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8 de Fevereiro de 2008

Cem anos este ano

Um dia você acorda, vai à mesa em companhia de Mariana ou Ana Maria, e comenta casualmente, antes de erguer a fumegante chávena e sem saber exatamente de onde veio a linha de raciocínio: "Sabe, analisando com calma – acho que Capitu traiu, sim", e Mariana, ou Ana Maria, pergunta distraída "Capitu? Que Capitu?" Você se prepara para tripudiar (claro que sem abrir mão da elegância) da abissal ignorância literária de sua companheira mas aí se dá conta: é mesmo, que Capitu? Seu cérebro começa a efervescer de leve, em pontadas: você sonhou. Toda a gama de motes, a aura de cada um dos personagens – você sonhou, sonhou com tal consistência e intensidade que teve a ligeiríssima impressão de que isso se estendia para um século antes e uma manhã depois da noite de ontem, se coagulando na História: não. Tudo condensado num prosaico sonho. Trechos esplendorosamente arquitetados, diálogos soberbamente encaixados – como puderam se espremer num sonho de minutos? Aconteceu, ora. Você inventou. A literatura brasileira passou dos naturalistas aos modernistas sem Helenas, Brás Cubas, Bentinhos, Iaiás Garcias, Quincas Borbas, Conselheiros Aires. Você, já recuperado, se diverte até com o poder de elaboração onomástica do seu cérebro: "M-a-c-h-a-d-o-d-e-A-s-s-i-s. Nome gozado. De onde fui tirar isso?" Então Mariana, ou Ana Maria, lembra a você: o chá está esfriando.


Postado por Nelson Moraes às 20:00:59 | Livros | 17 comentários





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Comentários:


Comentário de: Pedro Dalla

E a mania bobinha do Millôr de ficar agora esculhambando ele, na VEJA, só para ir contra a corrente? Até parece que ele precisa disso (o Millôr, não o Machado)

PermalinkPermalink 09.02.08 @ 00:28



Comentário de: Ewaldy Marengo · http://geradorii.blogspot.com

Pena ser quase impossível ligar o inconsciente dessa forma de propósito.

Vivo tendo essas viagens. Conversas filosófico-literárias comigo mesmo. Mas na hora de escrever, de transformar em algo real. Cadê??? O_o

PermalinkPermalink 09.02.08 @ 00:35



Comentário de: marie tourvel · http://www.asletrasdasopa.blogspot.com

Mas a Ana Maria e a Mariana são oblíquas e dissimuladas, hein?

PermalinkPermalink 09.02.08 @ 11:39



Comentário de: Alex Castro Email

sobre o comentario acima: eh engracado como os humanos acham que qualquer um que discorde deles deve ser pq quer aparecer, nao?

PermalinkPermalink 09.02.08 @ 18:46



Comentário de: Pedro Dalla

Vc se refere ao meu comentário, Alex?

PermalinkPermalink 10.02.08 @ 07:35



Comentário de: Talita · http://confrariadosatores.blogspot.com

100 anos de Machadão!
Depois de um século, ele e aquela dissimulada da Capitu ainda dão muito o que falar, hein?
Gostei da homenagem.

PermalinkPermalink 11.02.08 @ 11:36



Comentário de: Teo Amarante

Pois eu estou com o Dalla: esta birra do Millôr parece mais épater le bourgeois do que qualquer outra coisa.

PermalinkPermalink 11.02.08 @ 11:55



Comentário de: Serbão · http://www.serbon.blogspot.com

olha, o Millor cismar em rebaixar o Machado, até dá pra engolir...ele está querendo criar um factóide, mas Millor ao menos entende de literatura.
Recentemente li uma entrevista em que o L(B)obão esculachava Machado e Guimarães Rosa. dizia que é bobagem termos orgulho deles. que "Machado empregava bem os advérbios, mas e daí?". como se o valor de Machado fosse só o de respeitar a gramática. O roqueiro confundiu o Hômi de Csome Velho com os parnasianistas.
Simão Bacamarte devia internar o
B(L)obão.

PermalinkPermalink 11.02.08 @ 21:47



Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com/

Adoro Machado! Adoro!

PermalinkPermalink 11.02.08 @ 22:39



Comentário de: Pedro Dalla

Mas aí é que está, Serbão. O L(b)obão, por estar intelectualmente tão distante de qquer referência literária machadiana, não passa de um incapaz civil querendo pichar o muro. É o exemplo do cão ladrando e a caravana passando. Mas o Millôr, um autor, tradutor de shakespeare, e mestre do senso de humor, vir dizer, só pra chocar, que o Machado é "autor menor"? C'mon.

PermalinkPermalink 11.02.08 @ 23:12



Comentário de: marie tourvel · http://www.asletrasdasopa.blogspot.com

Tá bom, o Machadão era bom pra burro, mas dá uma chance pro Millôr. Esse menino é bom também.

PermalinkPermalink 11.02.08 @ 23:39



Comentário de: [ dr. JEKYLL ] - revista ERRATA · http://revistaerrata.blogspot.com/

Esse texto tem poder persuasivo hipnótico!

Agora tá todo mundo acreditando que esse tal Machado de Assis, realmente, existiu!

Que? Mãe, até você?!

PermalinkPermalink 12.02.08 @ 03:20



Comentário de: Milton Ribeiro · http://opensadorselvagem.org/blog/miltonribeiro/

Brilhante, Nelson. Gostei muito do súbito e impossível (e impossibilitante)gap.

Grande abraço.

PermalinkPermalink 12.02.08 @ 09:52



Comentário de: anna

tenho que confessar... sou tão obtusa quanto a mariana ou ana maria - que o nome pouco importa. se perguntada assim, de susto, sobre a traição ou não da capitu ia pensar no ato que não tinha lido com atenção o jornal do dia.

PermalinkPermalink 12.02.08 @ 12:01



Comentário de: Serbão · http://www.serbon.blogspot.com

Pois é Pedro, eu li uma entrevista em que ele dizia que "Machado é de segunda, na época tínhamos Proust".
Gosto do Millôr, mas depois que ele passou a andar em más companhias(Veja) ficou assim...

PermalinkPermalink 12.02.08 @ 13:28



Comentário de: gugala · http://www.gugaalayon.blogspot.com

"Antes uma Tapicu safada do que uma Capitu na dúvida"

PermalinkPermalink 13.02.08 @ 12:24



Comentário de: gugala · http://www.gugaalayon.blogspot.com

Capitu esta, que se viva estiver só comemorará um "sem ônus este ânus".

PermalinkPermalink 14.02.08 @ 13:51



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