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29 de Maio de 2006

PRESTE ATENÇÃO, AMOR, O MUNDO É UM JEOPARDY

Eu sei, nem original este post parece: uns cinco gênios autores de auto-ajuda aí já devem ter postulado que "mais-valioso-que-chegar-às-respostas-é-descobrir-quais-são-as-perguntas", blá blá. A diferença é que eu já tinha sacado essa analogia jeopardyana muito antes deles, mas a falta de tempo (reparem que ultimamente este vosso almirante mal consegue a média de um post por semana; absurdo!) é que os fez aparentemente me ultrapassar. Mas deixa só eu terminar minha volumosa monografia “Filosofia Eleática para Primeiras-Damas: Uma Releitura Lacaniana” que aí eu volto a passar à frente desse bando de picaretas.

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Mas como eu ia dizendo: respostas ficam pulando à nossa volta, fazendo barulho e nos importunando o tempo todo. Por exemplo, aquele tal ministro dos Hidrocarbonetos boliviano – ele consistiria numa resposta a que pergunta? Eu chutaria em “Qual o resultado do cruzamento de um lambari mutante com uma almofada de camurça carmim virada do avesso e secando ao sol?”, mas, sei lá, vai que alguma corrente filosófica chegue a outra pergunta. Nunca se sabe.

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Outro exemplo. Cena de road movie. O cidadão, cruzando o Novo México num Bentley conversível – mas o tempo todo de ré. Ele vira e explica a seu carona, o irlandês gordo que solta gases pelo nariz: “Estou em busca das perguntas para a vida, you know. Não sou de ficar olhando para a frente. O que ficou para a frente já passou – me interessa é o que está atrás, o que vejo no retrovisor. Aliás, acabo de vislumbrar aí no espelho a Grande Pergunta. Só que, damn, parece que ela está escrita de trás para frente”. A grande pergunta nada mais é que os dizeres de uma placa de caminhão que se aproxima velozmente, o que dá só tempo do irlandês gordo soltar um arroto de café com conhaque pelo nariz e comentar com o motorista: “Mas eu não te perguntei nada”.

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Ou então o típico caucasiano que acaba de escalar dezesseis montanhas no Tibete e finalmente encontra o Grande Lama. Ele já tinha sido advertido de que teria direito a uma só consulta. Chega-se ao sábio e diz, cheio de expectativa: “Chicago”. O ermitão, sem sair um milímetro da pose ascética, dá um seco suspiro de tédio e manda: “Qual a maior cidade de Illinois?” O sujeito desce a montanha desapontado. Ele, claro, é o Richard Gere, que esperava que o sábio perguntasse: “Qual o filme em que você vai finalmente ganhar um Oscar?” Isto é Hollywood.

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Mas eu falava em filosofia. Jeopardy e filosofia. Os caras lá, naquele palco cafoninha, com aqueles ternos lamentáveis e penteados inacreditáveis, deram uma rasteira fenomenal (ou fenomenológica) nos pensadores contemporâneos. Acho mesmo que o Merv Griffin, criador do programa, era na verdade um intelectual acadêmico, doutor em Epistemologia Comparada que, após a definitiva constatação de que só a busca pelas perguntas e o desdém pelas respostas leva ao conhecimento, elaborou a formulação em um livro de 877 páginas, repleto de citações que iam dos pré-socráticos aos desconstrutivistas do pós-guerra e trazendo farta bibliografia, e que após a publicação lhe angariaria fama e consagração nos círculos do Pensamento Moderno. Mas aí ele teve inveja do Hugh Hefner comendo aquela mulherada toda e vendeu a idéia para a NBC.

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Não, por favor: não ceda à facilidade e à breguice de tentar imaginar para qual pergunta o Mundo é resposta. Ia ter palpite de todo naipe: “Juntar carbono, oxigênio e impulsos elétricos espaciais dá no quê?“, ou “Evolucionariamente os bípedes inteligentes se sentiriam peixes fora d´água?“, ou “Como serão os sábados à noite depois que raça humana for extinta?” Mas suspeito que tudo é divagação. O Mundo – eis a verdade – não passa é de uma grande resposta retórica.


Postado por Nelson Moraes às 23:34:37 | Ensaios | comente




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