19 de Junho de 2006
BESSERMANIANAS
Então diz que o humorista chegou lá e, já pressentindo que o destino não iria deixar escapar essa piada às custas de sua biografia, viu-se mesmo às portas do Céu. Viu também a figura em frente ao portão, o barbão branco e o molho de chaves pendurado na cintura. E não resistiu:
– Zé Celso Martinez Corrêa! Essas chaves aí são pra trancar a porta do teatro e não deixar o público sair correndo de suas peças?
Quando soube que sua entrada no Céu estava impossibilitada pelo fato dele ser gordo e careca como um Buda (num acinte à iconografia católica), além de judeu e de ter vindo de uma família de comunistas, ele pediu uma audiência a sós com o Filho do Homem, que pela própria condição talvez livrasse sua cara. E argumentou:
– Fala sério, aí. Quanto ao fato de eu ser judeu, você também era. Quanto ao meu appeal budista, ele pode até facilitar pra convidar o Richard Gere a vir fazer palestra aqui, de graça, e conseguir mais projeção no showbiz.
– Mas e a sua família? – perguntou o Filho do Homem.
– Ué. Vai bem, obrigado.
No fim das contas ele queria mesmo era só atravessar o portão para saber se no lado de lá tinha alguma televisão: estava seco para ver Brasil e Austrália, já que, segundo suas palavras, tinha dado merda lá embaixo e ele morrera de véspera, “mesmo sem ser Natal”.
– Na verdade temos, sim – confidenciou o Arcanjo Gabriel. – É uma tevê de 57 polegadas, wide screen, dolby surround. Pega 456 canais. Mas só permitimos que se assistam a programas católicos.
– O cara, aí! – ele replicou. – Quer coisa que lembre mais missa que uma partida de futebol? Tudo depende do juiz supremo, cuja santa mãe é lembrada a todo momento; os participantes da solenidade ora estão de pé, ora prostrados; nas arquibancadas só rola cântico clamando por milagre e basta pintar um trovão pra galera da geral olhar pro céu e rezar!
O conselho se reuniu e finalmente chegou à conclusão de que permitiria a entrada dele para assistir ao jogo se ele conseguisse responder a três perquirições dogmáticas. O porteiro do Céu foi o primeiro a propor:
– Por que os mandamentos são dez?
E ele:
– Ah, fala sério. O time do Flamengo em 81 é que era dez!
Deram um pigarro. O Filho do Homem se aproximou:
– Por que eu estou à direita de Deus Pai Todo-Poderoso?
– Você deve ser ultramontano, ué.
Outro pigarro. Era a vez do Arcanjo Gabriel:
– Por que guardar os domingos?
– Porque é o dia mais deprimente da semana. Aliás, deviam guardar bem guardado pra ninguém encontrar.
Finalmente instalado lá dentro, vendo o jogo e xingando o 3-4-1-2 do Parreira, ele teve sua atenção desviada por um querubim que também assistia ao jogo. Disse o pequerrucho:
– Você agora vai fazer a maior falta, quando seus amigos forem bater bola lá embaixo, hem?
E ele:
– Se eles jogarem retrancados igual essa seleção aí, faço falta sim. Falta pra cartão vermelho!
Pois é.
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