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27 de Março de 2006

COMPOTA DE NÊSPERA

Ela: “E em vida depois da morte você não acredita meeeeeesmo?”
Ele: “Ha.”
Ela: “Sem chance?”
Ele: “Sem chance.”
Ela: “E vai que – sei lá – eu quisesse mandar uma mensagem do além pra você?”
Ele: “It won’t happen, babe”.
Ela: “Uma mensagem minha, poxa.”
Ele: “Desculpa: eu não ia acreditar.”
Ela: “E se uma pessoa te dissesse que tinha um recado meu pra você?”
Ele: “Eu mandava passear.”
Ela: “E se ela te mandasse um e-mail?”
Ele: “Eu deletava.”
Ela: “E se a pessoa insistisse, fosse até sua casa?”
Ele: “Eu batia a porta na cara”.
Ela: “E se ela encostasse a boca na fresta da porta fechada, pedisse uma última chance; aí falasse pra você encostar o ouvido no outro lado da porta, e então sussurrasse que eu pedi pra te falar ‘compota de nêspera’ – você acreditava?”
Ele: “Ah.”
Ela: “Fala.”
Ele: “Ué.”
Ela: “Fala, caramba.”
Ele: “Acreditava.”
Ela: “Mesmo?”
Ele: “Com ‘compota de nêspera’ eu acreditava que era você.”
Ela: “Então tá. Que bom. Só pra saber.”
Ele: “Certo.”
Ela: “Esquece.”
Ele: “Esqueci.”
Ela: “Sério.”
Ele: “Já esqueci, ué.”
Ela: “Ok. Agora acorda, baby. Devagar, bem devagarinho. Viu?”

Travesseiro branquinho do lado. Limpo. Frio. Vazio.


Postado por Nelson Moraes às 12:13:34 | Literatices | comente





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