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27 de Abril de 2006

DEFECÇÕES

– Vamos, você tá atrasado. Nem se vestiu ainda?
– Ah, eu não ando com paciência pra essas badalações. É só gente olhando, falando mal, fazendo fofoquinha. E tem mais, esse seu vestido aí tá arrasando, você tá esplendorosa: quando chegar lá vai chamar a atenção de todo mundo – nem vai precisar de mim. Acho melhor você ir sozinha. Eu fico em casa, tomando uma cervejinha, vendo o jogo e tal. Quando você voltar, me conta como foi.
– Mas é seu casamento, meu filho!
– Oqueeei, oqueeei. Vou me vestir. E eu achando que quando crescesse não ia mais precisar de mãe me levando pra festa.

*****************

– Olha, não vou não. Esse lance de fila me dá uma preguiça enorme. E ainda isso de ficar preenchendo papel, depois ter que conversar com o pessoal da fila – gente que eu nem conheço! – pra no fim ir até o caixa e ver quanto deu. Não é pra mim.
– Mas é sua noite de autógrafos! Seu primeiro livro!
– Hmpf. Não dá pra deixar minha cadeira vazia e dizerem que é porque eu sou um ghost-writer?

******************

– Como não quer ir?
– Nah, odeio esses bailinhos à fantasia bizarros que fazem hoje. Nossa filha fantasiada de princesa, aquela bicha que ela namora fantasiada de homem, as amigas dela fantasiadas de virgens e o pessoal da banda de música fantasiado de garçom?
– É a festa de 15 anos dela!
– Certo. Então entrei no clima: me fantasio de pai ausente!

******************

– Mas hoje você vai ser o centro das atenções!
– É por isso que eu não quero ir.
– Mas até onde vai essa sua insociabilidade? Todos estarão lá por sua causa!
– Por isso. Por isso. Eu chego e aquelas rodinhas me olhando com benevolência. Um cochicho aqui e outro ali exaltando minhas qualidades. Provavelmente alguém vai pedir a palavra e listar tudo de bom que eu já realizei. Vão revelar então que eu torço pelo América, e muitos vão rir, claro. Haverá os que se emocionarão. Não, não, é demais pra mim.
– Mas tem que ser assim, caramba: é teu funeral!
– Pois é. Aliás, me faz um favor. Vai você e diz que eu não fui porque, sei lá, morri.


Postado por Nelson Moraes às 16:12:03 | Diálogos | comente



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