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18 de Fevereiro de 2008

Stand-ups

O comediante entra no palco e observa a platéia, que, bastante dispersa, conversa bem alto. O comediante tenta começar uma piada, mas ninguém dá a mínima. Ele arruma a altura do microfone, pigarreia, pula para outra piada, nada. Ajusta devagar a vista até se acostumar ao holofote, tenta brincar com o público. Nada. Finalmente o comediante cruza os braços. Espera uns dois ou três minutos: o papo na platéia comendo solto. Ele então se retira. De repente a platéia interrompe o falatório e, em completo silêncio, se fixa no palco, olhando, concentrada, a cortina fechada, o microfone sozinho, o holofote recortando o círculo que clareia o vermelho da cortina. Essa configuração tão peculiar faz ocorrer a todos uma piada hipotética onde o microfone se viraria para o facho de luz e perguntaria “Já reparou que nesses stand-ups a gente é que mata o público de rir? Eu, fininho aqui, você redondão aí: o gordo e o magro! O comediante é só escada!” Ao que o facho do holofote responderia: “Acho que estamos mais para Martin e Lewis: você entra com a voz, mas quem brilha sou eu!” A platéia então rompe o silêncio para cair na gargalhada, que dura uns quinze segundos. Volta o silêncio. Entra outro comediante, indo até o microfone. A platéia se dispersa e começa a conversar bem alto.

****

O comediante obeso está no palco, diante do microfone, olhando, compenetrado, a platéia. É noite de anedota de gordo. Silêncio. Em uma das mesas, um careca visivelmente nervoso se levanta e conta uma piada de gordo e sogra. Ao fim dela o comediante obeso dá só um abafado grunhido de reprovação. Um judeu, lá no fundo do salão, conta então uma piada política de gordo. O comediante obeso ergue a sobrancelha, numa acintosa manifestação de impaciência. O silêncio agora passa a constrangedor. Em uma das mesas da frente uma bicha conta a piada do papagaio gordo – piada que vai se alongando e não chega ao final. O comediante obeso dispara uma vaia tonitruante, de baixo profundo, que trepida as garrafas e os copos, fazendo a bicha se desmilinguir toda e cair sentada, com a mão amparada no peito. Do meio das mesas ergue-se desesperada agora uma loira, para contar uma piada de gordo e padre. Perto de chegar ao punchline a loira se cala de repente: um tomatão se estatela em sua boca. O comediante obeso começa a pegar mais tomates atrás da cortina e vai jogando um por um na platéia, enquanto prossegue na vaia. O vermelhão esfarelado tinge as toalhas das mesas, o público sai correndo, o clube se esvazia. Balbúrdia. Restam mesas tombadas, cadeiras viradas. O comediante obeso suspira, se vira para o dono do clube, que está ao pé do palco, e faz com a cabeça a menção de “Isso é tudo o que você tem?”. O dono do clube dá de ombros como quem diz “Ah, platéia novata é assim mesmo. Amanhã melhora”.

****

O velho artista faz a última apresentação, antes de se aposentar. Dezenas de espectadores aguardam para testemunhar com emoção a despedida de uma das grandes lendas do circuito de stand-up. O que ele aprontou para esta noite?, é o bochicho que parece rodopiar pelas mesas. Depois de arrastadíssimos quarenta e cinco minutos de atraso, e sob entusiasmados aplausos, eis que o velho sobe ao palco, o holofote no rosto tornando gritante a maquiagem que não encobre a idade na testa nem nos olhos – que mesmo assim deixam vazar um brilhinho remoto. Ele se posiciona. A platéia emudece. Aparece no palco aquele jovem comediante, que fala uma bobagem qualquer e dá a deixa para então o velho bater a baqueta no prato: a platéia se desmancha de rir. O texto bobo do comediante vai pontuando a marcação das batidas do velho – tsssssss! –, e a cada uma os espectadores se dobram de gargalhar. Sim, ninguém consegue uma vibração percussiva como aquela, ninguém atinge aquela freqüência sonora com tanta verve, com tanto timing, com tanto wit. Os comediantes vão se revezando pelo palco, mas as ritmadas batidas no prato da bateria do velho continuam garantindo o amontoado de gargalhadas. E, no meio das lágrimas da platéia que não se agüenta mais de rir, toma forma a doída certeza de que dificilmente aparecerá, na interminável sucessão de stand-ups nos clubes noturnos e por que não na vida, um performer como o velho.


Postado por Nelson Moraes às 19:57:05 | Humor | 1 comentário





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Comentários:


Comentário de: Nilton F.

Gênio.

PermalinkPermalink 20.02.08 @ 20:34



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