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29 de Novembro de 2007

Sax, flauta e cavaquinho

Este conto fez parte da coletânea "Blog de Papel", publicada pela Editora Gênese.

– Qual perna do Gregory Peck tá engessada em As Neves do Killimanjaro?
– Ah, sei lá – você sussurra, sem pensar. – Qual?
– A quebrada.

Como a visão de seu rosto me está impedida, fecho o olho e aguardo algum comentário. Aquele tipo de comentário. Aí desisto:
– Já conhecia?
– Não. E achei sem graça.
– No conto era a esquerda. No filme, a direita.
– Jura?
– Não. Tô inventando.

O sangue coagulado no canto do meu olho esquerdo começa a arder. Piscar piora. Mas é o que eu tenho a fazer. Tentar molhar o globo ocular. Parece que você perguntou alguma coisa.
– Hein?
– Qual a ladainha do paranóico? – você repete, cansada.

Finjo pensar e:
– Desisto.
– “Nunca fui paranóico, caralho. Isso é invenção desses grupinhos que ficam vinte e quatro horas conspirando contra mim”.

Me vem o riso aberto e aí a culpa por saber que você não pode fazer o mesmo. Noto que um dos estilhaços do retrovisor me deixa ver sua boca. Batom meio desmanchado, mas os vincos dos lábios bem nítidos. As pontas ligeiramente torcidas para baixo.
– Tá doendo? – pergunto.
– Se eu disser que só dói quando eu rio você jura não me bater?
– Não posso. Minha mão tá presa no volante.

[Mais:]

Gargalhamos. Será que você tem condição de rir o quanto está rindo?
– Quando dois deputados dão um esbarrão – você diz –, qual o resultado?

Penso. De verdade.
- Um monte de deputado anão?
– Não.
– O quê, então?

Vejo, pelo estilhaço, sua boca tentando segurar uma tosse que acaba escapulindo entre os dentes, feito miado.
– Qual o resultado? – insisto. Seus lábios quietos. Muito quietos.
– Esqueci – você diz, baixinho. – Acho que não é bem assim. Parece que não são dois deputados. São... sei lá. Esqueci.

Tento respirar fundo, sem sucesso.
– Você pode me ver? – pergunto.
– Posso.
– O que você vê?
– Teu cabelo. Por um caquinho de espelho.
– Como é que ele tá?
– Vermelho e arrepiado. Parecendo o do Pica-pau.

Tento imitar o “Rê, rê, rê, rê, êêêê”, mas rio – rimos – no meio e tudo dói.
–Tenho uma piada – vejo sua boca cochichar, o lábio inferior tremendo. Muito.
– Conta.
– Acho que a ferragem da porta me perfurou a costela.

Minha imobilização dói pelo corpo todo. Acho que é a tentativa de me mexer, instintivamente. Fazer qualquer coisa. A leve sacudidela desloca um pouco o retrovisor.
– Ih – você chia. – Agora tou vendo teu olho.
– E eu o teu.
– Que bom – sua voz reconfortada.
– Eu tava vendo tua boca antes.
– Que bom que não tá vendo agora – você diz parecendo tossir um riso.
– Por quê?
– Ela tá sangrando um pouco. O tom não combina com meu batom.

O cinto começa a me sufocar. Ou a dor é de um provável corte que ele me fez no pescoço.
– Isso que eu vejo é o teu pé? – você pergunta, quase afônica. Vejo pelo espelho seu olhar dirigido para baixo.
–Não consigo ver.
– Mexe ele.

Obedeço. Não dói. Eu trocaria esta não-dor no pé pela ardência no pescoço.
– Hum-rum – você confirma, fechando os olhos. – Reparou que ele tá encostado no toca-CD?
– Não.
– Tá ouvindo um chiadinho na caixa de som?

O que eu ouço é um zumbido me liquidificando o cérebro. Minto:
– Tou.
– Sinal de que o som tá OK.
– É – digo, cansado.
– Tem um CD meio saindo pra fora. Tenta empurrar ele.
– Tenta não falar.
– Só se você tentar empurrar o CD.
– Por quê? Você acha que...
– Tenta, cazzo.

Vou mexendo o pé, aleatoriamente, até ouvir um clec. Começa a tocar Pedacinhos do Céu. Seu olho não abre. Dele desce um fio de lágrima grosso, bem contornado, brilhante.
– Gosta do Pixinguinha? – você sussurra.
– Isso aí é Waldir Azevedo.
– Eu perguntei se você gosta do Pixinguinha.
– Você sabe que sim. Sempre soube.

