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5 de Setembro de 2007

Domingos Moura, especialista em Metonímia da Informática

Foi há coisa de um mês que as baratinhas começaram a aparecer no computador. No começo duas ou três, mas cheguei a contar uma leva de oito. Vinham assim, sem mais nem menos, às vezes pelos orifícios posteriores da torre, às vezes pelas aberturas dos drives. Eram pequenas, mesmo, do tamanho de uma pílula, e pareciam nem notar minha presença. Andavam pelo teclado, algumas chegando ao atrevimento de parar, esperando que eu, obediente, erguesse os dedos para não atrapalhar o passeio. Subiam pela tela, faziam ziguezagues sobre o monitor, eventualmente uma ou outra colocava a cabeça fora do drive de CR-Rom e voltava lá para dentro.

Pensei muito se telefonaria para ele, já que isso ia significar muita aporrinhação, não bastassem – claro – as baratas. Mas significaria também a erradicação dos insetos. Não tive opção.

– Não me caia na obviedade de pensar no Kafka – ele disse, ao me ver distraído, mascando uma maçã, enquanto ele abria a torre.
– Não falei nada.
– Mas pensou. Até porque aquilo que o Samsa se tornou não foi uma barata.
– Foi.
– Me aponta um trecho do livro onde ele diz barata. Com todas as letras.
– Ora, a descrição, os detalhes, tudo é...
– A velha metonímia. Ele fala é de um grande inseto. O resto é simplificação burlesca de nossa indigência literária. Por exemplo, essa maçã aí que você mordisca é prima orgânica distante da – e aí ele largou a placa para fazer aspas com os dedos – barata do Kafka.

Fingi entender para estancar a conversa. Como se adiantasse. Ele foi adiante:
– A maçã de Adão e Eva. Em algum trecho da Bíblia fala-se claramente em maçã?

Dei de ombros. Ele:
– Fala-se em fruto. O fruto da ciência. É o mesmo caso da – agora a ocupação das mãos nos circuitos impediu as aspas, que se insinuaram no franzir de sobrancelhas – barata do Kafka. Metonímias generalizantes. O fruto do paraíso. O grande inseto kafkiano.
– Um-hum – eu disse.
– Essas baratinhas aí, por exemplo – ele apontou, fazendo círculos com a mão para englobar toda a configuração do computador. – Metonímias pra lhe chamar a atenção, caso você não saiba.

Mudei de idéia. Talvez falar abreviasse a conversa (como se eu não soubesse), e perguntei, desinteressado:
– Chamar minha atenção pra o quê?
– Isso aqui – e ele trouxe na ponta dos dedos um dos insetos, quase me tocando o rosto – não é uma barata. Isso é um inseto de lixo, ponto. Ele representa a sua total falta de integridade.

[Mais:]

Ele jogou a barata no chão e voltou aos circuitos. Eu:
– Minha falta de integridade?
– Total. Você escreve porcaria e o que acontece? O disco rígido se deteriora com o esse lixo todo. Não há Cristo que dê jeito. Aí juntam as – entortou os cantos da boca para debochar – pequenas baratas. Para te dizer, com as anteninhas: acorda. Faz um texto decente. Pára de pensar em arrebentar nas vendas. Senão seu livro não sai.

Apesar de não tão versado assim em metonímia da informática eu não ia resistir:
– Se elas não passam de figurinhas de linguagem – e rapidamente me arrependi por cair na arapuca – por que chamei você? Bastava aprimorar meu trabalho, pra elas sumirem.

