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26 de Dezembro de 2006

TAKES

1.
Filme de Lars Von Trier. Personagem amalgamando a abrupta transição da barbárie para a decadência estadunidense esbarra em um personagem estereótipo da auto-negação psicossocial. Vão os dois ao chão e, estelados, lá permanecem contemplando maravilhados os holofotes no teto do estúdio.

PERSONAGEM 1 (você escolhe quem é quem, porque a atriz já brigou mesmo com o diretor e abandonou tudo na metade das filmagens): Metalinguagem. Tudo é metalinguagem.

PERSONAGEM 2: Por falar em metafísica...

PERSONAGEM 1: Alguém falou em metafísica? Eu disse metempsicose.

PERSONAGEM 2: Então, já que falamos em metáfora – você acredita em vida além da tela?

PERSONAEGEM 1: Você quer dizer...?

PERSONAGEM 2: Sim. Vida além da tela. Aquilo a que os místicos chamam de... platéia.

PERSONAGEM 1: Platéia. Um grupo de pessoas sentadas em poltronas, nos assistindo?

PERSONAGEM 2: Sim.

PERSONAGEM 1: Ha.

PERSONAGEM 2: “Ha” de rá, rá, rá ou “Ha” de Não converso sobre metapsicologia?

PERSONAGEM 1: Ué. Tem quem acredite. Mas sinceramente, isso de um outro plano com gente de carne e osso nos assistindo, tentando se entreter conosco, procurando alguma mensagem em nosso arremedo de trama... Não, não creio – é muita concessão ao vulgo. É querer ingenuamente buscar um consolo abstrato para a aridez que nos cerca e cerceia. Aliás, você vai cair muito em meu conceito se disser que acredita, viu?

PERSONAGEM 2: Meta-se com a sua vida.

PERSONAGEM 1: Metassecomassu... como, mesmo? Não era metafísica?

2.
Filme de qualquer diretor chinês. Guerreiro do clã Meiji, empunhando uma adaga, pula seis metros sobre o arvoredo para enfrentar um espadachim mercenário que vem voando por sobre o pomar do palácio do imperador, brandindo um sabre. As lâminas se raspam, ecoa o tinir do aço e os lutadores passam rente um ao outro. O samurai bate o pé num galho, sobe mais dois metros e voa até onde o espadachim se projetou, acima dele. Ficam cara a cara, lâmina a lâmina.

GUERREIRO: É o fim.

ESPADACHIM: Nem tanto, infiel. Não está em meus planos ainda o abraço com a morte.

GUERREIRO: Não, eu digo – é o fim. Começou aí uma leva de filmes com efeitos especiais mirabolantes.

ESPADACHIM: Ah. Coisa de Hong Kong, no mínimo.

GUERREIRO: Pois é. Imagine que eles apresentam lutas marciais mostrando os lutadores com os pés no chão! Andando! Obedecendo à lei da gravidade e tudo!

ESPADACHIM: Ai, ai. Invenção de moda que logo vai virar tendência, aposto. Quando vão acabar com tanta pirotecnia e se concentrar em contar uma história?

GUERREIRO: Então. E esses maneirismos estilosos se espalham tão rápido pelos filmes que a gente nem se dá coooooooooooooooonnnnnnplft.

3.
David Lynch de filme. Início seqüencial mostra duas conversas entre um sujeito. Ele tem Dennis Hopper de cara. Plana para corte médio de texugo sendo policiado por dois presos no 66 da rota. Vista de ponto do espectador: Nicolas Cage peita nos dois pegas de Laura Dern deixando os duros bicados, enquanto coxa cachorreia mesa de pé. Música fundal ao clássico. Repente entrado de anão contrário ao falando: maremoto provoca celacanto. Andar seca no jacaré. E o texugo ali, de cara.

4.
Filme de M. Night Shyamalan. Plano geral mostrando uma platéia em uma sala de cinema, olhando atenta para a frente. Um dos espectadores cochicha e aponta.

ESPECTADOR: Ah, essa eu já matei! E olhaí (aponta o relógio): antes da meia hora final!

ESPECTADORA: Psssssh.

ESPECTADOR: Matei! O bandido é o mocinho, o mocinho é a mocinha, a mocinha morreu ao nascer e aquele paquistanês amarrando o cardaço no parachoques da kombi é o diretor!

ESPECTADORA: É indiano. E dá pra falar baixo?

ESPECTADOR: Ah, qualé? Eu sempre dançava nesses finais! Dancei nos cinco filmes dele! Mas nesse eu fiquei à espreita. Fui pegando as dicas uma por uma. Fui fazendo todas as conexões possíveis! Tanto que nem prestei atenção na história! Aliás, nem sei do que se trata! Mas as pistas eu peguei todas! Pronto! Esse final eu tinha que adivinhar!

VÁRIOS ESPECTADORES: Pshhhhhhhhhhhh!

ESPECTADOR: Ah, não encham. Deixem eu comemorar, pombas. É o primeiro dele em que eu acerto o final!

ESPECTADORA: Não é um filme dele.

ESPECTADOR: C-como?

ESPECTADORA: É um filme do Lars Von Trier. E pros personagens dele, platéia é pura ficção.

ESPECTADOR: Então...

ESPECTADORA: Então a verdade é que nós nunca existimos. Agora fica quieto.

ESPECTADOR: (resmungando baixinho e recolhendo-se na poltrona) Droga. Outra dançada. Paquistanês filho da puta.

Sobem os créditos.


Postado por Nelson Moraes às 08:17:32 | Cinema | comente





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