7 de Agosto de 2006
DECLARAÇÃO
Preciso falar rápido, baby. Rápido mesmo. É essa crise braba – e por conta dela, baby, aquele buquê com duas dúzias de declarações apaixonadas que te faço todo dia de manhãzinha vai vir amanhã resumido a duas ou três frases (ainda assim irradiantes), atadas por alguma coordenação assindética. Orvalhadas, claro, por uns respinguinhos de metáfora. Te adianto que ele não deverá mais vir recheado com ramos de advérbios nem com folhas de hipérboles – só envolto com o plástico farfalhante do suave improviso. E isso não é tudo, baby. Pode ser que depois de amanhã o buquê venha menorzinho ainda. Vai ver que nem buquê mais: talvez uma declaração solitária, um pouco despetalada de efusão e talvez podada dos espinhos que deixam certas frases picantes (a crise, baby, a crise). Não terminou, quem dera: no terceiro dia, sem recursos e no exercício da indigência, terei que perder a hombridade e roubar uma declaração por aí nas redondezas, baby. Vou entrar em casa suando por causa da corrida, me ajoelharei à sua frente e só terei fôlego para uma declaração rápida e arrebatada – arrebatada, claro, de algum jardim desses bem fornidos que, imunes à crise, fazem cultura de declarações frescas e encorpadas, baby. Pois por causa de uma só declaração arrebatada você vai ficar tanto, tanto tempo sem me ver. Quem sabe pelo resto da vida. Virão me pegar, pois na atual crise é normal que se roube tudo, até em certos resultados de corrida de cavalo, mas – olha só – condena-se sem atenuantes o simples furto de uma declaração vermelha e apaixonada! Serei levado, baby: sim, sim, por aqueles sujeitos com cara de apostadores que insistem que eu lhes devo dinheiro; não preste atenção no blá-blá-blá – só vai te restar então guardar escondida essa declaração no parapeito ali do canto onde entra o sol, num jarrinho de plástico melancólico e simpático, até que ela comece a desbotar; pois que toda declaração ao cabo de três dias começa a ter os predicados definhados, os verbos esmaecidos, os particípios passados. Por fim as figuras de linguagem começam a descolorir e aí se exaurem os adjetivos, baby: eles são os últimos, os mais resistentes, os que teimam em não aderir ao preto-e-branco do passado que não volta. A menos, baby – sim, a menos que você me arranje dinheiro. Vou ali e compro várias declarações para deixar no freezer e ir utilizando no tempo certo. Não precisarei poupar, não irei mendigar, não terei que roubar, não serei levado embora. Você me arranja o dinheiro então, baby. Rápido. Dezoito mil reais servem. Aqueles, que você guardou para a carência futura de nosso amor. Isso. Dá aqui, baby. Vou ali e volto com os buquês. Você sabe que eu volto, não é? Você sabe que eu não sou de conversa fiada; papo furado não é comigo, nunca foi. You’re the top, baby.
Trackback:
http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/272
Posts similares:
Maldita greve
Por aqui tudo bem, baby
Chão de Giz
Comentários, Trackbacks:
Sem Comentários/Trackbacks para esse post ainda...

















