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15 de Abril de 2008

Love and death (revisto e ampliado)

Era um continho bem, mas bem raquítico, nascido prematuro, sem condições ainda de ser divulgado nem lido. Daí o autor tê-lo colocado na incubadora: todos os dias ele vinha visitar o conto tão mirradinho, de arcabouço frágil, situações incipientes, diálogos padecendo de disritmia e falta de fôlego – tanto que respirava por meio de aparelhos, aqueles tubos e aqueles êmbolos tão grandes e barulhentos para um continho como ele. O autor enfiava a mão na incubadora pela abertura circular e, com a luva de borracha, tocava nos dedinhos do conto, que de tão miudinhos mal conseguiam se fechar na ponta do polegar dele. O autor sussurrava, quase cantando, quase mais pensando do que falando, “Um dia você vai ser incluído na antologia do século e nós vamos rir disso tudo”. E o autor gostava de achar que os dedinhos do continho davam uma apertadinha em seu polegar. Mas lá pelo segundo ou terceiro dia, enquanto pajeava o continho, o autor percebeu as enfermeiras rindo e cochichando, atrás do vidro da sala da incubadora. Então ele, que além de arrebatado era um autor suscetível a certo tipo de crítica, foi ver que tititi era aquele – e uma das enfermeiras não demorou a soltar que corria por aí que aquele continho, sabe, podia não ser dele. Mas – ela emendou – era só boato maldoso, imagina. De gente invejosa. Falou e foi embora. O autor sentiu o chão rodar e faltar ao mesmo tempo, a garganta entalar, e depois de uns cardíacos minutos voltou até a incubadora. Enquanto o sangue lhe voltava devagar ao rosto ele observava o continho mirradinho, de olhinho fechado, dormindo. E esperou, esperou, esperou até ficar tarde, até não ter ninguém por perto – aí foi à máquina de oxigênio da incubadora e nem hesitou para desligar. O barulho parou mas não de repente. O autor apagou a luz da sala, pegou o casaco e só então lembrou que tinha guardado no bolso um pacote. Um pacote contendo uma roupagenzinha para o continho, para ser colocada assim que pudessem ir para casa. Uma roupagenzinha pequenininha, engraçadinha, do tamanhinho exato do conto e que revestiria a criaturinha de um estilo e de um acabamento que fariam as visitas dizer “é a sua cara”. O autor olhou para trás, guardando no labirinto do ouvido o seco e esticado silêncio da máquina de oxigênio, foi até a lata de lixo, jogou o pacote e saiu do hospital. Lá fora a brisa carregada de motes para histórias de amor e morte circulava sem muita pressa, com alguma melodia e um tanto assim úmida.


Postado por Nelson Moraes às 12:16:20 | Contos | 13 comentários



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Comentários, Trackbacks:


Nome: Nelson Moraes
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Certo, certo, ampliei tão somente com uma vírgula aqui e uma preposição ali, mas que fizeram toda a diferença. :)
15.04.08 @ 12:18

Nome: marie tourvel
Url: http://www.asletrasdasopa.blogspot.com
Puxa, ao mirante, o autor podia ao menos esperar mais um pouquinho. Ia pro Ratinho -ainda existe isso?, e fazia um bom e velho teste de DNA. Baita cara impaciente.
O fato é que eu adorei, viu?


_____



Ele contemplou a hipótese do Ratinho, Mme. E ficou horrorizado. ;)
15.04.08 @ 21:29

Nome: Marília
Url: http://maroma.wordpress.com/
Ai, que triste!


_____


Comes with character, Marilia. ;)
15.04.08 @ 21:52

Nome: anna
Url:
era só fazer um teste de dêenea.

nõa era preciso uma atitude tão radical.


______



Pois é, anna. Parece que o CSI Literário não conseguiu desvendar essa.:D
15.04.08 @ 22:18

Não tema. Era a sua cara.
Mas da próxima vez não se esqueça de atirá-lo do sexto andar.


_____


Exato, Guga. Isso é que seria um lançamento literário.
:D
16.04.08 @ 10:51

Nome: aiaiai
Url:
Almirante,
Só to comentando para te informar que eu
descobri o assassino da menina isabela:
Foi a Dilma.
Trata-se de um assassinato que pode ser classificado como estratégia de marketing & comunicação. A futura presidenta arrumou outro assunto para a imprensa brasileira e assim todo mundo se esqueceu do caso dossie, cartões corporativos etc.
Pode também ter sido o prefeito maluquinho do rio...já que a imprensa acha mais importante cobrir o assassinato de uma menina do que a morte de mais de 70 de dengue no rio em pleno século XXI.
Mas, se tiver que escolher no uni dunité, eu fico com a dilma.


_____


"Wag the Dog". Lembra do filme? :)
16.04.08 @ 11:15

Quase chorei por causa do continho.
Como pôde? Por causa de uma dúvida?
Não que ele fosse sobreviver, de uma maneira ou de outra.


_____


Literalmente é a dúvida que mata, não, Badá? ;)
16.04.08 @ 17:01

Nome: Ramiro Conceição
Url: http://não tenho
Nelson, já matei muitos poemazinhos porque eram péssimos. Por outro lado, o seu continho é muito bom.O bichinho já está entre nós em espírito. E olha que você não é aquele outro "Nelson" que "recebe" bicho morto.


______


Inclusive a esse respeito vide o banner da galinha, lá em cima, Ramiro. ;)
16.04.08 @ 18:16

(Fiquei arrepiado e, com esta afirmativa, digamos, fisiológica, sinto-me liberado dos grandes elogios que faria.)


______


E olha que nem de terror a coisa é, Milton. Apenas metáfora de gosto duvidoso(o que, convenhamos, é um terror, mesmo) ;)
16.04.08 @ 18:48

Nome: Serbão
Url: http://www.serbon.blogspot.com
poxa, fiquei com dó do continho... :)
e o Milton tem razão. tu é gênio.


______


Pode ter dó de personagem não, Serbão. Senão os bichos ficam se achando. ;)
17.04.08 @ 01:24

Nome: Patty Diphusa
Url: http://www.osquem.blogspot.com
Dá licença?

Almirante, eu torci muito para que vc se arrependesse de jogar o pacotinho fora, aquele continho tão raquítico, frágil...mas tenho certeza que alguém o achará e ele ainda volta pra vc. Mas valeu.

Beijos


______


Você diz o pacote ou o continho, Patty? Anyway, licença concedida, é claro. ;)Volte sempre.
17.04.08 @ 22:29

Nome: Eduardo
Url: http://cimitan.blogspot.com/
Concordo com o Milton ribeiro, colocar PUBLICIDADE no meio de TEXTOS de qualquer autor é um DESRESPEITO ao LEITOR! Nem digo ao Escritor! Ao seu leitor!


______


Isso aí, Eduardo. E tem mais: crediário facilitado é nas Casas Bahia! :D Abração.

20.04.08 @ 06:44

Nome: Karla Nazareth
Url: http://www.empurracomagua.org
Uma ida no Google e tudo seria esclarecido. Mas esses autores passionais...


_____


Autores passionais não crêem que o homem foi à Lua nem acreditam no Google. É meio endêmico. ;)
01.05.08 @ 20:55

comentários:

(Não será divulgado.)
(Será muito divulgada!)

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