16 de Novembro de 2009
Literatura Visceral
O aspirante a escritor Ney Valter pensava que o título perfeito para seu livro modernamente visceral seria “Meu cu é a saída”. Mas considerou as embaraçosas implicações semânticas. Na verdade a intenção era demarcar o orifício anal como o epílogo da instigante saga – em 113 páginas sem pontuação nem parágrafo – de um double cheddar do Bob’s do metrô da Barra Funda, nas oito horas seguintes à deglutição. Entretanto Ney Valter considerou: se um desavisado leitor deparasse tão somente com o título na capa, sem maiores esclarecimentos temáticos, estaria em pleno direito de imaginar tratar-se da insinuação de que o ânus do narrador seria a solução, em tempos de crise, para priápicos desprovidos de mulher e necessitados de descarga seminal urgente. Ressalte-se que Ney Valter, a despeito de sua mente descompromissada de amarras morais, preservava latentes pruridos heterossexuais. Considerou então o similar “Meu cu é o fim” – mas encafifou-o agora a possibilidade de interpretação, por parte destes mesmos desesperados priápicos, de que encarar sua orla retal seria a sarjeta. Uma faísca de vaidade ferida não deixou de alfinetar. Encantado portanto com a dubiedade de construções frasais como estas, lembrou-se das múltiplas significações de caracteres, por exemplo, das línguas semíticas – onde um vocábulo traz mais de um significado, dependendo da frase. Ligou então para aquele famoso poeta, lingüista e tradutor (inclusive do hebraico) e propôs justamente um início de conversa a respeito, citando suas dúvidas quanto ao título do livro. Aconteceu foi que o outro, atribulado no trabalho e após quinze minutos ouvindo a lengalenga, sugeriu a Ney Valter enfiar a obra no cu. Para o consagrado autor foi a saída. Para Ney Valter, o fim.
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Comentários:
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Indeed, apesar de eu me reservar o direito de não querer visualizar a cena.
Eleição pra governador do Rio, 1984. O fulano na rua, batendo boca com a mulher que fazia boca de urna para o Moreira Franco:
- Quem tem cu, tem medo e vota no Figueiredo!!
Ela berrava de volta:
- Eu tenho, eu tenho... eu tenho cu!
Sempre gostei de debates com alto nível.
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Debates em política sempre são de alto nível.
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O cu é o meio.
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Um colonoscopista desconstrucionista.
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Anyway, sempre é bom manter-se encostado na parede.
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Se o Ney Valter soubesse escolher nome pro livro com o mesmo bom gosto que me fez escolher o nome dele, tava feito.
Abraços!
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Abraços, mas mantendo uma certa distância.
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Mas parece ter saído deles.
- Aliás, qual o oposto do autor que é do caralho?
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O caralho que é do autor?
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Perfeito, Márcia. Ou ainda o thriller à moda Stephen King, "Quem tem cu tem medo". Por aí.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
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Issaí, aiaiai. Em terra de sem-cus, quem tem um olho encosta na parede.
já que o tema deste post é tão balsâmico - e interessa tanto aos jaburus passivos quanto àqueles ditos, digamos, ativos -, nada melhor que um poema escatológico-filosófico...
BOCA D’ALMA
by Ramiro Conceição
À luz da biologia,
a boca termina no cu.
À luz da poesia,
a boca termina na alma.
Entre as demências
prefiro aquela contida num beijo
ou nas 4 cordas — de um violino.
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Rapaz, acho que cu entrou aí igual Pilatos no Credo. Credo.
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Mas o que tem o cu a ver com o comment?
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Sim, literatura introspectiva.
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Sorry pelo analcronismo.

















