16 de Outubro de 2006
PLANTÃO MÉDICO - Vol. II
– E então, doutor? E essa voz que eu ando ouvindo?
– Bom. O senhor vive reclamando que sua vida é uma tragédia, não?
– Exato, exato. E agora, como se não bastasse, ainda começo a ouvir essa voz que...
– É o que eu queria dizer. Sua vida é uma tragédia grega.
– Como?
– Sim. Descobrimos pela tomografia. Uma tragédia grega. E a voz que você ouve é o corifeu.
– Corifeu?
– Sim. Nunca ouviu falar? Nas peças gregas é o comentarista, o narrador à parte, que fica pontuando, às vezes declamando sobre o sentido do drama. O que a voz lhe diz?
– Ué. Semana passada, por exemplo, quando descobri que minha mulher tava me traindo, ouvi a voz dizer “Ó, chavelho dos cordeiros da Jônia brotando em terreno plano como os planaltos da Tessália!”
– Pois então.
– Ah, tem mais: ontem à noite me pareceu que eu ouvi “Corno Manso! Corno Manso!”, e tive a impressão de que era mais de uma voz. Aliás, eram muitas, sabe, e...
– Claro. Aí já é o coro.
– Sei. Mas o que eu faço?
– Toma essas pílulas e tenta ficar longe de gente cega. Se topar com ceguinho no semáforo pedindo esmola, tapa os ouvidos e começa a gritar “Lá lá lá lá lá” bem alto. Entendeu?
– É menino.
– Menino o escambau.
– Psst. Olha o palavreado. A gente tá numa sala de ultrassonografia, não em casa. Larga de ser bobo.
– Ué. Eu só disse que não é menino.
– Claro que é.
– Nunca.
– Mas olha lá!
– Eu tou olhando, ué. E pra mim é menina!
– Menino.
– Menina!
– Você é teimoso.
– De jeito nenhum.
– Então é cego.
– Cego é o pai dele.
– Hã?
– Claro, ué. Não é possível que o pai dele nunca percebeu. Olha o jeitinho com que ele ligou o vídeo, olha a desmunhecada na hora em que passou o gel na sua barriga... Ah, menina mesmo. De chamar as pacientes de “fofa”.
– Psst. Ele tá vindo. Muda de assunto. E presta atenção, que a imagem já vai aparecer.
– ...
– O que você cochichou aí?
– Ele tá usando sombra!
– E então, doutor?
– Olha, seu Venâncio, vou direto ao assunto: a cirurgia foi muito complicada, houve alguns imprevistos e antes que a gente terminasse o procedimento o senhor morreu.
– Caramba, mas tem a eleição domingo! Como é que eu vou morrer um dia antes de ver o Lula dar uma chulapada naquele novicinho da Opus Dei?
– Sinto muito, seu Venâncio, mas o senhor tá morto há dois dias. A eleição foi ontem.
– C-como??
– Ontem. A apuração já terminou.
– Ai, porca miséria. Porca miséria. Eu sei que meu coração não vai agüentar, mas pergunto assim mesmo: o que deu, doutor?
– Segundo turno.
– Cazzo!
– Pois é. Disputa acirrada.
– Não pode! Eu tenho que ir votar nessa segunda eleição! É caso de vida ou morte, entende?
– Sei.
– Sabe nada, doutor: eu não posso deixar de ir votar! Dar essa força pro Lula acabar com aquele mediquinho tucano! Eu sou o maior fazedor de boca-de-urna que o senhor já viu! O maior puxador de claque em debate! Como é que o pessoal vai se virar sem mim? Viu minha tatuagem do PT aqui, um pouquinho acima da cicatriz que o senhor fez na cirurgia? Pois então, doutor. Eu não posso estar morto! Aliás, o senhor não leve a mal, mas vou querer uma segunda opinião.
– Claro. Eu mesmo dou. O senhor tá morto. E enterrado.
– Aaaah, um médico piadista, ainda por cima! Ei, e que risinho é esse aí, doutor? Hem? Eu sabia! Eu sabia que não devia me operar sem antes pedir o atestado ideológico do médico! Isso vai parar no CRM, viu, doutor? Vai parar no CRM!
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