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20 de Julho de 2007

Filé de peixe e Chardonnay

(tente adivinhar o final. Ou melhor, leia até o final, e veja se você adivinha. Mas não conte a ninguém. Se contar, peça para não contarem a ninguém. E assim sucessivamente)

Ah, agora é tarde.

Sei lá por que fui convidar o Teles para jantar – afinal, eu iria contar que estaria à caça de insights para meu novo romance. E é claro que o Teles, o invejoso Teles, iria fazer pouco, mudar de assunto, se morder, se mastigar de cobiça pelo meu talento, ignorar minhas considerações literárias como quem dispensa o hors-d’oeuvre sem olhar a cara do garçom.

Aliás, sei muito bem por que chamei o Teles.

– Um Brás Cubas do terceiro milênio – eu ia dizendo com ar cuidadosamente casual, enquanto ele fingia se entreter em fatiar o filé de peixe. – Um Machado para hoje: a pena da galhofa, a tinta da melancolia e o cartucho cínico de uma impressora. – Coloquei o minigravador em cima da mesa: — Não se acanhe em contribuir com idéias.
– Pintado pescado ontem. – ele falou, mastigando, olhos fechados. Levou o cálice à boca: – E combinando perfeitamente com este Chardonnay, safra, mmmm, noventa, noventa e poucos.
– Claro que revisitar Memórias Póstumas é um lance de ousadia – prossegui. – Mas se o grande romance brasileiro moderno demora tanto a acontecer, por que não revisitar os acontecidos?

Ele colocou a pequena caixinha preta hexagonal em cima da mesa. Pensei, rapé? Ele vai levar esse maneirismo ao ponto de cheirar rapé, aqui no restaurante? Não sei por quê, me pareceu caixa de rapé.

– O casal ali do lado – ele disse, sem tirar os olhos do prato. Fiz o mesmo; abaixei a vista para a caixinha de rapé.
– Isso é algum insight para mim ou comentário? – perguntei, empurrando o gravador para perto dele.
– O casal ali do lado – ele continuou como se eu não o tivesse interrompido – está à beira de uma tragédia.

[Mais:]

Olhei, mas já esperava: a impressão que o casal me passou nada teve a ver com a sugestão do comentário. Ambos com trinta e poucos anos, trocando risinhos, jantando tranqüilos. Que o Teles falasse, então. E ele desta vez demorou, saboreando devagar o filé e nos servindo de mais vinho.

– Ele, recém-empossado em algum cargo importante na empresa, mesmo com a pouca idade. É isso que eles, abre aspas, comemoram. Ela, claramente parvenue, denunciando no sotaque e nos gestos a baixa extração, e já deixando de ser o estímulo para virar o fardo para a carreira dele. – Nesse ponto o Teles pegou a caixinha de rapé, abriu e contemplou alguma coisa que pareceu acariciar a memória dele. Uma jóia? Deixou a caixinha de lado e voltou a comer.
– Sobre o que eles conversam? – falei. E ele, pela primeira vez me respondendo objetivamente:
– A conversa pouco importa. A sinalização subterrânea, sim, é que dá o teor.

Imagino ter sido neste instante que a lembrança de Suzana me abordou. Teles: a primeira e não muito demorada opção dela, depois de me deixar. Tudo bem que eles também se separaram, uns anos depois; mas ficaria latejando para o resto da vida o significado da escolha dela, ultrajante de tão previsível. Seria a aliança dela que ele contemplava naquela caixinha – que podia muito bem ser, pensando melhor, um porta-jóias? No meio do preciosismo estiloso do Teles havia lugar para recaídas ao óbvio? Não nos víamos há tempos; justo na ocasião de nosso reencontro ele iria me fustigar com aquele ritualzinho mal-disfarçado?

– Ele vai envenenar a moça – ele disse.

Levei um tempo para voltar à situação. Olhei demoradamente o casal.

– Aqui? – foi o que perguntei.
– Ele demonstra um tédio profundo quando ela, falando, desvia o rosto: o intervalo para o olhar dele respirar, dizer: ‘pelo que eu não tenho que passar’. No segundo seguinte ele resgata o sorriso e finge prestar atenção à conversa dela, cheia de advérbios mal colocados.
– Ele vai envenenar a mulher... aqui? – insisti, e ele, mais uma vez como se não tivesse sido interrompido:
– Ele faz questão que ela tome vinho. Ela já tinha dito que não gostava; preferia licor, o que desagradou vivamente o marido. Apesar do largo sorriso que ele abriu para insistir no vinho. Agora ela cedeu, e está vindo por aí algum tinto que ele, na rigidez de valores que a carreira bem-sucedida prescreve, acredita que cai melhor com o filé ao molho madeira que eles pediram.

