19 de Julho de 2006
TÁXI AÉREO
– Pra onde, chefia?
– Brasília.
– Certo. Voando baixo, né? Ha, ha, ha.
– Ahn. Mm. Sim.
– Tem preferência por algum caminho?
– Como? Pelo ar o caminho não é um só?
– Ué, chefia. Eu posso ir direto ou então dar a volta ao planeta. O problema é que dependendo do fuso horário eu vou ter que cobrar bandeira dois. Ha, ha, ha.
– Tá. Direto.
– Falado. Vamos pôr o cinto de segurança então, pra evitar multa?
– Multa? Aqui?!?
– É que o cinto empurra minha barriga pra dentro. Se me pegam com ela do tamanho natural tomo multa por excesso de peso! Ha, ha, ha.
– Sei.
– Quer dizer então que o chefia vai pra Brasília?
– Sim.
– Congresso?
– Mm. Sim.
– Ah, então o chefia é deputado ou senador. Olha, não me leva a mal. Mas essa medalhinha de São José de Cupertino, que o senhor tá vendo no painel, não me deixa mentir: tenho umas idéias aqui pra recuperar a imagem das nobres excelências, viu. Sacumé, eu e a patroa tamos com os filhos criados, então sobra tempo, e aí, piriri, pororó, a gente vai usando a cachola pra pensar – e se o chefia não se incomodar eu posso até passar uma ou duas idéias, sacumé? Primeiro, tinha que pegar aquele pires do prédio do Congresso que tá com a boca pra baixo e virar pra cima. Depois fazer o mesmo com o outro, que tá ao contrário. Aí ia calar a boca da opinião pública, que fala que o Poder Legislativo do país tá de ponta cabeça. Então...
– Ahn. Eu estou indo para um congresso de odontologia.
– Ah? Dentista? Mas que coincidência. Olha aqui, tá vanda assa danta cabrada acá... – ops, descupa falar com a boca aberta. Pois é. A patroa fala que quebrou porque eu abro garrafa de Brahma com a boca, mas aí eu retruco pra ela: “Álcool só faz mal pro meu dente quando sua mãe toma minha cerveja sem pedir e eu tenho que morder aquela carne dura dela pra ela aprender!” Ha, ha, ha.
– Er. Não seria mais prudente o senhor pilotar... olhando pra frente?
– Hã? Ah. Oquei, chefia. Desculpa, aí. Essa coisa da gente conversar pelos cotovelos, sacumé, é vício que eu peguei do meu último emprego. Dirigindo ônibus.
– Mm. Ônibus, é?
– Ônibus espacial. Naquela cabine da Discovery não existe pára-brisa: a gente não tem pra onde olhar! Então eu ficava batendo papo com o resto da tripulação. Depois eles foram reclamar pro controle que astronauta brasileiro conversa muito – mas cá pra nós, se a Nasa entendesse mesmo de conversa não vinha com aquela conversa mole de água na Lua, e tal, né? Ah, e se quiser fumar aqui pode. Oquei?
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