Percebo então que só enxergo com o olho direito. A mancha de sangue toma o globo ocular todo, tingindo meu campo de visão. E é vermelho que eu vejo o painel, o mato lá fora e o pedaço do banco traseiro ao meu lado, projetado para a frente e nos separando.
– Parece que eu tenho um filtro vermelho no olho – digo.

Você abre o seu para fechar logo em seguida.
– Escuta – você cochicha. – Será que chegou ao meu pulmão?
– Lógico que não. Senão você não estaria falando. Aliás, fica quieta.
– Como? – aquele seu tom de voz.
– Desculpa. Tenta não falar.

Por alguns minutos só fica a música. Entra Carinhoso.
– Desculpa o “fica quieta” – falo. – Eu quis dizer...
– Olha o que tá tocando – você diz, voz de menina de oito anos. Outro fio de lágrima, pesado, desce, correndo mais rápido que o outro. Você não abre os olhos.
– Pois é – digo.
– Eu, como DJ da rádio Corsa Capotado, te dedico essa.
– Uau. Obrigado.

Vejo por seu olho que o rosto dá sacudidinhas, de leve.
– Tá doendo?
– Hum-rum – sua voz molhada.
– Eu sei. Quero dizer. Muito?

Você não responde. Os dois fios se juntam, fazendo um bem largo.
– Advogados – você diz e soluça ao mesmo tempo.
– Hem?
– A piada era sobre dois advogados. Não deputados.
– A do esbarrão? Como é que termina?

Leva alguns instantes para as sacudidelas do rosto quietarem. Você, quase sem voz:
– Termina com os dois querendo processar um ao outro e ao mesmo tempo falando “Ah, não seja por isso, aqui tá meu cartão”.
– Certo.
– Não achou graça?
– Achei. Achei, de verdade.

Outro miado seu, segurando a tosse.
– Tenta não falar – murmuro.
– Como, se você fica falando comigo?

A música no CD dá um salto. Começa Carinhoso outra vez. Digo:
– E eu, como ouvinte da rádio Corsa Tombado...
– Capotado.
– Isso, Capotado, dedico esta música a você. Agora, por favor, fica quieta.

Fecho os olhos. Sinto uma gota me escorrer do olho ao lábio. Provo. Sangue.
– Você tá chorando ou sangrando? – você chia.

Olho seu olho. Entreaberto, alagado, os cílios se trançando. Não consigo enxergar a pupila.
– Só choro quando eu rio – falo. – Ou só rio quando dói; sei lá. Misturei tudo agora.
– Será que a gente vai ficar aqui ouvindo chorinho até o final?
– Até o final de quê?

Você volta a fechar os olhos.
– Tenho outra piada – balbucia.

“Balbucia”, penso. Fecho os olhos. Mordo os lábios, pensando pelo amor de deus, por favor, por favor, por favor.
– Um cara – você começa – amanheceu com uma dor no testículo esquerdo. Aí procurou um amigo e...
– Essa eu conheço – suspiro. Alívio.
– Ah.
– Desculpa. Vai, conta.
– É muito grande. Acho que não consigo – sua voz agora a de uma menina de sete anos.
– Tenta não falar, por favor.
– É pra contar a piada ou é pra não falar nada?

Não falo nada.
– Puta que o pariu. Você é cheio de contradição.
– E de hematoma.
– E de osso quebrado.
– E de coágulo.
– E de mania.
– Coooooooomo assim, mania? – minha tentativa de riso não sai.
– Muitas. Desde menino.
– Você também.
– Eu sei. Você é quem mais conhece elas.
– Conhecia – agora é tarde, penso: o ressentimento transborda no tom da fala, mas vou adiante: – Até você, aquele dia...

As sacudidinhas em sua voz voltam.
– Essa é a parte de que eu mais gosto – você soluça.

A segunda parte da música. Onde a clarineta prevalece, pontuada pelos compassos atrasados do cavaquinho.
– Putz – você chia, engasgada –, como eu amo o Pixinguinha.

A cabeça me dói tanto que já começo a nem sentir. Meu braço esquerdo, entrelaçado ao aro do volante, está inchado. Pensando bem, eu trocaria a não-dor do pé por uma no braço.
– Pega minha mão – você diz.
– Não posso, eu...
– Pega assim mesmo.
– Certo.

Fecho os olhos.
– Pega a outra. Igual a gente fazia.
– OK.

O resto do retrovisor cai, batendo no aparelho de som e interrompendo a terceira ou quarta repetição de Carinhoso. Após um brevíssimo silêncio começa a tocar Ingênuo.
– Agora não te vejo mais – sua voz chia, parecendo ressecada.
– Nem eu. Como é que tá teu sangue?
– Vermelho.
– Não, eu...
– Um montão.

