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14 de Dezembro de 2008

Conto de Natal

Ele subiu até o décimo-primeiro andar, onde funcionava a tradicional editora, aquela, que primava por lançar exclusivamente biscoito fino. Atravessou a sala onde dezenas de criteriosos avaliadores conferiam originais de centenas de aspirantes a autores. Ninguém reparou no sujeito gordinho com boné do HSBC, que se aproximou da larga janela e, com toda a naturalidade, pôs um pé para fora, outro, pronto: estava no parapeito, recostado à parede externa do prédio – um passo à frente e o destino seria a calçada, 33 metros abaixo. Levou alguns minutos para que todos, dentro e fora do edifício, percebessem: é, em meio à fiação das luzes natalinas da fachada do prédio tinha mesmo um sujeito ameaçando pular do parapeito da editora, aquela.

Quando os bombeiros chegaram, junto com a televisão, foi dada a palavra ao inusitado alpinista literário – aliás, esta uma tirada da espirituosa repórter, que, destemida, ainda se chegou ao parapeito e estendeu a ele o microfone.

E ele:
– Se não rasgarem meus originais eu pulo.

Lá embaixo uma multidão começando a se formar. “Olhaí. Juntando público, de novo”, pensou o suicida, batendo devagarinho e muitas vezes a cabeça na parede. “Droga.”

Perto dali, em uma pequena sala, o corpo editorial era reunido, às pressas, com o chefe dos bombeiros e a repórter, que deu mais detalhes:
– Ele exige que os originais do livro dele, atualmente em poder da editora, sejam destruídos imediatamente, antes da avaliação. Senão ele se mata.

O editor, mordiscando a piteira:
– Não posso firmar este compromisso! Não li o manuscrito, ué! Vai que é uma obra original, de qualidade instigante. E obra original com qualidade instigante eu publico mesmo. Tenho uma reputação, caramba!

O chefe dos bombeiros (que cursava o 3º ano de Letras):
– O senhor vai deixar que, em plena proximidade do Natal, um ser humano se estatele lá embaixo, por conta de uma diretriz empresarial? Que imagem a editora, esta, quer passar aos formadores de opinião?

A repórter (cara de bassê filhote mas engraçadinha maquiada, sua primeira cobertura jornalística para a televisão), não perdendo a oportunidade:
– Seja qual for a imagem, ela vai ser transmitida pela emissora, esta. Só para avisar.

Meia hora depois lá estava o editor, de pé, no parapeito – devidamente atado por um colete a um cabo de aço, tentando uma negociação com o suicida. E a repórter na janela, de prontidão, no ponto para transmitir – aonde as coisas chegam – em rede nacional.

– Não, não tem blablablá – se exaltou o suicida, vendo o aparato todo. – Ou destroem meus originais ou eu pulo. Não tentem me enrolar!

O editor, paciente, cochichou:
– Tá, só diz uma coisa. Por que você enviou o manuscrito?
– Não fui eu. Foi meu agente. Quer dizer. Ela adora se chamar de meu agente.
– Ela?
– Minha mãe.
– Ah.

Passados uns minutos, estabelecido um certo esboço de clima confessional, ele devagar foi se abrindo com o editor. Contando, por exemplo, quando, aos quatro anos, aprendeu a ler memorizando o Howl, o que bastou para a mãe: “Vidinha, vem recitar aquele poemão do Ginsberg pras visitas”. Ou quando, aos onze, redigiu escondido, na escola – para fazer as aulas passarem mais rápido – uma atualização do Gilgamesh, adaptada à Europa do pós-guerra, mas a mãe não só descobriu como subornou a diretora para fazer com que ele lesse alguns trechos para todo o colégio, no Dia do Professor (ele diante do microfone, o rosto queimando, e ela, lá na platéia, só mexendo os lábios: “Vidinha”). E mais, mais, até chegar àquilo: ela tinha conseguido entrar no computador dele, imprimiu a história que ele vinha atualizando em um blog – fechado para leitores – e mandou tudo para a editora.

– Eu escrevia o blog só para ir me acostumando ao teclado do meu Macintosh novo – ele arrematou, para depois ainda acrescentar, a voz cada vez mais sumindo: – Fui descobrir tudo hoje, quando ouvi ela ligando para uma gráfica e orçando os convites do coquetel de lançamento. Tudo em papel couché.

– Sei, sei – disse o editor. E, depois de um tempo: – Mas, só por curiosidade. Me faça um resumo desse romance aí.

“Ha, o velho truque”, pensou o suicida. E não entregou os pontos:
– Olha. Ele não fala da vida nem da morte. E nem que o importante está nos detalhes. Não menciona a dificuldade de comunicação entre as pessoas nas grandes metrópoles. Não toca em façanhas sexuais, bebedeiras, tráfico de drogas. Não trata nem de longe de crimes insolúveis pelas vias habituais. Pula todas as questões existenciais e despreza qualquer pincelada memorialista ou regionalista. – Retomou o fôlego. – É isso.

