu não tinha do que reclamar – mas no fim das contas eu não podia te mostrar que eu não tinha do que reclamar: você não existia. Meu sonho tinha te fechado todas as portas, baby girl. Estava lá cada átomo meu, cada lasca de lembrança de meus amores esquecidos – mas eu estava tão só, tão só, e me perguntava por que minha educação sentimental teve que ser desse jeito. E sim, já estava pensando em me conformar com os toma-lá-dá-cás desse reality show de segunda, que oferece em prêmio o que surrupia de leveza no coração. Já me conformava com seguir a vida e no final do filme acabar sozinho, só sacudido de leve às vezes por um agudo fiozinho de saudade inexplicável quando ouvisse Billie cantando “What this thing called love?”. Foi aí que o luar claríssimo, com o brilho do Grand Prix em Cannes, me acordou – e depois de três segundos de eternidade fui reparando no seu rosto, fui percebendo você dormindo ao lado. Você dormindo, com o descompromisso de quem não precisa sonhar. O que sobrou do vapor do meu sonho se condensou numas gotículas de certeza sereníssima, acho que no peito: eu reclamo da vida, eu reclamo muito da vida – só que acordar ali do seu lado me fez saber que o sonho tinha me jogado na lona com um jab de esquerda e ainda dançado no palco, feito um Ali na plenitude. Vitória por nocaute para ele. O coração virou um balão de criança, a alma me refrescou, fui vida nova dos pés à cabeça; naquela hora brilhei tanto, mas tanto. Isso eu devia, tinha que te mostrar. Mas eu não iria te acordar. Quem sabe eu faça depois um post te contando tudo isso, baby girl.
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HONRA AO MÉRITO
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Comentários:
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Amar é nunca ter que pedir campanha.
há certas coisas que não sei bem como dizer. Mas, após este seu post, não é possível mais calar.
Almirante,
quer casar comigo?
Poeta enamorado.
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Ah, tá meio cedo pra gente falar disso, vai, Ramiro. E não, o problema não é você. Sou eu.
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Ei, War talking 'bout Love.
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Bom. Vejo que você já fez o test drive com o tal chá, aí.
E sai pra lá, Ramiro. Deixa de ser assanhado, que esse gatim é meu e ninguém tasca.
:o)
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Eu e o Ramiro somos só amigos, hon. O negócio dele é o Milton Ribeiro, mesmo.
Debaixo do 4′33 de Cage, bebemos a última taça e nos beijamos sob o sol do Guaíba... E no "lugar onde o rio se alarga" a alegria se vestiu de pranto - do Gravataí, Caí e Jacuí -, que se perdeu delicadamente no Atlântico. Mas tudo valeu pois...
A CASA DO POETA
by Ramiro Conceição
Na casa do poeta,
o comprimento é o tempo,
a largura, a escritura,
e a altura é o pensamento
onde o firmamento mora.
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Milton, me ajuda. O homem tá levando a sério.
Eu não casaria com um publicitário. Meu pragmatismo não permite.
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Então case com um poeta.
Parabéns pelo texto.
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Não. Eles começam pelos de terceira, e vão até os de quinta.
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Domingo é horror show.
E eu sou um burro.
Aí tem lua até debaixo de chuva...
abraços
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ESSE ficou parecendo interpretação de hexagrama do I Ching.
pq U Xinga?
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