9 de Abril de 2006
PORTO DO DESESPERO, CAPÍTULO VII: A VIRGEM CELESTIAL
(Fui intimado pelo Hunter Thompson da blogosfera – e por sua 765 automática, claro – a participar da criação deste trepidante romance policial, escrito em cooperativa. Os capítulos anteriores você vê aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui)
Aqui, no céu muçulmano, sempre fui uma virgem jogada para as cobras. Melhor dizendo, se você for pensar em cobra com aquela conotação eu então sou uma virgem que jamais viu uma cobra – seja grande, pequena, veiuda, roxa, larga ou estreita. Fui durante toda a eternidade uma virgem intocada. As dezenas de homens-bomba que chegam diariamente ao paraíso correm direto aqui para o harém, mas quando vêem a minha cara fazem uma expressão de quem olha a mosca do cocô do camelo de um beduíno cheio de piolhos e procuram as outras virgens. Ai de mim.
Isso até hoje de manhã. Olhei a movimentação nos portões do paraíso e reparei que dois homens-bomba tinham chegado. Eles pareciam discutir acaloradamente com o anjo guardião. Algum detalhe devia impedir a entrada deles. Quando me aproximei é que fui entender. Não eram dois homens. Era um homem e meio. Isso mesmo. Um deles estava inteirinho, já o outro era só a metade de baixo.
– Sou Abdullah e este aqui é Azhad! – o inteiro falava, apontando o pedaço de gente ao lado, composto apenas de uma pélvis e duas pernas que ainda tentavam caminhar meio cambaleantes.
– O caso é meio atípico – tentou obtemperar o anjo guardião, ainda barrando a entrada deles.
– Escuta, meu querido – tornou o tal Abdullah, tentando manter a paciência. – Somos dois fiéis paquistaneses, que cumprimos uma missão suicida num restaurante canadense! Acontece que quando jogamos a granada eu morri, mas meu irmão aqui, o Azhad, teve o corpo partido em dois, e a metade de cima sobreviveu! Só veio ao paraíso a parte de baixo dele! Por que diab... – e ele bateu na boca – digo, por que cargas d´água não podemos entrar?
– Veja bem – tornou o anjo. – Vocês já são paquistaneses, ou seja, os portugueses das piadas dos muçulmanos. Depois, vieram do país mais sem graça do mundo, que é o Canadá (certo, certo, tem a Suíça). Finalmente, um de vocês só me aparece da cintura para baixo. Convenhamos: estas tecnicidades dificultam tudo. Vou fazer o seguinte. Deixo vocês ficarem por tempo determinado e levo a questão ao Profeta. Vai depender dele vocês continuarem aqui ou não. Topam?
Os dois entraram – digo, o um e meio entrou. E aí é que a coisa começou. Desde lá fora, atrás do portão, eu já tinha notado que o meio homem teve sua atenção voltada para mim. Reparei no jeito dele andar, na protuberância em sua pélvis, no tanto que ele se esfregava no portão. Não deu outra: assim que passaram ao harém o paquistanês inteiro correu para as virgens bonitas e se deleitou com elas, enquanto aquela metade de homem chegou-se até mim, tirando a calça. Tive que ajudá-lo, já que ele não tinha mãos, e assim que concluímos a complicada tarefa ele me possuiu. Não sei se é porque ele não tinha olhos para ver o quanto eu sou feia, mas sei que naquele momento eu, sem trocadilhos celestes, vi estrelas. Fui comida selvagemente dezesseis vezes e, como meu hímen de ninfa paradisíaca é complacente, ao fim de nosso idílio carnal eu tombei para o lado, exausta – e virgem como nasci. Não pude perguntar a ele se tinha gostado, já que aquela pélvis não podia falar, mas pelo que o membro dele falou deu para ver que a coisa tinha sido mesmo uma loucura. Achei que tinha encontrado ali minha cara-metade. Quer dizer, meu homem-metade. Ou a metade de meu homem-metade. Ah, sei lá.
Como tudo que é bom acaba – mesmo no paraíso –, logo veio o anjo guardião com novidades. Chamou a atenção dos dois.
– Bom – ele anunciou. – O Profeta chegou a uma conclusão.
– Sim?!? – disse Abdullah, o inteiro.
– O fato de serem paquistaneses e terem vindo do Canadá será relevado. Mas ele – e apontou meu homem-metade – não poderá ficar. Sendo assim, só Abdullah permanece no paraíso. Azhad volta para juntar-se à outra metade dele na terra e prosseguir na missão.
Abdullah tentou contemporizar, levar o anjo na conversa, mas nada. Já Azhad, ou melhor, a metade inferior de Azhad mostrava-se um tanto cabisbaixa – se é que isso é possível. Não saía do meu lado. Podia jurar que o tinha ouvido suspirar. Tanto que o anjo chegou-se até ele e:
– Gostou da feiosa aí? – Falou, apontando para mim.
As pernas de Azhad se esfregaram sôfregas, no que pareceu um “Sim! Sim!”
– Pode levá-la com você. Aqui no paraíso ela sempre fica para escanteio, mesmo. Vamos ver se lá embaixo ela tem alguma serventia. Agora, chispa.
(Passo a bola para o Marcos VP, do Pirão Sem Dono)
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