Suzana tinha dito ao juiz que eu envenenei a gana dela pela vida. Seria a conjunção de detalhes – a caixa com a jóia, a insinuação sobre o casal ao lado – uma afronta velada, que ao menos ia emprestar alguma sofisticação àquelas sugestões que eu há pouco imaginei meio rasteiras?

– O óxido do vinho tinto retarda a ação do sulfato de tálio que ele vai depositar no cálice dela – ele continou. – Sulfato de tálio...
– ...o veneno que não deixa rastro – interrompi, para deixar claro que ele não iria pontificar sozinho naquela pormenorização erudita. E ele, pela primeira vez se sentindo interrompido, mas sem denunciar no semblante:
– E que vai ser ministrado assim que o cálice dela for enchido.
– E como ele vai colocar? Vai dizer a ela, ‘olha um ovni ali na terceira mesa’, e quando ela se virar ele despeja? – Achei que já era hora de descontrair. Ou afrontar também.

Teles voltou à caixinha: o acinte realçado. Suzana, veneno, aliança. Estariam os dois se vendo de novo? Fiz o comentário sobre o casal sem querer demonstrar sarcasmo na voz - mas a raiva já começava a me dar sinais de vida, a querer escalar o esôfago. Teles:

– Ela vai ao toalete. O batom já acabou e ela demonstra isso, passando de forma distraída e simplória a língua pelos lábios. Para um observador inepto, sinalização sensual. Para quem sabe ver, mera necessidade de retocar a maquiagem.

Eu não ia passar recibo à provocação. Talvez me fazer de entretido nas ilações dele e ver até onde iriam. Talvez.

– E será que você percebeu isso antes dela? – falei.
– O importante é que ele percebeu. – E o Teles deixou o prato de lado para se dedicar ao que restava do Chardonnay. Não tirava os olhos da outra mesa. – Pronto. O vinho chegou. Um Merlot. Encorpado, ideal para os planos dele. Que, por sinal, já acariciou várias vezes o interior do bolso do paletó, só para se certificar mais uma vez de que o veneno está lá. A mesma insegura certeza que o noivo demonstra com a caixinha da aliança, antes de subir ao altar.

Já bastava. Ou eu tomava a caixinha e ia embora – ou terminava de ouvir a preleção. Que aliás ia me enfurecendo devagar e borbulhantemente. A raiva já me chegava à garganta.

– Por que ele não envenena a mulher em casa? – perguntei. – Logo um restaurante?
– O calculismo dele não evita que ele vire presa fácil da obviedade dramatúrgica: a volúpia de ser quase descoberto. A liturgia do jantar fora, do vinho etc etc. Tirando o fato dele não ter percebido que eu sou a única pessoa do restaurante a observar tudo.

A moça já tinha ido ao toalete, o que me irritou mais ainda. Teles, de tanta soberba, nem ostentou o triunfo. Só foi adiante:

– Ele, sozinho à mesa, acaba de bebericar na taça dele, e agora faz o mesmo com a dela. E demora. Para um observador ignorante, um chamego à distância. Para um...
– ...arguto Poirot, o detalhe que faltava – tornei a provocar.
– Prefiro Nero Wolfe. Vem mais ao caso. Mas o que importa: a coisa já está feita. Ele acaba de fazer a aliança com seu futuro arrivista e glorioso.

Aliança. Realmente às vezes as insinuações beiravam o pueril, mas era a maneira dele administrar minha raiva com rédea curta, ou sei lá, solta. Eu estava nas mãos dele. Por isso me levantei.

– O que é isso? – foi só o que ouvi o rapaz da outra mesa dizer, quando peguei o cálice da mulher e tomei, de um gole só. Acho que respondi: “Só para conferir um detalhe.”

O ligeiro constrangimento, contornado pelo maître com outro cálice para a atordoada moça – que chegava naquele momento sem entender nadinha – e por meus insinceros pedidos de desculpa, alegando ter confundido ambos com um casal amigo meu, não se comparou à satisfação em ler no rosto do Teles um ligeiro desarme. Não, aquele desfecho ele nunca cogitaria. Nem meu “Mando notícias do além, mister Wolfe”, que soltei enquanto secava meu cálice de Chardonnay, antes de pedirmos a conta.

Mas dois dos desfechos eu jamais cogitaria também. O primeiro foi quando ele me tomou o gravador, à saída do restaurante, com o pretexto de elaborar outros insights e devolvê-lo no dia seguinte. Seu semblante francamente desarmado me soava uma vitória muito fácil.