Lá fora, um tico-tico (acho; o que entendo eu de pássaro, meu deus?) sobre uma pedra parece nos observar. Acho que você fica olhando aquilo, comigo.
– Sabia que ele só começou a tocar sax – pergunto – porque perdeu a embocadura pra flauta?
– Quem?
– O Pixinguinha.
– Mentira.
– Não, sério. Lembrei porque vejo minha mão presa aqui no volante e, se tiver acontecido o que eu tô pensando, vou ter que desistir do violão e partir pra instrumento de sopro. Aí...
– Sua mão não tá presa ao volante, merda. Ela tá aqui, junto da minha. Aliás, as duas.
– Certo.

Sua voz parecendo a de uma boneca em que esqueceram de voltar a corda.
– Escuta – você diz, o tom de uma menina de cinco anos.
– Fala.
– Me beija.

Tento respirar. Dói tudo, tudo, até a espinha. Só não o pé.
– Ouviu?
– Hum-rum
– Então. Me beija.
– O Danilo não fica com ciúme? – falo, tentando rir sério.
– Me beija – um fio de voz.

Fecho de novo os olhos. Ficamos alternando a respiração, a minha feito um fole, a sua um chiado.
– Tem uma coisa – fala seu fio de voz – que eu lembrei de perguntar agora.

Aperto os olhos. Mordo os lábios. Pelo amor de deus. Pelo amor de deus. Pergunta, sim. Pergunta que eu respondo. Eu tenho tudo na ponta da língua. Desde sempre. Pergunta.
– Ué, pergunta.
– Tá doendo? – você fala.

Solto a respiração.
– Só quando eu choro.

Rimos.
– Me abraça agora – a boneca perdendo a corda.
– Não fala – sinto mais sangue me chegando ao lábio.
– Me abraça. Tá doendo muito.
– Eu abraço.

Continuo apertando os olhos.
– Forte.
– Forte.

Uma ereção. Sinto o sangue pregando meus cílios. Deixo. Você sussurra, no meio de outra tosse retida:
– Agora me tira pra dançar.

A música vai entrando doce, como se minha cabeça fosse a casa dela, fingindo nem perceber que tem uma dor invisível de tão grande ali.
– Fala alguma coisa – você geme, voz de quê?,quatro, três anos? – enquanto a gente dança.
– Falar o quê?
– Alguma coisa no meu ouvido. Qualquer coisa. Tou com medo.

Minha cabeça dá várias voltas. A música e a dor, agora amigas de infância, dançam sem muita cerimônia. Tomo fôlego, sinto quebrar tudo.
– Me fala mais do Pixinguinha – pede seu fio de voz, cada vez mais fino.
– O melhor flautista que já existiu.
– Que mais?
– Aprendeu sozinho.
– Que mais?

No aparelho começa Lamento.
– Tocava que era a coisa mais doce e maravilhosa do mundo. Desde menino. A alma dele se derramava, entornava pela flauta. Tinham nascido um pro outro. A paixão da vida dele. Quem escutava sabia que o fôlego não vinha do pulmão, subia era do coração, saía feito poesia. Ninguém tinha tocado como ele. Então, aconteceu. Devagar ele foi percebendo que não conseguia mais tocar. Tentou, por tudo; não tinha jeito. Parecia que a partir dali a flauta não ia querer saber mais dele. A flauta que ele amou desde criança. A flauta que agora ele ia poder pegar, olhar, sentir o quanto quisesse: mas nunca mais tocar. Ele ficou atordoado. Se viu abandonado. O cavaquinho não era a mesma coisa. O sax não era a mesma coisa. Até hoje tem gente que jura que, quando o João de Barro botou letra no Carinhoso, ele fez pensando na doída saudade que o Pixinguinha sentia da melodia da flauta ingrata: Ah, se tu soubesses como sou tão carinhoso e o muito, muito que te quero, e como é sincero o meu amor, eu sei que tu não fugirias mais de mim; vem, vem, vem sentir o calor dos lábios meus, à procura dos teus; vem matar essa paixão, que me devora o coração, e só assim então serei feliz, bem feliz.