Metade do que eu disse ele já vinha adivinhando, quase dublando. E, sarcasticamente doutoral:
– O mundo metonímico anda irreversivelmente entranhado aos pormenores da vida efetiva (ele evitava, sei lá por quê, utilizar o termo vida real). O que não podia acontecer era os insetinhos aparecerem. Mas agora, pra remediar, nada melhor do que os prosaicos métodos operacionais. Acontece. – Coçou a barba grisalha. – Dia destes tive que tirar um monte de repteizinhos babentos do HD de um outro idiota aí, metido a cronista. E ele ainda teve a audácia de me perguntar, todo metido, se aquilo era porque escrevia cobras e lagartos sobre tudo que era assunto. – Gargalhou. – Tive que esfregar na cara do cretino que o textinho dele era tão antiquado que remontava ao Jurássico. Ao reptiliano. – Soprou a placa-mãe, de onde saíram mais umas cinco ou seis baratas, e espirrou, com uma bomba de plástico, um líquido esverdeado nos circuitos.
– Quer dizer – tentei fechar a conversa – que o Kafka tinha seu grande inseto e eu, os meus pequenos. Então tá.
– Kafka era um gigante. Você é um escritor minúsculo. Vive tentando superar o Teles só porque ele foi seu colega de faculdade. – Fechou e parafusou a tampa da torre. – Desta vez fica na faixa. Da próxima eu cobro o dobro, que é pra você aprender.

No dia seguinte recomecei do zero. Abusei de paráfrases, metáforas e até ataquei de metalinguagem, tão na moda, colocando ardor e mais consistência na escrita. As pequenas baratas não apareceram mais, e eu sentia sangue novo inflando a veia literária. Até que, cerca de três semanas atrás, algo quebrou de novo a rotina de trabalho. Devagar comecei a perceber uma fragrância leve passeando pelo escritório. Imaginei coisas, achei que seria algum vidro de perfume esquecido aberto, até me deixei inspirar pelo cheiro para melhorar os arranjos no texto. Só que a coisa chegou a um ponto impossível de não se fazer notar. Aos amigos que às vezes apareciam inventei um defumador ou algo do gênero, sei lá se acreditaram.

Claro que a fragrância vinha do computador. Ah, mas não – eu não ia dar aquele gostinho a ele. Liguei para o Naves, outro técnico, que há tempos não via. Logo que entrou no escritório ele começou a fungar, feito um perdigueiro, indo direto à torre. Perguntou se algo estranho tinha acontecido ao computador recentemente, e me dispersei com um sabe como é, esses troços. Ele desparafusou a torre, abriu, escarafunchou as fitas de circuito e parou, me olhando. Como eu desse de ombros, enfiou o braço até o fundo e destacou de lá uma flor bonitinha, de pétalas quase amareladas.

– Tem mais – ele falou. – Ficaram ali uns botõezinhos que parece que ainda vão brotar.

Olhei e vi que realmente, no meio do circuito, umas ramificações verdes bem pequenas, com cápsulas esbranquiçadas, se misturavam às fitas. O Naves, coçando o queixo, palpitou:
– Não sei, não. Mas minha mulher mexe com floricultura e eu sou capaz de apostar que isso aí é uma madressilva.

Apalpei, girei o talo, cheirei a flor:
– Madressilva? Tem certeza?
– Quase que absoluta. Só que tem um negócio. Nesse departamento aí eu não sou especialista.
– Quem você me indica?

Como se eu não soubesse.

Quando o Naves saiu, depois de recusar pagamento pela visita, peguei o telefone. Só que, enquanto o sinal chamava, me ocorreu uma coisa. Passei, entusiasmado, a elaborar a réplica antes mesmo de ouvir qualquer coisa dele. “O computador reagiu com uma bela fragrância de madressilva”, eu ia dizer. “O que você tem pra dizer agora? Vai me chamar de... ” Aí vi que a chamada caiu na secretária: “Sumi. Quando for a hora, retorno. Inclusive a ligação”. Veio o bip para a mensagem. Desliguei. Não tinha a presunção de achar que o recado era para mim, mas, convenientemente, me decepcionei. Voltei ao computador e continuei a fazer transbordar estilo e virtuosismo. A fragrância crescia ainda mais, e a madressilva, me assistindo, se encorpava num copo d’água, em cima da torre. No fim do segundo dia pude observar, pelo drive do CD-Rom, algumas hastezinhas verdes querendo sair. Onde estava ele que não via aquilo?

