17 de Junho de 2009
A Perigosa Facção dos Aspeiros Digitais
Todo cuidado é pouco com quem faz aspas com os dedos. No quesito periculosidade a facção dos aspeiros digitais só se iguala ao destacamento da viração (pessoas que dizem o tempo todo “então eu virei e falei assim...”, deixando claro que a tática é fazer com que os interlocutores percam o rumo da conversa tentando adivinhar para que lado eles se virarão na fala seguinte – “ops, agora foi para a direita e eu achando que era a esquerda; droga, agora ele fez que ia virar e não virou”) e a brigada da pegação (os que vivem dizendo “então eu peguei e falei...”, onde se denotam insofismáveis intenções apalpatórias, o que impede que os interlocutores prestem atenção à conversa por se preocuparem o tempo todo em proteger a genitália e encostar o traseiro na parede).
Os aspeiros digitais são a ponta do iceberg da crescente onda de terrorismo gesto-dialogal. À parte as intenções subliminarmente insidiosas (por exemplo, quando o aspeiro acena com os dedinhos no meio de um Pois não é que o consagrado blogueiro Reinaldo Azevedo blablabblalá? e aí você percebe que as aspas não foram para consagrado nem para blogueiro – mas justamente para Reinaldo Azevedo, o que realimenta a suspeita de que o nome seja mesmo o pseudônimo que o Paulo Henrique Amorim usa nos dias ímpares), a verdadeira ameaça consiste nas subdivisões da facção, que já vinham sendo preparadas em campos de treinamento secreto e que se encontram de prontidão para infiltrar-se na vida civil.
Teremos, assim, os travessudos (que reproduzirão diálogos fazendo travessões com os dedos antes das falas - se bem que os mais refinados partirão para o estilo anglo-saxão, utilizando aspas mesmo, o que confundirá o interlocutor incauto que, coitado, detectará o tempo todo uma ironia inexistente na fala deles), os italizantes (dialogueiros que para imprimir o itálico no que dizem – em citações de obras ou termos estrangeiros – inclinarão abruptamente a cabeça para a direita, o que proporcionará torcicolos homéricos aos interlocutores que tentarem acompanhar o raciocínio) e os paragrafiteiros (que ao sinalizar a mudança de parágrafo darão saltinhos para a esquerda, derramando vinho no tapete branco do anfitrião e fazendo com que os interlocutores, para não perder a conversa, acabem indo parar no hall, perto da escada de incêndio). E não acabou: virão também, para desestabilizar qualquer tentativa de diálogo, os ponto-e-virgulinos (que nos meios virtuais já andam sendo apelidados de “dot comma”) e os caixa-alta (terroristas dialogais de afortunada posição social – só para vermos aonde chegou a infiltração).
Aliás, registre-se o caso de uma conhecida socialite militante da vanguarda do parêntese, que dia desses, num badalado evento de moda, ao discorrer sobre o que ela ainda procura no homem ideal, fez o gesto afastando as palmas das mãos – pormenorizando alguma assertiva, por certo – e causando frisson entre os presentes. Mas imediatamente o namorado, ponto-finalista praticante, a retirou da rodinha. E fecha esses parênteses todos aí, porque eu falava era de aspas, caramba.
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Comentários:
-- Então! Blá-blá-blá!
Os caras vão terminar qualquer frase e a concluem desse jeito:
-- Blá-blá-blá! Enfim...
São muito "curtos" os sujeitos!
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Então. É o que eu digo. Enfim, é isso aí.
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E parece que eles aplicam os três pontos da reticência com cutucões no peito do interlocutor. Não consta que sobrevivam.
Criativo e ótimo post
bjos
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Ei. Um comentário da facção Triple G!
aproveitando post, pergunto:
Carííííííssssiiiiimmmmmoooo,
como vc acha que podemos denominar pessoas como eu que gostam de aloooonnnngggaaaaarrrrr as palavras para dar maior êêêênnnnffffaaaaaasssssseeeeeeee?????????????????????????????????????????
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Hahahahaha. Eu alongo são os intervalos entre um post e outro.
"Ponto-finalista praticante" foi muito bom.
Às vezes acho que sou um adepto do reticencialismo... Por que será...?
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É o reticencialismo social. Só ocorre em festas.
Um adendo: o tal do "então" é 100% paulista, faço questão de ressaltar. Os cariocas, por seu lado, gostam mesmo é do "tipo assim" e do "olha só", e quando querem parecer mais cultos trocam esse último por "veja bem".
E para terminar, chamo a atenção para outras duas facções, que acredito serem quase tão perigosas quanto a dos aspeiros: as facções coisista e entendeuista. É a tal coisa pra cá, aquela coisa toda pra lá, uma coisa!, entendeu?
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Perfeito, Ricardo. E, para a facção entendeuista, recomendo a tática rewind: sempre que alguém enfiar um "entendeu?" no meio de uma fala, contra-ataque com "entendi não. Começa tudo de novo?"
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Pode se alongar à vontade, querida. A única coisa curta aqui é o talento do escriba.
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O gesto seria o de indicar que você provavelmente leu o blog errado, então, Marcão.
(Tá, foi uma canelada. Tentei...)
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As consoantes mudas também seriam usadas nos textos dos protestos, mas ninguém ouviria.
Só reforçando o que foi dito por um colega acima, o termo coisa é muito usado pelos mais jovens. E pior: coisa pode ser substantivo, adjetivo, verbo ou o que mais a imaginação mandar! O coiso falou pra coisa que se ela ficar coisando assim vai ficar tudo coisado!
Aliás, até hoje também tento encontrar o "xis" da questão.
Abraços!
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O problema todo é a coisa em si. Mas não conta pro Kant.
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Sim, são os fins da picada.
Mas não importa, eu passei aqui só para lhe perguntar sobre o que tu achas da Sociedade Segundo-Pessoísta Pluralista, da qual faço parte. Trabalhamos, normalmente sob influência da Polícia Secreta Portuguesa, em prol da sobrevivência da segunda pessoa na Língua Portuguesa.
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Caetano, falha gritante minha: me esqueci de avisar aos leitores que este post já foi publicado aqui, originalmente em preto e branco, há uns cinco anos. Reciclei e voilà. É a falta de tempo casada com a escassez de inspiração. E, sim, genial a Sociedade - só leve em consideração também a quarta pessoa. Afinal, não eram quatro os heterônimos do Pessoa?
os comentários são tão legais que esqueci o que ia dizer. Lembro que era alguma coisa entre aspas e beijos.
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As aspas eu deixo entre parênteses.
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Os cuspes são os pingos dos pontos de exclamação.
Daíííííí...... engasguei de tanto rir,derrubei a porcaria do café no teclado todinhoooo....e a culpa é toda tua! Tô de mal.
Tú é "o cara" mesmo...
Beijinhoooss...
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A culpa é do café. Ou do teclado.
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E com vontade, Inaiara. Aliás, a respeito do famigerado 'literalmente', tenho esse continho antigo aqui. Talvez republique, qualquer dia desses.
" "
putz ,escapou.
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Sei como é isso. Intolerância à aspose.
Um beijinho e tchau.
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Mme, pode reparar que, em sua homenagem, as respostas aos comentários aqui vêm sempre em itálico.
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Sim, claro, eu havia me esquecido dos entãozistas.
Oi Nelson!
Tudo que escrevi acima é de fato verdade. Tentei escrever com algumas das maneiras citadas no seu post pra ver se conseguia ser engraçada, mas tsc, como humorista sou uma ótima redatora. rs
Grande abraço!
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Obrigado e volta sempre, Gabriela.
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