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16 de Dezembro de 2007

Amoroso contículo de terror

(Conto publicado no Portal Literal em 2004)

Eis portanto o ainda tão belo rosto de Marcela com as lisas feições coaguladas e emolduradas pelas vivíssimas flores na borda do caixão. Como eu adoraria despejar tudo agora, agora, e que daqueles traços embaçados renascessem aqui e ali filetinhos de sombra, ensaios de espasmos ou mesmo tonalidades de cor, angústia e desejo de vingança; como me deliciaria ser o primeiro a perceber alguma forma de vida se espreguiçando para acordar encolerizada nesta fisionomia irritantemente sossegada, a partir de minha revelação: óbvio que te traí, meu amor. Te traí com todas as letras e todas as tuas amigas, te enganei tantas vezes quantas me permiti deixar a consciência guardada na gaveta do criado-mudo e sair à noite para meus, abre aspas, plantões. Não deu tempo de eu te ver me vendo tirar acintosamente a máscara de cirurgião tão apegado ao juramento de Hipócrates e pronto a correr aos leitos de hospital, a qualquer hora da madrugada, para acordar nas camas de Lenora, Helena, quem fosse. Meu sonho era ver teus sossegados olhos se abrindo de supetão e ah, finalmente dando acolhida ao maravilhoso brilho do rancor, presos ao meu olhar tão despudoradamente confessional, ao meu rosto sóbrio não mais te mentindo – mas pronunciando devagar e sereno as pontiagudas sílabas feito inesperada admissão no tribunal de júri, de deixar juiz e advogado tontos: te traí, meu amor, tantas vezes e não, jamais eu perderia a conta. Foram cento e noventa e duas, sem contar as três que – o que vejo? O que vejo, por deus, senão um filete de sombra, um pequeno espasmo no canto da boca de Marcela? Um projeto de sorriso que já estaria lá e eu não havia ainda me dado conta? Assim como os olhos, que me guardavam desde sempre por baixo das pálpebras tão fingidamente assentadas? Quem finge o quê, aqui? Tento avaliar melhor o traço giocondo no canto daqueles lábios mas não consigo; a última coisa que vejo é Marcela esticando as sossegadas mãos para fechar a tampa do meu caixão. Tudo escuro.


Postado por Nelson Moraes às 17:46:15 | Contos | 8 comentários





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Comentários:


Comentário de: Livia

Admiral Shyamalan!
:D

PermalinkPermalink 17.12.07 @ 11:42



Comentário de: Nilton F.

eu lembrava dele. mas não lembrava do desenrolar do enredo. fiquei de cara de novo.

PermalinkPermalink 17.12.07 @ 12:05



Comentário de: marcos · http://rolouporai.blogspot.com/

Não conhecia este enredo, mas muito interessante, hein.

PermalinkPermalink 19.12.07 @ 10:42



Comentário de: Teo Amarante

Não concordo, Livia. Admiral Allan Poe!
:D

(desse eu lembrava, man. Bingo)

PermalinkPermalink 19.12.07 @ 14:35



Comentário de: Eri · http://in-bloom.blogspot.com/

*sorrindo de contentamento*

Adorei e quero mais.

PermalinkPermalink 19.12.07 @ 22:35



Comentário de: anna

esse conto me lembrou de uma história que desconfio seja puro folclore paulista. dizem que o sergio cardoso(ator)foi enterrado vivo, embora aparentasse estar morto para todos que estiveram no velório.
e para o médico também.

affe...

PermalinkPermalink 20.12.07 @ 15:50



Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/universo_anarquico/

Tive que rir com o número exato de vezes da traição. Ah, Almirante, já te leio há mais de um ano e ainda não ganhei um átimo da tua verve, nem por osmose internáutica!

PermalinkPermalink 20.12.07 @ 18:51




Querido,

Meio fora do contexto do post, mas passando pra te desejar um Feliz Ano Novo a você e toda sua família!

PermalinkPermalink 30.12.07 @ 11:37



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