Espaços

Blog de Papel

Minúsculos Assassinatos

Um Defeito de Cor

Incompletos

Patinando com o Alter Ego

As aventuras do capitão presença

Virgínia Berlim - Uma experiência

Todas as festas felizes demais

Operação P-2 - Olivia Maia

Meias Vermelhas - Marcos Donizetti

26 de Janeiro de 2006

NÃO RIA DE UM HUMORISTA

Descasque um humorista e o que você encontra? Não, não, resista: refreie o impulso de dizer que vai achar um sujeito tímido, deprimido até, que utiliza o humor como mecanismo de defesa. Caramba, eu esperava mais de você. Humorista é um estabanadíssimo furacão tourettiano, um Pantagruel esterilizante elevado à enésima potência de maldade irresponsável, mas cujo superego, em nome de uma mínima credibilidade, faz com que ele tenha essa fachada contida: apenas um humorista. E você cai feito um patinho.

Vamos de Tina Fey. Você fica chocado ao ver a moça vertendo ininterruptamente aquele veneninho, lá na bancada do Weekend Update? Acorde. Estamos falando é de Lillith, a demônia sanguinária e incestuosa que cospe dos olhos acres todo o fogo do Geena, e cujas garras amarelecidas clamam por penetrar no peito da raça humana para só se contentarem se na saída trouxerem na ponta da úngula nosso fumegante coração. Mas para aparecer bem na tevê Lillith toma Lexotan com suco de maracujá – e então se mostra sob a forma de uma tão somente venenosa redatora-em-chefe do SNL. Tem mais, claro. O infanticida e antropófago Jonathan Swift sugeriu, sob a influência de Satã, incluir a carne de crianças irlandesas pobres no cardápio apenas como disfarce dialético para fingir falar sério por meio de um pitoresco wit que no fundo procurava disseminar a idéia de... incluir mesmo a carne de crianças irlandesas pobres no cardápio, oras. Mas aí Swift se travestiu de cáustico cronista de costumes setecentista e ninguém percebeu. Tem mais. Aristófanes, na verdade a encarnação do sulfuroso ressentimento dos Titãs destituídos, sacaneava Sócrates em suas comédias só porque, no fundo, tramava a morte do filósofo e por extensão do pensamento humano. Ninguém ficou sabendo, mas no dia em que Sócrates tomou a cicuta, Aristófanes, numa caverna perto de Tebas, deixou vir à tona sua deformada persona de seis mil olhos incandescentes, dando pulinhos e celebrando o extermínio da filosofia. Aí alguém entrou e ele rapidamente se recompôs, voltando ao disfarce de mero comediógrafo mordaz. Pronto.

Em verdade, em verdade vos digo – a hegemonia do mal no Ocidente se dará pela sub-reptícia infiltração da ironia. Cuidado. Não demonstre empatia pelos humoristas, não se perca em psicologismos tentando relativizar sua iconoclastia e conferindo a eles um perfil tridimensional. A Inquisição estava certíssima em fazer, literalmente, o que eu sugeri no sentido figurado ali no começo do texto: descascá-los. O contraponto do sarcasmo dos humoristas não é seu humanismo intrínseco, e sim mais e mais sarcasmo, emerso do eterno negrume da perversidade genocida porém sob o cândido véu da, veja você, ironia.

Não ria dos humoristas. Eles não são como você e eu. Eles merecem o desprezo e o opróbrio, e sempre que numa entrevista ao E! Entertainment um deles insinuar que debaixo de todo aquele fel existe uma criança carente, faça o sinal da cruz e jogue um tijolo na televisão. É a tática deles.

Pior do que essa desfaçatez de humorista seria a desfaçatez de humorista blogueiro, se ela existisse.


Postado por Nelson Moraes às 17:18:22 | Ensaios | comente





Posts similares:
CLARO QUE A CULPA É DA ELITE!
Lula faz stand-up para comemorar a entrada do país no clube de alto IDH.
SADDAM: “ESTOU COM A CORDA TODA”

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:

Sem Comentários para esse post ainda...


Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.