O editor, coçando o queixo e mastigando a piteira, contemplando o cenário ao redor deles – prédios, prédios maiores, espigões, a programação visual natalina em todos eles, a fumaça, os quarteirões, as calçadas, os pontinhos de gente indo, vindo e voltando, e principalmente se juntando na calçada – como se aquilo conferisse um tom de sentença ao que ele iria dizer, foi falando:
– Escuta, não vou mentir. Pelo que eu vi, é exatamente o que eu procuro. Como profissional criterioso, jamais deixaria passar a oportunidade. Tenho certeza de que finalmente achei a história que vai consolidar de uma vez por todas minha reputação editorial. Se você quiser, pode até pular. Mas vai deixar um livro publicado, um editor realizado e uma mãe feliz, falando muito mais ainda de você. É realmente o que você quer?

O suicida, olhando ora o editor, ora a enorme multidão cada vez maior lá embaixo, começou a suspirar em série. Depois de alguns minutos perguntou, a voz desbotada:
– O que eu faço, então?
– Publicamos com pseudônimo. Eu espalho à imprensa que achei seu livro uma droga, sua mãe passa por um desgosto memorável, a obra sai publicada com outro nome, abro uma conta secreta para você e pronto. Que tal?

Os dois apertaram as mãos e voltaram à janela. A repórter estendeu então o microfone ao ex-suicida e este, com a mão no ombro no editor:
– Ele me fez ver a verdade. Então eu refleti. Pensei, pensei e aí acabei desistindo.

A repórter, efusiva, misturando emoção com a necessária presença de espírito, decretou para a câmera, para todo o país:
– Assim, o desfecho deste emocionante episódio mostra que o editor, este, é um verdadeiro expert em auto-ajuda!

Cinco ou seis segundos depois todos notaram o colete de segurança do editor aberto, pendendo no espaço, o fiozinho de fumaça da cigarrilha – e um corpo com camisa de cambraia, calça de linho inglês e suspensório se estatelando lá embaixo.

É que tinha a reputação.


Postado por Nelson Moraes às 23:03:21 | Livros | 17 comentários





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Comentários:


Comentário de: Márcia W. · http://blogafora.blogspot.com/

Eu só comento este post se tiver certeza que meu comentário não será publicado!


______


Vou falar com a editoria e ver o que podemos fazer, Márcia. ;)

PermalinkPermalink 15.12.08 @ 09:40



Comentário de: aiaiai

Delicioso...o final mata a pau!


______


Tem que ver quem chegou primeiro ao chão. O editor ou a reputação dele. ;)

PermalinkPermalink 15.12.08 @ 11:31



Comentário de: aiaiai

caramba...até esqueci o que eu tinha vindo fazer aqui kkkkk. Eu vim lhe pedir para usar todo o seu talento para fazer um post sobre as perguntas que poderíamos fazer ao Gilmar Mendes no Roda viva dessa segundona!!!! Na verdade, eu vim na esperança de que vc já tivesse tido essa idéia kkkkk. Descupa ai a falta de cerimônia (e senso)em querer te pautar!


______


Olha, aiaiai, com o acúmulo de serviço me esperando nesta segunda, não posso prometer mesmo. De qualquer modo, pelo que fiquei sabendo sobre o escrete de entrevistadores, parece que vai ter mais bola levantada no programa do que em final olímpica de vôlei. ;)

PermalinkPermalink 15.12.08 @ 11:34



Comentário de: Julio Bettega · http://www.portalopiniao.com.br

Sim, punch-line literalmente matador. :)


_____


Pois é, Julio, estou me especializando em derrubar reputações. Já posso ser redator-chefe de revista! :D

PermalinkPermalink 15.12.08 @ 12:03



Comentário de: Inaiara

Acho que tanto faz, se a cousa virou um fiasco ou um best-seller, o título fica sendo "O segredo", porque quando o suicida entrega os pontos todos ficamos imaginando: Eita, de que falaria esse livro...


_______



Bom, sei que aquele outro "O Segredo" é de fazer qualquer leitor pular do 13º andar, Inaiara. :)

PermalinkPermalink 15.12.08 @ 21:55



Comentário de: Ramiro Conceição · http://nãotenho.com.br

É, Almirante, a ‘quietinha reputação’ idealizada também mata!


