26 de Março de 2007
Idéias e Martini
Idéia não pode ser paparicada, estragada, só porque foi tida. Idéia tem que ser jogada ao relento, com dez reais no bolso, e se virar sozinha. Morte aos parideiros que se jactam, com volúpia – uh –, fazendo o olho boiar: "Tive uma idéia!". A estes devemos jogar com preguiça o olhar de nonchalance e comentar: "Pois eu não tenho idéias, não deixo a ninguém o legado do meu miserê" – só para ver como fica a cara do parideiro de idéias. Idéia tem que ser negligenciada por um longo período, para não crescer achando que é gente. Devemos ter notícia da idéia só de tempos em tempos, para ver se, sei lá, precisamos enviar uma ordem de pagamento. A um amigo que se lembra e diz, imaginando agradar, "Ei, vi sua idéia anteontem!", devemos murmurar um "Sei" mais seco que o martini do Rick's Café Américain. É bom ficarmos sabendo que nossa idéia, mês passado, foi confrontada num beco por uma gangue de portorriquenhos ou de skinheads. É bom sabermos que ela apanhou – é de praxe idéia apanhar – e urge que camuflemos o discreto orgulho pelo fato dela também ter dado um chute aqui e uma joelhada ali. Morte a quem anda com foto da idéia na carteira. Longa vida ao ladrão de idéias, que na primeira esquina as assalta sem clemência: "É para edificar o caráter delas", dirá ele à polícia, e a polícia precisará acreditar. Se soubermos que a idéia não resistiu à penúria e saiu assaltando também, reajamos com a indiferença de quem acabou de ficar a par de um dado estatístico. Se recebermos um telefonema às dez da noite informando que nossa idéia gerou outra idéia, devemos desligar delicadamente o fone na cara da pessoa não sem antes dizer "Não é problema meu". E torcer para que a idéia seja minimamente sensata e siga nosso exemplo. Mas não torcer muito, pois não se torce por idéias. Um dia, então, baterão à sua porta e você a princípio não vai reconhecê-la. Vai ver no semblante dela o background de quem apanhou, foi distorcido, mal aproveitado, explorado, mal inserido no contexto – mas o melhor: não cedeu à facilidade de posar de vítima. Aí, naquela fisionomia calejada e já um tanto austera você de repente vai vislumbrar o seu semblante. Então cuidado: chame-a para entrar, pergunte o que ela toma e muita, muita atenção – não vá pôr tudo a perder agora, seu babaca sentimental – para, no preparo das bebidas, virar o rosto na hora certa e evitar mostrar o lampejo, o rápido lampejinho aceso pela memória de quando você agasalhou a danada perto do peito, assim que a viu pela primeira vez. Fique esperto: só depois disso é que você vai virar de novo o rosto e, sim, perguntar, com polidez, se ela prefere o martini dela com azeitona.
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Comentários:
engraçado que dia desses conversava com um amigo sobre idéias para livro. no que fui questionada sobre o meu, apenas respondi: "nenhuma das minhas idéias me convenceu a ser escrita".
e são tão ruinzinhas que duvido conseguirem um argumento melhor do que "porque sim".
para meus marujos aqui pararem de ficar tendo
idéias e irem lavar logo o chão do convés.
;-)

















