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27 de Fevereiro de 2007

ANTES ELA DO QUE EU

– Ih, ó: a metalinguagem já era.
– É, tem hora que é um estilo que predomina, tem hora que é out...
– Não. Eu disse que ela morreu mesmo. Ali, na esquina da Nóbrega com a Tenente Firmino, quando ia saltar do ônibus. A sandália ficou presa na porta, aí ela caiu de cara no meio-fio e pimba. Diz que ainda deu uns tremeliques na perna, até chegar a ambulância. Acabou morrendo no caminho.
– Mmm, certo. Eu devia saber. O próprio título da história aí em cima não deixa de ser um presságio irônico. Quer dizer que a partir de agora esse nosso conto metalingüístico, sobre as idas e vindas das tendências literárias, e repleto de auto-referências, deixa de existir.
– Tá. Mas o que a gente faz?
– Bom. Comecemos admitindo então que não estamos mais nesse diálogo. E que nossos travessões a partir de agora ficaram obsoletos.
– Que travessões?
– Aqui, do lado. Antes da fala.
– Ah.
– Aliás, nem sei para o que eles vão servir agora.
Ei, olha aqui! Que tal?
– O que você fez?
Ué. Subi no travessão e tou usando de skate. E dá licença, dá licença que eu vou barbarizar nessa rampa aí, ó.
– Caramba. Não era rampa. Era o cê do meu “Caramba”. E cuidado. Quase me acertou!
Opa, desculpa. Olha, tenta você também. É fácil.
Mmm. Será? Ooops \ Ai! Não, não dá certo. Não tenho equilíbrio com essas coisas.
Então aproveita que você se machucou e usa seu travessão como bengala, ué!
| Ei. Tem razão. Olha aí. Eu agora tenho uma bengala. Tchururu.
Chique no úrtimo.
| Peraí. Você fica se equilibrando descompromissadamente no seu skate, eu posando de lorde com minha bengala... O problema é que com isso acabamos incorrendo na metalinguagem e dando prosseguimento ao conto!
Ah, corta essa.
| Sério! Olhaí: mesmo morta ela faz questão de deixar claro que fora dela não tem salvação! Não podemos ceder. Não podemos. Precisamos lembrar que essa história não existe mais, caramba: temos que parar de interagir com os elementos constitutivos do texto! Precisamos deixar de acontecer.
Uai. Certo.
| ...
...
| ...
...
| ...
...
| ...
...
| ...
...
| ...
... \
| ...
... \ _
| ...
... \ _ | _ /
| ...
... \ _ | _ / _ \ _ | _ / _ \ _ | _ /
| Mas... o que você tá fazendo?!?
Ah, uns malabarismos com os travessões. Aqueles lá de cima, que a gente não tava usando mesmo. Só pra quebrar a monotonia.
| Dá pra parar?
Ah, é que ficou muito tedioso isso aqui! Você olha e...
| Pssst! Não dialoga diretamente comigo. Não podemos fazer sentido! Disfarça, olha pro lado e fala baixo. Fala baixo.
Tá. O lance é que isso de não acontecer acaba ficando um pé no saco, e...
| É, eu sei.
É, eu sei.
| Por mim eu punha agora um ponto final na história, mas seria sucumbir de novo à metalinguagem.
Por mim eu punha agora um ponto final na história, mas seria sucumbir de novo à metalinguagem.
| Você tá me imitando?
Você tá me imitando?
| Pára com isso!
Pára com isso!
| Pára, caceta!
Ué, não é pra falar baixo, neguinha?
| Escuta, a cada vez que você fala, ou faz sentido, ou tece uma situação, só piora tudo!
Ah, bobagem. Precisamos é passar o tempo. Ei, que tal ficar sem respirar até a fonte do texto ficar azul? Ou concurso de salto à distância com travessão? Não é porque a metafísica morreu que a gente vai ficar borocoxô, e...
| Peraí. Você disse... metafísica?
Ahn. Er.
| Foi a metafísica que morreu?!?
Uai. Me disseram que tinha sido uma meta-não-sei-das-quantas aí. Nem reparei direito.
| Caraaaaaaaaaamba, eu devia saber! Eu devia saber! A metalinguagem não estava descendo do ônibus! A metalinguagem era o ônibus! Eu devia saber!
Ué. Se você diz...
| Aliás, dá licença.
O quê?
– Pronto. Voltei o travessão pro lugar dele. Agora tenha a gentileza de fazer o mesmo.
Ah, eu vou ficar aqui mesmo, ó.
– Desce desse skate agora mesmo! E vamos retomar nosso conto metalingüístico.
Poxa, deixa eu ficar aqui. Ó, ó, dá pra fazer umas manobras radicais no texto, e...
– Põe esse travessão na frente de sua fala agora mesmo, ou...
Ou o quê?
– Eu dou um jeito de transformar suas falas em diálogo indireto!
Nhemnhemheitoehnhemformahemfalanhemnhiálogonhehnidireto...
– Como é?!?
– Nada. Nada não.