O segundo desfecho foi eu chegar em casa, sentir as primeiras contrações lá por volta da meia-noite – e, minutos depois, morrer. Até agora não acredito que o poder de elaboração dele fosse tão longe. E se brincar até em meu velório ele vai.

Para quem não acha que a morte é o fim, garanto: é. Antes de acabar, só posso dizer que o descanso eterno me confere o discernimento que não eu soube utilizar no jantar. E ver. A caixinha com o veneno, que ele faltou abrir na minha cara, e que despejou em meu Chardonnay quando fui à outra mesa. A conversa gravada, que não só o inocentava como comprometia o rapaz do casal – que iria ter de se virar para provar não ter usado sulfato de tálio no cálice que eu bebi: a falta de provas incriminando o coitado. Só podia mesmo ter partido do Teles. E tinha Suzana, também. Que não sei por que coloquei aqui, no meio dessas inferências – mas que provavelmente tem a ver com isso tudo. Talvez nem ela saiba.

Fim. Não pensei que me aproximaria tanto de Brás Cubas, mais do que jamais planejei. Agora é tarde, mas aprendi: quem se supõe literato precisa falar menos. E escrever mais.


Postado por Nelson Moraes às 19:15:57 | Livros | 11 comentários





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Comentários:


Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/

Talvez a excelência da tua redação, talvez excesso de leitura, teu conto me lembra o Edgar Allan Poe mais que outro autor.
Não vou comentar além disso para não estragar as surpresas do conto.
Parabéns, Nelson.

PermalinkPermalink 21.07.07 @ 09:38



Comentário de: Teo Amarante

Não sei se foi intenção sua, mas passei o conto inteiro confundindo o Brás Cubas com o Dom Casmurro, o que me levou a pensar num final completamente diferente. De qqer forma, belo coup de theatre. Abraço.

PermalinkPermalink 21.07.07 @ 11:17



Comentário de: Edney Souza Email · http://www.interney.net/

Fantástico!

PermalinkPermalink 21.07.07 @ 15:36



Comentário de: MarcosVP · http://pirao.wordpress.com

Almirante, até dá para sacar, mas não tudo. Ainda deu pra ficar surpreso. Bom, vc queria saber, né? Mas nada a desmerecer, o texto é duca. Abração.

PermalinkPermalink 21.07.07 @ 20:25



Comentário de: gugala · http://www.gugaalayon.blogspot.com

esta puta da Suzana...

PermalinkPermalink 23.07.07 @ 14:00



Comentário de: Luis Henrique · http://www.lenouveaux.blogspot.com

Parfait!!

* Onomatopéia de aplausos incessantes junto a brados de "Bravo! Bravo! Bravíssimo!"

PermalinkPermalink 23.07.07 @ 22:42



Comentário de: Flavio Prada

Esse tipo de post, absolutamente almirântico me faz o efeito do tálio. Sinto enjôos de ciúmes lendo-o e depois morro de pura inveja. Cazzo, vou apagar tudo o que escrevi.

PermalinkPermalink 24.07.07 @ 12:00



Comentário de: Misantrópico Casmurro · http://estevamp.blogspot.com

Como diria Holmes (não confundir com Holmer): "Nem um pouco elementar, meu caro almirante..."
Excelente!

PermalinkPermalink 25.07.07 @ 14:53



Comentário de: Amiga-Anônima · http://anonimato.net/diario

Puxa, que fantástico! Adorei mesmo o texto, não esperava esse final! :)

Beijos anônimos

PermalinkPermalink 26.07.07 @ 17:38



Comentário de: ratapulgo de lupa · http://orabolas.blogspot.com/

Alimentar, meu caro Watson, alimentar. Saborosíssimo prato, combina bem com queijos da borgonha e vinho de novilhas do vale d'Antanho.

Quanto ao seu questionamento: sabendo do plot twist final, a referência ao Memórias póstumas já induz a um defunto-autor; e o paralelo das taças de vinho nos deixa com um fricassé atrás da orelha, mas só. Meus cumprimentos ao chef!

PS - Não tenho muita certeza, mas não creio que o Tálio funcione tão rapidamente. Sou um tanto leigo no assunto, mas a minha terceira esposa sobreviveu cerca de um mês e meio sorvendo pequenas doses diárias em seu licor de ovos. Meu ex-chefe algumas semanas a mais e fui obrigado a adotar a clássica routine da chave-inglesa na biblioteca (grato, Coronel Mostarda).
Ps2 - Sim, sim, tem uma leve bouquet de amontillado de Poe.

PermalinkPermalink 27.07.07 @ 03:00



Comentário de: Marco Aurelio Brasil · http://www.verbeat.org/blogs/eporaqui

Mas bá, eu já li isso em algum canto!

PermalinkPermalink 27.07.07 @ 14:29



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