13 de Janeiro de 2006
RITUAL DE INORCISMO
Lá em cima, no quarto, temos o padre com a garota e às voltas com a entidade infernal. Lá embaixo, os pais da menina, ouvindo os palavrões vindos do quarto, regurgitados de dez em dez segundos pela voz tonitruante, cavernosa e já rouca do padre que... Hã. Bem. Sim, do padre. Voltemos no tempo que eu explico.
Os pais não sabiam o que fazer. Já tinham tentado de tudo com a filha de 19 anos: namorado, psiquiatra, viagem à Holanda, Camus, choque na espinha, Lou Reed, tudo. Não adiantava. A filha passava o dia no quarto (de porta aberta, fazendo questão de respeitar a prerrogativa da autoridade parental), vestida com camisolas fechadas do pescoço ao tornozelo (da grife Victorian Secret) e aprendendo no headphone declinações do latim para orar no original. Às vezes entrava na internet para atualizar seu blog (onde utilizava o nick “Wilhelmina O’Reilly”), e numa oportunidade chegou a cogitar abrir mão da camisola para vestir por quinze minutos uma camiseta contra o aborto de fetos anencefálicos – mas só o fato de imaginar-se com os braços à mostra a fez jejuar por três dias. Um dia, quando ela estava no banheiro – com a porta destrancada, óbvio – aproveitando a acústica para praticar canto gregoriano, o pai sorrateiramente flagrou, debaixo do travesseiro dela, em capa dura, o vade-mécum “Misoginia: Mulher Também Pode!”.
– Olha – disse a mãe, tentando manter a serenidade quando finalmente foi conversar com o marido na base do “o que mais falta tentar?” – Fiquei sabendo de um tratamento heterodoxo aí que uma amiga utilizou na filha e me garantiu que funcionou.
– Sim, sim – falou o pai, já quase desalentado –, que alguma coisa hetero funcione ou então vamos empurrar uma namorada nela!
A mãe, fazendo muxoxo do tipo “vou fingir que não entendi”, pegou o telefone e ligou para a amiga. Dois dias depois a campainha tocava. Abriram a porta e deram com um padre.
– M-mas... – o pai cochichou, entre os dentes. – Logo um...?
– Pst – cochichou a mãe, dando um cutucão. E, abrindo-se com um sorriso: – Bem-vindo, reverendo.
O reverendo, com o semblante meio injetado e cabelo desfiado jogado para a frente, feito uma cortina branca e rala cobrindo a vista, olhou para um lado, para o outro, para cima e aí grunhiu algo que tanto podia ser “É lá que a menina está?” como “Caraca, alguém tem troco pro táxi?” – e antes que os pais falassem qualquer coisa ele se encaminhou à escada e subiu. O pai ia seguindo atrás mas a mãe, apertando-lhe o braço, sussurrou “Deixa”.
Lá em cima a menina, desconfiada, viu o reverendo se desfazer do casaco e do chapéu e sacar um volume onde na capa tinha escrito “Rito de Inorcismo”. Em seguida ele fechou os olhos e começou a recitar alguma coisa. Ela tirou o fone do ouvido, fez o maior ar blasé e falou:
– Latim vulgar? Hm. Daqui a pouco começa a degenerar pro, irk, português, e daí pra resultar em homilias com concessões ao populacho é...
– Eu te chamei na conversa? – cortou o padre, seco. – Isso é entre mim e ele.
– Ele quem? – resmungou ela.
O padre então mostrou: no canto do quarto, no meio de uma explosão de fumaça verde, e atendendo ao chamado, tinha aparecido a entidade meio maltrapilha e com a cara de primo mais mirrado do Zé Dumont.
– Anamelech – disse o reverendo, finalmente erguendo a voz e apontando a menina: – entra nesse corpo que te pertence!
– Ah, imagina – murmurou a entidade, como se pedisse desculpas, e tossindo uma fumacinha de enxofre. – Quem sou eu...?
– Tu és último da hierarquia, ó criatura destipada e indigente – gritou o reverendo. – Pelo menos agora justifica o ar que contaminas! Devolve este corpo à vida! – e apontou de novo a menina.
– Um momento, eu... – ia dizendo a garota, mas o reverendo, olhando nos olhos dela, a interpelou:
– Você tem pelo menos troco pra pagar meu táxi, queridinha? Tem? Não, né? Então fica quieta! – e, voltando-se à entidade: – Possui este corpo! Eu te ordeno! Agora!
– Ah – insistiu o tal Anamelech. – Isso não vai dar certo. Periga é a mocinha aí acabar me convertendo. Melhor deixar pra lá.
– Eu te perguntei alguma coisa, filho da puta?– bradou o reverendo, encantoando ainda mais a entidade. – Levanta tua auto-estima, bundão! Entra agora no corpo dessa criatura antes que ela se filie à Opus Dei e chegue solteira e virgem à terceira idade! Salva esta vítima indefesa! Sou eu que ordeno, seu bosta! Faz ela levitar, virar a cabeça, cantar Nina Simone! Faz alguma coisa!!!
Os pais, lá embaixo, acompanhavam a enxurrada de xingamentos – e em dado momento começaram a se perguntar se a coisa iria surtir efeito. “Os vizinhos podem reclamar”, alertou o pai. A mãe então consentiu que ele subisse, e ele foi até o quarto. Chegou à porta no momento em que os palavrões tinham acabado de cessar. Então, intrigado, abriu devagarinho e deparou com a cena: a entidade encolhida num canto, choramingando, com a menina lhe oferecendo um copo d´água e falando “Pronto, pronto, não é nada”. O padre, bufando de cansaço e tirando a cabeleira dos olhos, virou-se ao pai e cochichou, apontando a menina com o polegar: “Olhaí, já tá dando assistência pra pobre. Não deixa de ser um bom começo, hm?”
Lá embaixo bateram na porta e a mãe, preocupada, achando que seria algum vizinho reclamando, foi abrir. Era o taxista, querendo receber.
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