29 de Dezembro de 2006
A HISTÓRIA DO HOMEM SOBRE A TERRA
Onze e quarenta e Júlio segura a chave da porta, para não deixar Carla sair. E dizendo: “Vai acontecer. Eu sei.”
Exatamente um ano atrás ele tinha descido à loja de conveniência para comprar Miller long neck. Eram onze e quarenta e oito de 31 de dezembro. Ele atravessou a rua de olho fechado, já entregando os pontos e pedindo para
a) achar alguém em 2006, ou
b) encontrar logo Mariana, novamente, e pronto – para que arriscar no desconhecido?
Quase foi atropelado pela D-20. Passado o susto, comprou a cerveja, desejou feliz ano novo ao balconista e aí reparou – atrás, na fila – primeiro nos dentinhos da frente ligeiramente pronunciados; quando viu já tinha olhado Carla inteira. “The perfect imperfection”, pensou, lembrando Little Feat: “There's a girl standin' on a corner.” Ele passou o ano inteirinho à beira do surto, pois sempre que olhava Carla – saindo do chuveiro, acordando ao lado dele, deixando à mostra a penugem solta na nuca quando prendia o cabelo – imaginava se ela, ah, sei lá.
Agora, à beira de 2007, ele segura a chave. Ela tinha dito: “Esse ano é a minha vez de ir comprar a Miller”. Ele: “Eu vou junto”. Ela, rindo: “Me vigiando?” Ele, fechando a passagem, abrindo o jogo: “No começo eu tive medo de você sumir de uma hora pra outra. Mas aí lembrei que eu tinha feito o pedido pra todo o 2006. Se você sair agora, dá meia-noite e você deixa de existir.” Carla senta. Respira fundo e tranqüila, olha o relógio. Júlio fica jogando a chave para cima e olhando para os lados como se não fosse com ele. Carla, brincando de rodar o anel no dedo: “Lembra que um dos teus pedidos era encontrar a Mariana de novo? Pois é. O que você acha que aquela D-20 ia fazer? Mas eu tinha desejado tão forte te conhecer em 2006 que você escapou. Continuou no mundo dos vivos, veio pra mim. Tem lógica eu sumir, assim, agora?” A chave pinga na mão dela. Ela sai, a penugem na nuca parecendo acompanhar o levíssimo vaivém da cabeça que insinua “tsc, tsc”, o cabelo preso com lápis. A porta bate. Júlio senta devagar no sinteco da sala, olhando a maçaneta da porta, na titânica e cética certeza de que dali até a meia-noite se passarão todos os séculos da história do homem sobre a Terra.
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