Postado por Nelson Moraes às 19:30:18 | Contos | 25 comentários



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Por aqui tudo bem, baby


Comentários, Trackbacks:


Nome: claudia lyra
Url: http://www.loucaporblog.wordpress.com
Ai, Sr. Almirante... que coisa linda...
30.11.07 @ 00:17

Nome: Livia
Url:
Deu pra visualizar, da primeira à última cena.
Sem palavras.
30.11.07 @ 09:18

Nome: tina oiticica harris
Url: http://attu.typepad.com/universo_anarquico/
Salve Nelson:

Comecei a entender o drama a um-quinto do caminho. Diverti-me até o fim, quando achei a história um pouco cruel. Devo ser excessivamente sentimental.
Valeu a viagem, Almirante.
30.11.07 @ 11:22

Nome: Menina Eva
Url:
Nelson,que texto lindo. Sempre manter o bom humor e o bom amor.
30.11.07 @ 14:18

De primeiríssima, Lord. Muito, muito bom.
Abraço,
30.11.07 @ 17:20

Pô, me fez chorar...
Belo.
Muito triste, mas, mesmo assim, belo.
Sorte e saúde pra todos!
02.12.07 @ 03:16

off post: Prezado Nelson Moraes: Em nome de todos os leitores do SPOILER, o AO MIRANTE NELSON foi indicado ao 5º Prêmio Spoiler de Cinema e Blogs nas categorias de melhor editor/redator (Nelson Moraes) e Melhor Conceito Filosófico. Parabéns!
02.12.07 @ 08:42

ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.
03.12.07 @ 03:32

Vai ser difícil comparecer à entrega de tantos prêmios, Mestre! Tem mais um lá no meu bloguinho esperando. Leve e fácil de carregar. Cabe em qualquer porta-luvas(você ainda usa?).

Precisa explicar depois de ler mais esse post?
Beijão aos dois e miau para Nina.
03.12.07 @ 14:51

Nome: Mari
Url:
Sublime
04.12.07 @ 10:05

Nome: Patrícia Köhler
Url: http://www.interney.net/blogs/cintaliga
Almirante, não sei se comentei isso à época em que o livro saiu, mas este conto é uma das melhores supresas de lá... é das coisas mais primorosas, sensíveis, tocantes e de humor delicado que já li e terei lido na vida, certamente.
:)
04.12.07 @ 17:29

Nome: Fellipe
Url:
Ai ai...
Almirante, Almirante... O sr. quase me fez chorar ^^
Amei o conto, apesar de que na primeira vez que eu olhei, não tive saco de lê-lo completamente. Agora vi, o quanto foi legal...
Verei os outros posts. Um pouco mais sereno...

[postado ao som de Pain of Salvation - Black Hills]
04.12.07 @ 22:48

Essencial. (!)

:-)
05.12.07 @ 02:18

Nome: Nilton F.
Url:
Livro, almirante! Livro, livro!

(ahn. Esse já foi publicado em um, né? Então sorry)
05.12.07 @ 12:08

Curiosamente, é um inédito...

Tenho maior afeto pelo conto que vem logo antes de tua obra-prima...

05.12.07 @ 12:17

Também publiquei o meu.

Abraço.
05.12.07 @ 12:34

Que demais!
05.12.07 @ 15:21

Nome: Serbão
Url: http://www.serbon.blogspot.com
Almirante, tive uma sensação de desconforto lendo este Conto, e isso é bom. Belíssimo, e gostei do link com o Pixinguinha.
05.12.07 @ 18:33

uma bela história...
e concordo deu pra visualizar mesmo...
muito bonito
07.12.07 @ 14:06

Nome: Vejo tudo e não morro
Url: http://vejotudoenaomorro.wordpress.com
um trackback manual:

http://vejotudoenaomorro.wordpress.com/2007/12/08/caracoles
08.12.07 @ 01:03

Nome: Silvia Chueire
Url: http://eugeniainthemeadow.blogspot.com
Nelson,

Excelente conto. Faz bem à gente ler um conto assim. Literatura é isso. Parabéns!

Beijos,
Silvia
11.12.07 @ 11:57

Nome: Guilherme
Url: http://xaviersilva.blogspot.com/
almirante, demais esse conto. me emocionou.
parabens =]
06.01.08 @ 01:34

Nome: Fenidas
Url: http://bolsada.blogspot.com
Buenas !!
Depois de 22 elogios, só posso dizer :
Idem²² !!
Continues assim, precisamos muito de textos como este !
15.01.08 @ 16:17

Nome: Felipe Silveira
Url: http://www.conselheiroacacio.wordpress.com
Excelente conto!! Parabéns!
14.03.08 @ 11:06

Nome: Rafael Reinehr
Url: http://reinehr.org
Sensacional!
08.08.08 @ 22:52

comentários:

(Não será divulgado.)
(Será muito divulgada!)

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