Postado por Nelson Moraes às 11:45:20 | Contos | 20 comentários





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Comentários:


Comentário de: Cynthia · http://cyncity.zip.net

Gatim Félix !!

:o*

PermalinkPermalink 27.02.07 @ 11:55



Comentário de: Cássia

Divertidíssimo! :)

PermalinkPermalink 27.02.07 @ 13:04



Comentário de: Edney Souza Email · http://www.interney.net/

Poxa, pensei em usar travessões com rifles agora! :)

PermalinkPermalink 27.02.07 @ 13:54



Comentário de: misantrópico casmurro · http://estevamp.blogspot.com

Eu já tive um travessão uma vez... Mas ele molhou, encolheu e virou sinal de menos. Aí comprei um ponto-e-vírgula; mas não veio manual e nunca sei direito como usar...

PermalinkPermalink 27.02.07 @ 16:24



Comentário de: Pedro Daltro · http://raciociniocinico.blogspot.com/

Foda. parabéns pelo texto.

abs

PermalinkPermalink 27.02.07 @ 16:28



Comentário de: Jorge Rocha · http://www.exucaveiracover.blogspot.com

eu prefiro as reticências. dá licença ...

...


...


...

[pausa dramatica]

...

PermalinkPermalink 27.02.07 @ 21:56



Comentário de: karla nazareth · http://www.plasticsurprise.blogspot.com

pra não ter rebeldia, às vezes, reprimo tudo entre aspas.

PermalinkPermalink 28.02.07 @ 01:14



Comentário de: tina oiticica harris · http://attu.typepad.com/universo_anarquico/

Ainda bem que sobreviveu a metalinguagem ou os diletantes e candidatos a Ph.D. em tropicalismo teriam suas carreiras terminadas, kaput.

PermalinkPermalink 28.02.07 @ 03:23



Comentário de: Ricardo Schott Email

hehe, legal! abç

PermalinkPermalink 28.02.07 @ 10:15



Comentário de: Milton Ribeiro · http://www.verbeat.com.br/blogs/miltonribeiro/

Puta merda. Vou ter que mudar todo o conto que escrevi para o Doni publicar sábado no Hedonismos.

Está cheio de travessões, reticências, o diabo. Todo mundo vai rir lembrando de ti.

Ou não mudo nada?

Bom, de qualquer maneira, um abraço.

PermalinkPermalink 28.02.07 @ 11:15



Comentário de: Nelma

-Que falta de inspiração o cacete!Você me enganou direitinho!

PermalinkPermalink 28.02.07 @ 12:17



Comentário de: gugala · http://www.gugaalayon.blogspot.com

------- X --------

PermalinkPermalink 28.02.07 @ 14:46



Comentário de: Livia

Hahaha, adorei o placar do Gugala ai acima. Significa que o texto mirou no travessao e marcou um gol de placa! :-)

(e por falar em metalinguagem, estou teclando hoje sem acento!!! Ah, tecladinho....)

PermalinkPermalink 28.02.07 @ 18:48



Comentário de: Luizao · http://diariodeouropreto.wordpress.com

Isso, isso, isso. Ou não.

PermalinkPermalink 03.03.07 @ 07:41



Comentário de: Erika · http://oncoto.erikamurari.com.br

Cheguei aqui pela Lonely Avenue... muitooooooooo show seu texto..


PermalinkPermalink 03.03.07 @ 20:29



Comentário de: Nelma

Venho em nome dos seus 5 ou 10(mil)leitores suplicar por mais um video post!Pleeeease!

PermalinkPermalink 04.03.07 @ 12:59



Comentário de: Sarneba · http://www.brejodosarneba.splinder.com

Almirante,os sonares do farol do Brejo indicaram mudanças em sua rota.Pelo sim pelo não resolvi seguir os sinais e vim parar aqui(não vou dizer "dei com os costados" para evitar dúbia interpretação).
Aproveito a oportunidade para,além de ratificar os votos de uma boa era de mares calmos e azuis,solicitar minha inscrição,caso me faça merecedor,na lista de possíveis portos para náufragos literatos e demais integrantes desta esquadra ilustre e belicosa.
Sem mais,
Sarneba,eremita do Brejo.

PermalinkPermalink 04.03.07 @ 21:03



Comentário de: Lari e Jô · http://simsenhoras.blogspot.com

Mais duas a bordo!
Adoramos seu espaço...demos uam passada no antigo e viemos parar aqui...
Voltaremos!!!
Apareça para nos visitar:
http://simsenhoras.blogspot.com
abraço
Lari e Jô

PermalinkPermalink 05.03.07 @ 08:27



Comentário de: Marco Aurelio Brasil · http://www.verbeat.org/blogs/eporaqui

Monetizando, hein? Você se vendeu pro sistema! Como é que conseguiu? Dá as coordenadas, please. No mais, a metalinguística está morta. Viva a metalingüística.

PermalinkPermalink 06.03.07 @ 08:34



Comentário de: Edney Souza Email · http://www.interney.net/

eu já viajei na batatinha, imaginei duas frases jedis duelando com travessões de luz

PermalinkPermalink 06.03.07 @ 12:35



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