Me ligou três dias depois.
– Você não aprende.
– Não aprendo o quê? – falei, emburrado.
– Encontrei o Naves. Ele me contou.

Fiz uma pausa calculada para despejar as palavras certas:
– Meu computador está dando madressilvas. Madressilva, a incorporação do formoso, do lúdico. Do ornamento. Lonicera Caprifolium. E também utilizada pra...
– Muito bem. Vejo que você foi ao dicionário. Por que não aproveitou pra conferir também o significado de metonímia? Ou não aprendeu nada do que eu disse?

Cheguei a sacudir o telefone.
– De que diabo você está falando? Eu sei o que é metonímia!
– Sabe nada. Esquece de madressilva e do perfuminho ludibriador, meu caro. Isso aí não é nada mais que uma flor. Uma flor e pronto.
– E daí? – gritei.

Ele começou a rir, com muito, muito gosto.
– Ah, as filigranas da língua portuguesa, sempre nos fazendo de bestas. Você está flo-re-an-do essa bosta de texto, meu caro. É isso que o vernáculo, através do hardware, está dizendo. Dizendo, não, fazendo piada semântica às suas custas. Pára de rebuscar, esnobar na escrita. O HD não suporta. Uma hora é lixo pra vender, outra é embromação estilística? – E, depois de ouvir com prazer minha respiração pesada e ressentida: – Estou indo. Como prometi, vou cobrar o dobro.

Não cobrou. Como se eu não soubesse. E enquanto arrancava, com uma garra metálica especial, as ramificações vegetais e recuperava a estrutura das fitas de circuito, mantinha o risinho que virava gargalhada sempre que ele lia algum trecho no monitor. Antes de ir embora me aconselhou, ainda rindo, a desistir de romances e pensar naquele antigo projeto de trabalhar com ele.

Passei os dias seguintes completamente bloqueado para escrever. Não digitava uma palavra sem olhar, vigilante, para o monitor, ou a torre, ou a impressora, esperando alguma reação. Não conseguia tirar os olhos do branco da tela, do cursor piscando. Eu deitava a ponta dos dedos no teclado e ficava ali, parado, descartando, uma por uma, as idéias para começar o texto. A certeza da impotência, confrontada com a obstinação em escrever o livro de qualquer jeito, latejava mais alarmante, a cada hora que passava. Eu me levantava, dava voltas, xingava. Que diabo, pensava, não nasci para ser advogado. Será que eu estava pedindo muito – escrever um romance, adquirir renome? E se estava, por que então o Teles tinha conseguido, com aquelas historinhas de um niilismo tão artificial, com aquela prosa afetadamente blasée?

Na noite de ontem sonhei com uma trama absolutamente bem configurada. Precisa, envolvente, fluida. Acordei, epifânico, e fui amarrando os fios soltos do sonho para me convencer de que ali estava a estória. Perfeita, sem apelações mercantis, sem estilismos, concisa, redonda. Pulei da cama, já elaborando de cabeça o capítulo inicial, destinado a prender o leitor até a última página. Desta vez eu não precisaria temer o computador. Nada de inconveniente iria ser registrado por ele. Ele só precisava obedecer ao seu propósito – ser uma aperfeiçoada máquina de escrever.

Antes de abrir o Word, dei uma olhada pela internet. Vi a chamada num portal: “Escritor morre picado por escorpião.” E o texto: “O escritor Sávio Teles morreu vítima ontem de uma picada de escorpião, enquanto terminava seu último romance, A Terceira Metade. Ele estava no escritório de sua chácara, trabalhando no computador, e faleceu a caminho do hospital. Não se tinha notícia da presença deste tipo de artrópode na propriedade. A viúva de Teles afirmou à reportagem que o marido estava muito motivado pelo romance, chegando a considerá-lo sua ‘obra definitiva’. ‘Faltavam apenas umas duas páginas’, disse ela. Clique aqui para ler mais”.

