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14 de Janeiro de 2007

MEG

Tento eu começar a escrever isso aqui, hoje à tarde, quando a Meg, finalmente à vontade para poder se sentar ao meu lado, na mesinha do computador, segura minha mão no teclado: “For God’s sake, Lord Nelson Patrick O’Beach: nem sonha em começar seu post dizendo que a partir de hoje o mundo fica menos interessante. Ou que de mim só vão ser guardadas as boas lembranças, yadda, yadda, yadda. De mortuis nihil nisi bonum? C’mon: você ia querer me enquadrar nesse latinório? Não, Admiral, você pode melhor. A mim tudo, menos o lugar-comum. Tenta ao menos fazer o que o John Cleese fez quando falou do Graham Chapman. Aliás, lembra daquela bronca que te dei uma vez, por conta de um misunderstanding em nossa correspondência pessoal? Bronca da qual você saiu efusivamente perdoado? Pois agora não vai ter perdão. Começa esse post com algum clichê e – I mean it – nunca mais a gente se fala”.

Na verdade, Meg, não faço a menor idéia de como começar. Na alienação imatura que só faz adiar o inadiável, eu achava que nunca precisasse escrever esse texto. E vou cair, claro, nos lugares-comuns – que na verdade acabam sendo o refúgio secreto dos que se aventuram a afetar irreverência. Vou dizer, sim, que a blogosfera perdeu toda a graça. Vou dizer, sim, que passam na tela do meu PC todos os posts onde você fazia megabytes de propaganda carinhosa de blogueiros que, segundo você, valiam a pena ser lidos – e que depois disso deixaram definitivamente o anonimato internético. Vou lembrar, sim, das figurinhas virtuais dos Kellys (tanto a Grace quanto o Gene), Sinatras, Audreys, Marilyns e Sebergs que a gente já trocou. E olha que eu já ia esquecendo os trechos do Cole Porter, que a gente usava para se declarar um ao outro. Vou dizer, também, óbvio, que acaba de me vir a imagem daquela caixinha que você nos enviou pelo correio, uns dois anos atrás, com várias lembranças, além do livro do Haroldo Maranhão e – dessa você lembra? – os bombons de cupuaçu, tão com o gostinho de seu Belém do Pará. É isso o que eu vou dizer, Meg, porque me sinto miseravelmente uma presa do clichê. Não consigo ser original. Mesmo que você queira me dar outra bronca. Mesmo que acabe se configurando, de uma forma ou de outra, o que você sugeriu lá em cima – mas que eu me recuso a acreditar: que a partir de agora a gente não vai mais se falar.

Antes que eu comece a digitar sinto que a mão dela pega devagar na minha, novamente, agora não mais para orientar a escrita, só mesmo para antecipar o cochicho: “Não esquece de dizer que mando um beijo pra Adorável Pecadora. Vocês são o melhor casal ever”.

Sempre, sempre vou te amar. E faz um favor. Esquece toda a sucessão de lugares-comuns que eu ia cometendo lá em cima e se concentra nessa frase, só. É o máximo que eu posso escrever agora. E é
tudo que, no momento, eu vou conseguir te falar, my sugarbabe.


Postado por Nelson Moraes às 17:07:45 | Memoirs | comente





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