28 de Abril de 2008
Esquete almirântico
LÍRICA DE BANHEIRO
Banheiro de escritório. A porta se abre, deixando vazar vozes turbulentas vindas de uma reunião bem nervosa. Entra Adelmo, 38 anos, que fecha a porta (no que o ruído volta a quase zero) e se recosta nela por alguns segundos, de olhos fechados. Vai então até o vaso, senta, abre a braguilha e tira o pinto para fora.
Ele está pensando neste instante em Fabiana. Corta para a casa de Fabiana. Mais precisamente o quarto de Fabiana. Está tudo lá: o quadro do Klimt, a cama rebaixada, o lençol de seda, os travesseiros triangulares de estampa azul, o abajur. Menos Fabiana. A câmera faz um movimento circular pelo quarto, à procura. Nada. Corta para o rosto de Adelmo, um tanto intrigado.
Ele então respira fundo, volta a fechar os olhos e passa a pensar em Maria Eduarda. Corta para uma cachoeira em Campos do Jordão, lúdica, bem convidativa, reproduzindo exatamente o clima daquela vez. Vemos roupas jogadas numa pedra. Mas não vemos Maria Eduarda. Abre bem o enquadramento mas ainda assim ela não aparece. Só ouvimos, além do barulho da água, um aparelho de som distante tocando Guns’n’Roses. Na verdade um cover do Guns'n'Roses.
Vemos a testa de Adelmo se franzir. Ele espera mais um pouco, encosta a cabeça no azulejo da parede, procura se concentrar um pouco mais e agora tenta pensar na tia Nilza. Corta para cena em preto e branco. Aparecem eventualmente uns riscões no filme. Estamos na cozinha da tia Nilza, à altura da mesa, de onde poderíamos ver as coxas e o começo da curvinha da bunda da tia Nilza, que prepararia salada de cenoura. Mas não vemos tia Nilza. Não há ninguém na cozinha, além de Peba, o dálmata flatulento que morreu já tem vinte anos.
Adelmo quase se levanta, perturbado. Começa a ponderar se não é o caso de marcar uma hora com a psicóloga. Então sua fisionomia volta a denotar sinais de lubricidade: ele se lembra que a psicóloga, Flávia, até que é gostosa. Fecha os olhos, e para sua surpresa consegue ver Flávia sentada no consultório dela, com as pernas cruzadas e as meias sete oitavos fumê. Adelmo começa a tentar imaginar alguma coisa – mas Flávia parece bem compenetrada. Dá a entender que está no meio de uma consulta, e totalmente alheia a Adelmo. Câmera se desloca um pouco para a esquerda, para a direção do olhar de Flávia, e vemos, sentadas em três poltronas lado a lado, Fabiana, Maria Eduarda e a tia Nilza.
Adelmo fica branco.
FLÁVIA: E vocês acham então que era o caso de virem todas de
uma vez?
FABIANA: Ah, claro. Até porque descobrimos que estamos as três juntas nisso.
MARIA EDUARDA: É. Eu li que tem um nome pra isso, né? É serial masturbator, parece.
TIA NILZA: E tem minha idade, minha filha. Aqui eu posso aparentar vinte e quatro, mas eu sou uma senhora de sessenta e seis anos! Não tenho mais condições de ser abusada duas vezes por dia, na cozinha, enquanto corto batata para uma salada. Porque na verdade é salada de batata, não sei de onde ele tirou que é de cenoura.
FABIANA: E se eu soubesse que ia virar isso não tinha mostrado meu quarto pra ele aquela vez, na festa, só pra ele ver o quadro do Klimt. Ele decorou como é o quarto direitinho: olha pelo que eu não tenho que passar. É nas horas mais impróprias, naquelas posições que só existem no cinema, às vezes três seguidas – imagina se meu marido, que é colega de escritório dele, descobre no que a coisa descambou. Aliás, a única vantagem é essa: na cabeça dele meu marido nunca chega na hora.
MARIA EDUARDA: (mostrando os dedos da mão) e olha como minha pele tá enrugada de tanto eu ficar naquela cachoeira gelada! Tem sempre que ser lá? Eu ainda vou pegar uma, como é que chama, mesmo, hipotermia? E olha que nem foi lá essas coisas. Dei pra ele de pura dó. E foi em cima da pedra: não sei porque ele insiste que é dentro d’água. A menos que dentro d’água ele tenha feito com outra prima e esteja misturando as coisas. Como é que chama, é wishful thinking, né? Ah, e não suporto o Guns'n'Roses. Meu negócio é o Nirvana.
FLÁVIA: Certo. E vocês tomaram a decisão em conjunto?
FABIANA: Ah, sem dúvida. Meu marido comentou por alto, dia desses, que você é a psicóloga da empresa; aí decidimos vir aqui e, sabe, tentar fazer essa proposta.
TIA NILZA: Proposta não, minha filha. É exigência mesmo. Não saímos desse consultório enquanto você não falar com ele.