Fiquei alguns minutos batendo de leve com o dedo no mouse. Não sei quantos minutos depois resolvi tomar com calma o café, me vestir e sair.

Abri a porta do escritório de assistência técnica e o cheiro bateu de frente. Ele, entretido com um monitor aberto, coçou a barba, a pontinha do cigarro pendendo dos lábios.
– Sem elucubrações – disse. – Às vezes uma cannabis é apenas uma cannabis. Soube do Teles?

Não queria falar do Teles. Queria saber do nosso projeto.
– Podemos começar já – ele falou. – Preciso de sua ajuda para elaborar um livro sobre minha especialidade. Nesse ramo só tem dois no mundo, eu e um indiano. Um livro técnico mas acessível, detalhado, um manual para acudir os pobres coitados que perdem tempo em projetos equivocados no computador. Dar minha preciosa parcela de contribuição ao desenvolvimento da raça humana. Disseminar ao vulgo meus utilíssimos conhecimentos. Ah, e ganhar dinheiro, claro.
– Ué – falei. – Você não era contra escrever pra...
– Não pretendo fazer literatura, meu caro – e, apagando a ponta no cinzeiro: – Por isso te chamei.

Suspirei. Ao menos ia ter meu nome na capa de um livro. Ainda que em segundo lugar.


Postado por Nelson Moraes às 19:40:34 | Livros | 10 comentários



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Comentários, Trackbacks:


Nome: anna
Url:
almiran, tamanha desfeita merece uma mensagem à altura.
fica esperto após enviá-la, porque vai sobrar cobras e lagartos pela casa.
06.09.07 @ 16:42

Nome: Luis Henrique
Url: http://www.lenouveaux.blogspot.com
avise-me quando publicar seu livro, por obséquio.
06.09.07 @ 18:53

Nome: Felipe Tazzo
Url: http://www.felipetazzo.com.br
Fantástica, Admiral! Admirável! Leio seu blog faz um tempinho e da sua invejabilíssima facilidade para brincar de lego com o português essa foi a mais legal que eu já li. O que vc tem publicado? Qual seu livro que eu deveria comprar?
09.09.07 @ 12:05

Nome: ALLmirante
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Perplexo. Ri demais. Thanks.
10.09.07 @ 09:40

Nome: ALLmirante
Url:
Perplexo. Malabarista da semântica. Não páro de rir. Thanks for ALL.
10.09.07 @ 09:41

Nome: Mauro Stein
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Bravo! Que saia agora o curta-metragem.
10.09.07 @ 09:55

Nome: Teo Amarante
Url:
Não vi uma só palavra sobrando, ou fora do lugar. Assim como Domingos Moura, Nelson Moraes é especialista em redondice (é assim que fala?) de texto. Parabéns.
10.09.07 @ 16:16

Nome: Clarice
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"Enquanto" leitora,já de mãos assadas de aplaudir. "Enquanto" platéia, ainda morro de rir. Sai quando o livro, hein? Hein? Escritor perfeccionista é de lascar!
Abração, mestre!
12.09.07 @ 16:25

Nome: Carlos E. Bonini
Url: http://www.palomaris.com/damisoginia
Brilhante! Eu não achei que você conseguiria manter o interesse até o final do texto, mas me enganei...

Muito bom mesmo.
23.10.07 @ 14:23

As imagens vieram tão vívidas que não sei se foi culpa da maestria com que tudo foi contado ou se devo calar meus bichinhos mentais. Vou ter pesadelos engraçados. Tsc, tsc.

Deliciosa leitura.
04.11.07 @ 00:26

comentários:

(Não será divulgado.)
(Será muito divulgada!)

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