11 de Outubro de 2006
STRANI AMORI
– Pronto: seu pedido foi atendido. – ela disse, sossegada e rindo, mas principalmente sossegada.
Sentado na Fontana di Trevi, ele ia e vinha com a mão na água notando que o alvoroço na superfície fazia o tapete de moedas no fundo parecer uma textura prateada única, fundida e turva. Só então reparou na chegada dela, pura Claudia Cardinale naquele preto e branco de Oito e Meio. Não: era o sol na água dançando no pescoço e no rosto dela, mas ainda assim.
Ele, depois de erguer a mão e ficar olhando as gotinhas escorrendo dos dedos:
– Acho que a gente ainda precisa negociar um pouco. Não?
– Mas foi seu o pedido, e...
– Não quero desse jeito, assim, sem negociação. – e ele olhou o sol fazendo figuras de água no rosto dela: – Essa foi a maior decisão que eu já tomei. O único, único pedido que eu fiz. Pra que vou querer que ele se realize assim, de mão beijada?
– Medo. – ela falou.
– Olha, eu sei que não tenho escapatória. Mas precisamos de um mínimo de hesitação no final, senão não haveria nem a literatura, por Deus. Ou vem dizer que com a Morte não se negocia? – e ele enxugou a mão.
Ela, se sentando também, não muito perto dele:
– Você fala demais.
Ele, depois de parecer pensar:
– Eu venho me desfazendo desde que te conheci. Ah, os dicionários quando definem juventude fazem uma bela cagada por não trazer “saudade” no verbete. Só falam em futuro, vida pela frente: burrice. Juventude não presta sem a saudade ressentida de uma vida que não deu pra acontecer. E dane-se futuro. Isso ficou claro quando te conheci. Mas por que logo eu?
– Não é meio tarde pra...
– Espera; falta pouco. Como eu dizia. Qualquer um, não eu. Eu devia ter apenas apreciado sua beleza, te contemplado à distância, com o cuidado de não elaborar nada, não sucumbir. Mas foi só ver você e aí entendi que a saudade ressentida escolhe muito bem em quem se estampar. Era pra eu ser indiferença pura. Só seguir o que me era predeterminado, pronto. E aí, de uma hora pra outra, eu parto pra isso? Sim, eu me preocupo com o que vão pensar de mim, e...
Mas ela também passou a mão na água, rindo séria como Anouk Aimée em La Dolce Vita, e ele, apatetado:
– Meu Deus. Você já se olhou alguma vez passando a mão na água da Fontana di Trevi?
– Como eu poderia?
– Pois devia. Ah, você. Você. Meu Deus. – e, vendo a mão dela debaixo d’água, bolhinhas se agarrando aos pêlos do braço: – Você acha que, meu pedido se realizando, terá tudo sido muito bem pensado? Com o devido critério? Com juízo?
– Fica tranqüilo. Eu sei que até hoje você só teve olhos pra mim.
– É o que eu queria negociar: preciso da certeza de que nunca, nunca o arrependimento virá cutucar.
– Se o único pedido de alguém é ficar comigo, como isso pode me deixar triste? – ela disse, com a leveza de quem declama o óbvio, o olhar largado no tapete prateado e turvo no fundo da fonte. Então, com a voz parecendo brilhar, a idade se pronunciou na curiosidade repentina:– Só me diz uma coisa. Por que você escolheu a Fontana di Trevi pra gente se encontrar?
– Ah. Eu sempre invejei o Mastroianni, em tudo. – ele falou, rindo. Levou uma eternidade para colocar a mão no rosto dela: – Meu Deus. Você só tem dezesseis.
– Eu sei.
Ela amarrou o cadarço solto do tênis e se deitou no chão, tentando achar uma posição discreta, sem espalhafato, para quando alguém a encontrasse. A praça estava quase vazia, àquela hora. E do alto de seu pedestal, na fonte, Netuno finalmente entendeu por que depois de tanto tempo o Anjo Ceifador tinha começado a se mostrar distante, melancólico, displicente no ofício. Pelo menos no reinado dos deuses gregos essas coisas costumavam ser rápidas, ele lembrou: as mocinhas e os garotos nem percebiam.
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