MARIA EDUARDA: Pois é, não agüento mais aquela água fria e aquele monte de mosquito. Pra lá eu não volto, nanananinha.
As três passam a falar ao mesmo tempo, embolando a conversa, e vemos o rosto ainda compenetrado de Flávia, que vê e ouve aquilo com treinada atenção, tentando apurar o que cada uma diz e, o principalmente, o que ela vai dizer.
FLÁVIA: (após breve pausa) Bom, acho que podemos chegar a um acordo. Até porque eu suspeito que estou envolvida, também.
Vemos Adelmo apavorado, tentando agora por tudo entrar na cena mas deparando com a porta do consultório de Flávia trancada. Ele tenta forçar a maçaneta, em vão. Ouvimos, lá de dentro, a voz abafada de Maria Eduarda, que parece ter vindo até perto da porta só para sussurrar.
MARIA EDUARDA: (em off) Aqui não, bebé. Nós e a doutora tamos fazendo, como é que chama mesmo?, um brainstorm, viu. Espera só.
Começam a bater na porta. Em outra porta. Adelmo se alarma, achando que são os colegas do escritório, chamando-o de volta para a reunião. Abre os olhos mas se vê agora estranhamente em casa. Na sala de sua casa. Vestido com robe de veludo, pantufa do Papa-Léguas e boné das Casas Bahia. Vai até a porta, a abre e vê o Mirandinha, antigo colega do Pedro II que agora é advogado.
ADELMO: Uai, Mirandinha. Você, aqui?
MIRANDINHA: Pra você é doutor Miranda. Aliás, eu poderia muito devolver a pergunta, meu caro. Afinal esta cena é de sua mulher, não sua. (entrega um papel) Vim dizer que ela entrou com pedido de divórcio onânico. Já que nunca tem papel pra ela em suas cenas, ela agora vai elaborar com todos os seus colegas de escritório. Até com o Valdeci. Ah, e ela aproveita a ocasião também pra lembrar que sábado agora vocês vão dar um churrasco pra comemorar onze anos de casados. Se comporta porque a tia Nilza vai estar presente. (sai de cena)
E o pau comendo, lá fora, na reunião.
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Comentários:
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Er. Ué. Certo.
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Rapaz, assim o Adelmo não volta pra reunião. Você desidrata o coitado.
e pelo jeito a terapia mais piora que protege...
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O grande lance, anna, é descobrir se alguma terapia protege...
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Mas criatividade é o único requisito necessário nessa modalidade de esporte solitário, Frid!
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Hell hath no fury like a woman scorned, Julio...
;o)
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Millicent, darling: sou o primeiro a reconhecer que quando você me dá uma mãozinha eu chego ao clímax de minha capacidade de expressão.
"E o pau comendo na reunião."? Mas que reunião, que nada!
Grande abraço.
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Isso aí, Clarice. Nas palavras do próprio Adelmo, reunião o cacete.
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Lacerdinha? Ué. Entrou mais personagem nesse devaneio do Adelmo e eu não sabia? E homem, ainda por cima? Rapaz, a coisa tá ficando fora de controle.
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Ih, sei não, Serbão - o doutor Miranda manda avisar que tornou-se outro homem e não se lembra que praia seria essa...
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O problema é que, pelo que me consta, o Adelmo tem quarenta e oito colegas de escritório.
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Ei, Dalva, a história não é à clef! Às vezes um Adelmo é só um Adelmo.
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Mme, do Valdeci eu só falo depois de consultar o Dr. Miranda. Evitar ações judiciais, sacumé. Já a última pergunta fica prejudicada: a reunião é a portas fechadas.
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Perfeito, Te. Mas o Terry Jones tinha que fazer o Mirandinha.
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perfeito demais!
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Hômi, agora vai entrar também leão nas cenas? Essa perversão promete.
Acabei de conhecer o blog, o mais incrível é que você não comenta simplesmente o fato da semana, você CRIA os fatos!
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Daniel, aí é o caso de parafrasear (mal) o Boccaccio: pra que comentar o acontecido, se inventar é mais divertido?
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"Quero ser Adelmo Malkovitch"? Rapaz, filme com masturbador geralmente ganha a Palma (da mão) de Ouro em Cannes.
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Enredo. If you know what I mean...
Abraços
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que prazer imenso ser redescoberto pelo bom amigo.
Shalom pra sempre
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Shalom, Rebe!
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Ah, mas é assim que elas (as mãos) gostam.
hahahaha, mais que muito legal esse conto. adorei!
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Mais pra conto-do-vigário, né, Rê? (eu nunca sei se conto do vigário leva hífen, olha só...)
{otimo. valeu.
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Adelmo só se ferrando, e com uma mão.
Li ouvindo o João Bosco e o Aldir dos bons tempos...perfeito!
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O Mestre-Sala dos Mares saúda e pede passagem, Cláudio.
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Valeu, William.

