______


Reputação é que nem esta carcomida embarcação, Ramiro. Quando você acha que ela vai te levar a algum lugar, a bicha afunda. ;) (eu sei, ando ruim de metáforas)

PermalinkPermalink 15.12.08 @ 23:13



Comentário de: Teo Amarante

Imagino que mesmo depois de pular, o editor continuasse otimista. Do tipo, "bom, acabo de passar pelo 5º andar e tudo bem no mercado editorial brasileiro..."


_______


Hehehehe, é isso aí, Teo. Profissional com garra é aquele que só entrega os pontos quando chega à calçada. :)

PermalinkPermalink 16.12.08 @ 10:36



Comentário de: leandro

genial, genial mesmo.

ainda rindo


______


É o mercado editorial alçando seus vôos, leandro. ;)

PermalinkPermalink 16.12.08 @ 17:50



Comentário de: Daniel · http://www.danbrazil.wordpress.com

Muito bom!
Tem muita repórter televisiva por aí que provoca o Tânatos do entrevistado.
(Algumas provocam o Eros, claro).


______


Bom, repórter eu não sei, mas apresentadora de televisão tem aos montes no primeiro caso. (Vá lá, no segundo tem algumas, também, sim) :D

PermalinkPermalink 16.12.08 @ 20:09



Comentário de: Te

Muito bom!
Expert em auto-ajuda, realmente de matar de desgosto qualquer refinado, culto e elegante editor de biscoitos finos. O que será que passou na sua cabeça? "Fiz doutorado em Cambridge sobre Sylvia Plath pra me chamarem disso?"


______


Sylvia Plath e Papa Hemingway, diga-se de passagem. :D

PermalinkPermalink 17.12.08 @ 12:13



Comentário de: mirianne

enquanto lia o seu texto (que gostei muitíssimo!), lembrei-me de uma poesia de Mia Couto, que li em um blog há algum tempo já e que me fez grande sentido na época. lembrei-me dela pela figura do suicida: volta-se à morte e mostra pra todos o quanto tá vivo - o Vidinha - no topo de um prédio, muito embora evite o público. vive como nada e no nada há vida. a poesia, ela diz assim:

"Outrogulho

Nunca pedi
Sempre me perdi.
Na eminência do triunfo
eu me esqueci de vencer.

Onde havia escada
eu me furtei ao degrau
preferi o nada
a subir de grau.

Outros são donos,
donos de nomes, titulos
brilhos, proezas e luzes.

Eu quando sou eu,
é apenas por distracção.

E apenas para ser ninguém
me sobeja vocação."

Mia Couto , do livro idades cidades divindades

Abraços.


________


Caramba, Mirianne. Juro que nem eu tinha visto tanta nuance assim nesse arremedo de conto. E, sim, o poema é belíssimo. Mia rules. Beijo.

PermalinkPermalink 19.12.08 @ 01:53



Comentário de: Victor Barone · http://escrevinhamentos.blogspot.com/

Muito bom.


______


;)

PermalinkPermalink 19.12.08 @ 13:23




Olá.
Curti seu texto. Prá caramba.
Espero que dê uma passada no meu, se tiver tempo.
Até mais.


_______


Dou um pulo lá, sim, ****. E sem trocadilho com o post. :)

PermalinkPermalink 19.12.08 @ 16:49



Comentário de: Ramiro Conceição · http://nãotenho.com.br

Nelson, Feliz Natal, porque hoje é quase sábado…

ESTÉTICO
by Ramiro Conceição

Já tive medo em que perdi a fala
qual um dicionário sem palavras.
Todavia, o Belo voltou a ditar-me
palavra por palavra, sem disfarce.
Amar é dar a Alma… aos píncaros.


______


Ei, agora já é sábado. Podemos ir lá no Milton Ribeiro. :)


PermalinkPermalink 19.12.08 @ 22:12



Comentário de: Iomar Batista · http://www.sitedoempreendedor.com.br

Parabéns por seu blog, eu o encontrei na revista Época.
Espero que o meu site: www.sitedoempreendedor.com.br .
O meu blog: http://iomarbatista.wordpress.com/ também possar lograr tanto sucesso.
Me envie dicas e sugestões.



Iomar Batista
www.sitedoempreendedor.com.br
contatos@sitedoempreendedor.com.br
blog - http://iomarbatista.wordpress.com/


______



Primeira dica (ou sugestão), Iomar: evite fazer spam em caixa de comentários. ;)

PermalinkPermalink 22.12.08 @ 10:40



Comentário de: Biajoni · http://www.verbeat.org/blogs/biajoni

sensa.


______


;D

PermalinkPermalink 23.12.08 @ 11:30




Enquanto lia ficava imaginando um final,depois outro, e aí...errei feio.
Genial e engraçado. E como o Natal já passou faz tempo,bom domingo procê!Abração.


________



Obrigado, Rita. :)

PermalinkPermalink 23.08.09 @ 16:26



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